O ULTIMO CRIME CONTRA O JORNAL DA CIDADE
(Por:
WILLIS DE FARIA)
Transcrevo
esta matéria para meu blog, por que fiz
parte da equipe de jornalistas deste jornal de 1973 a 1975, onde escrevia aos sábados a COLUNA DE PESCA, reportagem esportiva que
era um apoio aos pescadores amadores e campeonatos de pesca de arremesso, que
tinha patrocínio da Casa Hilal,
através de Jorginho Hilal e depois a Pescamar,
de propriedade de Willis Roseti. Por tres anos estive a frente à desta coluna,
onde nos colocou no mundo jornalístico, e hoje postamos nossas noticias e ideias
neste BLOG. Uma pena essa controvérsia, e todo arquivo deste pequeno jornal se
perdeu, mas que na realidade incomodava muita gente grande. Mas, fez parte da
historia da cidade de Vitória.
POSTO A
FOTO DO CASAL DJALMA JUAREZ MAGALHÃES (DIRETOR) E MARIA NILCE MAGALHÃES
(COLUNISTA SOCIAL) DO JORNAL DA CIDADE, EM UMA FESTA NOS SALÕES DO CLUBE VITÓRIA
(1971). OS OUTROS PRESENTES (ESQ. A DIR.) ESDRAS LEONOR, HELIO DÓREA, WASHINGTON MUQUI BANHOS, ANTONIO CARLOS FIDALGO, MARIEN CALIXE E HERALDO BRASIL.(TROFEU IMPRENSA)
ESPÍRITO SANTO
O
último crime contra o Jornal da Cidade
Por Magalhães Juca
em 05/09/2011 na edição 658
Há
quase trinta anos, teve início a lenta destruição da memória do Jornal da
Cidade, um “matutino” diário que tinha como carro chefe a coluna de Maria Nilce
(1941-1989) e os artigos de análise política de Djalma Juarez Magalhães
(1930-2008). Apesar de não primar muito pela qualidade gráfica, o jornal era
bastante popular, certamente em função da maneira “irreverente” que a
jornalista – vitimada num dos mais escabrosos crimes de mando perpetrados no
Espírito Santo – escrevia, expondo e criticando figurões e figurinhas da dita
“alta sociedade capixaba”.
O
Jornal da Cidade começou sua trajetória em 1972 e esta haveria de durar
vinte anos. Em suas páginas colaboraram inúmeros jornalistas, como Elimar
Guimarães, Willis de Faria, Xerxes
Gusmão Netto, Carmélia Maria de Souza, Amylton de Almeida, Rogério Medeiros,
Cezar Viola, Geraldo Bulau, o fotógrafo Antonio Moreira, enfim, a lista é
grande. Todos estes cronistas em intensa atividade naquele período histórico
deixaram importantes impressões pessoais para o entendimento e o sutil retorno
aos ares que se respirava naquela época. Infelizmente, hoje tudo isso está
perdido.
A
primeira parte do arquivo do Jornal da Cidade foi implodida em um
atentado à bomba na madrugada do dia 13 de setembro de 1983. O crime foi
investigado pela polícia federal e até hoje sua autoria permanece um mistério.
A bomba de fabricação caseira demoliu a sala onde ficavam guardados os jornais
antigos, a cozinha da casa, onde funcionava a redação do jornal, e uma parte do
escritório de Djalma Juarez Magalhães. Como o atentado aconteceu por volta de
duas da manhã, não houve vítimas, exceto um sabiá cuja gaiola ficava na cozinha
e não resistiu aos ferimentos.
“Sou
contra qualquer tipo de violência”
A
explosão foi bastante noticiada, sobretudo por sua violência, que rachou o
asfalto em frente à casa onde funcionava a redação do jornal, na rua Graciano
Neves, centro de Vitória, e estilhaçou vidros de janelas de casas do entorno e
de prédios até o oitavo andar. Embora hoje possa parecer estranho, atentados do
gênero não eram incomuns na época. Em 1981, a mesma coisa já tinha acontecido com o
arquivo do jornal A Tribuna e, da mesma maneira, nada haveria de ser
apurado pelas autoridades competentes.
Perplexo,
o editor do Jornal da Cidade, Djalma Juarez Magalhães, disse não saber a
quem imputar o atentado, mas não excluiu na ocasião o presidente do Banestes,
Carlos Guilherme Lima, devido a atritos causados por críticas e denúncias
feitas à sua administração. Na reportagem de A Gazeta, o escritor
explica que “enviamos documentos para os serviços de segurança, tanto na esfera
estadual quanto federal, onde damos ciência das tentativas de agressões que
temos sido vítimas por parte dele”.
Muito
antes de ser largamente denunciado como um dos principais integrantes do crime
organizado capixaba, as declarações do então presidente do Banco do Estado do
Espírito Santo – publicadas na mesma página de A Gazeta – soam como fina
ironia: “Não conheço, nunca li esse jornal, tomei conhecimento de sua
existência hoje pelo noticiário local, estou trabalhando com a preocupação de
dar lucros ao Banestes. Sou contra qualquer
tipo de violência, descarto meu envolvimento nesse atentado.”
“Megaempresário
representava um risco à sociedade”
Afirmar
que não conhecia o Jornal da Cidade e, especialmente, Maria Nilce, na
Vitória daquela época era uma provocação muito maior do que dizer, como fez
posteriormente, que a briga que havia com o banco era porque a jornalista
estava tentando coagir o presidente a conceder anúncios e assinaturas para o
jornal, coisa que alguns acreditam e afirmam até hoje.
Sem
conseguir manter a pose por muito tempo, o “empresário” passou a alternar o
discurso de funcionário padrão com agressão verbal: “Soube serem os
proprietários do jornal gente vigarista e que poderia praticar esse vandalismo
para tirar proveito próprio. Sou uma pessoa trabalhando para o Espírito Santo e
tenho maiores afinidades com a situação econômico-financeira do Banestes. De
bombas não entendo nada.”
Após
mais de vinte anos, as autoridades federais chegaram à conclusão de que as
pioneiras denúncias do Jornal da Cidade podiam mesmo ter um fundo de
verdade. Basta ver o breve panorama fornecido pela reportagem abaixo publicada
em 13 de dezembro de 2002 no site http://notícias.terra.com.br:
“A Justiça Federal determinou hoje o afastamento da
diretoria do Banco do Estado do Espírito Santo. A decisão é para evitar o
desaparecimento de provas ligadas ao processo do empresário Carlos Guilherme
Lima, preso ontem em
Vitória. Há suspeita de administração fraudulenta na direção
do banco e desvio de dinheiro público em benefício do empresário. Acusado de
vários crimes, como desvio e lavagem de dinheiro, fraude em licitações
públicas, formação de quadrilha, desvio de recursos federais e ocultação de
bens, entre outros, o megaempresário Carlos Guilherme Lima foi preso hoje pela
missão especial que investiga as atividades do crime organizado no Espírito
Santo. A prisão preventiva foi decretada pela Justiça federal por entender que,
em liberdade, ele representava um sério risco à sociedade.”
“Infelizmente,
não sei o que aconteceu”
Quando
do assassinato de Maria Nilce, a redação do Jornal da Cidade funcionava
numa loja na Avenida César Hilal e lá ficavam guardados “os jornais antigos”,
como eram trivialmente chamados pelos próprios funcionários. O então invisível
crime organizado era tido por “certos segmentos” como “invenção de algumas
pessoas de esquerda” e nos tristes – política e socialmente falando – anos 90
seus principais atores reinariam absolutos, sendo apontado em investigações o
ex-deputado José Carlos Gratz como principal figura pública, ainda que outros
indivíduos fossem eventualmente citados como os verdadeiros comandantes.
Após
a inevitável derrocada do Jornal da Cidade em 1992, todo o acervo de
jornais que estava arquivado em sua redação foi doado à Biblioteca Pública
Estadual. Nada mais natural que o principal repositório de informações do
Estado cuidasse e zelasse pela preservação do periódico que, inclusive, era
fonte de pistas para a investigação da morte de Maria Nilce. Afinal, em suas
últimas colunas vinham sendo publicadas notas anunciando denúncias escabrosas
contra poderosos antigos desafetos.
Numa
decisão ainda nebulosa, tomada por alguém da própria biblioteca, em algum lugar
entre o final de 2005 e o momento presente, o único acervo do Jornal da
Cidade de que se tinha notícia foi “descartado”. A antiga diretora da
instituição, Rita Cássia Maia, foi interpelada por meio de uma mensagem
eletrônica encaminhada também para várias autoridades e jornalistas e não deu
qualquer resposta. Explicado seria que a mesma fora exonerada naquele dia –
algumas semanas antes – e, em seu silêncio, parece ter optado por deixar o
abacaxi para a sucessora descascar.
Apesar
de ser funcionária antiga da Biblioteca Estadual, a bibliotecária Nadia Alcure
estava trabalhando há alguns anos na Faculdade de Música e quando voltou não
conseguiu mais encontrar o acervo do Jornal da Cidade. A única coisa que
disse poder afirmar a esta reportagem foi: “Eu não estava aqui. Infelizmente,
não sei o que aconteceu”. Denise, a bibliotecária responsável pelo setor de
Hemeroteca, que cuida da organização de periódicos e revistas, disse lembrar do
acervo, mas que, por trabalhar no andar de cima, simplesmente não faz ideia de
como pode ter desaparecido todo o Jornal da Cidade.
Uma
charge imperdoável
É
provável, mas não comprovado, que o “descarte” do acervo do jornal tenha
acontecido durante o período de reforma da Biblioteca Pública Estadual, quando,
em função de modernizações e mudanças no espaço, muita coisa foi jogada fora
como velharia. Enquanto edições antigas do Diário Oficial foram
acolhidas pelo DIO, outras, como de A Gazeta, foram microfilmadas, o que
nos leva a perguntar: por que essa preocupação em preservar um jornal já bem
documentado pela própria empresa e jogar no lixo coleções únicas?
Talvez
não tenha nada a ver, mas pode ser que isso venha um pouco do desprezo urdido e
muito bem difundido pelos inimigos de Maria Nilce por tudo o que dissesse
respeito a seu trabalho e à sua pessoa. A jornalista, após sua morte, só foi
lembrada na mídia pelas polêmicas e por seu covarde assassinato. Poucos foram
os que ousaram vir a público para defender ou fornecer uma visão pelo menos
imparcial da trajetória de Maria, como foi o caso de Carlos Benevides, Pedro
Maia e Marcus Machado, entre outros. Para denegrir não dá pra citar aqui, a
lista seria grande demais.
Algumas
pessoas que a própria Maria considerava como “amigos”, estranhamente passaram a
negar a ligação – talvez por medo, talvez por interesses financeiros – passando
até a atacar publicamente a jornalista, difundindo a ideia – que persiste até
hoje – de que Maria Nilce falava demais, morreu porque provocou, procurou.
Criminalizando a vítima, denegrindo sua memória e humilhando seus familiares e
verdadeiros amigos. Foi o caso da imperdoável charge feita por Milson Henriques
e publicada em A Gazeta
no dia 12 de julho de 1989, uma semana após o crime.
Uma
justificativa plausível
Para
quem não se lembra, Maria Nilce foi morta dentro de um ônibus tentando fugir de
um dos dois pistoleiros que perpetraram sua morte na manhã de 5 de julho de
1989. Na charge, vemos uma mulher passando a roleta de um ônibus vestindo uma
camiseta com várias frases que, como no caso do ex-presidente do Banestes,
oscilavam entre “pacifistas” e simplesmente rancorosas, especialmente a última:
“Cuidado! Tudo na vida é troco. Você recebe o que dá.”
Este
texto tem o intuito de denunciar e divulgar publicamente mais um crime cometido
contra o patrimônio histórico do Espírito Santo e de externar toda a indignação
dos familiares de Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães e dos herdeiros de seus
inúmeros colaboradores, muitos destes já falecidos, cujos textos diários agora
sabemos perdidos para sempre. Seja lá o que aconteceu com o acervo do Jornal
da Cidade – tenho agora poucas esperanças de voltar a ter notícias deste –,
espero apenas obter um dia uma justificativa plausível por parte do secretário
estadual da Cultura e da direção da Biblioteca Estadual do Estado do Espírito
Santo.
[Magalhães Juca é
professor, Vitória/ES]




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