AS MAIORES RESERVAS SUBTERRÂNEAS DO MUNDO: AQUÍFEROS GUARANI E GRANDE AMAZÔNIA.



POR: WILLIS DE FARIA

Maior aquífero do mundo fica no Brasil (e é capaz de fornecer água para todo o planeta por 250 anos)

Já pensou se existisse uma reserva de água subterrânea capaz de abastecer todo o planeta por dois séculos e meio? Pois acredite: ela já existe. E fica no Brasil – mais precisamente na região da Amazônia.

Batizado de SAGA (Sistema Aquífero Grande Amazônia), ele foi descoberto por pesquisadores da Universidade Federal do Pará e possui 162.520 km³, que abrigam de forma subterrânea mais de 150 quatrilhões (!) de litros de água.

Para ter uma ideia do tamanho gigantesco que tem, o aquífero Guarani, que era considerado o maior do mundo antes da descoberta do SAGA, possui 39 mil km³. Ou seja, é mais de quatro vezes menores.

Então, o problema da falta de água no mundo está resolvido com o SAGA? 
Infelizmente não. Isso porque, segundo os pesquisadores, apenas para transportar o recurso para outras partes do Brasil já seriam necessárias “obras faraônicas”. Imagine para o resto do mundo…

Enquanto a ciência e a tecnologia não inventam uma maneira de usar essa água, ela segue sendo utilizada apenas para abastecer as cidades do Vale Amazônico, como Manaus e Santarém. Mas fica a reflexão: será que se tivéssemos tanta água a nosso dispor, saberíamos usá-la com consciência ou o desperdício rolaria solto?

A exploração de aquíferos precisa se tornar mais sustentável, dizem especialistas.

Na medida em que as mudanças climáticas se intensificam e as crises hídricas se tornam mais frequentes, cresce a exploração dos aquíferos subterrâneos – onde está armazenada cerca de 95% da água doce disponível no planeta.

Já existem soluções no mundo. “A Califórnia é responsável pelo cultivo de 50% das frutas e vegetais consumidos nos Estados Unidos. Essas culturas dependem intensamente de irrigação e, como a Califórnia enfrenta o quarto ano consecutivo de seca, muitos fazendeiros têm recorrido ao bombeamento de água subterrânea”, disse Jan Hopmans, professor de Hidrologia, Terra, Ar e Recursos Hídricos da University of California, Davis.

Segundo dados apresentados por Hopmans, a população mundial mais do que dobrou nos últimos 50 anos. O mesmo ocorreu com a área agrícola irrigada e a demanda por água no período cresceu cerca de 250%.

“Na Califórnia, as águas subterrâneas, que antes representavam um terço do total usado na irrigação, hoje já correspondem a dois terços. E isso tem consequências tremendas”, disse.

De acordo com as estimativas de crescimento populacional, será necessário duplicar a produção de alimentos para atender a demanda dos próximos 50 anos. Segundo Hopmans, é urgente desenvolver tecnologias para tornar a irrigação agrícola mais eficiente, permitindo menor uso de água por unidade produzida. Caso contrário, a demanda por água duplicará nas próximas décadas.

Também é necessário, segundo Hopmans, encontrar soluções para minimizar a contaminação dos aquíferos por nitrato – oriundo principalmente de fertilizantes agrícolas e dejetos animais –, problema que pode se agravar nos próximos anos.


“A agricultura do futuro precisa se tornar, ao mesmo tempo, mais produtiva e mais sustentável. Isso exige uma melhor compreensão de como as plantas absorvem água e nutrientes, para que possamos fazer mais com menos. Requerem pesquisas inovadoras sobre o solo, combinadas com ciência de plantas e novas tecnologias”, opinou Hopmans.

Preparação décadas antes.

Na avaliação de Graham Fogg, professor de Hidrogeologia da UC Davis, o uso que tem sido feito atualmente dos aquíferos pelos fazendeiros californianos e também de outras regiões do globo está longe de ser sustentável. Para exemplificar, ele fez uma analogia com o sistema financeiro.

“Imagine que você tem todo o seu dinheiro depositado em duas contas bancárias. A conta A – que representa a água presente na superfície do planeta – tem saldo conhecido e você sabe quanto dinheiro está entrando e saindo. Da conta B – que representa a água subterrânea – você não sabe o saldo e nem quanto está entrando e saindo.

E quando o saldo da conta A se esgota, você passa a fazer retiradas descontroladas da conta B. Como é possível ter segurança em uma situação dessas?”, disse Fogg.

Na tentativa de responder a uma questão fundamental – onde haverá água e qual quantidade estará disponível em um cenário futuro de mudanças climáticas – foi criado na UC Davis o IGERT Center for Climate Change, Water and Society (CCWAS), coordenado por Fogg.

O IGERT (Integrative Graduate Education and Research Traineeship) é um programa de treinamento oferecido pela National Science Foundation (NSF), principal agência de fomento à pesquisa básica nos Estados Unidos, para recrutar os mais destacados estudantes de doutorado do país.

Segundo o pesquisador, a seca que a Califórnia enfrenta atualmente não é consequência da queda nos índices de precipitação e sim do derretimento mais precoce da neve causado pelo aquecimento do planeta.

“A Califórnia sempre dependeu da neve para armazenamento de água”. Toda nossa precipitação ocorre no inverno. Ela cai na forma de neve nas montanhas e, entre abril e julho, derrete e abastece os reservatórios.

Assim, temos água para atender o pico de demanda, que ocorre entre junho e julho. Mas, nos últimos anos, a neve começou a derreter mais cedo e parte da água não tem como ser armazenada para uso no momento em que é necessária”, contou Fogg.

Em vez de criar novos reservatórios de superfície, defendeu Fogg, a solução é criar mecanismos para colocar mais água nos reservatórios subterrâneos e começar a usá-los de forma mais sustentável, o que requer pesquisas e avanços tecnológicos.

“Para estarmos preparados para uma seca como a que enfrentamos hoje, tínhamos que ter feito esse trabalho cerca de dez anos antes. É preciso motivar as pessoas para que façam o que tem de ser feito décadas antes de um evento extremo ocorrer”, disse Fogg.

 “O Aquífero Guarani é visto como uma reserva de água para o futuro, ele já é intensamente usado no Brasil há muitos anos, mas de maneira irresponsável, com pouca fiscalização de poços clandestinos, poluição e exploração acima da capacidade de recarga das regiões”.


O acordo que regula a utilização das águas do Aquífero Guarani, assinado entre Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil, “é o primeiro tratado do mundo sobre águas transfronteiriças assinado sem que um conflito bélico ou diplomático estivesse em curso” e “se destina, sobretudo, a determinar a titularidade do Aquífero Guarani, ou seja, dizer quem são os únicos donos dessa reserva”.



Ele é o primeiro tratado do mundo sobre águas transfronteiriças assinado sem que um conflito bélico ou diplomático sobre ele estivesse em curso. Ele se destina, sobretudo, a determinar a titularidade do Aquífero Guarani, ou seja, dizer quem são os únicos donos dessa reserva. O documento também exclui a possibilidade de que disputas sobre o Guarani sejam levadas ao tribunal de Haia ou qualquer outro fórum internacional, indicando que essas desavenças só poderiam ser discutidas em um fórum próprio.


No momento em que as negociações sobre o acordo foram iniciadas, havia um debate na comissão de direito internacional da ONU sobre a titularidade dos Aquíferos transfronteiriços.


Uma corrente de diplomatas defendia que essas reservas fossem consideradas águas internacionais. A motivação inicial para a criação do acordo foi, então, fazer um documento que se opusesse a essa visão e antecipasse uma legislação sobre o tema.

Por isso a titularidade e a determinação de quem pode legislar sobre o Aquífero foram os pontos fundamentais do documento.

O Uruguai foi o país que buscou convencer os demais sobre a necessidade do acordo. A Argentina estava excessivamente preocupada com possíveis danos que uma parte poderia causar à outra e as disputas decorrentes disso. O Paraguai não teve uma atuação tão expressiva. O Brasil foi membro que dificultou as negociações por temer ingerências dos outros três envolvendo a gestão de sua parte do Aquífero.

As informações técnicas vieram sobretudo do projeto SAG, realizado por estudiosos dos quatro países e financiados pelo Banco Mundial.


Com esse estudo foi possível saber, por exemplo, que a retirada de água em um ponto do Aquífero não afeta a disponibilidade em outro ponto, no país vizinho. Esse tipo de dado foi fundamental para que se pudesse ter um tratado sobre o Guarani.





Argentina e Uruguai se esforçaram pela obtenção do acordo, conforme os documentos analisados pela minha dissertação.

O Paraguai, para quem o tema a princípio era neutro, viveu após a criação do tratado uma grande turbulência política, com um golpe civil que destituiu o presidente e fez com que o país fosse expulso do Mercosul.

Essa expulsão indignou os que tomaram posse por meio do golpe, e assim eles passaram a rejeitar no Congresso diferentes projetos de lei relacionados a países do bloco como forma de retaliação, e entre esses projetos estava o acordo do Guarani.

Ou seja, a não ratificação por lá se deu pela contaminação do tema pela pauta política. Como, desde então, a democracia paraguaia não se recuperou plenamente, não houve espaço para uma nova discussão do tema.

No Brasil, o que podemos é especular. Há quem defenda que o Congresso brasileiro não teve tempo para levar o acordo à votação, mas sabendo que a diplomacia brasileira considera a negociação do acordo um precedente negativo, como mostram as correspondências diplomáticas e estudos sobre o episódio feitos pelo próprio Itamaraty.

Pode ser que o Ministério das Relações Exteriores - MRE tenha recomendado a não ratificação. Mas, de novo, isso é especulação.
“Se fosse ratificado, o acordo criaria um órgão capaz de centralizar dados científicos e de gestão, inclusive para capacitação técnica de agentes públicos”
Se fosse ratificado, o acordo criaria um órgão capaz de centralizar dados científicos e de gestão, inclusive para capacitação técnica de agentes públicos. Essa seria a principal consequência do ponto de vista ambiental.

No campo político, os documentos mostram que os diplomatas brasileiros veem no episódio precedente negativo no que diz respeito à ingerência dos vizinhos. Ou seja, ele pode influenciar negativamente futuras discussões sobre recursos naturais transfronteiriços.

O Aquífero Guarani é visto como uma reserva de água para o "futuro", mas ele já é intensamente usado no Brasil há muitos anos, e de maneira irresponsável, com pouca fiscalização de poços clandestinos, poluição e exploração acima da capacidade de recarga das regiões.


Durante as negociações, o Brasil demonstrou que teme ingerência estrangeira sobre sua porção do sistema Aquífero Guarani, incluindo uma desconfiança contra os outros donos do Guarani.
Ainda sobrevive uma ideia de que alguém quer tomar nossa enorme porção de água, mas a grande ameaça ao Aquífero hoje é a nossa própria gestão irregular.

FONTES:


- Débora Spitzcovsky, publicada por The Greenest Post, 10-11-2016.


- Cinthia Leone dos Santos é graduada em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental - Procam, da Universidade de São Paulo. Atualmente é membro do Grupo de Pesquisa Laboratório de Geografia Política – GEOPO e assessora de imprensa da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.




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