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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

CASSANDRA RIOS – A ESCRITORA BRASILEIRA MALDITA.



(Por WILLIS DE FARIA)

Enquanto o romance, O livro "Cinquenta Tons de Cinza" ("Fifty Shades of Grey"), da autora E.L.James, se tornou o romance britânico mais vendido de todos os tempos, com 5,3 milhões de cópias comercializadas no Reino Unido e quase 20 milhões no mundo todo.

O romance de E.L.James inicia uma trilogia de erotismo que já se transformou em um verdadeiro fenômeno literário mundial e que algumas editoras classificam como  "pornô para mamães".

O argumento do romance gira em torno da relação entre o jovem e bem-sucedido empresário Christian Grey e Anastasia Steele, uma estudante de literatura. Apesar do enorme sucesso do best-seller, E.L.James admitiu que quando assinou o contrato com a editora Random House sua principal ambição era, simplesmente, ver seus livros nas lojas e que não tinha ideia que seu romance se transformaria em um fenômeno de vendas mundial.

- A trilogia "50 tons de cinza" vendeu mais de 70 milhões de cópias em 2014, fazendo a editora Random House chegar a um lucro recorde. Foi o fenômeno de vendas de 2012, 2013 E 2014, e esta marca foi conquistada entre março e dezembro.

O lucro da editora saltou 75% em um ano, para €325 milhões em 2012. E-books representaram cerca de 50% das vendas - o que também representa um crescimento significativo, uma vez que a média de vendas da Randow House costuma ser de 20% de livros neste formato.

Esse sucesso ajudou a Bertelsmann - gigante da comunicação da qual a Randow House faz parte - a manter os níveis de lucro global do grupo, apesar das condições adversas para o mercado publicitário para TV, revistas e música da multinacional.

"50 tons foi o carro-chefe, mas não é o único responsável pelo sucesso das vendas", diz o diretor da Bertelsmann, Thomas Rabe, que tem expectativas positivas para "Inferno", de Dan Brown, cujo lançamento está marcado para maio.

No mundo todo, a trilogia de E.L. James já vendeu cerca de 40 milhões de livros - ainda muito atrás dos 450 milhões da série do bruxo Harry Potter.

A diretora-gerente da Cornerstone Publishing, Susan Sandom, admitiu que o fenômeno "Cinquenta Tons" é "uma das experiências mais extraordinárias" de sua carreira editorial. "A velocidade e o número de vendas são incríveis, e os papéis que os livros desempenharam em tantas pessoas que trabalham na indústria são, simplesmente, impressionantes", afirmou Susan.

O livro "Cinquenta Tons Mais Escuros" -, o livro já foi traduzido para vários idiomas, entre eles chinês, russo, sérvio e vietnamita.

Mas para nós brasileiros, é novidade pela divulgação da mídia, por que nos já tivemos uma escritora brasileira, que escreveu erotismo em seus livros, que fora censurados, proibidos e queimados pela censura da era dos anos de chumbo da ditadura militar, onde o puritanismo desenfreado dominava a nossa sociedade. Só na clandestinidade o erotismo liberal era visto através do baratinho “catecismo” erótico do Carlos Zériro, que já comentamos em nosso BLOG.
 
Cassandra Rios, pseudônimo de Odete Rios1 (São Paulo1932 — São Paulo, 8 de março de 2002) foi uma escritora brasileira de ficção, mistério e principalmente homossexualidade feminina e erotismo, sendo uma das primeiras escritoras a tratar do tema.

Biografia- É filha de espanhóis radicados no Brasil.

Carreira - Durante sua carreira, Cassandra escreveu mais de quarenta romances best-selling  que lidam com o tema da homossexualidade.

Em 1986 foi convidada a se candidatar a deputada pelo PDT durante um programa de rádio, enquanto entrevistava Adhemar de Barros, porém não se elegeu.

Tornou-se em 1970 a primeira escritora brasileira a atingir a marca de 1 milhão de exemplares vendidos, sendo que 36 dessas obras foram censuradas durante a Ditadura militar.

Cassandra Rios faleceu em São Paulo, aos 69 anos de idade, em 8 de março de 2002.

Bibliografia
  • Volúpia do Pecado, sua estreia na literatura, em 1948, aos 16 anos
  • Macária (1952)
  • Carne em delírio
  • Nicoletta Ninfeta
  • Crime de Honra
  • Uma Mulher Diferente
  • Copacabana Posto 6 - A madrasta
  • A Lua Escondida
  • Eudemonia
  • O Gamo e a Gazela
  • A Borboleta Branca
  • Marcella
  • As Traças
  • A Tara
  • O Prazer de Pecar
  • A Paranoica, adaptado para o cinema com a então estreante Nicole Puzzi
  • Breve História de Fábia
  • Tessa, a Gata, adaptado para o cinema em 1982
  • Um Escorpião na Balança
  • Muros Altos
  • Cabelos de Metal
  • Entre o Reino de Deus e o Reino do Diabo, (1977), não publicado.
  • MezzAmaro, autobiografia (2000)
Uma das mais polêmicas escritoras brasileiras, Cassandra Rios foi a primeira mulher a vender um milhão de exemplares no país — e a mais censurada artista do país. Seus temas eróticos, muitas vezes considerados pornográficos, fizeram com que, nos anos 70, no auge da ditadura militar, 36 de seus livros fossem censurados. Sem falar nas brigas na Justiça. Um único livro, “Eudemônia”, rendeu-lhe 16 processos. Em 1976, por exemplo, de seus 36 livros publicados até então, 33 estavam proibidos e apreendidos.

O sucesso popular da autora de “O prazer de pecar”, “Tessa, a gata”, "Carne em delírio" e "A paranóica" — levado ao cinema com o título de “Ariela” — não garantiu o mesmo reconhecimento no meio literário. Durante anos, Cassandra foi chamada de escritora sem qualidade e chegou a ser tachada de comunista e obscena. Nos anos 80, quando vendia 300 mil exemplares de cada novo livro, conquistou a simpatia de Jorge Amado, que passou a defendê-las das críticas.

Cassandra, porém, preferia ignorar as críticas. Ela começou a escrever pequenos textos aos 12 anos de idade. Aos 16 anos, estreou profissionalmente, com "A volúpia do pecado". Numa de suas raras entrevistas, afirmou que se considerava perseguida por ser mulher. "Não me considero marginalizada, eu é que marginalizo e ignoro a crítica".

No livro "Repressão e resistência — Censura a livros na ditadura militar", a pesquisadora Sandra Reimão reproduz o parecer da analisa que determinou a censura de uma das obras de Cassandra, “Copabacana Posto 6 — A madrasta”: "O livro de Cassandra Rios traz mensagem negativa, psicologicamente falsa em certos aspectos de relacionamento, nociva e deprimente, principalmente pela conquista lésbica da heroína junto à madrasta e o duplo suicídio final."

A escritora morreu em março de 2002, de câncer, aos 69 anos.

Leia mais sobre esse assunto em http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/nos-anos-70-ninguem-foi-mais-censurado-no-brasil-do-que-cassandra-rios-10425009#ixzz39komaG7o

Documentário

Em 2013 estreiou o documentário Cassandra Rios: a Safo de Perdizes, direção de Hanna Korich, o filme traz depoimentos de pessoas que participaram da vida da autora de alguma forma, como a sobrinha Liz Rios, a atriz Nicole Puzzi, a escritora Lúcia Facco, o editor Maxim Behar, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, Dr. Martim Sampaio, entre outras personalidades. Nicole Puzzi estrelou em dois longas-metragens extraídos de livros de Cassandra, Ariella (1980) e Tessa, a Gata (1982).

SUA HISTORIA, SUA VIDA.


Nascida na cidade de São Paulo, em 1932, Cassandra foi criada no bairro de Perdizes. Seu verdadeiro nome era Odete Rios, mas preferiu assinar seus livros como Cassandra, que na mitologia clássica era filha de Príamo, rei de Tróia.

 Era amada por Apolo, que a dotou com o poder da profecia. Porém, quando Cassandra recusou satisfazer suas vontades sexuais, Apolo jogou-lhe uma maldição – ninguém acreditaria em suas profecias. A mitologia clássica, além de dar origem a seu pseudônimo, foi uma constante em várias de suas obras.

A própria Cassandra contou como surgiu a idéia deste pseudônimo: “Engraçado o mundo! A sociedade! O homem! A mulher! E ela: a lésbica! Enfim, o convencimento, a segurança, a certeza para a definição da personalidade estabelecida, do caráter, da moral e do que ela era: Homossexual!” (Cassandra Rios, Mutreta, 1972, p.27).

“As bissexuais devem sofrer mais, são as indefinidas, vivem na corda bamba, porém podem ter mais liberdade e se conduzirem dentro de certo padrão em todos os ambientes. É intermediário na sociedade sexual” (Cassandra Rios, Um escorpião na balança, 1968).

“Masculinizada, colete, calça de brim, camisa xadrez, cabelos lisos, alta, bonita, mas o tipo da metida a machona, insultando com seu aspecto os ignorantes no assunto, ou melhor, dizendo, assustando com seu jeitão de falsa displicência. Logo percebi que ela não sabia realmente o que significa ser homossexual e brincava de ser homem”. (Cassandra Rios, Anastácia, 1977, p.142).

“Por que estão aqui? Refugiando-se? Procurando gente igual? Como alienígenas, à procura de quem saiba falar o mesmo idioma? Vocês, como eu, já recalcaram todas as piores mágoas que um ser humano pode ter. Primeiro aquela surpresa de que nossos gostos são diferentes, contrários aos bons costumes sociais, que temos que ocultá-los. Segundo, a vergonha da palavra: lésbica! Homossexuais!”(Cassandra Rios, Copacabana Posto 6- A madrasta, 1972, p.51)

“Outra! Era mais outra! Em todo canto as encontraria. Era um clã que se identificava misteriosamente e ia crescendo, aumentando, como se todas as mulheres do mundo estivessem sujeitas a determinado feitiço. O feitiço daquela perversão”. (Cassandra Rios, Copacabana posto 6- A madrasta, 1970, p.146).

“Se não podia torná-la esposa um dia, jamais também deveria ser sua amante:- Jamais! Mas já o era. Há muito tempo. Amantes do pecado e da volúpia”. (Cassandra Rios, A volúpia do pecado, 1948, p. 282)

O período 1948 (ano da publicação de A volúpia do pecado) a 1972 (ano em que é lançado Copacabana posto 6 – A madrasta, obras significativas de Cassandra Rios) é marcado, na sociedade brasileira, por intensas transformações. Por um lado, assiste-se ao crescimento e consolidação de um mercado de bens simbólicos, caracterizando uma autêntica indústria cultural de dimensões nacionais: rádio, cinema, jornais, revistas, livros e televisão serão algumas das mídias que neste período irão se constituir componentes da indústria cultural. No tema que nos interessa, cabe mencionar a expansão do mercado editorial. Por exemplo, entre 1966 e 1980 o número de livros impressos salta de 43,6 milhões/ano para 245,4 milhões de exemplares/ano. As revistas, por sua vez, pulam de 104 milhões/ano em 1960 para 500 milhões/ano em 19851.

Além disso, alternaram-se nessa conjuntura dois diferentes tipos de regimes políticos: uma democracia de massas limitada, conhecida na literatura especializada como “Populista” (1946-1964) e um regime autoritário, a Ditadura Militar (1964-85).

A simultaneidade dessas transformações coincidiu com uma mudança substancial da moral sexual vigente e dos próprios papéis sexuais associados a diferentes gêneros. A sociedade patriarcal, de tradição católica, luso-portuguesa, na qual os papéis sociais relacionados aos sexos eram rigidamente divididos e estratificados, começou a ceder espaço para manifestações de outras culturas, inclusive sexuais. È ao longo desse processo que comportamentos sexuais até então tidos como “desviantes” e socialmente “condenáveis” acabariam por conquistar, se não sua plena aceitação, pelo menos um espaço de manifestação no conjunto das representações sexuais do Brasil contemporâneo.

A recorrência com que a cultura homossexual2 se manifesta em nossos dias pode presumir uma história contínua, de evolução recente e isenta de percalços e contradições.

A freqüência cotidiana com que nos deparamos com comportamentos, símbolos e sinais que se assumem ou são reconhecidos como associados ao homoerotismo não nos revela em que circunstâncias e sob quais condicionantes tais comportamentos e as identidades sexuais a eles associadas se tornaram historicamente possíveis. Aqui, pretende-se contribuir para o alargamento de nosso conhecimento sobre esse processo com relação à constituição histórica das identidades sexuais associadas ao homossexualismo feminino, ou lesbianismo, a partir da produção da principal autora nacional na prosa ficcional dedicada ao tema.

O tema predominante em seus livros é o lesbianismo e suas variantes, como o bissexualismo feminino e a inserção em uma sociedade em que os papéis sexuais, ainda que inicialmente rigidamente determinados, estavam em processo de redefinição. O alcance social da sua obra (cerca de meia centena de livros, a maioria com várias edições, em tiragens que recorrentemente alcançavam 300.000 exemplares) é o resultado da ressonância cultural que a autora alcançou.

Na medida em que ela foi a principal (senão a única) autora do gênero em nosso país durante trinta anos, não se pode desconsiderar sua importância no processo de (re) definição dos papéis sexuais entre significativo número de mulheres leitoras no Brasil contemporâneo naquele período.

Não foi, certamente, por seu estilo literário que Cassandra Rios encontrou destaque no cenário cultural brasileiro. Na verdade, este se caracterizava por apresentar uma narrativa pouco sofisticada, por meio do uso de uma linguagem linear e direta. Porém, se não há destaque em seu estilo, certamente merece atenção a sua temática – bastante original para a época – e a sua influência, auxiliando o processo de constituição de identidades sexuais coletivas no Brasil.

Cassandra Rios construiu sua obra baseada na temática erótica e mais especificamente no amor homossexual feminino. Seu nome se tornaria no imaginário coletivo quase que sinônimo de literatura lésbica.

Na época em que seus livros foram publicados o termo GLS não havia sido criado, organizações gays e lésbicas não existiam e mesmo revistas ou quaisquer outros produtos de conteúdo erótico não eram disseminados. Temas ligados a conteúdos eróticos não eram tratados em rádio ou televisão, ou sequer possuíam publicações especializadas, como é comum hoje em dia. Eram temas secretos e privados.

Ao mesmo tempo, o que era visto como estranho (ou errado, ou pervertido, ou pecaminoso) era considerado desvio a ser combatido pelo Estado com a censura, em especial durante a Ditadura Militar. Cassandra Rios foi alvo privilegiado dessa repressão.

Chegou a vender trezentas mil cópias em um ano, mas também tiveram trinta e seis dos seus quase cinquenta livros publicados proibidos até 1974 – quando o afrouxamento do regime permitiu a publicação de suas obras.

Como, diante desse contexto, suas obras tinham tamanha aceitação? A explicação pode estar no fato de que seu estilo ousado e extrovertido tratavam de assuntos como o prazer feminino de maneira clara e direta. Era uma mulher escrevendo sobre o prazer com outra mulher em uma época em que concepções religiosas afirmavam que o sexo tinha apenas a função de reprodução e a ideia de que as mulheres não sentiam prazer era compartilhada entre diversos setores da sociedade. A maternidade ainda era tida como missão última da mulher nesta sociedade patriarcal, razão pela qual sua obra tendeu sempre a ser encarada como marginal.

O estilo de Cassandra, assumidamente popular, escrito em prosa simples e direta, quando não chula e popularesca, veiculada em livros baratos, apelando para capas provocantes e títulos diretos, surpreendia e cativava um vasto número de leitores, cujas tiragens a eles associadas permite afirmar com acerto que transcendia o público exclusivamente lésbico ou mesmo feminino. Cassandra Rios fornece em suas obras uma representação de uma cultura lésbica em formação. Seus primeiros escritos sobre o tema apresentam protagonistas lésbicas. A sua originalidade inicial está no fato de que a narrativa é composta por temas combatidos no período, mesmo no âmbito dos relacionamentos heterossexuais6. O conservadorismo predominava no país, a sexualidade como um todo era um tema tabu.

As estratégias narrativas utilizadas na ficção de Cassandra Rios procuram, além de mencionar o diferente - ou seja, o amor entre pessoas do mesmo sexo – tem a intenção de apresentar as experiências homossexuais como caminhos possíveis para a vivência afetiva, mesmo amorosa, num período em que inexistiam outras iniciativas semelhantes em nosso país.

Como contraste, pode-se mencionar que o homossexualismo masculino, ao contrário, já era tema corrente em nossa literatura pelo menos desde o Naturalismo (Aluísio Azevedo (1890), Adolfo Caminha (1895), entre outros). Pode-se considerar que o primeiro romance de temática lésbica de alcance nacional foi justamente o livro de estreia de Cassandra Rios (A volúpia do Pecado, 1948).

Muito antes do surgimento de movimentos de gays e lésbicas, que se organizam no Brasil a partir de 1978, Cassandra Rios discutia em sua ficção a questão da procura pela posição do homossexual no processo social. Mais ainda, em seus livros ela discute sob que formas podem-se definir a opção ou comportamento lésbico, bi ou heterossexual.

Possui na obra de Cassandra Rios uma fonte possível de análise. Abrangendo o período que vai do final da década de 40 até os anos 70, constituindo a maior parte de suas publicações, sua ficção apresenta a forma pela qual a autora debate os confrontos da constituição dessa identidade homossexual.
Um misto de estranhamento e identificação é revelado em suas narrativas em que as lésbicas agem como personagens marginais e estranhos, cuja condição social as obriga a observar tudo do exterior.

A literatura de Cassandra Rios , neste aspecto, revela-se inovadora, e mesmo revolucionária, ao retirar a libido feminina de seu claustro forçado, trazendo-a à luz.

A obra de Cassandra Rios a partir dos dois livros: A volúpia do pecado de 1948 e Copacabana posto 6 – A madrasta de 1972, revela uma tentativa de construção identitária da homossexualidade feminina aparece na literatura. Seu discurso é original, pois a autora não demoniza nem enaltece a figura do homossexual por ser homossexual. Ela apresenta aos leitores de forma transgressora, outro modelo de afetividade, fora do modelo patriarcalista de heteronormatividade.

Cassandra Rios e seus personagens femininos, que seriam supostamente estereotipados, entram em contradição, em primeiro lugar, quando se analisa a complexidade da vida das mulheres lésbicas que Rios retratam em suas obras e, em segundo lugar, quando compreendemos que estas mesmas críticas partem de um padrão literário que busca enquadrar o lesbianismo nos padrões heteronormativos com suas histórias de final feliz.

A polêmica advinda de seu sucesso editorial chamou atenção dos censores em relação à sua obra. Embora não tenha sido presa por conta dos processos e das proibições pelo conteúdo considerado pornográfico de suas obras, Cassandra Rios sofreu diversas humilhações nos anos em que o Brasil vivia uma ditadura militar: “Até bofetada de delegado, na cara levei”. O que mais temiam? Já não estava eu proibida? Hoje entendo. Ruminavam que eu precisava ser algemada, amordaçada, enxovalhada de todas as humilhações, desacreditada na minha conduta moral, para denegrirem meu talento e consagrarem suas aleivosas pessoas!

Verdade que, na época, assim diziam, só eu vendia! “O público consumidor via, só nas páginas dos meus livros, gente com as quais hoje cruzam nas ruas, livres, sem ter que disfarçar e pagar pelo que nasceram.” A obra de Cassandra Rios é vasta e nunca foi catalogada na sua inteireza. Sobre quais são e quantos são seus livros e destes quantos não trabalham o homoerotismo feminino é tarefa que ainda não foi realizada.

Encontramos posições divergentes: Waldenyr Caldas afirma que Cassandra Rios publicou 49 e apenas dois não continham homossexualismo, seriam O bruxo espanhol e As mulheres do cabelo de metal. Nas pesquisas foram encontrados mais 5 títulos Carne em Deliro, Sarjeta e O gigolô, A santa vaca, A Piranha Sagrada, mas não é impossível que existam outros títulos que também não abordem esta temática. CALDAS, Waldenyr. Literatura da cultura de massa p.156 

Trata-se de uma passagem no livro Censura em que Cassandra comenta de uma vez que acabou na delegacia em função da proibição de seu livro O Bruxo Espanhol, em que o delegado de polícia teria a certa altura perguntado para Cassandra “- Quem é Sâni”. Tratava-se da protagonista do livro. Cassandra escreveu: “Remontara-se a uma época perdida no passado, inutilmente, queriam o endereço da moça cujos olhos brilhavam no escuro como os olhos dos gatos”. In: RIOS, Cassandra. Censura, p. 104.

 Nem a própria Cassandra soube quantificar o número de livros seus vendidos no país. Segundo um levantamento do jornal Pasquim, em 1976, suas obras já haviam atingido a cifra de um milhão de exemplares vendidos.

“Outro delegado picou diante dos meus olhos Nicoleta Ninfeta e ameaçou ‘é isso que vamos fazer com todos os seus livros e queimá-los em praça pública!`. Um arrepio percorreu-me. Seria eu a reencarnação de Safo, a grande poetisa de Lesbos, cujas obras o Papa Gregório VII, cheio de ódio mandou queimar, seus riquíssimos versos, numa fogueira, em praça pública, epitalâmios, himeneus, poesias, excomungando a mais célebre poetisa do mundo”.

A discussão em torno do uso ou a omissão do termo lésbica foi freqüente em toda a obra literária de Cassandra Rios.

A autora descreve de diferentes formas as situações em que suas personagens se descobriram lésbicas. Como Calíope, a personagem de O gamo e a gazela:
“Eu tenho certeza que Calíope é uma lésbica”! Era uma afirmativa que se impunha sem-dúvida. Que a expulsava daquele meio no qual ela fazia contraste. Destacava-se dos seus próprios olhos aquela insinuação que a tornava uma mulher diferente das outras (...) Sim, Calíope ia agora se desfazer daquela máscara que a vida lhe havia bordado no rosto para que pudesse enfrentar o mundo. Mas, existiria dentro do mundo aquele outro mundo que ela criara dentro de si? Existiriam outras criaturas ainda, além daquelas que já conhecera capazes de lutar pelo ideal almejado?”.

Localizar a obra de Cassandra Rios como uma manifestação de como parte de uma identidade homossexual feminina foi construída na sua narrativa, significa entender a questão da constituição do homoerotismo feminino a partir de uma identidade cultural, ou seja, do pertencimento do indivíduo a uma forma de cultura sexual.

PREDESTINADA AOS SEUS IDEAIS.       

Durante a ditadura, a literatura erótica de Cassandra Rios tornou-se alvo certo para os censores. Produções vistas como pervertidas e pecaminosas eram desvios que precisavam ser combatidos pelo Estado. Resultado: trinta e seis dos seus quase cinquenta títulos foram proibidos na época.

O sexo era assunto tabu. O prazer feminino não era concebido como uma possibilidade, muito menos um direito. A religião regia a moral e os bons costumes. Foi neste cenário adverso que surgiram os livros de Cassandra Rios, no fim da década de 1940. Seus temas: o erotismo entre mulheres, os conflitos internos e estereótipos associados a essa experiência. Tudo escrito de forma direta e sexualmente explícita.

Tamanha ousadia resultou em um tremendo sucesso editorial. Cassandra Rios, nascida Odete (1932-2002), tornou-se a pioneira da literatura homossexual no país e manteve-se como principal autora do gênero durante mais de trinta anos.

A escritora na época do sucesso editorial dos anos 60/70.

Na maioria das vezes, ela lançava os livros por pequenas editoras, em alguns casos com dinheiro do próprio bolso. Foi assim com o primeiro deles, A volúpia do pecado, pago pela mãe da escritora, que, no entanto, nunca leria um livro da filha. Hoje em dia, só é possível encontrar obras essenciais, como Copacabana posto 6 – A madastra (1972) e Eu sou uma lésbica (1979), em bibliotecas ou em sebos, pois estão esgotados e fora de catálogo. Recentemente, foram relançados alguns títulos: As traças (1975), Uma mulher diferente (1980), onde o personagem principal é um travesti, e o surpreendente Crime de Honra (2000), única obra até então inédita, na qual Cassandra se aventura pelo universo homossexual masculino. 
Como explicar essa aceitação? Talvez, justamente por seu estilo ousado e extrovertido. Era uma mulher escrevendo sobre o prazer com outra mulher, e apresentando essa vivência como um caminho possível para a vida afetiva e amorosa. Quando seus livros foram publicados, a sigla GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) estava longe de existir, não havia organizações de homossexuais, e nem mesmo os meios de comunicação publicavam conteúdo erótico. Em uma sociedade patriarcal e machista, a maternidade ainda era considerada o principal papel feminino. Razão pela qual, embora um sucesso de vendas, seus livros sempre foram encarados como marginais.

Tachada de “pornográfica”, a literatura de Cassandra Rios não mereceu qualquer esforço de crítica naquele período. Porém, se ela não primava pelo rebuscamento do estilo, tinha o inegável mérito de descrever de forma aguda os conflitos subjetivos vividos pelos personagens: seus temores, questionamentos, e o preconceito já internalizado.

ADRIANE PIOVEZAN é Mestre em Estudos Literários pela UFPR e autora da dissertação "Amor romântico X Deleite dos sentidos: Cassandra Rios e a identidade homoerótica feminina na literatura” (UFPR, 2006).

Caricatura baseada em foto antes de falecer. Título do posttirado de uma definição sobre ela mesma, Cassandra Rios, 
em um dos trechos de seu livro autobiográfico "Flores e Cassis":

"Como mulher eu sou, na definição exata de como me sinto, uma menina medrosa que se escondeu atrás de um pseudônimo, que se assustava e tinha medo de tudo, e hoje não tem medo de nada! 


Literatura de Cassandra Rios educou uma geração







São obras da escritora Cassandra Rios, que morreu na semana passada em São Paulo.

Cena 2: Da janela do ônibus, vê-se um Brasil conservador. Nada de revistas eróticas nas bancas. Nada de programas de TV analisando a sexualidade e seus labirintos. Nada de educação sexual nas escolas. Nada de amor livre, sexo antes do casamento, concepção. E, sim, as mulheres não sentiam prazer na relação, dizia-se.

Cena 3: Corta para o cemitério Santo Amaro, em São Paulo, março de 2002. No enterro de Cassandra Rios, na verdade Odete Rios, nascida em 1932, um parente recita uma frase dita por ela, enquanto joga terra sobre o caixão: "Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada".

Cena 4: Nas estantes das maiores livrarias do país, procura-se em vão uma obra da autora, que vendia 300 mil exemplares por ano à sua época.

Também não há referências sobre ela em sites de livrarias. Encontra-se apenas um livro, que amarela num sebo, mas tem e teve lugar reservado na memória de muitos - como o cantor Cazuza e a escritora Fernanda Young.

Contexto

Como dita os manuais da literatura comparada, para entender Cassandra Rios é preciso entender sua época e ambiente.

Não havia imagens de sexo, a não ser em livros de medicina legal. No Brasil pré-contracultura, taras individuais não eram debatidas. O estranho era considerado desvio a ser combatido pelo Estado, com a censura.

A exibição de seios só era permitida em documentários sobre índios. "Amaral Neto, o Repórter" serviu para muitos adolescentes descobrirem o que havia escondido numa mulher.

Cassandra falava às claras sobre o prazer feminino. Talvez por isso tenha sido uma das personalidades mais censuradas.

Tratava-se de uma mulher escrevendo sobre tesão de mulher, numa sociedade cuja predominância religiosa afirmava que a mulher apenas se deitava com um homem para gerar filhos de Deus.

Seus livros surpreendiam. Cassandra rivalizava com outra autora erótica e sua contemporânea, Adelaide Carraro, assim como Hemingway rivalizou com Scott Fitzgerald.

Enquanto Cassandra tinha um estilo mais ousado, extrovertido, Adelaide era linear, contida. Em Cassandra, há empresários corruptos, que fazem despachos em terreiros de umbanda.

Cassandra já no título era direta, como, por exemplo, "A Volúpia do Pecado", de 1948, seu livro de estreia, que a transformou numa das autoras mais vendidas da história da literatura brasileira.

Ela o escreveu com 16 anos. Fazia uma literatura assumidamente popular. Eram livros baratos. Havia desenhos provocantes nas capas: moças oferecidas em poses sutilmente sensuais.

Nas poucas entrevistas que deu, ela dizia que, no fundo, era uma simples dona-de-casa conservadora, que suas narrativas fluíam sem controle e que ela mesma ficava enrubescidas com aquelas cenas mais quentes.

Chegou a escrever um livro "sério", "MezzAmaro", uma autobiografia que não fala de sexo, com 400 páginas. Chegou a ter o livro "A Paranóica" adaptado para o cinema, sobre uma filha que descobre que seu pai é falso e quer apenas roubar a grana da família. Na tela, o livro virou "Ariella", revelando a atriz Nicole Puzzi. Tivemos também adaptado para o cinema o livro “Tessa, a gata”, com também Nicolle Puzzi.



Em muitas faculdades brasileiras, pesquisadores deveriam estar estudando Cassandra Rios. Foi uma precursora. Sua importância não será esquecida. Nem a libido de suas personagens.


DOCUMENTARIO RETRATA CASSANDRA RIOS, ESCRITORA PERSEGUIDA PELA DITADURA BRASILEIRA.
Documentário retrata Cassandra Rios, escritora lésbica perseguida pela ditadura

POR VITOR ANGELO - 04/08/13 

Tão violenta quanto a prisão e a tortura, é o processo de eliminação da voz considerada opositora. O preso político tem seu grito não silenciado quando se espalha a notícia de sua prisão, mas quando a eliminação é sutil, feita através de censuras e de mecanismos invisíveis de enclausuramento, o efeito é muito mais eficaz. E foi isto que aconteceu com Cassandra Rios, escritora brasileira considerada ofensiva para a moralista ditadura militar brasileira.




Lésbica assumida, escritora de livros taxados como pornográficos, autora de best-sellers, a maneira mais fácil de silenciá-la encontrada pelos militares foi censurando e proibindo a circulação de seus escritos. A ponto de ainda hoje ser difícil achar seus livros. Blogay fez uma pesquisa online em sites de grandes livrarias e apenas quatro de seus mais de 35 títulos estão à venda.

Para preencher esta lacuna, Hanna Korich resolveu fazer o documentário “Cassandra Rios: a Safo de Perdizes”. Com o apoio do Programa de Ação Cultural 2012, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, o filme tenta reposicionar Cassandra Rios no cenário literário, político e social como uma verdadeira desbravadora que foi e as consequências que estas posturas tiveram em sua vida.

Leia abaixo a entrevista feito pelo Blogay com Hanna Korich e o teaser inédito do filme.

Blogay – O que te atraiu no tema Cassandra Rios?

Hanna Korich - Eu sou uma lésbica cinquentona e gosto muito de livros. Descobri Cassandra Rios tardiamente, infelizmente. Passei a ler seus livros, que só consegui comprar em sebos, e me tornei sua fã. Fiquei escandalizada com o desconhecimento por parte da “moçada” sobre a Cassandra, principalmente das lésbicas com menos de 40 anos. Cassandra chegou a vender mais de um milhão de livros nos anos 60 e 70, mais do que Jorge Amado, que a considerava grande romancista e que foi ignorada por puro preconceito! Ela foi a primeira escritora brasileira a mostrar a mulher como ser sexual, com desejos próprios e libido, e foi pioneira em retratar as lésbicas nas letras brasileiras (publicou seu primeiro livro aos 16 anos de idade, em 1948!). Daí que resolvi abordar o tema Cassandra como um verdadeiro tributo à autora pela sua importância na literatura lésbica, seu pioneirismo, ousadia e, principalmente, para que as novas gerações saibam quem ela realmente foi.

Você chegou a conhecê-la? Como as pessoas que a conheciam descrevem Cassandra?

Infelizmente não a conheci, apesar de ter sido vizinha da Cassandra por 11 anos. Descobri durante a pesquisa para o documentário que Cassandra morava na mesma rua que eu morei na Vila Buarque, centro de São Paulo (eu morava no número 254 e Cassandra no 284), mas não me lembro de ter cruzado com ela. Todas as pessoas que a conheceram declararam que Cassandra era gentil, extremamente educada e discreta, inteligente, ousada, culta, lutadora, bem humorada, namoradeira e sempre dizia que a vida dela se resumia a escrever. Aliás, ela adorava escrever, publicar seus livros e saber que eram lidos por um grande número de pessoas, homossexuais ou não.

Por que a decisão de fazer um filme (e não um livro, por exemplo) sobre a escritora? Qual a linguagem que você usa no filme para descrever Cassandra (depoimentos, imagens de arquivos…)?

Decidi pelo DVD porque, infelizmente, depois de 5 anos trabalhando com Laura Bacellar na Editora Brejeira Malagueta, a única editora lésbica da América Latina, criada em 2008, cheguei à conclusão de que apesar de termos no Brasil 9 milhões de lésbicas, elas compram poucos livros, não se sabe a razão exatamente. Concluí que através de imagens seria mais fácil atingir o meu objetivo de tornar Cassandra Rios conhecida pelas novas gerações, afinal, estamos na era das imagens, certo? Com relação à linguagem, o documentário/tributo tem depoimentos, fotos de arquivos cedidos pela família da autora, imagens de objetos pessoais, capas de seus livros e outras imagens relacionadas ao tema LGBT, além de uma trilha sonora belíssima feita por Laura Finocchiaro.

Quais as inovações da literatura de Cassandra Rios? E quais as inovações de sua literatura como ação afirmativa para as lésbicas e para as feministas?

Olha, Cassandra foi considerada por muitos leitores mais velhos uma referência quando se trata de informações sobre sexualidade. Suas histórias, mesmo nas décadas passadas (40, 50, 60 e 70), quando poucos autores escreviam explicitamente sobre sexo, já aparecia o tema. Foi a primeira autora a retratar as lésbicas nas letras brasileiras, o submundo homossexual em São Paulo e os dramas vividos por quem pertencia às minorias. Foi a primeira também a falar sobre homossexualidade feminina de forma declarada e mostrar a mulher como ser sexual, que sentia tesão, quebrando de maneira espetacular com a tradição vigente, até então de personagens femininas movidas apenas por amor. A ação afirmativa maior de Cassandra, sem dúvida, foi a visibilidade lésbica na vida brasileira, isso desde 1948, com a publicação do seu primeiro livro, que fala e descreve explicitamente o sexo entre mulheres e a relação amorosa entre as mesmas.

Ela sofreu preconceito dos intelectuais por fazer literatura erótica?

Sim, sofreu muito preconceito, e os intelectuais consideravam sua literatura pornográfica. Vários intelectuais classificavam seus livros como “baixa literatura”, mas a verdade é que ela foi recordista de vendas na sua época e sempre afirmou que jamais foi pornográfica e, sim, conservadora, e que sua intenção era ver seus livros nas mãos do leitor, queria ser lida – e foi!

Como a ditadura tratou seu livros?

Cassandra foi considerada a escritora mais censurada no Brasil! Inclusive, em vários de seus livros, vinha a frase “a escritora mais proibida do Brasil”. Na época da ditadura, teve mais de 30 livros censurados e apreendidos. Sofreu muito, foi extremamente perseguida e proibida de publicar. Perdeu muito dinheiro e bens por conta dessas perseguições e nunca mais conseguiu se recuperar. Ficou extremamente abalada e ressentida, pois sobrevivia de direitos autorias, da sua escrita.

Você acredita que a homossexualidade assumida dela foi o principal fator de seu planejado esquecido pela ditadura ou foi o conteúdo libertário erótico?

Veja bem, a ditadura perseguiu Cassandra por ela ser lésbica, mulher e por vender muitos livros! A ditadura era machista e burra e não se conformava com uma mulher escrevendo explicitamente cenas de sexo entre mulheres, e com tiragens imensas de livros. Cassandra era explícita, sempre foi, não escondia nada, seja em cenas de sexo hétero, como principalmente homossexuais femininas. Cassandra, em várias ocasiões, declarou que não era subversiva e sim “apolítica”. A verdade é que ela abordava abertamente temas tabus numa época em que a sociedade brasileira era extremamente homofóbica, conservadora e machista, mais do que agora.

Durante a pesquisa para o filme teve algo que te surpreendeu?

Várias coisas me surpreenderam durante a minha pesquisa: descobrir que tinha sido vizinha da Cassandra por tanto tempo e nunca ter cruzado com ela morando num prédio vizinho. Também o grande número de estudos sobre a autora, teses de mestrado, doutorado etc., e algumas recusas para depoimentos durante o documentário, a grande maioria de namoradas da Cassandra (risos)! Ela levava um jeito de tímida, mas aparentemente era terrível! E também os diversos elogios sobre a autora, por parte da maioria dos entrevistados. Cassandra era realmente uma pessoa muito querida e respeitada!

O que Cassandra Rios ainda tem a dizer para as novas gerações? 

Cassandra tem muito a dizer para as novas gerações. Vou tomar a liberdade de transcrever a sua própria fala na última entrevista que concedeu para a revista Trip, em junho de 2001, um ano antes do seu falecimento. O jornalista perguntou o que a autora achava do modo como a homossexualidade era tratada, e então ela respondeu: “Há forças de ação e de retração. Alguns homossexuais estão saindo do subsolo em que viviam, se manifestando. A maioria ainda se esconde. Escrevi uns 30 livros sobre homossexualidade. É o máximo uma mulher ter coragem de falar que ama uma mulher, ou um homem falar que ama um homem… com pureza. Os homossexuais sabem amar”. A contribuição de Cassandra para a literatura brasileira é inestimável, bem como e principalmente para a visibilidade lésbica. Sua coragem e ousadia devem  servir de exemplo para as novas gerações. Para o movimento LGBT, Cassandra abriu a porta e trouxe a consciência para um monte de gente sobre o assunto, isso é inestimável e deve ser reconhecido!

Se tivesse que recomendar um livro de Cassandra para as novas gerações, qual você indicaria como livro de iniciação para o universo da escritora?

Indicaria “Eu sou uma lésbica”, publicado em forma de folhetim na Revista Status, em 1980, que conta de maneira atraente a iniciação amorosa de uma menina com uma mulher mais velha e sua trajetória até a idade adulta em busca da sua identidade homossexual. O desfecho da história é surpreendente e seus três últimos parágrafos são impactantes.

Livro Eu Sou Uma Lésbica: retrato de uma época

Obra da escritora brasileira Cassandra Rios favorece a reflexão e apresenta uma visão realista sobre o relacionamento entre mulheres.


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Acabei de ler “Eu Sou Uma Lésbica” (editora Azougue – coleção Devassa), de Cassandra Rios. Para quem não conhece, ela foi uma escritora brasileira que, na década de 1970, vendeu cerca de 300 mil livros com histórias de amor entre mulheres. Jorge Amado, inclusive, chegou a elogiar o seu trabalho e afirmou, “Cassandra Rios é uma grande romancista, ignorada por preconceito”.

“Eu Sou Uma Lésbica” é uma compilação de textos publicados como folhetim na revista Status, em 1980. Diante de uma obra tão interessante e de uma escritora talentosa, o que falar sobre sua literatura?

Muita coisa. A começar pela personagem principal, Flávia, que, já na infância, sente um amor platônico por sua vizinha, conhecida como dona Kênia. A forma como a menina começa a se conhecer enquanto ser humano e homossexual, assim como as transformações pelas quais atravessa, estão entre as partes mais interessantes do livro, muito mais do que as passagens, digamos, com descrições calientes entre Flávia e as meninas com quem se envolve.

No livro, que é composto por capítulos curtos e de fácil leitura, é narrada a trajetória de Flávia até os seus 28 anos de idade, que tenta resolver o seu amor por dona Kênia (que, nesse período, já deixou de ser sua vizinha).

Vale destacar que Cassandra Rios possui um êxito pouco alcançado por muitas autoras LGBT: ela construiu uma obra integrante, que prende a leitura, sem o uso excessivo de adjetivos. Sua narrativa é suave e, muitas vezes, nem parece que o foco central da história é um romance lésbico. As descrições dos ambientes são minuciosas e traduzem as passagens com exatidão e veracidade.


A partir dessa obra, temos a certeza de que boas histórias não precisam de frases de efeito, de lugares comuns, do excesso de cenas de sexo ou da ênfase em um romantismo idealizado. Boas histórias precisam sim de uma escritora que, acima de tudo, saiba o que faz e dê aos seus personagens o que ela tem em mente: criatividade e o desejo de retratar uma realidade.

Leia um trecho de “Eu Sou Uma Lésbica”, de Cassandra Rios:
“Pulei da cama, vesti o meu penhoar e dei mão a papai, que me levou no colo para o outro lado da rua”. A porta da casa de dona Kênia estava aberta, e, na soleira, ela e seu Eduardo nos aguardavam. Falaram com papai sobre mamãe e eu guardei a palavra que eles repetiam mais: aborto. Tranquilizaram papai quanto ao fato de cuidarem de mim durante o tempo que fosse necessário e fique feliz quando dona Kênia disse que gostava muito de mim, que eu era um amorzinho e não daria trabalho nenhum.

Mas eu dei sim. Não pude me conter. Assim que papai me deixou com eles e vi que ia dormir sozinha no quarto de hóspedes, dona Kênia continuando deitada naquela camona grande do seu quarto com aquele homem peludo, medonho, botei a boca no mundo, e de tal modo que, com sono, de sacho e me olhando com antipatia, seu Eduardo catou o seu travesseiro e disse para ela, dirigindo-se para o quarto onde iria ficar.

- Ponha-a na nossa cama, faça-a parar de chorar, parece que a estão matando. Estou cansado, preciso sair cedo, não quero passar o resto da noite acordado, acalmando-a.
Antes de se retirar, ele se debruçou sobre mim, como a querer ler nos meus olhos se eu diria a verdade, e perguntou:
- Você não faz xixi na cama, faz?
- Não! – berrei, fazendo-o erguer-se rápido, como se tivesse ameaçado abocanhar seu narigão, e retirar-se para o outro quarto, resmungando qualquer coisa.
Dona Kênia pegou-me pela mão, carinhosamente, e me levou para o seu quarto; pegou outro travesseiro e colou-o ao lado do seu.
- Vem, meu cachorrinho Lulu, vem deitar aqui comigo. Não chore, neném, mamãe vai voltar logo. Você não gosta de mim? Não quer ficar aqui comigo?”
Imagem: Reversa Magazine. 

COMENTARIOS

Por Marina Hall

Não, não venho contestar Sigmund Freud. Quem sou eu? Talvez, adicionar, pretensiosamente, em suas lições sobre psicanálise, um adendo breve a respeito da homossexualidade. Ou bastaria dizer: sexualidade.

É fato que a literatura, como todas as outras formas de expressão e arte escrevem e reescrevem o Complexo de Édipo, tornando-o vivos nos possíveis enredos sociais fictícios (ou não). Lembrando que essa teoria freudiana refere-se ao desejo infantil masculino pela mãe, tornando, inconscientemente, o menino filho espécie de rival do pai. O contrário, segundo o psicanalista, aplica-se à menina, que apaixonada pelo pai quer roubar o lugar da mãe. Porém, e nos casos homossexuais? Bi? Trans? A teoria não se aplica?

De acordo com Freud, a homossexualidade estaria relacionada com a incapacidade de o ser humano se desprender do próprio corpo, desejando alguém com corpo igual ao seu. Primeiramente, o fato é que nenhum corpo é igual ao outro. Nem o de dois homens, nem o de duas mulheres… Logo, onde estaria o universo infantil dos homossexuais? Infância responsável pelos traumas, valores, descobertas sexuais… Assim como provavelmente a criança heterossexual já aprende sua “função” social (de fêmea/macho, princesa/cavaleiro, ativo/passivo) desde os primeiros contatos com os outros humanos, a criança lésbica, gay, trans, bi também já inicia suas descobertas sexuais, porém que muitas vezes, na maioria, têm as descobertas sexuais propositalmente direcionadas para a heterossexualidade. Quem faz isso? Quem as direciona? Oh! Não me diga que não sabe! Sim! A família, a escola, a religião, as artes, a mídia, as sociedades… Salvo raríssimas exceções.

Se você não acreditou que uma criança pode ser homossexual e que isso ocorre por natureza, assim como ser hétero, provavelmente é porque na sua infância e vida posterior tudo o que lhe foi apresentado fala de uma única verdade: a língua da família-modelo: homem (chefe) + mulher + filhos = perfeição. Inclusive, agregando a isso os famosíssimos contos de fada (infantis? – Bruno Betthelheim). Como não ficou claro? A princesa (sexo feminino) briga com a bruxa rival (sexo feminino), no fim, resolve seus problemas com auxílio de alguém que ama, um príncipe (sexo masculino) e com ele vive feliz para sempre. Essa é sim uma verdade, doce e poética, mas não pode ser a única!

É, mas como disse Maria da Glória Azevedo, no posfácio de As guardiãs da magia, de Lucia Facco, a literatura é um bicho que consegue desfazer os nós que se lhes impõem. Como assim? Quer dizer que não adianta forçar o silêncio das pessoas, principalmente das artes, em algum momento a voz silenciada se pronunciará. É o que fez, por exemplo, Cassandra Rios.
 
Silenciada, ignorada e sentenciada ao pornográfico pela crítica canônica, vendeu mais livros que muito best-seller, inclusive o romance Eu sou uma lésbica – que conta a trajetória de uma lésbica apaixonada desde a infância pela vizinha e amiga de sua mãe. Cá está a infância lésbica acrescida às lições de Freud: Narrado em primeira pessoa, Flávia, com 7 anos, vive embaixo da mesa da sala de sua casa, observando as pernas das amigas da mãe; uma das pernas, a de Kênia, a encanta tanto que chega ao ponto de cheirá-la e lambê-la fingindo ser um gatinho sob a toalha. Flávia delira com a presença da moça de sandália colorida e a deseja como sua – assim como o menino deseja a mãe no Complexo de Édipo. 

A mãe de Flávia, no entanto, não é desejada com fervor sexual, mas admirada e amada com afeto de filha, sendo comparada constantemente com Kênia. O pai sequer é mencionado. Entretanto, isso não significa que a figura do pai não é importante, apenas não é fortalecida nesse romance.

Com o desejo ardente por Kênia, a menininha vê como rival o marido da mulher, Eduardo. Pouco tempo depois das primeiras relações carnais das duas amantes secretas (sim, Kênia sede aos desejos da menininha), a mulher se muda para a Itália a fim de curar o câncer de Eduardo, que por sua vez, acaba discretamente assassinado, numa passional pulsão de morte, pela amante de Kênia, que dera a ele sopa com vidro em pó horas antes de partirem para Europa. O crime é revelado somente no fim da narrativa, depois da história da adolescência lésbica de Flávia, surpreendendo quem lê pela atitude insuspeita da garotinha de 7 anos. 

O que quero dizer com isso? Não! Não é um incentivo para que mate os seus rivais sexuais! É muito mais simples: desde crianças desejamos nosso “objeto sexual”, seja homem ou mulher e isso existe, ainda que inconscientemente, ainda que tentem reprimir ou desqualificar esse desejo usando teorias de Freud, que aliás, que eu saiba, nunca disse existir uma única verdade; ou qualquer outra ideia, seja religiosa, seja sei lá qual… É sim, bi, lésbicas, trans, gays existem e é desde que existe gente no mundo, por natureza, desde a misteriosa infância e não por desvio, anomalia sexual. Infelizmente, criam distinções sexuais para nos segregar. 

Tolice! Porque precisamos/dependemos uns dos outros. Não adianta esconder, onde estão os contos de fada que nos façam sentir normais e possíveis na infância, na juventude? Esse é um dos motivos da literatura de Cassandra Rios: ser lida para que não corramos o risco de vivermos sob a voz de uma única verdade.


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Maldita Cassandra Rios

O texto que segue foi originalmente publicado em iFetiche .

Este relato não pretende ser algo motivacional como "Você conseguirá gostar de ler se insistir" ou ainda "Encontre a felicidade nos livros". Muito pelo contrário, pretendo indicar livros que irão fazer mal. Gosto de pensar que são do tipo (se é que tipificar é válido) de "auto-destruição", aqueles que ficam escondidos nos cantos mais sujos das livrarias, no qual a maioria dos vendedores não sabem do que se trata, que subvertem e que farão do leitor um maldito zombie, devorador de outros cérebros.

Durante algum tempo, como ritual matinal, antes da labuta diária, sentava eu num banco qualquer e lia. Não dependia do barulho ou do fluxo de pessoas. Conseguia facilmente me isolar de tudo quando passava os olhos nas frases. Sempre estava com no mínimo dois livros na mochila. Caso algum terminasse, haveria o outro para dar continuidade. Fazia questão de levantar antes para ter mais tempo para me perder nas páginas. Mas, este vício, não foi algo que nasceu comigo.

Fui um leitor tardio, que descobriu o prazer dos cheiradores de papel de forma indireta, quase como competição. Sempre fui curioso, perguntador, e muitas vezes até chato. Porém, não deixava de ser raso. Faltava descobrir onde a minha curiosidade poderia morrer. Sim, queria estrangular aquela maldita. Afinal, quem quer ter uma mente perguntadora? Não sei se tive sorte ou azar em ter sido um analfabeto funcional durante tanto tempo, mas, as circunstâncias daquele momento me faziam refletir que era necessário o movimento. Que fosse para afirmar a total ignorância e repúdio aos livros, pronto para atear fogo até mesmo nas pessoas, se fosse o caso, ou então, admitir a minha ignorância de forma mais humilde como "tenho muito para ler, mas, é bom eu começar logo...". E assim foi.

Procurando um dos tantos bancos, um livro que tive a curiosa tristeza de não terminá-lo foi Eu sou uma lésbica da autora Cassandra Rios. Quando digo "não terminá-lo" não significa que não findei as páginas, mas, que os ecos daquele livro ainda são vivos na minha memória. Extremamente perturbador, o livro é uma história de amor. Amor proibido de uma menina pela sua vizinha, muito mais velha e casada. Menina no sentido mais inocente da palavra. Partindo da perspectiva do sentimento, a menina, que vira moça, que vira mulher, constrói toda a sua sexualidade baseada na sombra do desejo.

Brasileira, marginal e pornógrafa, Cassandra Rios era best-seller nos tempos da ditadura militar. Alguns livros da autora são facilmente encontrados em sebos do Brasil inteiro, afinal, não conseguiram queimar todos, mesmo em tempos de repreensão. Mas, em contrapartida, pouca coisa dela é publicada atualmente. Gostaria, e muito, que os livros tivessem novas edições, afinal sou aquele tipo rabugento de leitor que gosta de desvirginar os livros.

Perto do revival libertino proposto por Louÿs, Cassandra Rios parece fichinha. A publicação em livro do folhetim "Eu sou uma lésbica", contudo, cumpre a função de apresentar ao leitor deste início de século uma das mais controversas autoras brasileiras. Cassandra (pseudônimo de Odete Rios) começou a publicar suas histórias de alto teor homoerótico (feminino) ainda em 1948, aos dezesseis anos. 

Nas décadas de 60 e 70, ao mesmo tempo em que a ditadura militar censurava seus inúmeros livros, ela quebrava recordes de tiragem: em 1970 já havia vendido mais de um milhão de exemplares, número que se ampliava constantemente, graças a uma vendagem anual de 300 mil exemplares (marca que só seria superada nos anos noventa por aquele mago fajuto cujo nome eu me recuso a digitar ou pronunciar). 

Todo mundo lia Cassandra nos anos de chumbo, das donas de casa aos estudantes, das domésticas aos magistrados, todos degustavam best-sellers como "Tessa, a gata" e "Nicoleta Ninfeta", ainda que muitas vezes às escondidas (Bethânia era tão fã que, ao estrear o show "Drama", em 1973, incluiu a escritora na lista de convidados da apresentação de estréia, como relata o diretor do espetáculo, Antônio Bivar, em entrevista ao site "Trópico").

Rival de Adelaide Carraro, outra best-seller pornográfica dos anos 70 (e que hoje é mais conhecida pela simplória série O Estudante, cujo primeiro volume, aquele que todo mundo leu, tem as célebres "parte azul" e "parte negra"), Cassandra era uma figura controversa. Era perseguida pela direita, que a tachava de imoral e pervertida, e pela esquerda, que a considerava conservadora - realmente, Eu sou uma lésbica tem muito mais um tom de culpa do que de libertação, e sua narradora em primeira pessoa mais parece aqueles homossexuais dos filmes hollywoodianos dos anos 40-50 que, ao final dos filmes, ou acabavam no hospício ou na cadeia, como assassinos, ou ainda cometiam suicídio). 

Numa de suas entrevistas, dada em 2001, poucos meses antes de morrer, para a revista TPM, Odete (afinal, ela deixou de ser Cassandra no momento em que encontrou a religião) afirma que Cassandra Rios é conservadora e moralista. E o livro deixa essa impressão.

Cultuada pelos gays e lésbicas da época, e defendida até por Jorge Amado, ela era convidada a aparecer nos programas de TV, tamanha a sua popularidade, ao mesmo tempo em que era presa e humilhada, como nesse depoimento publicado no livro Flores e Cassis:
"Até bofetada de delegado, na cara, levei. O que mais temiam? Já não estava eu proibida? Hoje entendo. Ruminavam que eu precisava ser algemada, amordaçada, enxovalhada de todas as humilhações, desacreditada na minha conduta moral, para denegrirem meu talento e consagrarem suas aleivosas pessoas! Verdade que, na época, assim diziam, só eu vendia! O público consumidor via, só nas páginas dos meus livros, gente com as quais hoje cruzam nas ruas, livres, sem ter que disfarçar e pagar pelo que nasceram."

Tornou-se célebre uma de suas frases, que resume essa condição de polemista: ''Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada''. O universo da autora em muito encontra-se distante do hedonismo das pornochancadas de Galante, Mossy e Ody Fraga, produzidas na mesma década, e hoje tão deliciosamente cultuadas (por falar nisso, algum de vocês já viu a divertíssima comédia erótica estrelada por Mossy em terras capixabas em pleno 1975, Quando as mulheres querem provas? ). 

Talvez por isso, a publicação de Cassandra na Coleção Devassa tenha mais uma importância em recolocar o nome da autora na ordem do dia das Letras Brasileiras (uma vez que ela, inexplicavelmente, é ignorada pela academia) e, quem sabe, possibilitar a reedição de outras de suas obras outrora badaladíssimas.

Erly Vieira Jr.
Atualizado toda quarta-feira, às 16 horas
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Uma das primeiras providências dos regimes autoritários é restringir a liberdade de expressão e opinião; trata-se de uma forma de dominação pela coerção, limitação ou eliminação das vozes discordantes.

No Brasil, durante a ditadura militar (1964-1985), e destacadamente a partir da Constituição outorgada de 1967, a censura oficial do Estado em relação a filmes, peças teatrais, discos, apresentações de grupos musicais, cartazes e espetáculos públicos em geral era exercida pelo Ministério da Justiça (MJ) por meio do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), setor do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP). A partir de 1970, livros e revistas também passaram a ser examinados pelo SCDP-DCDP.

Este artigo aborda a censura oficial a livros, destacadamente obras de autores brasileiros, durante a ditadura militar brasileira – com ênfase no período posterior a 1970, data  do Decreto-Lei n.1077/70 que regulamentou a censura a livros e revistas.

Com estudo dos atos censórios do DCDP em relação aos livros é possível delinear alguns mecanismos da censura e refletir sobre a repercussão da censura no universo da produção cultural brasileira.

Cultura censura e livros – breve observação inicial
Entre os anos 1964 e 1968, isto é, entre o golpe militar de 1964 e a decretação do AI-5, a censura a livros no Brasil foi marcada por uma atuação confusa e multifacetada, pela ausência de critérios mesclando batidas policiais, apreensões, confiscos e coerção física. "As ações confiscatórias ocorriam de forma primária, improvisada, efetuadas por pessoas mal treinadas" (Stephanou, 2001, p.215).

O alvo predileto da atuação aleatória das forças de repressão, entre 1964 e 1968, no que tange à apreensão, coação e censura de livros, foi o editor Ênio Silveira, proprietário da Editora Civilização Brasileira. Ênio Silveira foi preso e processado várias vezes, outras tantas viu a editora ser invadida e sua produção editorial, apreendida.

Em maio de 1965, a prisão de Ênio Silveira provocou um manifesto assinado por cerca de mil pessoas ligadas ao universo da cultura. O presidente Castelo Branco mandou para Ernesto Geisel, à época chefe de Gabinete Militar, a seguinte correspondência: "Por que a prisão do Ênio? Só para depor? A repercussão é contrária a nós [...]. Apreensão de livros. Nunca se fez isso no Brasil. Só de alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados são os piores possíveis contra nós. É mesmo um terror cultural" (Gaspari, 2002a, p.96-7).

Em um corajoso e claro ato de resistência ao governo militar, em maio de 1966, a editora Civilização Brasileira impetrou Mandado de Segurança contra o Departamento Federal de Segurança Pública questionando as várias ações confiscatórias de livros. Na revista Civilização Brasileira (n.9/10, p.291-7) encontra-se a reprodução integral desse Mandado.

Em 1968, o terrorismo de direita provocou, segundo os cálculos de Elio Gaspari, dezessete atentados, quatorze explosões e um assalto a banco. Editoras e livrarias estavam entre os alvos: foram atingidas a editora Tempo Brasileiro, a Civilização Brasileira e a Livraria Forense (Gaspari, 2002a, p.328 e 301).

Embora espaços do universo dos livros, editoras, livrarias, fossem alvos de vandalismo de direita, não houve nos primeiros anos após o golpe militar de 1964 a estruturação de um sistema único de censura a livros. Essa ausência de uma regulamentação censória em relação a livros possibilita que entre os best-sellers de 1968 constem, por exemplo, clássicos do pensamento nacional de esquerda, como Um projeto para o Brasil, de Celso Furtado, e clássicos internacionais da literatura erótica, como Kama Sutra, literatura hindu de fisiologia e moral sexual, e Filosofia na alcova, do Marquês de Sade (Reimão, 1996, p.43-50).

A Constituição outorgada de 1967 oficializou a centralização da censura como atividade do governo federal, em Brasília. Quando o Ato Institucional número 5 foi decretado, as atividades censórias já se encontravam centralizadas no governo federal.

Duas grandes manifestações públicas contra as arbitrariedades do regime militar ocorridas no Rio de Janeiro antecederam a decretação do AI-5: a manifestação "Cultura contra Censura", em fevereiro de 1968, que reuniu membros da classe teatral para manifestarem sua indignação contra a proibição da encenação de oito peças (Castro, 2000, p.370) e, alguns meses mais tarde, aquela que ficou conhecida como "A Passeata dos Cem Mil", em 26 de junho de 1968 (Ventura, 1988, p.155-65).

Sexta-feira, 13 de dezembro de 1968. Em nome da "autêntica ordem democrática [...] (e) no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo", o presidente Costa e Silva editou o Ato Institucional número 5 (AI-5). A edição desse ato tornou possível cassar mandatos, suspender direitos políticos e garantias individuais e criou condições para a censura à divulgação da informação, à manifestação de opiniões e às produções culturais e artísticas. Começa aí o período chamado "anos de chumbo".

Na segunda metade da década de 1970, escritores, editores, intelectuais, artistas, cientistas, professores começaram a mobilizar-se para resistir e protestar contra os desmandos e arbítrios de um regime autoritário. Essa resistência da sociedade aos atos autoritários do governo de então culminou com várias demonstrações e atos públicos de repúdio ao autoritarismo. No que diz respeito às manifestações pelas liberdades no âmbito das produções culturais destaca-se o Manifesto dos 1046 intelectuais contra a censura, entregue ao ministro da Justiça em Brasília, em 25 de janeiro de 1977, por uma comissão composta por Helio Silva, Lygia Fagundes Telles, Nélida Pinõn e Jefferson Ribeiro de Andrade.

Em 13 de outubro de 1978 foi promulgada pelo Congresso Nacional a Emenda Constitucional número 11 que revogava, a partir de 1° de janeiro de 1979, o AI-5.

Nos dez anos de vigência do AI-5 (13 de dezembro de 1968 a 31 de dezembro de 1978), segundo estimativas apresentadas por Zuenir Ventura, 1.607 cidadãos foram atingidos direta e explicitamente por esse Ato com punições – como cassação, suspensão de direitos políticos, prisão e/ou afastamento do serviço público. No que tange ao cerceamento da produção artística e cultural, nos dez anos de vigência do AI-5 foram censurados, ainda segundo dados apresentados por Zuenir Ventura (1988, p.285), "cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, 100 revistas, mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovelas".

Livros de autores brasileiros e censura

A censura prévia, já anteriormente regulamentada para cinema, televisão, teatro, espetáculos públicos, música e rádio, e prática presente em várias revistas e jornais impressos se expandiu, e para a totalidade do mercado editorial depois da centralização do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), em Brasília.

A censura prévia para livros foi regulamentada pelo Decreto-Lei n.1.077/70. Os art. 1° e 2° desse decreto estavam assim redigidos:

Art. 1° Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação;

Art. 2° Caberá ao Ministério da Justiça, através do Departamento de Polícia Federal verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de matéria infringente da proibição enunciada no artigo anterior.

Depois de anunciar o que deveria ser censurado, o mesmo decreto versa sobre as sanções:

Art. 3° Verificada a existência de matéria ofensiva à moral e aos bons costumes, o Ministro da Justiça proibirá a divulgação da publicação e determinará a busca e a apreensão de todos os seus exemplares. [...] Art. 5° A distribuição, venda ou exposição de livros e periódicos que não hajam sido liberados ou que tenham sido proibidos, após a verificação prevista neste Decreto-lei, sujeita os infratores, independentemente da responsabilidade criminal.

A Portaria 11-B, de 6 de fevereiro de 1970, para operacionalizar o Decreto n.1.077/70, determinava que todas as publicações deveriam ser previamente encaminhadas para o Ministério da Justiça para julgamento. A reação adversa de editores, escritores, intelectuais e associações da sociedade civil foi grande, relata, entre outros, Antonio Costela (1970) no livro O controle da imprensa no Brasil, publicado no calor da hora, em 1970.

Liderando a oposição à censura prévia para livros destacaram-se Jorge Amado e Erico Verissimo, líderes também de vendagens na época, que declararam publicamente "em nenhuma circunstância mandaremos os originais de nossos livros aos censores, nós preferimos parar de publicar no Brasil e só publicar no exterior" (Jones, 2001, v.1, p.46).

A incisiva reação contra o estabelecimento da censura prévia para livros e publicações em geral levou o governo a recuar e a publicar uma nova Instrução para a Portaria 11-B, a Instrução número 1-70 de 24 de fevereiro de 1970 que explicita que "estão isentas de verificação prévia as publicações e exteriorizações de caráter estritamente filosófico, científico, técnico e didático, bem como as que não versarem sobre temas referentes ao sexo, moralidade pública e bons costumes".

Foi um avanço democrático conseguido pelas forças sociais do momento, mas é claro também que os limites para decidir se um texto enfoca ou não, tangencia ou não, temas de moralidade pública, bons costumes ou sexo, são limites bastante móveis e essa mobilidade permitiu que relevantes obras – teóricas, conceituais e ficcionais – fossem alvo de rigorosos atos censórios.

A maioria da atividade de censura em relação a livros dava-se, na prática, por denúncias. Segundo descrição publicada na revista Veja de 29.12.1976 (p.81-2), a censura a livros dava-se da seguinte forma:
Alguém que tenha lido um livro [...] e o considere atentatório à moral ou mesmo subversivo, faz uma denúncia ao Ministério. Instala-se, então, um processo no qual é dada a um assessor do ministro da Justiça a tarefa de ler a publicação e emitir parecer. Com base neste, o ministro decreta ou não a apreensão.

Mesmo assim, continua a descrição da revista Veja, "as superintendências regionais da Polícia Federal costumam receber livros para censura prévia, de editoras que temem uma apreensão posterior à publicação".

A censura prévia para todos os livros seria inexequível. Uma matéria da revista Visão de 11.3.1974 salienta essa impossibilidade técnica: "só em 1971 foram lançados no Brasil 9.950 títulos novos, que exigiriam um número incalculável de censores".

Na primeira metade da década de 1970, no chamado "Milagre Brasileiro", a edição de livros cresceu em número de títulos editados e também em número de exemplares. Em 1972, o Brasil ultrapassou a barreira de um livro por habitante ao ano. Em 1972 a população brasileira era de 98 milhões de habitantes e foram produzidos 136 milhões de livros – 1,3 livro por habitante (Reimão, 1996, p.59-65).

Os dados gerais sobre a ação da censura a livros nesse período são conflitantes: Zuenir Ventura, em 1968 o ano que não terminou, indica que entre 1968 e 1978 foram censurados 200 livros; um levantamento realizado pela equipe de pesquisadores do Centro Cultural São Paulo e publicada no livro Cronologia das Artes em São Paulo – 1975-1995, indica esses mesmos números (CCSP, 1996, v.1, p.41). Deonísio da Silva (1989), no livro Nos bastidores da censura, indica 430 livros proibidos pela censura federal durante o regime militar, sendo cerca de 92 obras de autores brasileiros.

Em Brasília, no subsolo do prédio do Arquivo Nacional, encontram-se os documentos que restaram da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Em 1988, com a promulgação da nova Constituição, que bania a censura, o DCDP foi desativado e sua documentação foi transferida para o Arquivo Nacional; é possível que nesse momento muitos documentos tenham sido eliminados, extraviados ou perdidos. Mesmo assim, trata-se de um acervo grande e de enorme valor histórico.

No que tange ao material dos processos de censura prévia em relação a publicações (livros e revistas), o universo dos documentos é bastante pequeno se comparado com o material referente a obras cinematográficas e teatrais. Segundo levantamento realizado por funcionários do Arquivo, há registros de cerca de 490 livros e 97 revistas que foram submetidas ao DCDP:

Livros eróticos/pornográficos

Nos arquivos do DCDP encontram-se indicações de 70 livros erótico-pornográficos de autores brasileiros vetados; o livro de Deonísio da Silva (1989), Nos bastidores da censura, apresenta 69 títulos com esse perfil; comparando-se as duas listagens e excluindo-se as repetições, resulta que cerca de 100 livros erótico-pornográficos de autor nacional foram censurados no período da ditadura militar.

Entre esses, 18 são de autoria de Cassandra Rios; 13, de Adelaide Carraro; 22 são assinados como Dr. G. Pop; 17, como Brigitte Bijou; e seis, como Márcia Fagundes Varella.

Adelaide Carraro e Cassandra Rios foram nos anos 1960 e 1970, campeãs de vendagem. Seus livros, considerados eróticos ou francamente pornográficos, eram lidos às escondidas por adolescentes e adultos. Era livros "fortes" que misturavam política, "negociatas" e sexo, muito sexo. E como tais eram lidos.
Os livros de Adelaide Carraro proibidos pela censura foram: CarniçaO castradoO ComitêDe prostituta a primeira damaEscuridãoFalência das elitesOs padres também amamPodridão; Sexo em troca de fama;Submundo da sociedade; A verdadeira história de um assassino; Mulher livre e Os amantes.

Os livros de Cassandra Rios censurados foram: A borboleta branca; Breve história de Fábia; Copacabana Posto SeisGeorgetteMaçariaMarcella; Uma mulher diferente; Nicoleta Ninfeta; A sarjeta; As serpentes e a flor;Tara; Tessa, a gata; As traçasVeneno; Volúpia do pecado; A paranoia; O prazer de pecar e Tentação sexual.

Os livros de G. Pop, Brigitte Bijou e Márcia Fagundes Varella censurada ostentavam títulos como: Astúcia sexual;Cidinha a insaciável; Graziela amava e ...matavaClube dos prazeres; O padre fogoso de Boulange ou Noviça erótica.
Não nos esqueçamos de que parte dos militares via a sexualidade podendo ser utilizada como ferramenta do "expansionismo comunista". Exemplos dessa postura foram coletados por Paolo Marconi (1980) em A censura política na imprensa brasileira; citemos um, nas palavras do tenente-coronel Carlos de Oliveira: O sexo é um instrumento usado pelos psicopolíticos para perverter e alienar a personalidade dos indivíduos [...] Daí partem para o descrédito das famílias, dos governos, e passam à degradação da nação, bem como intensificam a divulgação da literatura erótica e da promiscuidade sexual. (Marconi, 1980, p.18)

Romances, contos e poesias.

Além dos textos teatrais já abordados aqui, outras obras de ficção de autores nacionais foram censuradas durante os anos de vigência do AI-5. Segundo a listagem do acervo do DCDP e o citado levantamento de Deonísio da Silva, foram elas: Quatro contos de pavor e alguns poemas desesperados, Álvaro Alves de Faria; Dez histórias imorais, de Aguinaldo Silva; Meu companheiro querido, de Alex Polari; Zero – romance pré-histórico, de Ignácio de Loyola Brandão; Em câmara lenta, de Renato Tapajós; Aracelli, meu amor, de José Louzeiro; Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca; Diário de André, de Brasigóes Felício; e os contos "Mister Curitiba" de Dalton Trevisan e "O cobrador" de Rubem Fonseca.

O livro Quatro cantos de pavor e alguns poemas desesperados, de Álvaro Alves de Faria, percorreu um trajeto editorial bastante curioso: em 1973 o autor encaminhou, por iniciativa própria, os originais do livro para o DCDP. O texto recebeu um parecer indicativo de veto. Independentemente desse processo, e sem conhecimento do parecer, o livro foi editado, em 1973, pela editora Alfa-Ômega.

O veto à obra de José Louzeiro, Aracelli, meu amor, pelo Ministério da Justiça, é um caso muito específico. O livro relata um caso real: o estupro e o assassinato da menina de nove anos Aracelli Cabrera Crespo por três jovens de famílias da elite de Vitória, Espírito Santo. Apesar de se tratar de um relato ficcional, o texto utiliza os nomes dos acusados. As famílias dos acusados manifestaram-se judicialmente contra o fato e o Ministério da Justiça suspendeu a publicação e a circulação do livro por algum tempo enquanto o processo transcorria, mas, ainda assim, houve nova edição mesmo antes do fim do processo (Hallewell, 2005, p.593).

Os contos "Mister Curitiba" de Dalton Trevisan e "O cobrador" de Rubem Fonseca foram vetados previamente pelo DCDP quando venceram concursos de contos da revista Status em 1976 e 1978, respectivamente. A revistaStatus, assim como as revistas Inéditos (revista mineira de cultura e literatura), Paralelo (de Porto Alegre),Homem (hoje Playboy), Ele e ElaNova e Pais e Filhos estavam entre aquelas que, a cada edição, deveriam remeter os originais previamente ao DCDP (Marconi, 1980, p.61).

Alex Polari consta na listagem de Deonísio da Silva como tendo seu poema "Meu companheiro querido" censurado. Nas listagens de livros examinados pelo DCDP não localizamos referências a Polari. Alex Polari foi preso em maio de 1971 e quando saiu seu primeiro livro, Inventário de cicatrizes, ele ainda estava preso. Não conseguimos localizar o poema a que Deonísio da Silva se refere e nem as circunstâncias do veto. Em 1979, em virtude da Lei da Anistia, Alex Polari foi solto e publicou seu segundo livro, Camarim de prisioneiro.

Os livros Dez histórias imorais, de Aguinaldo Silva (Record, 2.ed., 1969); Diário de André, de Brasigóes Felício (Oriente, 1974, vetado em 1976); Zero – romance pré-histórico, de Ignácio de Loyola Brandão (Ed. Rio/Brasília, 1976); Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca (Artenova, 1976) e Em câmara lenta, de Renato Tapajós (Alfa-Ômega, 1977) foram publicados, distribuídos, comercializados e algum tempo depois, meses ou anos, foram examinados pelo DCDP cujo parecer (na maioria dos casos) tornou-se base do decreto de proibição e apreensão assinado pelo ministro da Justiça com a formulação: "proíbo a publicação e circulação em todo o território nacional [...] bem como determino a apreensão de todos os seus exemplares expostos à venda, por exteriorizarem matéria contrária à moral e aos bons costumes".

No arquivo dos documentos do DCDP encontram-se os processos e os pareceres de Quatro cantos de pavor e alguns poemas desesperadosDez histórias imoraisDiário de André e Feliz Ano Novo.

Apesar de nas obras ficcionais, listadas antes, censuradas pela ditadura militar a temática sexual ser bastante presente, elas não são obras que possam ser classificadas como eróticas ou pornográficas.

O traço que parece ser mais evidente entre essas obras literárias é a filiação a uma certa literatura da violência – violência física e psicológica das prisões e torturas, a impunidade dos criminosos como mecanismo propulsor da violência, violência ensandecida e sem rumo dos marginalizados e excluídos – violências essas que a ditadura militar propiciara ou era incapaz de conter e se esforçava por ocultar.

Sandra Reimão
Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), Universidade de São Paulo, São Paulo/SP, Brasil.

LIVROS PUBLICADOS E DESAPARECIDOS DAS BIBLIOTECAS E LIVRARIAS.























 


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