THE VOICE BRASIL: REALITY SHOW JAMAIS ENCONTRARÁ UM GÊNIO.

A OPINIÃO DOS CRÍTICOS.


(POR WILLIS DE FARIA)

Termino o ano de 2013, postando esta matéria sobre o The Voice Brasil, que invadiu as noites de quinta feira, as nossas casas.

Show de talentos com muitos requintes, o “The Voice Brasil” se revelou a principal bola dentro da Rede Globo, em matéria de audiência, em 2013. Ao deixar as tardes de domingo, horário escolhido para a primeira edição, há um ano, e migrar para as noites de quinta-feira, o reality show registrou um salto notável no Ibope. Quase sempre, ao longo das 13 semanas que durou, foi o segundo programa mais visto no país, atrás apenas da novela “Amor à Vida”.

Várias são as razões do sucesso. Eu mencionaria a alta qualidade da produção, o bem-sucedido time de “técnicos” com perfis muito diferentes, as escolhas de repertório, frequentemente polêmicas, e a variedade de candidatos, com perfis e talentos muito dispares.

Mas acho que, na reta final, talvez por conta do enorme sucesso de público, o programa acabou sendo levado a um caminho diferente do que os interessados em música esperavam. Com a votação aberta desde a última quinta-feira (20), quando os finalistas foram definidos, o concurso de calouros acabou se tornando uma disputa de popularidade, ao estilo do que ocorre no “BBB”.
A franquia brasileira de The Voice – uma versão do programa de TV norte-americano – ganhou mais um vencedor na semana que se passou. Mais um intérprete. Mais um nome falado exaustivamente nas redes sociais. Mais um “trending topic” fadado a sumir.

Nada contra intérpretes, longe disso. Mas vamos ser honestos: qual é a chance de um reality show (lembrando The Voice, Fama, Ídolos, Astros e etc.) realmente descobrir um talento nato, um grande músico, um gênio, alguém que não seja esquecido em poucos meses, alguém que não seja mais um?

Por onde andam todos esses ganhadores?

O nome mais recente do reality show brasileiro é Sam Alves. Grande técnica, timbres incríveis, alcance vocal e uma história tocante. Prato cheio para a audiência do The Voice Brasil, agora em horário nobre.

Sua passagem pelo programa marcou seus recentes fãs com interpretações de canções como When I Was Your Man (Bruno Mars), Não Quero Dinheiro (Tim Maia) e Hallelujah (Leonard Cohen).

O que há nessas canções de novidade? Nada. Continuam sendo grandes músicas. Composições, letras, palavras, melodias, arranjos, riffs, harmonias que vivem e viverão muito mais do que aqueles que as escreveram e as montaram de forma tão visceral.

Uma voz jamais será maior que uma canção.

Ouvir alguém cantar Hallelujah pode ser bonito. Ouvir alguém deixar a letra de lado para mostrar sua potência vocal é irritante.

Posso citar dezenas de compositores sensacionais que nunca foram famosos por suas capacidades vocais. A voz rasgada de Bob Dylan expressou sentimentos escritos ali melhor que qualquer grito tecnicamente calculado no horário nobre. Ele, Paul McCartney, Tim Maia, Paul Simon e Art Garfunkel seriam certamente gongados do programa.

Isso te parece certo?

Nesta edição, a TV Globo anunciou que os competidores poderiam cantar suas próprias composições.

Confesso que isso me empolgou. Passou. Nada aconteceu. Uma grande chance desperdiçada de ver alguém aparecer com uma letra interessante, versos criativos e qualquer coisa que contribua mais aos nossos ouvidos do que “tche tche re rê” e “ai se eu te pego”. Foram poucos na primeira fase que escolheram esse caminho arriscado. Mostrar seu talento como compositor ou recauchutar uma música que já tocou na novela?

O reality show se apresenta como um grande catalisador da música, uma ferramenta renovadora em busca de novos talentos, mas induz os participantes a fazerem mais do mesmo.

Imaginem uma terceira temporada onde os cantores levam suas próprias composições – todas em português – e o grande desafio do programa seja seus técnicos os ajudando a lapidar novas músicas para que se tornem sucessos.

No lugar disso, o programa vai ao tiro certo: músicas que já são sucesso em versões novas. Doze horas depois são vendidas a 0,99 centavos no iTunes e logo enchem as listas das paradas com hits reciclados com artistas descartáveis, entregues novamente à própria sorte em shows em bares e restaurantes por aí.

Encontrar novas vozes se mostrou nesta segunda temporada mais uma tarefa fácil para o programa. Mas o que isso agrega para a nossa música?
As canções que tanto emocionaram nas redes sociais já existiam antes do programa e existirão depois dele. As interpretações exageradas e cheias de floreios estarão para sempre no iTunes, mas deixarão de serem baixadas em breve.

Enquanto o programa recicla mais do mesmo, a música segue dominada pelo “pre-para”, “ai se eu te pego” e “tche tche re rê”. Vivemos uma época em que se consome o pior da música popular. Um tempo onde refrões ganham fonemas no lugar de palavras para serem repetidos mais facilmente nas rádios e baladas.

Realmente não há nada melhor a ser dito? Muito se ilude quem acha que o formato do The Voice encontrará algum gênio para nos tirar da mesmice.
Zélia Duncan usou sua conta do Twitter para disparar suas opiniões pessoais sobre a final do The Voice Brasil 2013. Com várias críticas, a cantora não deixou escapar nenhum dos participantes.

“Nosso lar é o The Voice! Com tecla Sap !” ironizou Zélia se referindo a apresentação do vencedor Sam Alves. “A real Brazilian singer, sings in English, right? Rs good luck, Sam”, continuou. O participante esteve entre os mais votados durante toda a temporada e surpreendeu à todos com sua desenvoltura no palco. 

Pedro Lima, o cantor de chuveiro do programa da apresentadora Ana Maria Braga, também foi muito criticado pela cantora.  “Calma, garoto…respira. Acredito na emoção dele, mas o número foi fraco”, disse ela sobre a apresentação final do participante.

Sobre Lucy Alves a artista deixou claro que não gostou do número e com um tom bem irônico ela criticou a afinação. “Não…tudo lindo, mas não, né, gente? É apenas minha opinião, não é a verdade. Ela é querida, mas desafina muito”, escreveu. O participante Rubens Daniel também foi criticado por Duncan no quesito afinação.

Nem mesmo a organização do The Voice escapou dos comentários afiados de Duncan, que afirmou que o resultado final do programa já existe antes mesmo dos participantes se apresentarem.  “saquei…. O resultado já deve existir, claro! Se tanta gente já votou…. Impede ao candidato o direito de surpreender!”

O público votou muito mais no “conjunto da obra”, o que inclui características como simpatia, carisma e, até mesmo, a aparência do que no desempenho dos candidatos enquanto cantores numa final.

A edição do programa reforçou este aspecto no último episódio. Equipes de jornalismo da Rede Globo entraram ao vivo de locais públicos nas cidades dos quatro finalistas, mostrando amigos e conhecidos gritando por seus favoritos. Em uma cidade o repórter disse que a prefeitura havia liberado o wi-fi para que o público pudesse votar.

Outro aspecto pouco ortodoxo num concurso musical foi o apelo religioso relacionado a um dos finalistas, justamente o que acabou vencendo, Sam Alves. Sua “técnica”, Claudia Leitte, sublinhou o tema ao justificar porque ele merecia ganhar.

“Ele tá prontíssimo para fazer uma carreira. O primeiro palco que ele pisa é o ‘The Voice’. Ele saiu da igreja pra cá. E além de todo o profissionalismo dele, a gente consegue enxergar uma luz especial em Sam”, disse. “Algo que faz com que ele se destaque por causa da missão dele. E a missão dele é fazer Deus se revelar através do canto. Tenho certeza disso.” Na sequência, o candidato cantou uma versão de “Hallellujah”, de Leonard Cohen.


 Aí embaixo, Leonard Cohen cantando Hallelujah de um jeito que jamais será visto em um reality show.

Hallelujah - Alexandra Burke - X Factor 2008 FINAL.

Assistir Sam Alves no The Voice Brasil dia 26/12/2013 – Final


Letra da música interpretada.

Hallelujah

I heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do ya?
Well, it goes like this: the fourth, the fifth
The minor fall and the major lift

The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah

Well, your faith was strong, but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew ya
She tied you to her kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the hallelujah

Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah

Baby, I've been here before
I've seen this room and I've walked this floor
You know, I used to live alone before I knew ya
And I've seen your flag on the marble arch
And love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah

Well, there was a time when you let me know
What's really going on below
But now you never show that to me, do you?
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah

Well, maybe there's a God above
But all I've ever learned from love
Was how to shoot somebody who outdrew ya
And it's not a cry that you hear at night
It's not somebody who's seen the light
It's a cold and it's a broken hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah
Hallelujah

TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS

Aleluia
Eu soube que havia um acorde secreto
Que Davi tocava para louvar ao Senhor
Mas você não liga muito para música, não é?
Bem, é assim: a quarta, a quinta
A menor cai e a maior ascende
O rei frustrado compondo Aleluia

Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aleluia

Bem, sua fé era forte, mas você precisava de provas
Você a viu se banhando no telhado
A beleza dela e o luar arruinaram você
Ela amarrou você à sua cadeira da cozinha
Ela destruiu seu trono, e cortou seus cabelos
E dos seus lábios ela tirou um Aleluia

Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aleluia

Querida, já estive aqui antes
Vi este quarto, andei neste chão
Sabe, eu costumava viver sozinho antes de conhecer você
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
E o amor não é uma marcha de vitória
É uma fria e sofrida Aleluia

Aleluia, Aleluia, Aleluia

Bem, houve um tempo em que você me deixou saber
Tudo o que realmente acontecia
Mas agora você nunca me mostra isso, não é?
Mas lembra quando eu entrei em você
E a pomba sagrada entrou também
E todo suspiro que dávamos era um Aleluia

Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aleluia

Bem, talvez haja um Deus lá em cima
Mas tudo que eu tenho aprendido sobre o amor
É como atirar em alguém que desarmou você
E não é um choro o que você ouve à noite
Não é alguém que tenha visto a luz
É um frio e sofrido Aleluia

Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aleluia
Aleluia



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