VITORIA (ES) – 461 ANOS DE FUNDAÇÃO – MEMÓRIAS DOS ANOS 60.
(POR: WILLIS DE FARIA)
Vitória neste sábado, dia 08 de setembro de 2012,
completou 461 anos de existência, mas recordemos as memórias de um passado
recente, quando ainda tínhamos ares de província, sem que a revolução
industrial aqui tivesse chegado, transformando a cidade em um caos em matéria de
população flutuante e de circulação de veículos e sem a explosão imobiliária.
Ouvíamos o deslizar dos bondes elétricos pelos
trilhos ou o barulho às vezes infernal, mas isolado dos ônibus que circulavam
(eram poucos) pela capital. Vitória era aquela cidade onde todos se conheciam,
e um bate papo no Café Praça Oito, era colocado toda a conversa política em
dia, ou sentado à mesa do Britz Bar ou Bar Marrocos.
Postamos aqui, uma crônica do nosso amigo Ronaldo
Nascimento, louvável colunista social, de alguns dos jornais de nossa cidade,
quando os clubes sociais (Vitória, Saldanha da Gama, Álvares Cabral, Praia Tênis
Clube, Iate Clube, Náutico Brasil), faziam parte da vida dos moradores desta
ilha. Ali todos se encontravam nas festas programadas: Festas da Primavera,
Festa dos Brotos, Festa da Senhorita Vitória, Festa de aniversários dos clubes,
Festa do Grito de Carnaval, Festa do Carnaval, Baile de Aleluia, etc.
Ronaldo Nascimento escreveu, na condição de colunista social, para os jornais A Tribuna, O Diário, O Jornal (dos Diários Associados). Ele e o ex-senador Élcio Álvares inauguraram um programa sobre sociedade na TV Vitória, intitulado Praça Oito.
Ronaldo Nascimento escreveu, na condição de colunista social, para os jornais A Tribuna, O Diário, O Jornal (dos Diários Associados). Ele e o ex-senador Élcio Álvares inauguraram um programa sobre sociedade na TV Vitória, intitulado Praça Oito.
Escritos de Vitória- 18 (Uma passagem pelos anos
60)
Parece que foi ontem, entardecer primaveril, lua
cheia saindo redonda, iluminando a entrada do canal de Vitória, lá pela Curva
do Saldanha da Gama, meio escondida entre as poucas nuvens que flutuavam sob um
céu azul.
Perigo não havia e poluição também não, e de mãos
dadas, eternos namorados, Dª Gilmir e Dr. Meirelles caminhavam à beira-mar.
Mais atrás, livre da labuta do Fórum e dos cartórios, Dr. Jair Dessaune e Dª
Laurita formavam outro par romântico, alheios ao tempo que passava.
Na Praça Oito, entre um cafezinho e outro, os
médicos Benjamim Buaiz e Hilderico Araújo, e o professor Adhemar Martins
falavam em política, enquanto que na banca de jornal do Vasco, futebol era o
assunto, discutindo-se a última goleada que o Santo Antônio impôs ao Rio
Branco, com golaços do artilheiro Tom Pedra. Para tristeza de Salomão Nader o
Americano estava em baixa, mas a Nação de Jucutuquara tinha seus ídolos, Goli,
Zig, Dodoca, Monte e Hélio, distribuídos nas equipes do Vitória e Rio Branco.
Os aficcionados do remo apostavam no esquife de Caranguejo, comentavam sobre a dupla Harri e Arruela, enquanto Alfredo Morgado Horta, saldanhista doente, entre um copo e outro de cerveja Pilsen, aos gritos, afirmava que a regata de domingo contra o Álvares Cabral seria uma barbada.
Os aficcionados do remo apostavam no esquife de Caranguejo, comentavam sobre a dupla Harri e Arruela, enquanto Alfredo Morgado Horta, saldanhista doente, entre um copo e outro de cerveja Pilsen, aos gritos, afirmava que a regata de domingo contra o Álvares Cabral seria uma barbada.
Nos bancos da Praça Costa Pereira, Carlos Augusto
Aragão, Ronaldo Araújo, Frederico Barros, José Ignácio Ferreira, Fernando
Piovesan, estudantes do Colégio Estadual, ouviam atentos as “dicas” do guru
Paulo “Fura-Saco” Tavares, sobre o aniversário da noite, e a estratégia a ser
usada para penetrar na festa. O Clube dos Penetras era coisa séria. Com
carteirinha e tudo!
A Praia de Comburi estava longe, local deserto, onde o acesso só poderia ser feito pela Ponte da Passagem. A geração dourada ia para as praias do Barracão e Trampolim, onde o Walter e o Bar Michel, reuniam a moçada bonita da cidade. Jogava-se futebol na areia e Vânia Sarlo, ousada para sua época, entrava nos rachas com os peladeiros Victor Sarlo, Rogério Medeiros, Mandinho Gonçalves, Rominho Nonatto, Paturi e tantos outros.
A Praia de Comburi estava longe, local deserto, onde o acesso só poderia ser feito pela Ponte da Passagem. A geração dourada ia para as praias do Barracão e Trampolim, onde o Walter e o Bar Michel, reuniam a moçada bonita da cidade. Jogava-se futebol na areia e Vânia Sarlo, ousada para sua época, entrava nos rachas com os peladeiros Victor Sarlo, Rogério Medeiros, Mandinho Gonçalves, Rominho Nonatto, Paturi e tantos outros.
E como há tempo que passa e o tempo não sente, a
poesia era maior na orla da Praia do Canto, mar batendo nas castanheiras, às
vezes atravessando as muradas e chegando à Saturnino de Brito, quase atingindo
a casa dos Schllemn, Ruschi, Delano, Vivacqua, Von Schilgen, Madeira e tantas
famílias tradicionais do bairro.
[
Era Vitória da Favela de Ouro e Favela de Prata,
meninas bonitas, Nieta Pretti, Ana Maria Castello Leite, Heloísa Ferrari,
Geruza Fundão, Verinha e Florita Santos. E mais abaixo, passando pela casa dos
Nascif e atravessando o Viaduto, íamos encontrar a sentinela avançada onde
morava Roberto Ferraz, e mais em frente a beleza loira de Regina Castro,
vizinha de Nádia, Nilma e o caçula Vitor Buaiz.
Fizesse sol ou chuva, a tarde de domingo pertencia
ao Cine São Luiz, onde a nova geração marcava encontro, e o jornalzinho em
cores e perfumado com sabonete Forsly, era a atração maior que eu e Antônio
Luiz Horta lançamos, contendo a programação cinematográfica e mexericos
sociais.
E quem não se lembra do Bob’s na Rua Sete, Dominó
no Parque Moscoso e Confeitaria Pinguim, na Avenida Capixaba, onde depois do
footing dominical, em volta da Costa Pereira, ia-se tomar Sunday ou guaraná Prado,
e saborear os deliciosos pasteizinhos de leite?
Tinha mais ilha: O Clube Vitória e o Praia Tênis
Clube com suas festas inesquecíveis, vestidos longos, feitos por Armênia
Corteletti e bordados por Paulina Ferrari, e smokings e summers bem talhados
por Taneco, Joca e Camiseiro Nascimento, para a festa das Debutantes, Dez
Brotos, Menina-Moça e os saudosos réveillons do Aristocrático do Moscoso.
Bossa Nova, twist e rock’n roll já começavam a
animar os galetos dançantes do Iate Clube, às quintas, e a turma da varanda
falava na próxima Volta da Taputera, ao som do Barquinho, que trouxe Maísa
Matarazzo, Ronaldo Bôscoli, Bebeto e Roberto Menescal, por uma temporada que
merece outra crônica.
Estudava-se e estudava-se muito, sem greves e a
disciplina era imposta por educadores como Aristóbulo Barbosa Leão e Alberto
Stange. A eles, e aos professores José Leão, Renato Pacheco, Talmo, Meira
Quadros, Balbino, Zilda, Luiz Buaiz, Expedito, Clóvis Rabello, Nelson Abel de
Almeida, Leandro Nader, Ruy Lora, Iracema, Sílvio Crema e tantos outros, parte
de nossa geração deve grande agradecimento.
Quando o mês de agosto se aproximava, Escola
Normal, Ginásio São Vicente, Colégio Salesiano, Colégio Estadual e Colégio do
Carmo iam para as ruas treinar o garboso desfile de 7 de setembro. E cada qual
queria ser melhor no grande dia...
Mas a vida não se resumia apenas ao Centro, Praia,
Jucutuquara e Parque Moscoso, Em Santo Antônio o serviço de alto falantes do
Racing Futebol Clube mantinha excelente programação e descobria novos talentos
para Rádios e Jornais: Elisson de Almeida, Nabor Vidigal, Anselmo, Edmar, Tião
Barrica, Fernando “Jacaré” Jackson e José Américo Vidigal, que ganhou contrato
na Voz da América e partiu para os Estados Unidos e nunca mais voltou. Santo
Antônio era lugar de bambas e do Fred’s, bar que não fechava, pois afinal não
tinha portas.
Como era alegre minha ilha e seus tipos populares:
Mané Cadê Minha Égua, Américo Rosa, Meio Fio e o triângulo amoroso,
Otinho-Rosa-Violão.
Cidade das noites indormidas, boêmias, Volta de
Caratoira, com Casa Verde, Portão de Ferro, Casa Branca, a eterna Aurora Gorda,
e as madrugadas longas de ver sol nascer, ao sabor de uma galinha ao molho
pardo, preparada por Nelsinho, no Restaurante Mar e Terra.
Mas na Rua General Osório, em frente A Gazeta, 120
e 130 também abrigavam o pecado, e Maria Tomba Homem, na Ilha do Príncipe,
encarava qualquer marmanjo que pisasse na bola, porque afinal o ambiente exigia
respeito.
A cidade das “meninas dos meus olhos, onde são
lindos os olhos das meninas”, nos versos da jornalista Ivone Amorim, tinha seus
saudosos carnavais de rua, dos blocos sujos, do tablado, do Bar Sagres e dos
primeiros “gays”, Arnaldo, Campista e Windilino, que fantasiado de baiana era o
sucesso do tríduo momesco.
Poucos se lembram do bonde das almas, do bagageiro
que carregava os feirantes, do Comissário Lins e do Bar C. da mãe, com suas
manteiguinhas e seu Toddy tão procurados pelos notívagos da Costa Pereira.
A ilha não é mais a mesma, sem Boate do Clube
Vitória, Butéko, Cave, Ana Maria Batalha, e Verinha Espíndula cantando “Sabor a
Mi”, e Lulú Belesa encaixotando sereno e mostrando que têm no sangue e na voz
os tangos de Gardel.
Sua geografia, entretanto, continua a mesma, linda
e imprensada entre o mar e as montanhas, por que isso não se pode mexer. O
Velho Casario deu lugar aos modernos edifícios e o Mercado da Vila Rubim,
Quartel dos Bombeiros do Parque Moscoso e a antiga Prefeitura não existem mais.
A cidade mudou em quase tudo, e as pessoas também.
Vitória, a minha Ilha do Mel, merecia um livro que falasse de suas coisas e
pessoas, como depoimentos de Milton Murad, Renato Pacheco, Edgard dos Anjos,
Cacau Monjardim, Marien Calixte e Marcelo Abaurre, conhecedores profundos de
nossa história, Pena que faltariam os casos pitorescos dos queridos Ademar
Martins e José Costa que partiram para outras galáxias.
Um dia, se o tempo deixar, vou pesquisar com eles,
o que hoje tenho quase certeza ao dizer, que quando as primeiras caravelas
aportaram na Prainha de Vila Velha, não foi à toa, e sim por opção dos sabidos
portugueses. Rapidamente perceberam que dominando o morro mais bonito daquele
lado do continente, de lá desfrutariam da eterna maravilha que é Ver Vitória.
E a cidade está aí, linda como poucas em todo
mundo, com suas histórias e gozações sequiosas para ser descoberta pelo
turismo, e que apesar de haver crescido tanto, continua com sua ternura de
adolescente, o porto seguro de meus retornos, porque para tantos da minha
geração muita coisa linda aconteceu. E parece que foi ontem...
Por: Ronaldo Nascimento
Livro: Escritos de Vitória- 18 – Cidade Presépio,
1997.
Compilação:
Willis de Faria




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