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segunda-feira, 31 de maio de 2010

OS BONDES E JUCUTUQUARA

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Por: WILLIS DE FARIA (Crônicas de um Bairro)

Nasci ilhéu, no alto da Vila Rubim, mas criado em Jucutuquara ou inicio dos Fradinhos.Hoje a nossa residência esta enquadrada no limite de bairros como Fradinhos; e onde eu morava era conhecido com "final" da linha (do bonde), tendo como referência o bar do Ciroca, onde podia tomar caldo de cana com pastel e comer uma “manteguinha”. Era o bar freqüentado, principalmente quem ia seguir adiante para Maruipe. Lá não vendia cachaça, só no bar ao lado do Cesar Poltronieri ou o vizinho Bar de Joaquim Silva, o "Quikas".Entre os dois primeiros bares tinha a pensão do senhor Manoel Donêncio, onde sua filha Diva (bastante farta pelas gorduras abundantes) fazia o serviço de portaria. Mas voltando ao passado, ou seja, no inicio de século os primeiros bondes a circular eram puxados a cavalos, ou burros, e fazia a linha Centro–Praia do Suá, local de banhos dos aristocratas. 
 FOTOS POSTAIS VICTÓRIA.1908 - PRAIA DO SUÁ
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Mas em 1909, começou a funcionar uma locomotiva, movida a carvão. O veiculo fazia o mesmo percurso e pertencia a Cia ferro Carril e depois passou para a Leopoldina Railway, dona das extensas terras de Bento Ferreira, e tinha sua garagem entre o morro de Bento ferreira e o Morro do Álvares Cabral. 
 Foto: Inauguração do bonde eletrico, em 21 de julho de 1911

 Já o tipo clássico, movido a energia elétrica veio em 1911 (foto acima), administrado pela Cia. Brasileira de Força Elétrica (CCBF).
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 FOTO: AVENIDA VITÓRIA - DIREÇÃO JUCUTUQUARA-PRAIA DO SUÁ.

O por força do destino, meu primeiro emprego em 1967, foi na CCBF, mas após o termino dos bondes em 1965. O bonde era o transporte de massa da capital (só em dia de chuva que os passageiros sofriam). Para atender a grande massa da população, vários modelos de bondes apareceram: O bonde especial funerário (que ia para Santo Antônio), que transportava o caixão em um reboque e em outro carro viajava o cortejo.
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 Tinha o “Taioba”, que funcionara pela madrugada e manhãs. Era um caro sem assentos, que além de transportar verduras e legumes para o mercado, onde seriam vendidas, levavam os boêmios de volta para as suas casas. Nos anos 60, tinha um bonde circular, que só trafegava pelo centro da cidade, ligando à parte alta a parte baixa da cidade. 
 
 FOTO: AVENIDA VITÓRIA - SUBIDA DO FORTE SÃO JOÃO

 Havia outras linhas regulares, tais como: Centro/Jucutuquara, Centro/Praia do Suá, Centro/Praia do Canto. Centro/Praia Comprida, Centro/Santo Antônio. A oficina até o final de seu funcionamento ficava na Rua Sete de Setembro, em um local chamado de convertidora. A CCBF, ainda era responsável pelo serviço de lanchas ma baia de Vitória, que ligava o Centro a Paul (Vila Velha) e pelo serviço de telefonia. 
 FOTO: AVENIDA SANTO ANTONIO - BAIRRO SANTO ANTÔNIO

Mas viajar nos bonde nos anos 50 e 60, nos traz grandes lembranças, seja pelo balanço durante seu  tráfego, o vento de batia em nossos rostos, mas compensado pelo silencio durante seu trafego, onde só ouvíamos as batidas secas quando passava sob as emendas das linhas dos bondes. Podemos descrever de modo especial este mágico transporte: “Plá...pla ...plá”, era a batida seca dos bancos de madeira dos bondes que trafegava pela cidade, após a chegada em seu ponto final. Era com cobra de duas cabeças, não fazia o contorno para voltar, e sim o “motorneiro” (condutor do bonde), se dirigia para o outro lado do bonde, com a chave de velocidade na mão, e voltava para seu outro destino. Os bancos mudavam de posição, quando o encosto dava um volta por cima do banco, colocando em posição frontal ao novo destino. 
 FOTO: AVENIDA PAULINO MULLER - JUCUTUQUARA

O cobrador tinha esta função, virar um por um. Eu “sentia”, este trabalho “na carne”, pois morava no “final da linha”, e durante o silencio da noite, as batidas ecoavam por todo vale de Jucutuquara. Eles “recolhiam” a garagem após as 11 horas.
O Motorneiro obedecia ao comando das linhas existentes, seguiam o traçado das linhas, e tinha a função de parar, dar a partida e aumentar a velocidade (não passava de 20 km por hora), só atingida na reta do cruzamento (em direção ao Forte São João) e do Constantino (em direção a Praia do Suá). Ouvíamos o canto de esmerilhar nas curvas, e depois silenciosamente seguia seu rumo. Havia varias entradas para o bonde através do estribo único ou duplo, de madeira, dependendo do modelo do bonde. 
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As lonas que fechavam as laterais eram listradas, que RAM puxadas para baixo até chegar ao engate. Em tempo de chuva, tinha que estarem fechadas. Três funcionários trabalhavam na operação do transporte: o Motorneiro, o Cobrador e o Fiscal. Todos usavam uniformes de cor caqui, tipo militar com grandes bolsos laterais. O motorneiro, cobrador e fiscal, obrigatoriamente usavam um quepe (chapéu) tipo militar.
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 FOTO: AVENIDA JERONIMO MONTEIRO - PRAÇA OITO - VITÓRIA

O cobrador era um verdadeiro malabarista, pois trabalhava andando pelo estribo, com dinheiro entre dos dedos, fazendo a cobrança das passagens. Agarrava-se, nos mastros que separávamos compartimentos dos bancos. Ao sabor do vento, ele tintilhavam as moedas e gritava: “eis, eis, cobradooor”. Todos sacavam suas moedas de seus bolsos e pagavam a passagem. Para esta façanha o cobrador girava rapidamente ao redor do bonde, para não deixar ninguém escapar sem pagamento. Só os moleques escapavam principalmente eu, que tinha que saltar no Colégio Estadual, localizado no final do Forte de São João, e dava “um banho no cobrador”, pois quando ele circulava para o lado, oposto, eu ia para o outro lado que ele já tina passado. Esta era a estratégia dos estudantes. 
 FOTO: AVENIDA JERONIMO MONTEIRO - ARIBIRI- VILA VELHA

Quem não gostava muito era o cobrador conhecido com “cabeção”, que arregalava seus olhos azuis e dizia: “vou lhe pegar moleque”. Mas era tarde, toda turma saltava com o bonde andando, éramos mestre nesta arte de salta com o bonde trafegado. Ao findar a viagem, era a vez do fiscal, que andava por todo estribo do bonde, contando o numero de passageiros, para registrar em sua caderneta e depois registrar em um relógio analógico que tinha uma correia que puxava, e registrava um por um passageiro, e o numero ficava também registrado no relógio de conferencia. Também era um barulho muito esquisito que tínhamos que ouvir: “nheco, nheco, nheco.” Bem, o bonde não tinha buzina, e a comunicação de pedir passagem, era feita quando o motorneiro pisava sobre um pino que tinha no chão próximo ao lugar de condução/pilotagem, e saia o som: “pleim, pleim, pleim”. 

 FOTO: AVENIDA VITÓRIA - CRUZaMENTO EM FRENTE AO BAIRRO HORTO.

Como falei, por força do destino, em 1967,ingressei no meu primeiro emprego “engravatado”, na seção de consumidores, que ficava na Praça Costa Pereira, e nesta seção fui ser companheiro de quase todos os cobradores, fiscais e motorneiros, onde dividíamos as atividades de leituristas e conferentes. Fizemos grandes amizades e contamos muitas histórias dos bondes. Lá estavam o “Cabeção”, “Galo Cego”, “Força Maior”, “Plácido”, “Dirceu”, “Orosimbo” e outros. Todos eram conhecidos por apelidos. Foi uma experiência que ficou para sempre em nossa memória. Por três anos fomos companheiros de trabalho.

O ONIBUS (LOTAÇÃO) DA LINHA FRADINHOS VIA CIDADE ALTA.


Era década de 60, Fradinhos passava a ter a sua vida própria, e ainda não era bairro, e sim o final de Jucutuquara. Os moradores tinham que vir a pé pegar os ônibus que se dirigia para o centro da cidade que era a linha São Torquato - Cruzamento (aliás, era a única linha intermunicipal), que avançava até o final de Jucutuquara para pegar passageiros, ou a linha Barreiros-Vila Rubim. Ou o bonde que ainda existia, mas só chegava em 30X30 minutos. 

Meu pai, Boécio Pache de Faria, chefe do gabinete do Prefeito Solon Borges, conseguiu uma concessão para o Vereador Juarez Martins Leite, colocar uma linha para Fradinhos, que passaria pela cidade alta até chegar ao Parque Moscoso. Uma linha interessante, porque os moradores da cidade alta ainda não tinham condução. 

O Juarez adquiriu as lotações sucateadas do Rio de Janeiro, que estavam sendo retiradas de circulação. Aquelas que tinham um número grande em cima, e era pequena de cor abóboda alaranjada e podia trafegar pelas ruas estreitas de Fradinhos e também da cidade alta. Mas, foi criada uma tremenda confusão com o proprietário da linha São Torquato – Cruzamento, o Sr. Vitalino Biancucci, um italiano efervesceste. Travou o maior bate boca com meu pai e o Vereador Juarez, pois se sentia prejudicado, o a concorrência ia diminuir o número de seus passageiros.

Seus ônibus também eram velhos e eram muito lentos e desconfortáveis, e demoravam atravessar a cidade e ir até nas alturas do Cine Americam, em São Torquato. O velho Vitalino morava em um prédio construído por ele, em frente à subida do Museu Solar Monjardim, na Avenida Paulino Muller, esquina com a Rua Pinto Homem de Azevedo. Lembro-me, de quando eu andava com meu pai, que ia sempre ao Mercado São Sebastião, em Jucutuquara (a pé), e quando passava em frente ao prédio do Vitalino, ele proferia sempre palavrões agressivos a integridade de meu pai. 

Mas, por desgosto, sua linha parou de funcionar, e sem contar da ação de ilegalidade movida pelo Município de Vitória, de funcionamento de sua linha era irregular por ser intermunicipal, e não podia trafegar na capital, o que motivou a cassação de sua licença. 

Os lotações só funcionaram apenas por 02 anos, e saíram de circulação por falta de passageiros. Para suprir a demanda dos de Jucutuquara, já com a retirada dos bondes foi criada a linha Tabuazeiro - Vila Rubim.

 Funcionava uma pequena lotação de linha independente, conhecida como “tartaruguinha”, pois ela não tinha horário de funcionamento e só saia quando a lotação estava completa. Ele era o motorista, cobrador, Etc. Tinha uma concessão antiga, e não podia ser cassada. Funcionou por muitos anos.

JUCUTUQUARA HOJE. 2010


Por: WILLIS DE FARIA (Crônicas de um Bairro)
É impossível compor um hino ou samba-enredo que enfeixe todas as grandes referências do bairro conhecido por "nação", tamanha a sua diversidade, uma das maiores por metro quadrado da Ilha. Mas pode-se tentar, de preferência sem pausas nos compassos, para maior aproveitamento. Solar Monjardim, a Pedra dos Dois Olhos, Escola Técnica, a Fábrica de Juta, o Bar do Davi, o Bar do Ceará, Mercado e Igreja de São Sebastião, o antigo campo do Rio Branco, o Cine Trianon, o craque Fontana, o cronista Carlinhos Oliveira, a benzedeira Maria Coroa, os bondes inesquecíveis, a Rua Velha, os caranguejos apetitosos, a coruja que pia samba através da Unidos de Jucutuquara. Os apressados motoristas e passageiros que transitam diariamente pela Avenida Paulino Müller sequer imaginam que por ali estão concentrados e resumidos trabalho e boemia, tradição e modernidade, bairristas e cosmopolitas, nobres e plebeus, famosos e anônimos, gente de todas as raças e credos. Palco de moradia de muitos políticos de expressão do Estado, e a força da musica, pois antes do samba, foi berço da primeira banda de Rock and Roll do Estado, que surgiu em 1965: The Bats (Os garotos de Jucutuquara), cujas guitarras ecoavam pelo vale. Enfim, Jucutuquara é uma aquarela de formas e cores vivas, quase um museu aberto. "Aqui até as pedras enxergam", sentencia um sábio morador, apontando para a enigmática Pedra dos Dois Olhos, bússola de palavra de origem grega que significa o "O Deus em nós", ensina a professora Léia Brígida Rocha. Um entusiasmo que às vezes beira de caos social, como nos sábados de aleluia, quando os moradores saem às ruas para malhar Judas extraídos da vida real. Hoje o mar está mais longe dos olhos, o bairro se espalha pela enseada, o trânsito mais perto contorna peixarias, o congo entoado em tambores e casacas às vezes é abafado por carros barulhentos com suas insípidas caixas de som mecânico. Hoje Jucutuquara é uma aldeia, que se resume em um mundo porque é exaltada de forma sincera e apaixonada. Por isto Jucutuquara é uma nação.


ESTÁDIO GOVERNADOR BLEY - O ORGULHO DO BAIRRO

(CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR)
O futebol sempre foi à grande paixão dos brasileiros e acompanhamos atentamente o desenrolar do campeonato carioca e capixaba. Nos finais de semana na década de 50 e 60, sempre estávamos de ouvido no radio (principalmente a radio nacional e globo) acompanhando os jogos, pois a televisão ainda não tinha chegado à cidade. A grande felicidade que eu e meus irmãos tivemos, foi quando em 1961, ganhamos de presente um radio a pilha, do tamanho de um sabonete, pois o nosso pai era recém chegado dos Estados Unidos das América, pois lá estava em uma delegação sindical, representando o Sindicato dos Ferroviários da Cia. Vale do Rio Doce, a convite do Presidente John Kennedy. 

Bem, o importante é que começava a moda de levar rádios a pilha para os estádios, para ouvir os jogos. Quando tinha jogo de futebol no estádio Governador Bley, era festa em todo bairro, que se localizava na av. Alberto Torres. Muitos torcedores circulavam agitados nas ruas do bairro e o ponto de encontro da torcida capa-preta (Rio Branco), era o Bar do Ceará, localizado em frente ao portão central do estádio. Ali os torcedores tomavam os seus aperitivos, e faziam  prognósticos do resultado da partida. O povo do bairro observava atentamente o movimento dos torcedores. 

Durante os clássicos futebolísticos da época, como Rio Branco X Vitória, a agitação ainda era muito maior. Festa com direito a muito foguetório era durante as partidas do campeonato brasileiro de seleções estaduais. A seleção capixaba portava a camisa da FDE (Federação Desportiva Espírito-Santense), portanto jogadores em sua maioria da terra. Estes faziam explodir de paixão os torcedores, pois o amor a terra estava em jogo. Nossos tradicionais adversários (de acordo com a tabela) eram os fluminenses, baianos, goianos e mineiros. 

Lembro-me de alguns jogadores de plantel de 1962: Irezê e Carlos Magno (goleiros), Xavier, Diogo, Edalmo, Hélio, Ivan, Monte, Foca, Maciel, Fontana, Carlinhos Gabiru, Beto Pretti, Alcione, Robertinho, Wilson Pereira, Cafuringa. Todos envergavam a camisa branca, com duas listas azuis e rosa no peito, com um circulo ao centro, com as iniciais FDE. 

O local mais disputado pela maioria dos moradores do bairro era o morro do rio Branco que ficava atrás do gol a esquerda das  arquibancadas. Durante os jogos importantes, devido à pequena capacidade do estádio em receber torcedores, fazia o morro ficar repleto de torcedores. 

O muro do estádio não era alto, mas pular nem pensar, pois do outro lado fica cheio de “meganhas” (policiais militares), e caso alguém pulasse, o cassetete “comia”. A única chance de a garotada pular o muro, era nos jogos das seleções estaduais, pois quando tocava o hino nacional, os policiais ficavam imóveis e não podiam perseguir os torcedores. 

Havia no estádio, muitas autoridades, e na hora de entrada em campo era um foguetório infernal. O futebol sempre esteve no sangue do bairro, e alguns perpetuaram esta história. Vale lembra o Sr. Eugenilio Ramos, grande desportista que morava ao lado da igreja de São Sebastião. Ele era um fanático dirigente Capa-Preta (Rio Branco). Tínhamos ainda o Sr. Manoel Donêncio, cujo nome verdadeiro era Manoel Pinto das Virgens, apaixonado pelo Rio Branco e Flamengo (RJ), e o maior incentivador do Anchieta Esporte Clube. O Rubens Monjardim, o eterno técnico de escolinhas de futebol. 

Outra pessoa que muito colaborou com o futebol, por detrás dos bastidores, foi o Sr. Otacílio dos Santos, o sapateiro, que cuidava com carinho das chuteiras dos jogadores, e também dos sapatos dos moradores de Jucutuquara. Sua lojinha ficava debaixo das arquibancadas do estádio. Era um exímio artesão. Mora atrás de minha casa em Fradinhos, no alto do morro. 

Mas, hoje no estádio Governador Bley, não se disputam mais partidas oficiais de futebol, pois o mesmo foi comprado pela Escola Técnica Federal na década de 70, para a prática desportiva escolar. O estádio esta presente até hoje no bairro, como um marco de sua história.

                            FOTO DO ANTIGO ESTADIO DE ZINCO, TIRADA EM 1932, DURANTE DESFILE ESCOLAR.
                                           FIGURA- CONSTRUÇÃO DO ESTADIO-1936
                                            FIGURA- COMPETIÇÃO DE FUTEBOL - 1940
                                FIGURA: COMPETIÇÃO DE FUTEBOL - 1950
 

O CAMPINHO DA ONÇA - ONDE NASCIAM OS JOGADORES DE FUTEBOL DO BAIRRO.


O CAMPINHO DA ONÇA
Por: WILLIS DE FARIA (CRÔNICAS DE UM BAIRRO) 


Encravado em um vale, tendo aos dois lados os morros do Gegê e dos Monjardins, e bem no meio da mata, existia o Campinho da Onça. Este erra o local mais freqüentado pela garotada do bairro. Jucutuquara e Fradinhos, sempre foram localizados ao meio de um extenso vale, cercado de grandes morros e cobertos por densa mata. 

A parte mais baixa havia as ruas, que era serpenteado pelo córrego Fradinhos, cujas nascentes de suas águas era na Chácara do Gegê, mas alimentado por outras nascentes, cujas águas desciam das encostas. As áreas planas eram ocupadas pelas ruas, destinadas aos ônibus e bondes, que margeavam o córrego, que após receber águas de esgotos domésticos, transformava-se em uma grande vala. A única área de lazer da garotada era um vale, sitiado no meio da mata, apesar de não muito plano o campo era gramado naturalmente, cuja vegetação rasteira dominante era o arrozinho do campo, muito utilizado em chás caseiros para pedra nos rins. Nos limites do campo existiam grandes arvoredos e arbustos, onde se mesclaram aroeiras, quixabeiras, câmaras e leiteiras. 

A trilha para o Campinho da Onça era contornada por grandes pés de pinão que queimava as canelas dos menos avisados. Sobra era o que não faltava, e ai era o local que ficava a torcida, ou time que esperava a vaga para jogar. A poucos metros passava o córrego dos Monjadins, onde podíamos beber uma água cristalina. O único inconveniente às vezes era as fezes do gado junto à água. Para se chegar ao Campinho, era necessária uma caminhada de uns 20 minutos ao meio do mato seguido de uma picada ao meio das pedras ou encostas.  

O som dos pássaros dava harmonia ao ambiente, ao lado do silencio da mata. Eram sons de rolinhas, coleirinhas, tizius, gaturamos e saíras. O único inconveniente da caminhada era passar junto ao curral de Mario Monjardim e no pasto dos bois, pois se existisse alguma vaga com cria, era carreira na certa, e a uma certeza de se defender era correr para cima das pedras, e aguardar o animal a se afastar do local. O campinho da Onça era muito disputado pela garotada para as “peladas” diárias. Havia as traves cuja origem era o corte de alguns galhos de arvores locais. O campo não era grande ou extenso, talvez uns 15x50 metros, suficiente para o lazer. 

O retorno das peladas se dava sempre com o cair da tarde, onde todos os corpos suados já sentiam o frio da noite. O campinho aos poucos foi perdendo a sua importância principalmente no inicio dos anos 60, pois quando surgiu o Esporte Clube Fradinhos (uma facção o Anchieta Futebol Clube), e Sr. Maximo Varejão doou uma parte de sua propriedade para os moradores construírem uma quadra de esportes, ao lado da capelinha de Santo António. Cortou-se um grande barranco, onde todos os moradores trabalharam uma quadra de concreto na construção. Tudo foi feito, devido à matéria prima conseguida nas festas realizadas no bairro. A partir de sua inauguração, o Campinho da Onça caiu no esquecimento, pois a garotada passou a freqüentar a quadra do Esporte Clube Fradinhos, pois esta estava mais próxima as suas residências.

Hoje o Campinho da Onça não mais existe como também o Esporte Clube Fradinhos. A área onde existia o campinho é hoje ocupada por residências de alto luxo, que passaram a fazer parte da paisagem do bairro. Hoje, estas residências ocultam um pouco da historia do bairro.



JUCUTUQUARA - FRADINHOS : A FAZENDINHA DOS MONJARDINS


A FAZENDINHA DOS MONJARDINS

Por: WILLIS DE FARIA

(CRÔNICAS DE UM BAIRRO)

A década de 50 foi início do período das transformações sociais, econômicas e ambientais. Jucutuquara foi à ponta do iceberg destas transformações, pois era o bairro mais próximo ao centro da cidade. Todos os moradores puderam acompanhar atentamente as mudanças. 

Eu era um pequeno menino alheio aos problemas que a sociedade iria ter que enfrentar. A mim só interessava o estudo e o lazer. Era assim que pensava todos os meninos da época. Geograficamente o bairro era situado em um grande vale, cortado por um córrego de águas claras, vindo dos fradinhos, e  eu recebia um pequeno afluente na “entrada” dos Fradinhos, vindo da área denominada “mangueiral”, oriundo de Maruípe. 

Sua nascente era nas cabeceiras do Morro dos Bastos. Bem o “mangueiral”, era uma chácara com muitas frutas, com destaque para goiaba, jambo branco e jambo vermelho, Jamelão, perinho e muitas mangueiras (rosa, espada, carlota, coração de boi e outras). Todos podiam tirá-las quando estavam maduras. 

O vale de Jucutuquara era de beleza incomum, pois no alto dos morros existiam umas densas vegetações e a neblina cobria o vale, nas madrugadas de noites frias, dando aspecto de cortina de seda. Havia perto de minha casa, no final de Jucutuquara e inicio de Fradinhos (chamávamos de final da linha de Bonde), no alto da encosta, o curral do Sr. Mario e Áureo Monjardin. 

Que ficava mais precisamente no morro de Fradinhos. Havia muitos animais (bovinos e caprinos) que pastavam tranqüilamente durante o dia por toda encosta. Acordar cedo (às 6 horas) era uma obrigação diária, por uma picada pelo meio do mato, lá ia eu, com a “leiteira” na mão, busca o leite para o café da manhã. Lá já estavam os senhores Mario e Áureo com os filhos José Áureo “Olho de Garoupa” e Jair “Pé de Banda”, sentados em banquinhos, ordenhando as vacas e cabras. Bem, apelido nas pessoas era comum entre todos os moradores do bairro. Era como uma marca registrada.

Poucos não tinham apelidos, mas isto vai ser falado em outro capítulo das histórias.  Abaixo do curral, tinha um pequeno alagado, provocado por uma improvisada barragem, onde o gado matava a sua sede. As águas vinham de um vale denominado “Campinho da Onça”. Ali todos os animais silvestres também bebiam água. Era o local predileto para os passarinheiros para a captura das aves. Todos os jovens do bairro Criavam em suas cãs passarinhos silvestres. Eu também tinha meu viveiro de passarinhos com as mais variadas espécies (coleirinhas, tiziu, gaturamo, saíra, rolinha, juriti, galo da campina, gaturamo mirim, bombeirinho, curió, melro e outros). 

Não só existia o viveiro, mas também as varias gaiolas, que ficavam penduradas na varanda de casa. Pela manhã, os cantos uníssonos das aves eram ouvidos por todo vale. Diariamente a garotada pegava as suas gaiolas, com seus coleirinhos cantadores, armados de açalpão e visgos, seguiam para o mato..., Perto da represa. Era uma disputa terrível pela melhor “espera” (local onde mais provável que a ave iria efetuar o pouso), que podia ser uma pedra, uma cerca de arame ou galho de árvore. Ficávamos escondidos, a uma distancia aproximada de 20 metros, de preferência em uma sombra de árvore, onde ficávamos na “espia”. 

O silêncio era obrigatório, barulho só o do vento ou mugir do gado. Por baixo das “capoeiras” de aroeira e fedegoso eram armas as arapucas para capturar as rolinhas. Após algumas horas, voltávamos para casa com a captura, que logo iam para o interior dos viveiros. Para realizar estas travessuras e aventuras, tínhamos que enfrentar alguns perigos, tais como as vacas bravas. 

A vaca era o terror do morro principalmente as que tinham crias novas. A que era terror da garotada era uma vaca chamada de “Farmácia, que carreiras davam aos menos avisados”. Mas, hoje, a fazendinha não mais existe, mas sim apenas residências de alto luxo. A represa deu lugar a uma grande ladeira, com bastante aclive, coberta de asfalto e concreto, sem o menor vestígio do passado. As matas das encostas, o campinho da onça não mais existe. 

Os bois e as cabras são apenas histórias do passado. Na realidade, ouve uma imensa transformação, só ficando vagas lembranças.

JUCUTUQUARA - O BAIRRO OPERÁRIO - O INICIO DA "NAÇÃO" - "A VILLA MONJARDIM"


A FÁBRICA DE TECIDOS DE JUCUTUQUARA e O GRUPO ESCOLAR PADRE ANCHIETA - vizinhos face a face.

Por:WILLIS DE FARIA (CRÔNICAS DE UM BAIRRO) 

Para iniciar o funcionamento da Fábrica, foi necessario a construção do bairro operário, previsto no projeto de Francisco Saturnino de Brito, "a Vila Monjardim". Por volta de 1924 (foto) tiveram inicio a construção da mesmas, e poderemos observar nos fundos o morro do Cruzamento sendo ocupado com barracões de zinco, ocupado pelos antigos escravos libertos e seus descendentes.

  

Sinal de progresso era o que simbolizava a União Manufatora de Tecidos e Sacaria de Juta. Nada mais era que o “portal” do bairro, pois se encontrava encravado na Av. Vitória, esquina com Avenida Paulino Muller, nos contrafortes do morro do Romão. 

O nome “Cruzamento” vem da importância do local, pois servia de desvio para o vale de Jucutuquara e a região praiana, onde os bondes elétricos eram o principal meio de transporte da capital. Ali eles tomavam rumos diferentes.  A Avenida Vitória também era denominada de “reta do Constantino”, no sentido da região praiana, pois Constantino Carvalhinho era o proprietário do bar que ficava no entroncamento, e era chamado também de “abrigo”, pois era o único local que abrigava os usuários do transporte coletivo, do sol de da chuva. Ficava na Praça Asdrúbal Soares. Linhas de bondes se cruzavam e o motorneiro (condutor do bonde), tinha que esperar alguns minutos os bondes    que vinham no sentido contrario pela Avenida Vitória, pois não havia trilhos duplos. 

Em frente a fabrica de Tecidos estava o Grupo Escolar “Padre Anchieta”, construção de dois pavimentos, sempre de cor amarela e bastante grande, com um pátio no seu interior, e um galpão coberto que abrigava a parte interna, onde estava o refeitório, onde diariamente na hora o “recreio”, tinha para comer macarrão com leite queimado. Tudo eram gratuito e muito saboroso. Lembro-me que a diretora do período que lá estudei (1955-59), era D. Maria da Glória e D. Adelaide. Sr. José era o porteiro que tomava conta das crianças, principalmente na hora de atravessar a av. Vitória. 

No pátio externo, cujo lado externo era só manguezal da ilha de Santa Maria, e mais próxima a av. Vitória, uma plantação de Juta, tinha um imenso Pau Brasil, árvore símbolo Nacional, e todos os anos no dia da árvore faziam uma homenagem a natureza. Aprendi a valorizar a natureza nestes momentos. 

A frente da escola estava então a Fabrica de Tecidos e Tecelagem de Juta, que tinha uma importância vital para a população de Jucutuquara, pois daí surgiu à origem do bairro, a ainda grande parte da população ali trabalhava. Funcionava em quatro turnos de trabalho e o barulho das maquinas funcionando constantemente era ouvida a grande distancia. 

O apito da fabrica na troca de turnos era o que mais marcava os moradores do bairro. Marcava o inicio e termino das jornadas de trabalho. O apito se transformava no relógio de nossas vidas, pois nos avisavam e também nos obrigavam a colocar em prática os nossos compromissos. Pela manhã o apito da fabrica fazia os estudantes e operários a despertarem de seu sono para iniciar os seus compromissos diários. Ás 12 horas era a hora do almoço e no momento do apito era comum. O povo falar um ditado bem popular: “Meio dia, panela no fogo e barriga vazia”. O apito das 18 horas indicava o termino da jornada diária de trabalho, era o sinal que a noite estava iniciando. 

Durante a noite, mesmo sem existir leis de proteção ao silêncio, a fábrica não apitava. Desta forma, a fábrica fazia parte da vida de toda a população do bairro. Diariamente era grande o movimento de caminhões na portas da fábrica, pois eles vinham do porto de Vitória, carregados de juta, descarregados do navio vindos do Pará e Amazonas, para ali serem transformados e sacaria de juta, cujos sacos serviam para ser colocado o café destinado a exportação. 

O gerente da fábrica era tal de Senhor Oscar, que morava ao lado da fábrica, com toda a sua família, e era muito querido e admirado em todo o bairro. Uma grande tragédia marcou parte de minha infância, ficando viva em minha memória: foi o incêndio da fabrica, acredito ter sido nos idos de 1960, quando um curto circuito fez queimar por muitos dias o depósito de juta, no interior da fábrica. Sentimos que um pedaço de nossas vidas estava sendo diluído. Mas, a fábrica sobreviveu e até hoje, mesmo fechada (desativada) está majestosamente erguida e imponente como antigamente, comprada pelo Município de Vitória, sendo transformada em Oficina do Trabalho. 

A Avenida Vitória tambem era denominada de "reta" do Constantino, no sentido da região praiana, pois Constantino Carvalhinho era o proprietário do bar que ficava no entroncamento, e era chamado também de “abrigo”, pois era o único local que abrigava os usuários do transporte coletivo, do sol de da chuva. Ficava na Praça Asdrúbal Soares.  Linhas de bondes se cruzavam e o motorneiro (condutor do bonde), tinha que esperar alguns minutos os bondes    que vinham no sentido contrario pela Avenida Vitória, pois não havia trilhos duplos. 

UMA NAÇÃO CHAMADA JUCUTUQUARA. 1946 - FATOS E FOTOS


 ( 2 CLIQUES NO MAPA PARA AMPLIAR)
“Jucutuquara é o melhor bairro de Vitória, é ou não é...”   
 (DITO POPULAR, EM VERSOS E PROSAS)
POR: WILLIS DE FARIA: (CRÔNICAS DE UM BAIRRO)

NASCIMENTO E A EXPANSÃO DO BAIRRO DE JUCUTUQUARA.



Jucutuquara significa pássaro de buraco de pedra. Perde-se a contagem dos séculos e época em que os índios tupis talvez amedrontados com alguma ave gigantesca, batizaram o estranho ser de Jucu-ita-quera. Este se escondia num dos dois buracos profundos do pico que se abrem na metade de sua altura, na face leste. Com o passar dos tempos a lenda foi esquecida e o nome que se transferiu para o pico de 296 metros de altura. Dependendo do lado e de quem olha, o pico pode assumir outras formas e mudar de nome Jucutuquara e também yticutuquara (pronuncia se Riticutuquara), que significa "conchas suspensas, condizentes com a forma e a colocação dos buracos. 

Pela mesma razão o vulgo passou a denomina-Ia de Pedras dos Olhos batizada pela própria natureza diz Adelpho Monjardim, em Vitória Física, livro editado pela Revista Canaan Editora em 1950. As mutações lingüísticas cuidaram de fazer valer ' sua corruptela na linguagem popular e ele se tornou Jucutuquara, o bairro espremido entre seus congêneres: Forte São João, Ilha de Santa Maria, Maruipe, Fradinhos e as encostas da elevação de cujo pico leva nome. Um nome que é dele apenas, pois o pico é hoje conhecido pelo povo como pico dos Dois 0lhos. 

Mas, no século XIX, um nobre holandês, Maximiliano Wied Neuwied, príncipe precursor dos atuais brazilianistas, daqueles que cruzaram terras inóspitas para descobrir espécimes raros e raças diferentes, viria descrever o núcleo inicial do bairro Jucutuquara, em seu livro Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817. Wied-Neuwied começa por encantarem-se com o convento da Penha, as árvores, as ilhas, terminando por confundir a baia de Vitória com um rio caudaloso, ao qual chamou rio Espírito Santo. Mas deixemo-lo narrar as suas descobertas: "Seguíamos para Pedra d'água, solitária sem a elevação à margem do rio com o fim de transportar as nossas quatro montarias e dois burros de carga, através do rio Espírito Santo. "Frente a nos, no topo da serra situada da outra banda, vimos o notável rochedo de Jucutuquara, situado não longe de Vila Vitoria. Parecido com o "Dent de Jaman do Pays de Vaud", chama a atenção de longe; está colocada em tranqüilas e verdejantes eminências parcialmente vestidas de pequenas matas. Diante dele, mais perto do rio, fica a aprazível fazenda "Rumão”, em frente da qual a ilha das Pombas se ergue sobre a superfície espelhante do rio. Este e o marco inicial do bairro Jucutuquara descrito por um nobre que deixou também sua impressão de Vitória com suas casas em estilo português, balcões e rótulas de madeira. Ele só não disse que existiam também moradias construídas de taipa cobertas de sapé ou de palha de pindoba. Porém esclareceu que na Última metade do século XVII a região do Espírito Santo não continha mais que 500 portugueses e quatro aldeias indígenas. 

A agricultura movia a economia da incipiente vila. Em Jucutuquara um braço de mar imiscuía-se até a confluência dos rios Fradinhos e Maruípe. Nos vales as culturas eram de algodão e cana-de-açúcar. Com o tempo, o sitio do Rumão cercada de árvores frutíferas iria ganhar um vizinho com a construção da fazenda Jucutuquara pelo capitão-mor Francisco Pinto Homem de Azevedo. 

O naturalista francês, Saint-Ilaire, em 1818, visitou-a para credenciar-se junto ao capitão-mor para executar seus trabalhos. Sua fama ultrapassava as divisas da província e os mandatários portugueses iriam transformá-la em refúgio para seus dissidentes. Nestas alturas a fazenda Jucutuquara já pertencia aos Monjardim devido ao casamento entre o coronel Jose Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, com Anna Luzia, filha de Francisco Pinto Homem de Azevedo. O coronel durante o movimento de 1824, chefiado pelo padre Diogo Feijó e o senador Nicolau Vergueiro, era o governador da província, e convidou os revolucionários presos, devido ao fracasso de sua revolta, a passar no solar Monjardim seu período de liberdade condicional. 

Na República Velha (1889 e 1930) já era bem povoado. Luis Serafim Derenzi, em Biografia de uma Ilha, conta como era o bairro no principio do século. “Conheci Jucutuquara em 1909. Morei em pequena casa de telha pintada de cor de rosa, única no morro fronteiro ao estádio”. Na atual Praça Asdrúbal Soares havia um barracão construído de pedra e coberto de zinco. Nele o Carvalhinho, tirador de paralelepípedos (cavuqueiro), tinha um botequim. Era o ponto da seção dos bondes. Para a esquerda se vê um montículo de pedra, resíduo em meio ao mangue, visível na gravura do príncipe de Neuwied. "Começa então o pomar do Barão, que o córrego se despejava. Mangueiras, jaqueiras, fruta-pão, cajueiros, coqueiros e laranjeiras”. 

A estrada, hoje Rua Jucutuquara, tortuosa em meio a grandes blocos de granito, dividia-se em dois ramos: à esquerda para Fradinhos, para a direita, vencendo o riacho, com ponte de madeira sobre os pregões da fracassada Estrada de Ferro Vitória a Peçanha, atingia-se a Passagem (ponte da) por caminhos lindeiro com as propriedades do Américo Figueiredo, do Barão de Monjardim, e de Maruípe. 

“As marés de março transpunham a estrada da praia. As enchentes do Jucutuquara, por sua vez, causavam surpresas desagradáveis. A reta que demanda à Praia, trechos da Avenida Vitória, chamou-se "Reta do Cruzamento", porque nela cruzavam os bondes e as locomotivas se abasteciam de água". Nestas recordações vale a pena entregar de novo a palavra a Derenzi. Denominava-se Reta do Constantino por se iniciar na ombreira do botequim do Constantino. Foi à primeira estrada para a Praia, projetada e construída parcialmente por Saturnino de Brito. Jerônimo Monteiro levantou-lhe o nível acima da influência da maré. 

Nestor Gomes alargou-se. Florentino Avídos macadamizou-a (empedrar com macadame, ou seja, com pedra e saibro). Aristeu Aguiar fez-lhe o pavimento em concreto armado, com 1800 metros de cumprimento. Foi à primeira tentativa de pavimentação em concreto armado no Brasil. “Seu construtor foi Serafim Derenzi” Inaugurada em 1930.   
 AV. PAULINO MULLER-1930 (VISTA DO SOLAR MONJARDIM)
 Em 1949, Carlos Lindenberg mandou alargá-la, sendo os trabalhos concluídos pelo governador Santos Neves, 1954. O asfaltamento foi executado pelo D.E.R. do Estado, sob a chefia do autor destas "notas, o mesmo que em 1937, quando diretor de obras da prefeitura, propôs substituir os nomes, sem significado, de rua S. João, Reta do Rumão, Reta do Constantino, pelo único de Avenida Vitoria. Regressemos ao principio do século. 

Em 1913, um grupo de amantes do futebol fundou aquele que seria o clube máximo de Jucutuquara. Seu estágio era de madeira e cercado de zinco. Durante a ditadura Vargas (1937 a 1945), ele iria transforma-se no terceiro estádio do Brasil, ao ser ampliado por seu presidente/Governador, o general Carlos Marciano Medeiros, época em que o interventor no Estado era o governador Bley (1930 a 1942), cujo nome seria dado ao estádio. Os clubes daqueles anos eram além dele, Rio Branco, o Vitória, o América, o Uruguaiano, o Floriano e o Santo Antônio, dos quais sobreviveram apenas os dois primeiros e o Último. Chegava-se ao seu campo de bonde, para assistir às partidas entre times cujos jogadores vestiam calções até os tornozelos, camisas em cores berrantes, e trazendo na cabeça indefectíveis gorros herdados das equipes inglesas. 

Até então o bairro era constituído de casas dispersas com o mangue dominando largas faixas de terra. Excluindo-se a praia Comprida, todo o resto da cidade se estende em pequenos golgos de aterro recente: Santo Antônio, Caratoira, Moscoso, Sete de Setembro e Jucutuquara: "São aterros semi-naturais, conquistados às marinhas quaternárias, dificultando as construções e o melhoramento de calçadas do poder publica. “Para se levar benefícios a cada bairro percorrem-se longos vazios de habitantes, encarecendo, portanto, o custo unitário dos serviços em mira”. “Os morros de encostas íngremes, revestidos em parte de vegetação alta, não haviam sido invadidos de todo”. 

Sentindo o crescimento da cidade o governador Nestor Gomes (1920 a 1924) começou por desapropriar os terrenos do barão, construiu, segundo Derenzi, as estradas Fradinhos e Maruípe, canalizou o córrego e aterrou grande parte da área de Jucutuquara. Florentino Avídos (1924 a 1928) toma posse, termina a terraplenagem constrói a Avenida 15 de novembro, hoje Paulino Muller. 

Neste mesmo período Carlos Justiniano de Matos com ajuda da comunidade jucutuquarence edifica a igreja são Sebastião. O governador Florentino Avídos muda a face do bairro Jucutuquara, da cidade, do Estado, dando-lhes nova forma, com construções modernas. A valorização - recorremos de novo a Derenzi - imobiliária de Vitória, mormente da zona comercial teve de fato origem na administração Avidos. "O governo construiu bairros inteiros para venda em longo prazo. O preço do m² oscilava entre 250 e 300 mil réis. Foi o valor de venda dos grupos construídos nas Chácaras do Mulundú, "Vintém" (Zona da Rua Graciano Neves) e Jucutuquara. Assim e que em sua mensagem final Florentino Avidos, depois de construir os primeiros conjuntos habitacionais de Vitória, em Jucutuquara, na Avenida 15 de novembro Ruas Augusto Calmon, Amâncio Pereira, Barão de Aimorés e Aristides Guaraná, diria encerrando o seu governo, que "ficou formado, desde 1924, o bairro de Jucutuquara". 

A ocupação dos morros com seus barracos de taboa pintados de cal verde, azul e rosa, vem desde o principio do século. Nos últimos anos, com o crescimento da migração, os barracos proliferaram. As subidas por escadarias de cimento íngremes, as moradias construídas sobre pedras, o mato ocupando largos espaços, traçam o perfil da pobreza de um bairro que se torna a cada dia com a edificação de sobrados e casas estilo colonial, que invadem também os morros, num sentido de bem viver adverso dos menos favorecidos, exclusivamente classe média. Essa transformação do perfil do bairro fazendo conviver a miséria com a vida menos apertada (sic) deu-se igualmente com o comportamento dos moradores. 

Este desde 1949 tem, ao contrario dos outros bairros, o primeiro mercado construído fora do centro da cidade, o mercado São Sebastião, de estilo curioso, pois se assemelha a sua entrada a de um cemitério, localizado na Praça Asdrúbal Soares. Eram o tempo em que o bonde tinha seu ponto final no entroncamento Maruípe - Fradinhos, passando pela Avenida Paulino Muller (lado direito sentido Maruípe). 

No lado esquerdo transitavam carroças e os poucos veículos existentes na época. No meio havia a célebre vala que canalizava as águas dos morros e os esgotos das residências. O cearense de Fortaleza, Lourival Nepomuceno da Silva, comerciante, 42 anos, três filhos, comenta: “Naquele tempo não tinha asfalto, mas tinha vala, não tinha ônibus, mas tinha bonde". A vala hoje esta canalizada. Sobre ela reina o asfalto. Naquele tempo havia muitas enchentes – indaga o repórter? “Encher, enchia, mas depois que fizeram as comportas enche muito mais. “Naquela época, só enchia a vala e as ruas, mas hoje, enche a vala, as ruas e as casas" - responde. Ao instalar seu bar junto as Estágio Governador Bley, não esperava que 12 anos depois, em 1972, o Rio Branco vendesse o campo para a Escola Técnica Federal do Espírito. 

Em 1978, 4.600 veículos por hora movimentavam-se pela Avenida Vitória. Ê por ela que fluem automóveis, ônibus e caminhões que se dirigem aos bairros adjacentes, às cidades do interior e ao complexo de Tubarão (usina e porto).