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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

HISTÓRICO DOS ATERROS DA BAIA DE VITORIA- ES


 (OBS: CLIQUE DUAS VEZES SOBRE AS FOTOS PARA AMPLIA-LA.)

 POR: WILLIS DE FARIA (MEMÓRIA CULTURAL DA CIDADE)

A história da cidade de Vitória é rica em fatos e momentos responsáveis pelas transformações em sua paisagem. Os aterros tiveram grande expressão nessa trajetória de mudanças que ocorreram na cidade ao longo dos tempos chegando aos dias atuais. É notável a brusca alteração que as obras de aterros provocaram no espaço físico e na configuração do contorno da cidade, principalmente, na região da ilha, com a ocupação das áreas de mar e de mangue. Todos os acontecimentos vividos pela cidade foram acrescentando novos elementos na paisagem, e são estes acontecimentos que nos possibilitam reconstruir um aspecto da história dessa cidade que ganha sentido através de imagens, únicas capazes de retratar e contar a história e trajetória da paisagem de uma cidade. 


É difícil imaginar a cidade de Vitória no início de sua ocupação. Poucas foram as imagens da cidade registradas no século XIX. Com isso, pouco se consegue retratar daquele momento inicial em que Vitória, ainda uma vila. Localizada entre a baía e o maciço central da ilha, a cidade de Vitória circundada por braços de mar possuía extensas áreas de manguezais. 

A região que conhecemos hoje por cidade alta já existia, e foi assim chamada por ficar justamente numa elevação. A parte baixa era tomada ora pelos braços de mar, ora pelos mangues. Foi do aterro dessas águas interiores e mangues que surgiu a Vitória de hoje, radicalmente diferente daquela colonial. A cidade de Vitória, pela privilegiada posição geográfica, favoreceu sua afirmação como capital e porto, direcionando, a partir disto, seus destinos político e econômic , sua ocupação e desenvolvimento urbano. Sua conformação atual mostra grandes alterações no arquipélago, que marcado pela presença do mar e da montanha, teve ao longo do tempo grande parte de suas ilhas continentalizadas. Com o desenvolvimento econômico e conseqüentemente, com o crescimento populacional, houve a necessidade de serem ocupadas as partes baixas alagadas e cobertas de mangues, o que na época, representava grande dificuldade. Até este momento, somente a cidade alta havia sido ocupada.

Várias atitudes foram tomadas pelos governos a fim de possibilitar tal ocupação. Nesta perspectiva, os aterros tiveram grande importância contribuindo para a expansão territorial e higienização da cidade. As intenções das obras de aterros possibilitam, concluir que em todos os momentos da história existia o interesse político para a realização dos investimentos públicos. Desde as primeiras intervenções dessa natureza, havia uma elite, com interesses econômicos, que direcionava os investimentos urbanísticos em Vitória. 

Ao longo do desenvolvimento deste trabalho estes aspectos da história poderão colaborar para o melhor entendimento da evolução urbana da área em estudo, possibilitando a compreensão do processo de expansão e construção da paisagem de Vitória. Para uma melhor compreensão do conjunto de áreas criado pelos aterros, estes foram agrupados em quatro áreas. 

A área centro abrange os aterros do Parque Moscoso, Porto, Ilha do Príncipe e Esplanada Capixaba. A área denominada Forte São João à Enseada do Suá inclui além destes, os bairros de Ilha de Santa Maria, Jucutuquara e Monte Belo e Enseada do Suá e Praia do Canto. A região de São Pedro que corresponde aos bairros da Grande São Pedro, Andorinha e São Cristóvão. E a região continental compreendendo a UFES, Jabour, Maria Ortiz e a praia de Camburi. 
 Entrada da baia de Vitória - 1860
 FOTO: VITÓRIA CENTRO - 1884

Centro de Vitória - 1905
 
 
FOTO: VISTA DO CENTRO DA CIDADE - 1915
FOTO:PORTO DE VITORIA- 1912


 FOTO: SUBIDA DO FORTE SÃO JOÃO-1910
FOTO: ESTRADA DA CAPIXABA- CENTRO DA CIDADE-1910

 FOTO: ABERTURA DA AVENIDA CAPIXABA.1912

 FOTO: ABERTURA DA AVENIDA CAPIXABA.1912
FOTO: ATERRO PARQUE MOSCOSO- 1911







1920/1924
 Jucutuquara 
 1925
 Monte Belo
 1926
 Praia Comprida
 1928
 Ilha do Príncipe
 1936
 Ilha do Boi
 1951
 Esplanada Capixaba
 1951
 Bento Ferreira
 1968
 UFES
 1971
 Enseada do Suá
 1979/1981
 Grande São Pedro
 1979/1981
 Jabour
 1979/1981
 1979/1981
 1979/1981
 Andorinhas
 1979/1981
 São Cristóvão
 1979/1981
 Praia de Camburi. 









A maior parte dessas áreas nasceu de aterros sanitários, ou seja, lixões que mais tarde se transformaram em regiões históricas, como a Praça Costa Pereira, ou em bairros, a exemplo de Ilha de Santa Maria, Monte Belo, Ilha do Príncipe, Andorinhas, Maria Ortiz e São Pedro.  
Muito entulho e também areia do mar ajudaram a compor o novo traçado de Vitória, a partir da segunda metade do século passado, quando a cidade se expandiu em direção à Zona Norte. O motivo foram os aterros que ligaram o Centro à Enseada do Suá. 

 Estudo: As informações fazem parte de um estudo realizado pela Secretaria de Meio Ambiente de Vitória (SEMMAM) para orientar a construção civil e os projetos paisagísticos da cidade. Várias espécies vegetais já foram substituídas nos canteiros da Capital em função do desconhecimento de seu subsolo, lembra o chefe da divisão de administração das unidades de conservação de Vitória, O Geógrafo Willis de Faria, que realizou o levantamento.  "Perdemos todos os jequitibás plantados na Beira-Mar porque os aterros, ali, são rasos", ou seja o substrato formado de solo de mangues, salinos. A raiz dos das arvores citadas são pivotantes, explicou.
Além de apontar o perfil do subsolo. 

Aterro deu a Vitória 10 quilômetros quadrados de área em seu território.
A Gazeta (ES), 23 de julho de 2002


O equivalente a 1.168 campos de futebol, ou 10 quilômetros quadrados, foi o que a cidade de Vitória ganhou, no último século, com áreas aterradas. Deste total, 48,6% correspondiam a manguezais, 30,3% os fundos de baía, enseadas e a aterros sob arrecifes, como na Ponta de Tubarão, e 21,1% a áreas aterradas na Baía de Vitória. das áreas aterradas, o estudo também comprova que a área total da Capital é de 91 quilômetros quadrados, entre ilha e o continente, e não 89 quilômetros quadrados, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), afirma Willis.  Outra constatação é a de que Vitória não tem mais áreas de expansão. Os últimos loteamentos estão localizados em Goiabeiras e no Bairro Santa Terezinha, ambos na parte continental.
A expansão ocasionada pelos aterros não livrou a cidade da ocupação desordenada nas encostas, concluiu.
 Ampliações:
Mangues: 4.882.000 m2 (48,6%)
 Baía de Vitória: 2.123.000m2 (21,1%)
Fundos de baía, enseadas e sob arrecifes: 3.051.000m2 (30,3%)
Total: 10.056.000m2
As áreas aterradas correspondem a 1.168 campos de futebol


O momento inicial das transformações na paisagem de Vitória como conseqüência das obras de aterro aconteceu na atual região central da cidade. Os aterros surgiram, nesta região, como expansão da primeira área de ocupação, a Cidade Alta. Foi o Largo da Conceição e suas proximidades, onde hoje se encontra a Praça Costa Pereira, que recebeu as primeiras obras de aterro ainda no século XVIII. 

Foi definido em 1890, um Código de Posturas da Intendência Municipal da Cidade de Vitória que possuía dentre os objetivos listados o esgotamento de pântanos e águas estagnadas, aterros, tapamento de terrenos abertos e valas e canalização das águas.
 
Conforme mensagem de governo de 1908-1912, foi terminada uma vala coletora, iniciada no final do governo anterior do Sr. Coronel Henrique Coutinho, para fazer o escoamento das águas que inundavam o Campinho quando as marés se enchiam, e foram construídos vários drenos que convergiam para a vala, conduzindo as águas para o mar, possibilitando o secamento do mangal.
FOTO: AVENIDA CAPIXABA (ATUAL JERONIMO MONTEIRO-1936

A construção do porto na ilha de Vitória foi justificada do ponto de vista político por representar um impulso sócio-econômico para desenvolver a capital e ampliar seu sítio urbano, constituindo-se dessa forma em um ponto estratégico para a localização prevalecendo o interesse político sobre as vantagens econômicas, que apontavam Vila Velha como local para construção do porto devido à profundidade da bacia marítima e por permitir maior facilidade de ligação por estrada férrea com as outras regiões. Com o início das obras realizou-se o fechamento lateral avançando ao mar até encontrar profundidade, neste local foram colocadas pedras formando o início da construção da plataforma do cais. 


A área formada por este enrocamento recebeu aterros feitos com areia retirada da dragagem do canal de acesso, originando com isso, a plataforma onde seriam realizados os trabalhos de urbanização do porto, com a construção de armazéns para exportação e importação.





  FOTO: CENTRO E PORTO DE VITORIA-1967

O bairro da Ilha do Príncipe, hoje anexada à Ilha de Vitória, no passado, era de fato uma ilha e localizava-se entre Vitória e o continente (Vila Velha). O interesse do governo por essa área começou no governo de Florentino Avidos (1924-1928), com a construção das seis pontes. Na realidade, eram cinco pontes de Vila Velha à Ilha do Príncipe e uma desta à Vitória. Juntamente com as pontes, e para viabilizá-las, foram feitos os primeiros aterros na Ilha do Príncipe, em 1928. O propósito oficial era melhorar a acessibilidade, visto que o crescimento do porto impulsionou a necessidade de criar ligações com as outras regiões. Diversos pequenos aterros foram executados até 1960. Na década de 1930, duas mensagens de governo, a de 1930 e a de 1932-1942, citam a realização de aterros nesta região.

Em 1957 foi aprovada uma Lei Municipal nº 664 que autorizava o executivo a aterrar a área do mar localizada entre a Ponte “Florentino Avidos” e o Cais Schimidt. A área aproveitada ao mar seria loteada, sendo os lotes vendidos em concorrência pública. Posteriormente a esta aprovação e provavelmente como resposta a esta lei, em 1960, de acordo com o relatório da Secretaria de Viação e Obras Públicas, do exercício daquele ano, foi realizado grande área de aterro na Ilha do Príncipe para incorporar esta a Vitória aproveitando o produto de dragagem da obra de aprofundamento do canal de acesso e da baía de evolução. Essas obras visavam, conforme mensagem, embelezar a capital, além de conquistar áreas necessárias a seu crescimento. 

Foi a partir do Plano de Valorização Econômica para Vitória, no segundo governo de Jones dos Santos Neves (1951-1955), realizado o aterro da Esplanada Capixaba, entretanto, desde o governo de Bernardino de Souza Monteiro (1916-1920) pequenos aterros foram realizados na região da capixaba como medida sanitarista, assim como no governo de Florentino Ávidos, como parte do Plano de Melhoramentos de Vitória, que além de obras de aterros construiu o mercado da capixaba utilizando-se de área acrescida e abriu a avenida Capixaba, prolongamento da rua da Alfândega e da ladeira Pernambuco (atuais avenida Jerônimo Monteiro e rua Wilson Freitas, respectivamente).



Jucutuquara recebeu aterros principalmente na década de 1920, como forma de conter os alagamentos que aconteciam no bairro causado pelas enchentes do rio Jucutuquara. Segundo mensagem de governo de Florentino Ávidos do período entre 1924 e 1928, estas obras foram realizadas como medida de higiene, para prevenir surtos de doenças, e para a construção de casas para funcionários públicos, além de abertura de novas ruas e retificação da antiga rua de Jucutuquara. 

Foi a partir do Plano de Valorização Econômica do segundo mandato do Dr. Jones dos Santos Neves, no período de 1951 a 1955, que a área entre o Forte São João e Bento Ferreira passa a receber obras de aterro que tinham como justificativa a recuperação de áreas em mangais, conforme mensagem de governo do ano de 1953. Nesse governo foi construído o enrocamento, desde as proximidades do Suá até o antigo porto de Vitória, com a intenção de isolar os mangues e aterrá-los com o desmonte dos morros e a areia retirada pela dragagem do canal da Baía de Vitória.

Em 1971, foi anunciado um projeto de urbanização para esta área da Praia do Suá, pela Companhia de Melhoramentos e Desenvolvimento Urbano (COMDUSA) e em 1972 foi assinado o contrato para a execução do aterro da área limitada pelas Praias do Suá, Santa Helena, Comprida e Praia do Canto e pelos enrocamentos ligando as ilhas do Sururu, do Bode e do Boi às pontas do Suá, de Cima e Formosa. Conforme mensagem de governo referente ao período de 1971 a 1974 foram realizados o levantamento topográfico e cadastral e foi iniciado o aterro hidráulico. Ainda segundo esta mensagem, o projeto tinha por objetivo o aproveitamento racional de grande área de localização privilegiada abrigada de um lado por um enrocamento realizado pela DNPVN (Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis).
A década de 1970 é marcada pelo elevado índice de desemprego na zona rural e pela eclosão de movimentos sociais urbanos em busca de melhor qualidade de vida. Transformações urbanísticas surgem como reflexo dessa problemática social-econômica. Acentua-se o processo de invasão de terras pelos novos habitantes da cidade em busca de moradia, ocupando propriedades particulares e públicas. É nesse contexto que se inicia o processo de ocupação da atual região da Grande São Pedro. 
Solicitaçoes enviadas para meu e-mail:

Prezado Willis,
estou escrevendo uma matéria sobre aterro em duas ilhas-capitais, Florianópolis e Vitória - sou de Florianópolis - e li alguns de seus textos no blog e uma entrevista muito boa que encontrei no youtube. A matéria tem foco na relação entre arquitetura e meio ambiente e será publicada, em breve, no site da Fundação Goethe: http://www.goethe.de/ins/br/lp/kul/dub/umw/ptindex.htm
A matéria já está bem fundamentada historicamente; então gostaria de saber uma opinião sua, se possível, sobre a maneira como o problema dos aterros está sendo tratada hoje. Novos aterros estão sendo realizados? Ou, de que modo está refletido em Vitória, hoje, os aterros que a cidade sofreu? E uma dúvida que eu tenho: Você acha que nenhum aterro deve ser feito ou o problema é que os aterros não são feitos com planejamento e cuidado com o meio ambiente? Você poderia me dar um depoimento que tangenciasse estas questões?
Um abraço, e obrigado,
Victor.

Nossa resposta:
Caro Vitor da Rosa

Hoje os aterros em Vitória, seja na ilha ou na região continental, tem que passar por vários licenciamentos, seja do Governo do Estado, quando na Zona Portuária e nos canais pelo município, através de um EIA (Estudos de Impacto Ambiental). Terá que ser o projeto apresentado em uma audiência pública para sua aprovação, e depois pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA) e Conselho do Plano Diretor Urbano (CMPDU). Ficam muito difícil hoje aterros junto à orla, a não ser em engordamentos de praia, por causa da erosão. Pelo que você pode observar que Vitória, em sua ilha, as grandes edificações ocorreram nas áreas conquistadas com aterros de interior de baias. Podemos hoje afirmar, que a baia de Vitória praticamente desapareceu, ficando apenas canais e estreitos. As grandes edificações com mais de 35 pavimentos estão hoje sobre estes aterros. Como falei em meu BLOG “O MAR ENGOLE A TERRA E SURGE A METROPOLE”. Hoje temos um problema muito sério, uma briga que esta no Congresso Nacional sobre os terrenos de marinha, ou seja, os “acrescidos de marinha”, que vem infernizando a vida dos capixabas, e acredito também em Florianópolis, pois muito conheço a sua cidade. O senador do nosso estado, o Ricardo Ferraço, vai relatar uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), que vai acabar com a cobrança da União sobre terrenos de Marinha, e eu esta semana fui convidado por sua equipe para fazer parte da equipe técnica que vai fornecer os dados históricos e técnicos sobre o assunto. No meu BLOG, eu relato todo este problema de terrenos de marinha em nossa ilha.
O lado positivo no sentido urbanístico foi que os aterros possibilitaram abertura de vias coletoras mais largas, com ciclovias, praças e áreas de lazer. Também foi possível, retirar do centro da cidade, que tem suas vias estranguladas, todas as repartições institucionais, federais, estaduais e municipais, voltadas para os três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Existe um problema quase crônico nestas áreas aterradas ou conquistadas do mar. Quando da maré alta e caem as chuvas torrenciais, grandes partes das áreas aterradas ficam alagadas porque estão ao nível do mar, e não consegue escoar as águas que descem com velocidade das encostas de nossa capital. É um caos total, mesmo havendo duas estações de bombeamento de águas em dois pontos coletores da cidade. Bem, acho que no momento isto que posso relatar. Mais detalhes estão em vários artigos em meu BLOG.

Abraços

Willis de Faria
Geógrafo
(Especialista em Geopolítica, Legislação Ambiental e e Estudos de Ecossistemas Costeiros)


3 comentários:

  1. Prezado,
    Seria possivel ter acesso ao trabalho realizado pelo Willis com relação aos aterros feitos na ilha de Vitoria??? Procurei no site da SEMMAM, porem, não achei este trabalho que voce cita. Sou servidora da Secretaria dao Patrimonio da União e tenho interesse neste trabalho, para resposnder algumas demandas sobre esses aterros realizados na Ilha, em especial na area de Bento Ferreira.Por favor entre em contato comigo no mail: tmvsilva@gmail.com

    Obrigada. Tânia

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  2. Prezada Tânia
    Estou postando o link requerido abaixo, que está em meu Blog.

    http://deolhonailha-vix.blogspot.com/2010/05/noticias-sobre-o-aumento-territorial-da.html

    Espero que tenha atendido a sua solicitação.
    Abraços
    Willis de Faria

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