RUA SETE DE SETEMBRO E SEU ENTORNO: HISTÓRIA E MEMÓRIAS.


(POR: WILLIS DE FARIA)

Toda cidade tem seu ponto cultural ativo. Durante ao longo dos tempos, a Rua Sete de Setembro, sempre esteve presente. A sua história estará sempre presente na memória dos capixabas.

Antes, a rua que passava o bonde, os ônibus lotação da cidade alta, e o ponto de encontro da juventude nos anos sessenta, cujo “point”, era a galeria Valverde, onde os “playboys” desfilavam pela rua com seus carros “envenenados”, hoje é apenas um calçadão de pedestres, que humaniza mais a cidade.
 
(Texto pesquisa: Fernando Tatagiba)

PIEDADE 2009 - ENREDO

SETE DE SETEMBRO – histórias e memórias da rua que virou samba.

Autores*: Edson Tadeu Campostrini Cruz e Arion Carlos Ribeiro de Oliveira

*agradecemos emocionados a todos aqueles que colaboraram, partilhando suas memórias e reminiscências. Que a mais querida das escolas de samba capixaba, a tradicional e irreverente Piedade, transforme essas estórias e emoções em sua crônica visual e “samba - operística”, na festa momesca de 2009.

“Após quinze anos de lirismo e de luzes, a Lanchonete Sete – situada na Rua Sete de Setembro, um dos pontos mais frenéticos da cidade – fechou definitivamente suas portas.
Em seu interior – por mais de uma década – aconteceram inúmeros encontros e desencontros, beijos na fronte ou no horizonte, solitários encostados nos balcões, uma mulher esperou alguém que não veio.
A moda que perdurou longo tempo... ...talvez se encerre agora, fechando um ciclo.
A Rua Sete nunca será a mesma.
Os homossexuais transeuntes não mais vislumbrarão as lâmpadas e as cores.
As mariposas já não terão onde pousar.
A solidão do calçadão.
...
...Por longos anos expôs um painel de Vitória ainda cidade-menina.
Agora um banco, uma sapataria, lojas, ou um buraco transformará tudo: o painel antigo desaparecendo e com ele a mudança da cidade num lugar lúgubre, cada vez mais desumano e irreconhecível.
...
Restarão talvez alguns versos do Otinho – poeta da Rua Sete por excelência.
Restará provavelmente uma valsa, tocada paradoxalmente neste samba-enredo chamado Vitória.
Ficará, às vezes, quem sabe, um pedaço de balcão para que um boêmio faça dele um violão.

- Escrever a história da Rua Sete de Setembro é escrever parte da história da cidade de Vitória, uma história que passa pelos seus costumes, suas modas, manifestações artísticas, amores proibidos, paixões inconfessáveis, escândalos, crimes passionais, lutas políticas, boemia, irreverência, e samba muito samba...

Sendo antes de tudo, mais um estado de espírito que apenas uma rua, cada um trás dentro de si a sua Rua Sete, com direito a contar a sua própria estória, e acreditar nela. Uma história de grandes encontros e, também, muitos desencontros...

A antiga Rua da Várzea tem seu nome atual tirado de um grito de liberdade, pois foi rebatizada com a denominação de Rua Sete de Setembro em 1922, quando das comemorações do centenário da Independência do Brasil.

Talvez graças ao peso de seu nome, passou a ser o local de todas as possibilidades, infinitas manifestações, lugar onde tudo, ou quase tudo é permitido, onde diferenças são ignoradas e antagonismos inexistem locais onde a independência e a liberdade, lembrada pelo seu nome, e a irreverência pudessem imperar.

Partindo da Prainha no Largo da Conceição, antiga Praça da Independência, hoje Praça Costa Pereira, e se alongando até a Fonte Grande, formou por muito tempo com as ruas que a circundam, a “Graciano Neves” e a “Treze de Maio”, o grande palco das alegrias e mazelas da sociedade capixaba.

Vou à rua sete já significou a preferência de uma cidade.

 
Hoje a piedade te convida: “Vamos a RUA SETE?”

- A RUA SETE DE SETEMBRO

Com a urbanização da região chegou o bonde, que subia a Rua Sete em direção à convertidora. Dada a sua importância, a Prefeitura Municipal de Vitória tinha na Rua Sete a sua sede. Na rua também ficava a antiga empresa de energia elétrica CCBFE.


Debruçadas na janela as “de Jesus”, a tudo assistiam. Irmãs que ainda hoje moram na Graciano Neves, contam que havia nas proximidades uma “cancha” de basquete onde as pessoas se divertiam com esse esporte. As “de Jesus” eram famosas por serem muito prendadas. Professoras de piano eram também conhecidas por fazerem um delicioso bolo formigueiro.

Por muitos anos vários tipos populares freqüentaram a região, entre eles: Otinho, o eterno poeta da Rua; a Rainha das Flores, em seu vestido branco enfeitado com flores levando sempre uma sombrinha também florida e muito “pó de arroz” no rosto; Meio Fio, famoso por caminhar apenas na beira das calçadas, sempre trajando paletó e gravata, levando uma piteira pendendo da boca e na mão uma bengala; e Feijoada, um mulato de lábios muito grossos.

São dessa época a Padaria Nacional, o Café Estrela e o armazém de secos e molhados dos Gianordolis.

A partir da década de 60 a Rua Sete passou a ser artéria de importância comercial. Havia a Casa Simões, a Loja São Sebastião, a Casa Esperança, bazares que vendiam “de um tudo”, artigos de armarinho, cama e mesa, sombrinhas e tudo o mais que se precisasse.

Mudando substancialmente de cara, e com a sofisticação de suas lojas, passa a ser então o ponto de encontro das mulheres elegantes da cidade que compravam suas roupas em butiques da moda. Doll Sport, Click, Abigail, Heládia, Milady, Paris Modas, Gina eram as mais famosas.

Chique era ter sua casa decorada com cristais, prataria, ou qualquer outra peça vendida no Porão de Palha, ou na D’Arc Presentes, que ficavam na Galeria Jeanne d’Arc, assim mesmo, em francês, como que para conferir maior glamour.

Na mesma galeria os homens elegantes encomendavam seus ternos na Alfaiataria Fraga, ponto de encontro dos poderosos, de ricos empresários a políticos influentes.

Na Galeria Valverde, onde funcionava na época a loja de discos Jairo Maia, do famoso radialista, encontramos ainda hoje A Fada, especializada em lingeries, meias finas, perfumes importados e cosméticos.

As dondocas se embelezavam no Salão Shangri-La, o fino do fino, e vestiam seus filhos na Infantil Modas, logo ali, na Treze de Maio, com direito a eternizar um momento qualquer no Foto Léa.

Comia-se no Garrucha 44, restaurante durante o dia que, dizem alguns, se transformava em “casa de encontros” com o cair da noite. Encomendavam-se sapatos sob medida na A Jato, e a barba só podia ser feita na Barbearia do Gaúcho, apenas com hora marcada, é claro.

A rua passa a ser também freqüentada pelos jovens descolados da época, onde, para um público mais seleto, havia a Lanchonete Sete, decorada com famoso painel da artista capixaba Marian Rabelo.

Morar na Rua Sete nesta época era considerado sinal de status. Um apartamento no Edifício Gaivota, ou no Edifício Antares, com sua Galeria Shopping 7, inaugurada com grande alarde por ter a primeira escada rolante da cidade, passa a ser o sonho de consumo de muitos.

Já no final dessa época foi construído seu último grande empreendimento, uma nova galeria, obviamente, a Galeria Boulevard, que resistiu ainda por alguns anos, até que o tempo levasse embora a marca de uma época.

Impossível falar da região da Rua Sete sem lembrarmos o saudoso Britz Bar, onde diferenças sociais ou políticas nunca foi impedimento para a alegria e a descontração do ambiente. 

Com sua cerveja sempre quente, durante muitos anos o bar reuniu diversos setores da sociedade capixaba: Intelectuais, artistas, boêmios, ricos e pobres, pessoas elegantes e mendigos, senhoras da alta sociedade e prostitutas, homens, mulheres, gays, todos conviviam e compartilhavam do mesmo espaço.


Ponto de encontro de jornalistas que trabalhavam em “O Diário” e no “Jornal da Cidade”, o Britz seria a síntese do espírito que reinava na região, a maior tradução do clima de irreverência e democracia pelo qual a rua ficou conhecida.


Eram muito concorridos os carnavais do Britz. Sendo famoso o Bloco Unidos de Carapeba, formado por freqüentadores do bar que se vestiam de mulher. O Britz foi fechado...
“...É provável que a época deste tipo de estabelecimento tenha chegado ao fim... Para cada período houve um pouso, lar doce bar para os abandonados da sorte... ninho sem estranhos e sem estradas, onde se amontoam as conversas diárias, um café e um cigarro.”
Fernando Tatagiba

... mas resistindo aos caprichos do tempo ainda encontramos o Bimbo e o Bar do Gegê, onde se pode beber uma gelada com torresmo e bolinho de carne, e de quebra, se você tiver sorte de chegar na hora certa, ouvir uma roda de samba, puxada por ninguém menos que Edson Papo-furado.

O comércio de luxo deslocou-se para a região norte da cidade. A Rua Sete foi perdendo seu glamour e entrando num período de decadência, suas referências de requinte se foram. De local sofisticado as ruas da região passaram a ser as ruas dos armarinhos, das lojas de produtos orientais, lojas de material de carnaval com fantasias a colorir suas portas e de onde, dependuradas em suas vitrines, máscaras teimam a sorrir para quem passa.

Insistindo em sua tradição de local de todas as tendências, lojas de produtos naturais ficam lado a lado com as de suplementos alimentares. Onde mais isso poderia acontecer? Restaurantes de comida a quilo espalham-se por toda a região.

Lojas de folheados falseiam o brilho do passado. Uma Pastelaria Chinesa, um Caldo de Cana, óticas, relojoarias, farmácias, pequenos comércios de trabalhos manuais e bordados disputam fregueses. No outrora requintado calçadão, ambulantes oferecem filmes piratas, frutas e legumes, em meio a tudo isso, ainda em se faz sentir o cheiro de pão fresco da Padaria Expressa.


Foi-se o glamour, ficou a tradição.

Lá do alto, como que tentando repetir o grito inicial de liberdade, ou reviver o burburinho dos tempos de glória, ainda é possível ouvir um surdo, um pandeiro, uma cuíca, um tamborim. Ecoa a voz do samba da mais querida, a Piedade.

Antigo Morro do Querosene, segundo contam alguns, devido ao fato de suas moradoras utilizarem no passado pente quente aquecido em lamparina querosene para deixar os cabelos lisos e brilhantes, este aglomerado urbano foi finalmente reconhecido como Morro da Piedade.

O Morro da Piedade e o Morro da Fonte Grande formam parte do Parque Estadual da Fonte Grande, berço do samba, berço da Piedade. O Morro da Fonte Grande tem seu nome originado das inúmeras fontes de água existentes em suas encostas, destacando-se Cajuza, Izabel, Rafaela, Caixa D´água, Inocentes, as Velhas e a Fonte de São Benedito.

Uma das histórias do lugar conta que num ano de seca as lavadeiras da Fonte Grande fizeram promessa a São Benedito para que o santo fizesse voltar a verter água da fonte que secara. Como pagamento, elas festejariam o santo com foguetes na passagem da procissão.

Graça alcançada, essa é a origem do foguetório na procissão. A procissão segue pela Rua do Rosário, pega a Graciano Neves, vai até a Fonte Grande onde é festejada com o foguetório, e segue para a Catedral. As mulheres seguem de roupa branca, trazendo a fita roxa com a medalha de São Benedito no peito.

O santo é carregado no andor sempre enfeitado com rosas vermelhas. Testemunha viva de tantas histórias do lugar, a Piedade com o seu desfile se coloca no papel de resgatar um pouco do glamour e da beleza deste recanto da cidade, retratando o luxo, os costumes, a tradição e a irreverência de outrora. Qual futuro está destinado a este recanto da cidade?

 
 - HISTÓRIA DOS ENTORNOS

A Praça:

No início a Praça Costa Pereira tinha dois terços da sua área banhados pelo mar, e para evitar as freqüentes tentativas de invasão de corsários e piratas foi construído no local, ainda no século XVIII, o Forte São Diogo.

Depois de aterrada, iniciou-se a ocupação de seu entorno. Data desta época a construção do Teatro Melpômene, destruído anos depois por um incêndio. Mais tarde surgiram, o Café Avenida, a Sorveteria Pingüim, e o Hotel Império, ainda existente.

A praça, local de grande movimentação social, abrigava o famoso “footing”, no qual homens e mulheres flertavam ao circularem em sentidos opostos. Foi ponto de encontro de famílias tradicionais e abastadas de Vitória que moravam no centro.

Dentre suas lojas mais famosas destacou-se a Madame Prado, primeira grande Maison da cidade, onde as granfinas compravam seu vestidos, chapéus, luvas, tecidos finos, acessórios e presentes, incluindo louças e porcelanas importadas. A porta dessa loja foi símbolo de requinte, mas também palco de uma tragédia que marcou época com uma história de amor, vingança e morte.

A Praça Costa Pereira foi perdendo gradativamente seu glamour a partir da década de 50.
 
 











 A Rua do Reguinho:

A atual Rua Graciano Neves foi inicialmente conhecida como Rua do Reguinho, pois era cortada em toda a sua extensão por uma vala formada pelas águas da Fonte Grande. Após a canalização da águas tornou-se uma rua essencialmente residencial.

Lá moravam famílias importantes da cidade. No local onde hoje se encontra o edifício Antares ficava a “Chefatura de Polícia”, utilizada como prisão política durante o movimento integralista e para onde eram levados políticos e simpatizantes de esquerda durante o governo militar.

 
A Rua do Piolho:

Atual Rua Treze de Maio, onde se viam figuras exóticas como o senhor Leovigildo, dono de modestíssima quitanda e que gostava de se trajar com figurinos do século passado, além do Sr.Manoel Rodrigues das Neves, conhecido por “Perna-fina”, tocador de viola e ensaiador de peças teatrais.
 


Referências:

ABREU, Carol (Org). Vitória: trajetória de uma cidade. Vitória: IMGES, 1993.
CAMPOS, Carlos Teixeira de. O novo arrabalde. Vitória: PMV, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, 1996.
DESSAUNE, Jair. Peroás e caramurus. IHGES: Vitória, 2004.
ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória, 1986.

Entrevistas:
Sra. Oneida de Jesus
Sra. Olga de Jesus
Sra. Edna Machado da Silva – A Fada
Sr. Diniz Francisco da Silva – A Fada
Sr. Celso Marques do Carmo – D’Arc Presentes
Sra. Zelzi Xavier Bonino
Sra. Eloísa Xavier Zehuri
Sr. Gastão Antônio Franco Americano
Sr. Grijó



Comentários

  1. Para quem já passou dos 60 isso é um verdadeiro brinde a nostalgia. Preciso e nos remete a nossa infância e aos nossos namoro na rua Graciano Neves.

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  2. Lindo encapsulamento do histórico do centro de Vitória, belamente escrito e eivado de fotos históricas. Meu bisavô, Raymundo Jose de Mattos, tinha um comercio na Rua da Várzea. A casa dele ainda está de pé, ao lado esquerdo da antiga Prefeitura, hoje quase adiante da Sapataria Atômica do Juliao. A família de Barros foram seus últimos donos. Perversamente, o nome que carrego, é o que menos conheço (genealogicamente). O Velho Raymundo veio do Para, casou-se com Joanna Baptista, creio de Sta. Leopoldina; era muito reservado, minha avó Alemã, casada com seu filho Silvino, dizia que ele era “sistemático e comia em companhia de seu cachorro. ” Já os meus ¾ do lado “Colonial” (de colonos) foram mais alegres e temos vínculos ainda no Velho Mundo. Encontrei nos jornais antigos (hemeroteca) de Vitoria relatos de uma enchente nessa Rua, ao redor de 1906, sendo o Raymundo foi ajudado “Pelo Prefeito Athayde, dois secretas e pela família Coronel”, que até poucos anos morava lá. Ainda pretendo me aprofundar mais em minhas raízes Rua7Anas, e esse seu artigo intrigante, me impele ainda mais. Obrigado, do coração. Sam de Mattos, Jr.

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