O FINAL DA LINHA DE BONDE DE JUCUTUQUARA


 FOTO 01: Ortofoto LASA – 1955 – acervo Willis de Faria (Final de Jucutuquara)

O FINAL DA LINHA DE BONDE DE JUCUTUQUARA

POR: WILLIS DE FARIA (18/10/26)

DEFINIÇÃO: Parodiando Raul Seixas (Gita - “Guita”), era o “inicio, o fim e o meio”.

- Inicio: de Maruípe e Fradinhos (Hoje também Cruzamento)

- Fim: Jucutuquara (Fim da Linha de Bonde e começo da linha de ônibus)

- Meio: Jucutuquara, Fradinhos e Maruípe.

Este era um ponto muito especial, referencia de uma região. Onde o bonde, único meio de transportes de massa, nos anos 50 e 60 do bairro, Mas no ponto final, cuja via principal, a Avenida Paulino Muller, era dividida pela vala, e era o escoamento das águas do Córrego Fradinhos.


FOTO 02: Quando começou a ocupação de Jucutuquara (1912). A direta o Armazém-Bar de seu Benedito (Bidiu) e D. Noélia e a direita a Pedra (Matacão), do futuro dormitório São Lucas. Ao final a Pedra do Bode, do Morro do Rio Branco). Ao centro a vala do córrego Fradinhos.

Uma zona de concentração de comercio local, pois ali era na realidade uma tríplice fronteira de bairros: Final de Jucutuquara e inicio dos Fradinhos e do bairro de Maruípe.

Na direção de Fradinhos, a via não era pavimentada e nem urbanizada, apenas um caminho que seguia para o interior do vale, formando por dessa floresta, cujas casas ficavam a beira do leito do córrego Fradinhos, em sua maioria do lado esquerdo de quem adentava no bairro.

Chão batido, lama nos dias de chuvas, e inundação nos dias de chuvas torrenciais, quando o volume do córrego aumentava. Era quase uma tragédia para que vivessem na região, por causa das ruas esburacadas e muita lama. Não tinha linha de transportes coletivos.

A primeira linha de ônibus (lotação), foi em 1968, quando um projeto de autoria de meu pai, que era vereador e morador do bairro de Jucutuquara, propiciou a criação da linha de transportes coletivos, através das famosas lotação (micro-ônibus), comprados pelo Vereador Juarez Martins Leite (lotações compradas usadas, quase sucateadas, das linhas Méier-Copacabana),coloridas, com números de linhas no alto da cabine), fazendo a linha Fradinhos, passando pela cidade alta e finalizando na Vila Rubim. Era uma das justificativas para criação da linha, passado pelo alto da cidade.


 FOTO 03 - Lotação Fradinhos-Vila Rubim (Via cidade Alta)

(Quem não gostou foi o proprietário da Viação Biancucci, diga-se Vitalino Biancucci, que tinha a única linha de ônibus que ia ate ao final da linha dos bondes, com a linha São Torquato-Cruzamento), mas ele avançava ate o final de Jucutuquara. Era uma concessão (meia boca), por que na realidade era uma linha intermunicipal, não prevista na legislação municipal. Deu muita discussão, onde acabou a Viação Biancucci perdendo concessão de explorar a linha em Vitória. Seus ônibus eram grandes e velhos, com a descarga excessivamente poluente com fumaça do motor.

FOTO 04 – Bonde no final de linha em Jucutuquara

Para Maruípe, o inicio após o final da linha do bonde. Era uma ladeira, de rua estreita, e chão batido, com uma curva estrema pra a esquerda, circulado por uma via alta e estreita entre casa de moradores antigos, onde a via continuava ate chegar a Maruípe, e os bairros da periferia: Muxinga (hoje Tabuazeiro), Vila Maria (alto de Maruípe), Eucalipto (que nunca foi bairro) e finalmente Barreiros, que virou depois 3 bairros (São Cristóvão, Santa Marta e Joana D’Arc).

Voltemos ao final da linha, local de concentração de comercio, pois servia para 3 bairros. Tinha, o Bar de Mario Jantorno, que ficava no térreo de um sobrado, concentração dos pinguços de cachaça. Os bares do Ciroca (era um caldo de cana, com pastel, além de servir outros petiscos, mas não cachaça), o Bar de Cesar Poltroniere, que era na realidade a padaria do bairro, com venda de produtos alimentícios variados, que ficavam em uma imóvel, cujo imóvel abrigava a pensão de Sr. Manoel Donêncio, com quartos- quitinetes para estudantes e trabalhadores do comercio do Centro da cidade.

Descendo a Avenida a direita, existia a quitanda do Quincas (Joaquim Silva), que agregado tinha um bar de sua propriedade e dos filhos, que era também sorveteria, cervejaria e petiscos. O Quincas, homem muito gordo, voz grossa, pesando uns 140 quilos, cujos moradores o chamavam de “Joaquim Barrigudo”. Tinha muitos filhos (mais de 10), mas todos fora meus amigos.

 Ao lado, debaixo de uma grande grota de pedra tinha a Dormitório São Lucas, que servia de morada pra vários funcionários de bancos do centro da cidade e alunos da Escola Técnica de Vitória. Digamos, uns 20 hóspedes, sendo dois em cada quarto. Morador permanente era o Franz, um alemão de vida obscura do antigo exército Nazista, que carregava cicatrizes de guerra em uma perna. Dizia sempre a que perna tinha sido congelada com a bota dentro em batalhas contra o exercito Russo.

E finalmente do outro lado da rua, em uma casa de 1 pavimento, antiga, estava uma Mercearia de Secos e Molhados, de Sr. Bidiu e D. Noelia, que vendia de tudo, de cachaça a linhada de costura, feche Clair, tintas, cimento, carne seca, tudo ali tinha. Tudo amontoado como armazém de interior.

E para encerrar, tinha o armarinho de Sr, Arthur, que ficava em baixo de sua casa. Era uma ladeirinha, abrigava residência e em baixo o imóvel comercial. Tinha tudo de armarinho, onde eu muito frequentava, pois minha mãe era costureira, e sempre la ia comprar linhas, feichecleurs e cianinhas, agulhas, alfinetes, etc. Mas seu Arthur tinha uma peculiaridade. Contador de historias, mas estórias extensamente mentirosas, que dava pra arrepiar. Acredito que tenha sido o maior mentiroso da face da terra, só perdendo pra alguns governantes da era atual.

Para coroar a região, tinha em um imóvel de Sr. Morozini, uma porta, com uma sala, que era na realidade a sede do time do bairro: O Anchieta Esporte Clube, clube que na realidade só tinha craques, cujus moradores viviam nesta triplica fronteira: Jucutuquara-Fradinhos-Maruípe.

Fiz muita excussão com ao time, em cima do caminhão pau-de-arara, de Sr. Hilário Pessoti. Um time que enchia os olhos, pela valentia de se jogar, pois não eram mercenários. Mas sempre no final, acabava em briga, na vitória ou na derrota, cuja confusão começava sempre pelos irmãos Ormandino e Hermansil, uns descendentes de alemães caminhoneiros e moradores de Fradinhos.

FOTO 04 – Bonde se deslocando pela Avenida Paulino Muller em direção ao Cruzamento.

O final da linha era um local agitado, independente, uma parte da Nação de Jucutuquara. Todos eram amigos, se falavam e era uma comunidade unida e respeitada, mesmo com moradores mais humildes que moravam na encosta (morro).

Uma comunidade local independente, que deixou marcas, e algumas progrediram, como o Anchieta, que virou Clube Anchietinha, e time de futebol de salão.

E o bloco Coruja, do morro de Jucutuquara, virou a Escola de Samba Unidos de Jucutuquara, campeã de vários Carnavais.

Ai esta sua historia, da década dos anos 50 a 70. 

Em nossa viva memória ficaram!

FONTE: Memoria afetiva (Solavancos de reminiscencia ou Reminicence bump) - conceito que explica como nosso celebro conecta emoçoes, memórias e o passar do tempo.








Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ILHA DAS COBRAS - (VITÓRIA - ES)

23 DE MAIO DE 1535 – A CHEGADA DE VASCO FERNANDES COUTINHO AO ESPIRITO SANTO.

PARQUE MOSCOSO – 100 ANOS DE EXISTENCIA - UM FRAGMENTO DO PASSADO HISTÓRICO, PRESENTE NA VIDA ATUAL DA CIDADE.