1950: DIÁRIO DE UM ENGENHEIRO GAÚCHO NO ESPIRITO SANTO.
Interessou-nos publicar os relatos do diário do engenheiro gaúcho Luiz Edmundo Appel, que aqui estivera nos anos cinqüenta por 21 dias.
- Textos de Luiz Carlos Seara Appel e Luiz
Guilherme Santos Neves, publicados no blog ESTAÇÃO CAPIXABA.
- Adaptação: Willis de Faria
- Adaptação: Willis de Faria
O Espírito Santo em 1950
Historicamente, pode-se considerar 1950 um marco na
história do Espírito Santo. Neste momento, encerrava-se a primeira metade do
século XX em que o Estado se mantivera fundamentado em uma economia tipicamente
rural e cafeeira, com uma população de 860.000 habitantes, 94% dela vivendo no
interior.
Encerrava-se também o último ano do primeiro
governo de Carlos Lindenberg (1947-51) iniciado após a reconstitucionalização
do país, quando teve fim o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-45).
A economia agroexportadora capixaba afinava-se
então com o ideário programático-partidário do PSD – Partido Social
Democrático, pelo qual Lindenberg se elegera e que, no fim de 1950, levou Jones
dos Santos Neves a substituí-lo no governo.
O marco transitório dessa conjuntura histórica se
acentuaria no quatriênio seguinte, a partir da política desenvolvimentista do
Plano de Valorização Econômica do Estado, lançado por Jones, para dar ênfase à
industrialização da economia capixaba. O Plano estendeu-se à pavimentação de
rodovias pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Espírito Santo – DER ES,
quando, até então, apenas a Rodovia Carlos Lindenberg, em Vila Velha,
inaugurada em 1951, no 4º Centenário de Vitória, constituía o primeiro trecho
rodoviário efetivamente asfaltado no Estado.
Merece lembrar que as estradas do
norte do Espírito Santo, rumo a Linhares e São Mateus, cortavam áreas de mata
ainda viva; que os serviços de energia elétrica no interior eram precários e
irregulares; e que eram limitados os meios de comunicação à disposição dos
capixabas.
Da sua parte, a cidade de Vitória, contida entre o
mar, morros e mangues, mantinha seu perfil nitidamente provinciano com uma
população de 50.000 habitantes em números redondos.
Toda a vasta área da atual Esplanada da Capixaba e
do Bairro de Bento Ferreira estava por ser aterrada. O mar marolava perto dos
antigos mercados da Capixaba e da Vila Rubim, onde ancoravam embarcações para
abastecê-los de legumes e verduras.
O lado norte-noroeste da ilha-Capital, por onde
décadas depois se expandiria a região da Grande São Pedro, não passava de uma
área de características rurais, pela qual se transitava em estradinha de barro
que, com dois ou três mata-burros, serpenteava por altos e baixos topográficos
na ligação Santo Antônio-Maruípe. Essa área era pontuado pelo quase remoto
núcleo da Ilha das Caieiras.
Na porção urbana de Vitória o serviço de transporte
coletivo de ônibus estava em seus primórdios e mal competia com os bondes. De
bonde se ia de Santo Antônio à Praia do Canto (ou Comprida), passando pela
Praia do Suá, com uma variante que enveredava por Jucutuquara até o final da
Avenida Paulino Müller. Além desses extremos, a reduzida população de
Vitória se rarefazia completamente.
Em Maruípe, o Sanatório Getúlio Vargas, para
tratamento da tuberculose, ali situado, dá a idéia do isolamento que o circundava.
A praia de Camburi estava a uma inimaginável distância de vir a ser um dos
futuros bairros nobres e populosos da capital. Esta tinha sua configuração
imobiliária formada de casas e sobrados. O único edifício residencial, com seis
pavimentos, era o Antenor Guimarães, localizado na praça Costa Pereira.
Os divertimentos e as distrações da população
consistiam em passeios no Parque Moscoso; caminhadas (footings) na praça
Costa Pereira, no começo da noite; idas aos cinemas, que eram poucos;
comparecimento aos jogos de futebol no Estádio Governador Bley, em Jucutuquara
e às esporádicas regatas na baía de Vitória em que competiam barcos do Saldanha
da Gama, Álvares Cabral e Náutico Brasil, ou às festinhas e aos encontros
dançantes dos clubes sociais. Um circo que chegasse a Vitória, acampando no
areião no final da Avenida Capixaba, em frente ao antigo prédio da Capitania
dos Portos, era uma festa, o que também acontecia com os parques de diversões
quando ali se instalavam temporariamente.
Esses eram, grosso modo, o Estado do Espírito Santo
e a sua Capital quando por aqui passou o engenheiro Luiz Appel, autor do diário
sobre o qual serão feitos os comentários que se seguem, dando-se zoom a
algumas de suas passagens.
No
dia 11 de junho, um domingo, anota no Diário: “Após a janta, para variar de programa,
fui até a Praça Costa Pereira.” (grifamos na transcrição).
Três dias depois, outro registro segue na toada do anterior: “À noite, com Paulo e Cláudio Cavalcanti, fui… até a praça Costa Pereira, pois não há outro lugar para se ir, aqui.” (tornamos a grifar).
Três dias depois, outro registro segue na toada do anterior: “À noite, com Paulo e Cláudio Cavalcanti, fui… até a praça Costa Pereira, pois não há outro lugar para se ir, aqui.” (tornamos a grifar).
Os
grifos visam a acentuar que, ao mesmo tempo em que o engenheiro Appel mostra a
praça das cidades como lugar de convivência coletiva, revela a monótona mesmice
percebida pelo observador vindo de fora em relação a essa opção de distração
pessoal.
Completando
o conjunto de suas parcas distrações em Vitória, Appel assistiu a filmes no
Carlos Gomes e no Cine Trianon (únicos cinemas mencionados nominalmente no
Diário); passeou de manhã pela Praia do Canto, no “feriado estadual capixaba”
de Domingos Martins, 12 de junho; fez caminhadas à toa pelo centro da cidade;
repetiu o costume de quem vinha de fora e sentou-se em cadeira na calçada do
principal hotel de Vitória, o Tabajara, onde se hospedou; bebeu, no Sagres, “o
clássico guaraná” antes de ir dormir; visitou, no dia 27 de junho, a
“famigerada exposição” pecuária de Itacibá, da qual havia escrito, em 25 de
junho, domingo seguinte à sua inauguração, que “toda Vitória parecia para lá se
dirigir” (obviamente por falta do que fazer em outro lugar).
Curiosamente, não fez menção ao bonde, principal transporte público da cidade, embora seja possível que nele tivesse ido ao passeio na Praia do Canto e à matinê do Trianon, no mortiço feriado de Domingos Martins.
Curiosamente, não fez menção ao bonde, principal transporte público da cidade, embora seja possível que nele tivesse ido ao passeio na Praia do Canto e à matinê do Trianon, no mortiço feriado de Domingos Martins.









Olá, até então do rio de janeiro vim à capital resolver problemas familiares, desde o primeiro momento que pisei em solo capixaba gostei dos ares do Espírito Santo, pude no mesmo dia conhecer o centro histórico de vitória, lugar esse que me deixou vislumbrado com sua riqueza histórica.. Hoje morador de uma das ruas mais tradicionais procuro saber mais da cultura do lugar e seu passado recente. Gostei muito do conteúdo do blog, está de parabéns!
ResponderExcluir