CASSANDRA RIOS – A ESCRITORA BRASILEIRA MALDITA.
(Por WILLIS DE FARIA)
Enquanto o romance, O livro
"Cinquenta Tons de Cinza" ("Fifty Shades of Grey"), da
autora E.L.James, se tornou o romance britânico mais vendido de todos os
tempos, com 5,3 milhões de cópias comercializadas no Reino Unido e quase 20
milhões no mundo todo.
O romance de E.L.James
inicia uma trilogia de erotismo que já se transformou em um verdadeiro fenômeno
literário mundial e que algumas editoras classificam como "pornô para mamães".
O argumento do romance gira
em torno da relação entre o jovem e bem-sucedido empresário Christian Grey e
Anastasia Steele, uma estudante de literatura. Apesar do enorme sucesso do
best-seller, E.L.James admitiu que quando assinou o contrato com a editora
Random House sua principal ambição era, simplesmente, ver seus livros nas lojas
e que não tinha ideia que seu romance se transformaria em um fenômeno de vendas
mundial.
- A trilogia "50 tons
de cinza" vendeu mais de 70 milhões de cópias em 2014, fazendo a editora
Random House chegar a um lucro recorde. Foi o fenômeno de vendas de 2012, 2013
E 2014, e esta marca foi conquistada entre março e dezembro.
O lucro da editora saltou
75% em um ano, para €325 milhões em 2012. E-books representaram cerca de 50%
das vendas - o que também representa um crescimento significativo, uma vez que
a média de vendas da Randow House costuma ser de 20% de livros neste formato.
Esse sucesso ajudou a
Bertelsmann - gigante da comunicação da qual a Randow House faz parte - a
manter os níveis de lucro global do grupo, apesar das condições adversas para o
mercado publicitário para TV, revistas e música da multinacional.
"50
tons foi o carro-chefe, mas não é o único responsável pelo sucesso das
vendas", diz o diretor da Bertelsmann, Thomas Rabe,
que tem expectativas positivas para "Inferno", de Dan Brown, cujo
lançamento está marcado para maio.
No mundo todo, a trilogia
de E.L. James já vendeu cerca de 40 milhões de livros - ainda muito atrás dos
450 milhões da série do bruxo Harry Potter.
A diretora-gerente da
Cornerstone Publishing, Susan Sandom, admitiu que o fenômeno "Cinquenta
Tons" é "uma das experiências mais extraordinárias" de sua
carreira editorial. "A velocidade e o número de vendas são incríveis, e os
papéis que os livros desempenharam em tantas pessoas que trabalham na indústria
são, simplesmente, impressionantes", afirmou Susan.
O livro "Cinquenta
Tons Mais Escuros" -, o livro já foi traduzido para vários idiomas, entre
eles chinês, russo, sérvio e vietnamita.
Mas para nós brasileiros, é
novidade pela divulgação da mídia, por que nos já tivemos uma escritora
brasileira, que escreveu erotismo em seus livros, que fora censurados,
proibidos e queimados pela censura da era dos anos de chumbo da ditadura
militar, onde o puritanismo desenfreado dominava a nossa sociedade. Só na
clandestinidade o erotismo liberal era visto através do baratinho “catecismo”
erótico do Carlos Zériro, que já comentamos em nosso BLOG.
Cassandra Rios,
pseudônimo de Odete Rios1 (São Paulo, 1932 —
São Paulo, 8 de março de 2002)
foi uma escritora brasileira de ficção, mistério e principalmente
homossexualidade feminina e erotismo, sendo uma das primeiras escritoras a
tratar do tema.
Biografia- É filha de
espanhóis radicados no Brasil.
Carreira - Durante sua
carreira, Cassandra escreveu mais de quarenta romances best-selling
que lidam com o tema da homossexualidade.
Em 1986 foi convidada a se
candidatar a deputada pelo PDT durante um programa de rádio, enquanto entrevistava Adhemar
de Barros, porém não se elegeu.
Tornou-se em 1970 a primeira
escritora brasileira a atingir a marca de 1 milhão de exemplares vendidos,
sendo que 36 dessas obras foram censuradas durante a Ditadura
militar.
Cassandra Rios faleceu em
São Paulo, aos 69 anos de idade, em 8 de março de 2002.
Bibliografia
- Volúpia do Pecado, sua estreia na literatura, em 1948, aos 16 anos
- Macária (1952)
- Carne em delírio
- Nicoletta Ninfeta
- Crime de Honra
- Uma Mulher Diferente
- Copacabana Posto 6 - A madrasta
- A Lua Escondida
- Eudemonia
- O Gamo e a Gazela
- A Borboleta Branca
- Marcella
- As Traças
- A Tara
- O Prazer de Pecar
- A Paranoica, adaptado para o cinema com a então estreante Nicole Puzzi
- Breve História de Fábia
- Tessa, a Gata, adaptado para o cinema em 1982
- Um Escorpião na Balança
- Muros Altos
- Cabelos de Metal
- Entre o Reino de Deus e o Reino do Diabo, (1977), não publicado.
- MezzAmaro, autobiografia (2000)
Uma das mais polêmicas
escritoras brasileiras, Cassandra Rios foi a primeira mulher a vender um milhão
de exemplares no país — e a mais censurada artista do país. Seus temas
eróticos, muitas vezes considerados pornográficos, fizeram com que, nos anos
70, no auge da ditadura militar, 36 de seus livros fossem censurados. Sem falar
nas brigas na Justiça. Um único livro, “Eudemônia”, rendeu-lhe 16 processos. Em
1976, por exemplo, de seus 36 livros publicados até então, 33 estavam proibidos
e apreendidos.
O sucesso popular da autora
de “O prazer de pecar”, “Tessa, a gata”, "Carne em delírio" e "A
paranóica" — levado ao cinema com o título de “Ariela” — não garantiu o
mesmo reconhecimento no meio literário. Durante anos, Cassandra foi chamada de
escritora sem qualidade e chegou a ser tachada de comunista e obscena. Nos anos
80, quando vendia 300 mil exemplares de cada novo livro, conquistou a simpatia
de Jorge Amado, que passou a defendê-las das críticas.
Cassandra, porém, preferia
ignorar as críticas. Ela começou a escrever pequenos textos aos 12 anos de
idade. Aos 16 anos, estreou profissionalmente, com "A volúpia do
pecado". Numa de suas raras entrevistas, afirmou que se considerava
perseguida por ser mulher. "Não me considero marginalizada, eu é que
marginalizo e ignoro a crítica".
No livro "Repressão e
resistência — Censura a livros na ditadura militar", a pesquisadora Sandra
Reimão reproduz o parecer da analisa que determinou a censura de uma das obras
de Cassandra, “Copabacana Posto 6 — A madrasta”: "O livro de Cassandra
Rios traz mensagem negativa, psicologicamente falsa em certos aspectos de
relacionamento, nociva e deprimente, principalmente pela conquista lésbica da
heroína junto à madrasta e o duplo suicídio final."
A escritora morreu em março
de 2002, de câncer, aos 69 anos.
Leia mais sobre esse
assunto em
http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/nos-anos-70-ninguem-foi-mais-censurado-no-brasil-do-que-cassandra-rios-10425009#ixzz39komaG7o
Documentário
Em 2013 estreiou o
documentário Cassandra Rios: a Safo de Perdizes, direção de Hanna
Korich, o filme traz depoimentos de pessoas que participaram da vida da autora
de alguma forma, como a sobrinha Liz Rios, a atriz Nicole Puzzi, a escritora
Lúcia Facco, o editor Maxim Behar, o presidente da Comissão de Direitos Humanos
da OAB/SP, Dr. Martim Sampaio, entre outras personalidades. Nicole
Puzzi estrelou em dois longas-metragens extraídos de livros de Cassandra, Ariella (1980)
e Tessa, a Gata (1982).
SUA
HISTORIA, SUA VIDA.
Nascida na cidade de São
Paulo, em 1932, Cassandra foi criada no bairro de Perdizes. Seu verdadeiro nome
era Odete Rios, mas preferiu assinar seus livros como Cassandra, que na
mitologia clássica era filha de Príamo, rei de Tróia.
Era amada por Apolo, que
a dotou com o poder da profecia. Porém, quando Cassandra recusou satisfazer
suas vontades sexuais, Apolo jogou-lhe uma maldição – ninguém acreditaria em
suas profecias. A mitologia clássica, além de dar origem a seu pseudônimo, foi
uma constante em várias de suas obras.
A própria Cassandra contou como surgiu a
idéia deste pseudônimo: “Engraçado o mundo! A
sociedade! O homem! A mulher! E ela: a lésbica! Enfim, o convencimento, a
segurança, a certeza para a definição da personalidade estabelecida, do
caráter, da moral e do que ela era: Homossexual!” (Cassandra Rios, Mutreta,
1972, p.27).
“As bissexuais devem sofrer
mais, são as indefinidas, vivem na corda bamba, porém podem ter mais liberdade
e se conduzirem dentro de certo padrão em todos os ambientes. É intermediário
na sociedade sexual” (Cassandra Rios, Um escorpião na balança, 1968).
“Masculinizada, colete, calça de brim, camisa
xadrez, cabelos lisos, alta, bonita, mas o tipo da metida a machona, insultando
com seu aspecto os ignorantes no assunto, ou melhor, dizendo, assustando com
seu jeitão de falsa displicência. Logo percebi que ela não sabia realmente o
que significa ser homossexual e brincava de ser homem”. (Cassandra Rios,
Anastácia, 1977, p.142).
“Por que estão aqui?
Refugiando-se? Procurando gente igual? Como alienígenas, à procura de quem
saiba falar o mesmo idioma? Vocês, como eu, já recalcaram todas as piores
mágoas que um ser humano pode ter. Primeiro aquela surpresa de que nossos
gostos são diferentes, contrários aos bons costumes sociais, que temos que ocultá-los.
Segundo, a vergonha da palavra: lésbica! Homossexuais!”(Cassandra Rios,
Copacabana Posto 6- A madrasta, 1972, p.51)
“Outra! Era mais outra! Em
todo canto as encontraria. Era um clã que se identificava misteriosamente e ia
crescendo, aumentando, como se todas as mulheres do mundo estivessem sujeitas a
determinado feitiço. O feitiço daquela perversão”. (Cassandra Rios, Copacabana
posto 6- A madrasta, 1970, p.146).
“Se não podia torná-la
esposa um dia, jamais também deveria ser sua amante:- Jamais! Mas já o era. Há
muito tempo. Amantes do pecado e da volúpia”. (Cassandra Rios, A volúpia do
pecado, 1948, p. 282)
O período 1948 (ano da
publicação de A volúpia do pecado) a 1972 (ano em que é lançado Copacabana
posto 6 – A madrasta, obras significativas de Cassandra Rios) é marcado, na
sociedade brasileira, por intensas transformações. Por um lado, assiste-se ao
crescimento e consolidação de um mercado de bens simbólicos, caracterizando uma
autêntica indústria cultural de dimensões nacionais: rádio, cinema, jornais,
revistas, livros e televisão serão algumas das mídias que neste período irão se
constituir componentes da indústria cultural. No tema que nos interessa, cabe
mencionar a expansão do mercado editorial. Por exemplo, entre 1966 e 1980 o
número de livros impressos salta de 43,6 milhões/ano para 245,4 milhões de
exemplares/ano. As revistas, por sua vez, pulam de 104 milhões/ano em 1960 para
500 milhões/ano em 19851.
Além disso, alternaram-se
nessa conjuntura dois diferentes tipos de regimes políticos: uma democracia de
massas limitada, conhecida na literatura especializada como “Populista”
(1946-1964) e um regime autoritário, a Ditadura Militar (1964-85).
A simultaneidade dessas
transformações coincidiu com uma mudança substancial da moral sexual vigente e
dos próprios papéis sexuais associados a diferentes gêneros. A sociedade
patriarcal, de tradição católica, luso-portuguesa, na qual os papéis sociais
relacionados aos sexos eram rigidamente divididos e estratificados, começou a
ceder espaço para manifestações de outras culturas, inclusive sexuais. È ao
longo desse processo que comportamentos sexuais até então tidos como
“desviantes” e socialmente “condenáveis” acabariam por conquistar, se não sua
plena aceitação, pelo menos um espaço de manifestação no conjunto das
representações sexuais do Brasil contemporâneo.
A recorrência com que a
cultura homossexual2 se manifesta em nossos dias pode presumir uma história
contínua, de evolução recente e isenta de percalços e contradições.
A freqüência cotidiana com
que nos deparamos com comportamentos, símbolos e sinais que se assumem ou são
reconhecidos como associados ao homoerotismo não nos revela em que
circunstâncias e sob quais condicionantes tais comportamentos e as identidades
sexuais a eles associadas se tornaram historicamente possíveis. Aqui,
pretende-se contribuir para o alargamento de nosso conhecimento sobre esse
processo com relação à constituição histórica das identidades sexuais
associadas ao homossexualismo feminino, ou lesbianismo, a partir da produção da
principal autora nacional na prosa ficcional dedicada ao tema.
O tema predominante em seus
livros é o lesbianismo e suas variantes, como o bissexualismo feminino e a
inserção em uma sociedade em que os papéis sexuais, ainda que inicialmente
rigidamente determinados, estavam em processo de redefinição. O alcance social
da sua obra (cerca de meia centena de livros, a maioria com várias edições, em
tiragens que recorrentemente alcançavam 300.000 exemplares) é o resultado da
ressonância cultural que a autora alcançou.
Na medida em que ela foi a
principal (senão a única) autora do gênero em nosso país durante trinta anos,
não se pode desconsiderar sua importância no processo de (re) definição dos
papéis sexuais entre significativo número de mulheres leitoras no Brasil
contemporâneo naquele período.
Não foi, certamente, por
seu estilo literário que Cassandra Rios encontrou destaque no cenário cultural
brasileiro. Na verdade, este se caracterizava por apresentar uma narrativa
pouco sofisticada, por meio do uso de uma linguagem linear e direta. Porém, se
não há destaque em seu estilo, certamente merece atenção a sua temática –
bastante original para a época – e a sua influência, auxiliando o processo de
constituição de identidades sexuais coletivas no Brasil.
Cassandra Rios construiu
sua obra baseada na temática erótica e mais especificamente no amor homossexual
feminino. Seu nome se tornaria no imaginário coletivo quase que sinônimo de
literatura lésbica.
Na época em que seus livros
foram publicados o termo GLS não havia sido criado, organizações gays e
lésbicas não existiam e mesmo revistas ou quaisquer outros produtos de conteúdo
erótico não eram disseminados. Temas ligados a conteúdos eróticos não eram
tratados em rádio ou televisão, ou sequer possuíam publicações especializadas,
como é comum hoje em dia. Eram temas secretos e privados.
Ao mesmo tempo, o que era
visto como estranho (ou errado, ou pervertido, ou pecaminoso) era considerado
desvio a ser combatido pelo Estado com a censura, em especial durante a Ditadura
Militar. Cassandra Rios foi alvo privilegiado dessa repressão.
Chegou a vender trezentas
mil cópias em um ano, mas também tiveram trinta e seis dos seus quase cinquenta
livros publicados proibidos até 1974 – quando o afrouxamento do regime permitiu
a publicação de suas obras.
Como, diante desse
contexto, suas obras tinham tamanha aceitação? A explicação pode estar no fato
de que seu estilo ousado e extrovertido tratavam de assuntos como o prazer
feminino de maneira clara e direta. Era uma mulher escrevendo sobre o prazer
com outra mulher em uma época em que concepções religiosas afirmavam que o sexo
tinha apenas a função de reprodução e a ideia de que as mulheres não sentiam
prazer era compartilhada entre diversos setores da sociedade. A maternidade ainda
era tida como missão última da mulher nesta sociedade patriarcal, razão pela
qual sua obra tendeu sempre a ser encarada como marginal.
O estilo de Cassandra,
assumidamente popular, escrito em prosa simples e direta, quando não chula e
popularesca, veiculada em livros baratos, apelando para capas provocantes e
títulos diretos, surpreendia e cativava um vasto número de leitores, cujas
tiragens a eles associadas permite afirmar com acerto que transcendia o público
exclusivamente lésbico ou mesmo feminino. Cassandra Rios fornece em suas obras
uma representação de uma cultura lésbica em formação. Seus primeiros escritos
sobre o tema apresentam protagonistas lésbicas. A sua originalidade inicial
está no fato de que a narrativa é composta por temas combatidos no período,
mesmo no âmbito dos relacionamentos heterossexuais6. O conservadorismo
predominava no país, a sexualidade como um todo era um tema tabu.
As estratégias narrativas
utilizadas na ficção de Cassandra Rios procuram, além de mencionar o diferente
- ou seja, o amor entre pessoas do mesmo sexo – tem a intenção de apresentar as
experiências homossexuais como caminhos possíveis para a vivência afetiva,
mesmo amorosa, num período em que inexistiam outras iniciativas semelhantes em
nosso país.
Como contraste, pode-se
mencionar que o homossexualismo masculino, ao contrário, já era tema corrente
em nossa literatura pelo menos desde o Naturalismo (Aluísio Azevedo (1890),
Adolfo Caminha (1895), entre outros). Pode-se considerar que o primeiro romance
de temática lésbica de alcance nacional foi justamente o livro de estreia de
Cassandra Rios (A volúpia do Pecado, 1948).
Muito antes do surgimento
de movimentos de gays e lésbicas, que se organizam no Brasil a partir de 1978,
Cassandra Rios discutia em sua ficção a questão da procura pela posição do
homossexual no processo social. Mais ainda, em seus livros ela discute sob que
formas podem-se definir a opção ou comportamento lésbico, bi ou heterossexual.
Possui na obra de Cassandra
Rios uma fonte possível de análise. Abrangendo o período que vai do final da
década de 40 até os anos 70, constituindo a maior parte de suas publicações,
sua ficção apresenta a forma pela qual a autora debate os confrontos da
constituição dessa identidade homossexual.
Um misto de estranhamento e
identificação é revelado em suas narrativas em que as lésbicas agem como
personagens marginais e estranhos, cuja condição social as obriga a observar
tudo do exterior.
A literatura de Cassandra
Rios , neste aspecto, revela-se inovadora, e mesmo revolucionária, ao retirar a
libido feminina de seu claustro forçado, trazendo-a à luz.
A obra de Cassandra Rios a
partir dos dois livros: A volúpia do pecado de 1948 e Copacabana
posto 6 – A madrasta de 1972, revela uma tentativa de construção
identitária da homossexualidade feminina aparece na literatura. Seu discurso é
original, pois a autora não demoniza nem enaltece a figura do homossexual por
ser homossexual. Ela apresenta aos leitores de forma transgressora, outro
modelo de afetividade, fora do modelo patriarcalista de heteronormatividade.
Cassandra Rios e seus personagens femininos, que seriam supostamente
estereotipados, entram em contradição, em primeiro lugar, quando se analisa a
complexidade da vida das mulheres lésbicas que Rios retratam em suas obras e,
em segundo lugar, quando compreendemos que estas mesmas críticas partem de um
padrão literário que busca enquadrar o lesbianismo nos padrões heteronormativos
com suas histórias de final feliz.
A polêmica advinda de seu
sucesso editorial chamou atenção dos censores em relação à sua obra. Embora não
tenha sido presa por conta dos processos e das proibições pelo conteúdo
considerado pornográfico de suas obras, Cassandra Rios sofreu diversas
humilhações nos anos em que o Brasil vivia uma ditadura militar: “Até bofetada
de delegado, na cara levei”. O que mais temiam? Já não estava eu proibida? Hoje
entendo. Ruminavam que eu precisava ser algemada, amordaçada, enxovalhada de
todas as humilhações, desacreditada na minha conduta moral, para denegrirem meu
talento e consagrarem suas aleivosas pessoas!
Verdade que, na época,
assim diziam, só eu vendia! “O público consumidor via, só nas páginas dos meus
livros, gente com as quais hoje cruzam nas ruas, livres, sem ter que disfarçar
e pagar pelo que nasceram.” A obra de Cassandra Rios é vasta e nunca foi
catalogada na sua inteireza. Sobre quais são e quantos são seus livros e destes
quantos não trabalham o homoerotismo feminino é tarefa que ainda não foi
realizada.
Encontramos posições
divergentes: Waldenyr Caldas afirma que Cassandra Rios publicou 49 e apenas
dois não continham homossexualismo, seriam O bruxo espanhol e As
mulheres do cabelo de metal. Nas pesquisas foram encontrados mais 5 títulos
Carne em Deliro, Sarjeta e O gigolô, A santa vaca, A Piranha
Sagrada, mas não é impossível que existam outros títulos que também não
abordem esta temática. CALDAS, Waldenyr. Literatura da cultura de massa p.156
Trata-se de uma passagem no
livro Censura em que Cassandra comenta de uma vez que acabou na
delegacia em função da proibição de seu livro O Bruxo Espanhol, em que o
delegado de polícia teria a certa altura perguntado para Cassandra “- Quem é
Sâni”. Tratava-se da protagonista do livro. Cassandra escreveu: “Remontara-se a
uma época perdida no passado, inutilmente, queriam o endereço da moça cujos
olhos brilhavam no escuro como os olhos dos gatos”. In: RIOS, Cassandra. Censura,
p. 104.
Nem a própria Cassandra soube quantificar o
número de livros seus vendidos no país. Segundo um levantamento do jornal Pasquim,
em 1976, suas obras já haviam atingido a cifra de um milhão de exemplares
vendidos.
“Outro delegado picou
diante dos meus olhos Nicoleta Ninfeta e ameaçou ‘é isso que vamos fazer
com todos os seus livros e queimá-los em praça pública!`. Um arrepio
percorreu-me. Seria eu a reencarnação de Safo, a grande poetisa de Lesbos,
cujas obras o Papa Gregório VII, cheio de ódio mandou queimar, seus riquíssimos
versos, numa fogueira, em praça pública, epitalâmios, himeneus, poesias,
excomungando a mais célebre poetisa do mundo”.
A discussão em torno do uso
ou a omissão do termo lésbica foi freqüente em toda a obra literária de
Cassandra Rios.
A autora descreve de
diferentes formas as situações em que suas personagens se descobriram lésbicas.
Como Calíope, a personagem de O gamo e a gazela:
“Eu tenho certeza que
Calíope é uma lésbica”! Era uma afirmativa que se impunha sem-dúvida. Que a
expulsava daquele meio no qual ela fazia contraste. Destacava-se dos seus
próprios olhos aquela insinuação que a tornava uma mulher diferente das outras
(...) Sim, Calíope ia agora se desfazer daquela máscara que a vida lhe havia
bordado no rosto para que pudesse enfrentar o mundo. Mas, existiria dentro do
mundo aquele outro mundo que ela criara dentro de si? Existiriam outras
criaturas ainda, além daquelas que já conhecera capazes de lutar pelo ideal
almejado?”.
Localizar a obra de
Cassandra Rios como uma manifestação de como parte de uma identidade
homossexual feminina foi construída na sua narrativa, significa entender a
questão da constituição do homoerotismo feminino a partir de uma identidade
cultural, ou seja, do pertencimento do indivíduo a uma forma de cultura sexual.
PREDESTINADA
AOS SEUS IDEAIS.
Durante
a ditadura, a literatura erótica de Cassandra Rios tornou-se alvo certo para os
censores. Produções vistas como pervertidas e pecaminosas eram desvios que
precisavam ser combatidos pelo Estado. Resultado: trinta e seis dos seus quase
cinquenta títulos foram proibidos na época.
O
sexo era assunto tabu. O prazer feminino não era concebido como uma
possibilidade, muito menos um direito. A religião regia a moral e os bons
costumes. Foi neste cenário adverso que surgiram os livros de Cassandra Rios,
no fim da década de 1940. Seus temas: o erotismo entre mulheres, os conflitos
internos e estereótipos associados a essa experiência. Tudo escrito de forma
direta e sexualmente explícita.
Tamanha
ousadia resultou em um tremendo sucesso editorial. Cassandra Rios, nascida
Odete (1932-2002), tornou-se a pioneira da literatura homossexual no país e
manteve-se como principal autora do gênero durante mais de trinta anos.
A escritora na época
do sucesso editorial dos anos 60/70.
Na
maioria das vezes, ela lançava os livros por pequenas editoras, em alguns casos
com dinheiro do próprio bolso. Foi assim com o primeiro deles, A volúpia do
pecado, pago pela mãe da escritora, que, no entanto, nunca leria um livro
da filha. Hoje em dia, só é possível encontrar obras essenciais, como
Copacabana posto 6 – A madastra (1972) e Eu sou uma lésbica (1979),
em bibliotecas ou em sebos, pois estão esgotados e fora de catálogo.
Recentemente, foram relançados alguns títulos: As traças (1975), Uma
mulher diferente (1980), onde o personagem principal é um travesti, e o
surpreendente Crime de Honra (2000), única obra até então inédita, na qual
Cassandra se aventura pelo universo homossexual masculino.
Como
explicar essa aceitação? Talvez, justamente por seu estilo ousado e
extrovertido. Era uma mulher escrevendo sobre o prazer com outra mulher, e
apresentando essa vivência como um caminho possível para a vida afetiva e
amorosa. Quando seus livros foram publicados, a sigla GLBT (Gays, Lésbicas,
Bissexuais e Transgêneros) estava longe de existir, não havia organizações de
homossexuais, e nem mesmo os meios de comunicação publicavam conteúdo erótico.
Em uma sociedade patriarcal e machista, a maternidade ainda era considerada o
principal papel feminino. Razão pela qual, embora um sucesso de vendas, seus
livros sempre foram encarados como marginais.
Tachada
de “pornográfica”, a literatura de Cassandra Rios não mereceu qualquer esforço
de crítica naquele período. Porém, se ela não primava pelo rebuscamento do
estilo, tinha o inegável mérito de descrever de forma aguda os conflitos
subjetivos vividos pelos personagens: seus temores, questionamentos, e o
preconceito já internalizado.
ADRIANE
PIOVEZAN é Mestre em Estudos Literários pela UFPR e autora da dissertação
"Amor romântico X Deleite dos sentidos: Cassandra Rios e a identidade
homoerótica feminina na literatura” (UFPR, 2006).
Caricatura baseada em foto antes de falecer. Título do posttirado de uma definição sobre ela mesma, Cassandra Rios, em um dos trechos de seu livro autobiográfico "Flores e Cassis":
"Como mulher eu
sou, na definição exata de como me sinto, uma menina medrosa que se escondeu
atrás de um pseudônimo, que se assustava e tinha medo de tudo, e hoje não tem
medo de nada!
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/leituras/sou-uma-lesbica http://clubedepoetashomenagens.blogspot.com.br/2011/11/cassandra-rios.html
Literatura de Cassandra
Rios educou uma geração
São obras da escritora
Cassandra Rios, que morreu na semana passada em São Paulo.
Cena
2:
Da janela do ônibus, vê-se um Brasil conservador. Nada de revistas eróticas nas
bancas. Nada de programas de TV analisando a sexualidade e seus labirintos.
Nada de educação sexual nas escolas. Nada de amor livre, sexo antes do
casamento, concepção. E, sim, as mulheres não sentiam prazer na relação,
dizia-se.
Cena
3:
Corta para o cemitério Santo Amaro, em São Paulo, março de 2002. No enterro de
Cassandra Rios, na verdade Odete Rios, nascida em 1932, um parente recita uma
frase dita por ela, enquanto joga terra sobre o caixão: "Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve,
é ninfomaníaca, tarada".
Cena 4: Nas estantes das maiores livrarias do país, procura-se em vão uma obra da autora, que vendia 300 mil exemplares por ano à sua época.
Cena 4: Nas estantes das maiores livrarias do país, procura-se em vão uma obra da autora, que vendia 300 mil exemplares por ano à sua época.
Também não há referências
sobre ela em sites de livrarias. Encontra-se apenas um livro, que amarela num
sebo, mas tem e teve lugar reservado na memória de muitos - como o cantor
Cazuza e a escritora Fernanda Young.
Contexto
Como dita os manuais da literatura comparada, para entender Cassandra Rios é preciso entender sua época e ambiente.
Não havia imagens de sexo,
a não ser em livros de medicina legal. No Brasil pré-contracultura, taras
individuais não eram debatidas. O estranho era considerado desvio a ser
combatido pelo Estado, com a censura.
A exibição de seios só era
permitida em documentários sobre índios. "Amaral Neto, o Repórter"
serviu para muitos adolescentes descobrirem o que havia escondido numa mulher.
Cassandra falava às claras
sobre o prazer feminino. Talvez por isso tenha sido uma das personalidades mais
censuradas.
Tratava-se de uma mulher
escrevendo sobre tesão de mulher, numa sociedade cuja predominância religiosa
afirmava que a mulher apenas se deitava com um homem para gerar filhos de Deus.
Seus livros surpreendiam.
Cassandra rivalizava com outra autora erótica e sua contemporânea, Adelaide
Carraro, assim como Hemingway rivalizou com Scott Fitzgerald.
Enquanto Cassandra tinha um
estilo mais ousado, extrovertido, Adelaide era linear, contida. Em Cassandra,
há empresários corruptos, que fazem despachos em terreiros de umbanda.
Cassandra já no título era
direta, como, por exemplo, "A
Volúpia do Pecado", de 1948, seu livro de estreia, que a transformou
numa das autoras mais vendidas da história da literatura brasileira.
Ela o escreveu com 16 anos.
Fazia uma literatura assumidamente popular. Eram livros baratos. Havia desenhos
provocantes nas capas: moças oferecidas em poses sutilmente sensuais.
Nas poucas entrevistas que
deu, ela dizia que, no fundo, era uma simples dona-de-casa conservadora, que
suas narrativas fluíam sem controle e que ela mesma ficava enrubescidas com
aquelas cenas mais quentes.
Chegou a escrever um livro
"sério", "MezzAmaro", uma autobiografia que não fala de
sexo, com 400 páginas. Chegou a ter o livro "A Paranóica" adaptado
para o cinema, sobre uma filha que descobre que seu pai é falso e quer apenas
roubar a grana da família. Na tela, o livro virou "Ariella",
revelando a atriz Nicole Puzzi. Tivemos também adaptado para o cinema o livro
“Tessa, a gata”, com também Nicolle Puzzi.
Em muitas faculdades
brasileiras, pesquisadores deveriam estar estudando Cassandra Rios. Foi uma
precursora. Sua importância não será esquecida. Nem a libido de suas
personagens.
DOCUMENTARIO
RETRATA CASSANDRA RIOS, ESCRITORA PERSEGUIDA PELA DITADURA BRASILEIRA.
POR VITOR ANGELO - 04/08/13
Tão violenta quanto a
prisão e a tortura, é o processo de eliminação da voz considerada opositora. O
preso político tem seu grito não silenciado quando se espalha a notícia de sua
prisão, mas quando a eliminação é sutil, feita através de censuras e de
mecanismos invisíveis de enclausuramento, o efeito é muito mais eficaz. E foi
isto que aconteceu com Cassandra Rios, escritora brasileira considerada
ofensiva para a moralista ditadura militar brasileira.
Lésbica assumida, escritora
de livros taxados como pornográficos, autora de best-sellers, a maneira mais
fácil de silenciá-la encontrada pelos militares foi censurando e proibindo a
circulação de seus escritos. A ponto de ainda hoje ser difícil achar seus
livros. Blogay fez uma pesquisa online em sites de grandes
livrarias e apenas quatro de seus mais de 35 títulos estão à venda.
Para preencher esta lacuna,
Hanna Korich resolveu fazer o documentário “Cassandra Rios: a Safo de
Perdizes”. Com o apoio do Programa de Ação Cultural 2012, da Secretaria de
Estado da Cultura de São Paulo, o filme tenta reposicionar Cassandra Rios no
cenário literário, político e social como uma verdadeira desbravadora que foi e
as consequências que estas posturas tiveram em sua vida.
Leia abaixo a entrevista
feito pelo Blogay com
Hanna Korich e o teaser inédito do filme.
Blogay
– O que te atraiu no tema Cassandra Rios?
Hanna
Korich - Eu
sou uma lésbica cinquentona e gosto muito de livros. Descobri Cassandra Rios
tardiamente, infelizmente. Passei a ler seus livros, que só consegui comprar em
sebos, e me tornei sua fã. Fiquei escandalizada com o desconhecimento por parte
da “moçada” sobre a Cassandra, principalmente das lésbicas com menos de 40
anos. Cassandra chegou a vender mais de um milhão de livros nos anos 60 e 70,
mais do que Jorge Amado, que a considerava grande romancista e que foi ignorada
por puro preconceito! Ela foi a primeira escritora brasileira a mostrar a
mulher como ser sexual, com desejos próprios e libido, e foi pioneira em
retratar as lésbicas nas letras brasileiras (publicou seu primeiro livro aos 16
anos de idade, em 1948!). Daí que resolvi abordar o tema Cassandra como um
verdadeiro tributo à autora pela sua importância na literatura lésbica, seu
pioneirismo, ousadia e, principalmente, para que as novas gerações saibam quem
ela realmente foi.
Você
chegou a conhecê-la? Como as pessoas que a conheciam descrevem Cassandra?
Infelizmente não a conheci,
apesar de ter sido vizinha da Cassandra por 11 anos. Descobri durante a
pesquisa para o documentário que Cassandra morava na mesma rua que eu morei na
Vila Buarque, centro de São Paulo (eu morava no número 254 e Cassandra no 284),
mas não me lembro de ter cruzado com ela. Todas as pessoas que a conheceram
declararam que Cassandra era gentil, extremamente educada e discreta,
inteligente, ousada, culta, lutadora, bem humorada, namoradeira e sempre dizia
que a vida dela se resumia a escrever. Aliás, ela adorava escrever, publicar
seus livros e saber que eram lidos por um grande número de pessoas,
homossexuais ou não.
Por
que a decisão de fazer um filme (e não um livro, por exemplo) sobre a
escritora? Qual a linguagem que você usa no filme para descrever Cassandra
(depoimentos, imagens de arquivos…)?
Decidi pelo DVD porque,
infelizmente, depois de 5 anos trabalhando com Laura Bacellar na Editora
Brejeira Malagueta, a única editora lésbica da América Latina, criada em 2008,
cheguei à conclusão de que apesar de termos no Brasil 9 milhões de lésbicas,
elas compram poucos livros, não se sabe a razão exatamente. Concluí que através
de imagens seria mais fácil atingir o meu objetivo de tornar Cassandra Rios
conhecida pelas novas gerações, afinal, estamos na era das imagens, certo? Com
relação à linguagem, o documentário/tributo tem depoimentos, fotos de arquivos
cedidos pela família da autora, imagens de objetos pessoais, capas de seus
livros e outras imagens relacionadas ao tema LGBT, além de uma trilha sonora
belíssima feita por Laura Finocchiaro.
Quais
as inovações da literatura de Cassandra Rios? E quais as inovações de sua
literatura como ação afirmativa para as lésbicas e para as feministas?
Olha, Cassandra foi
considerada por muitos leitores mais velhos uma referência quando se trata de
informações sobre sexualidade. Suas histórias, mesmo nas décadas passadas (40,
50, 60 e 70), quando poucos autores escreviam explicitamente sobre sexo, já
aparecia o tema. Foi a primeira autora a retratar as lésbicas nas letras
brasileiras, o submundo homossexual em São Paulo e os dramas vividos por quem
pertencia às minorias. Foi a primeira também a falar sobre homossexualidade
feminina de forma declarada e mostrar a mulher como ser sexual, que sentia tesão,
quebrando de maneira espetacular com a tradição vigente, até então de
personagens femininas movidas apenas por amor. A ação afirmativa maior de
Cassandra, sem dúvida, foi a visibilidade lésbica na vida brasileira, isso
desde 1948, com a publicação do seu primeiro livro, que fala e descreve
explicitamente o sexo entre mulheres e a relação amorosa entre as mesmas.
Ela
sofreu preconceito dos intelectuais por fazer literatura erótica?
Sim, sofreu muito
preconceito, e os intelectuais consideravam sua literatura pornográfica. Vários
intelectuais classificavam seus livros como “baixa literatura”, mas a verdade é
que ela foi recordista de vendas na sua época e sempre afirmou que jamais foi
pornográfica e, sim, conservadora, e que sua intenção era ver seus livros nas
mãos do leitor, queria ser lida – e foi!
Como
a ditadura tratou seu livros?
Cassandra foi considerada a
escritora mais censurada no Brasil! Inclusive, em vários de seus livros, vinha
a frase “a escritora mais proibida do Brasil”. Na época da ditadura, teve mais
de 30 livros censurados e apreendidos. Sofreu muito, foi extremamente
perseguida e proibida de publicar. Perdeu muito dinheiro e bens por conta
dessas perseguições e nunca mais conseguiu se recuperar. Ficou extremamente
abalada e ressentida, pois sobrevivia de direitos autorias, da sua escrita.
Você
acredita que a homossexualidade assumida dela foi o principal fator de seu
planejado esquecido pela ditadura ou foi o conteúdo libertário erótico?
Veja bem, a ditadura
perseguiu Cassandra por ela ser lésbica, mulher e por vender muitos livros! A
ditadura era machista e burra e não se conformava com uma mulher escrevendo
explicitamente cenas de sexo entre mulheres, e com tiragens imensas de livros.
Cassandra era explícita, sempre foi, não escondia nada, seja em cenas de sexo
hétero, como principalmente homossexuais femininas. Cassandra, em várias
ocasiões, declarou que não era subversiva e sim “apolítica”. A verdade é que
ela abordava abertamente temas tabus numa época em que a sociedade brasileira
era extremamente homofóbica, conservadora e machista, mais do que agora.
Durante
a pesquisa para o filme teve algo que te surpreendeu?
Várias coisas me
surpreenderam durante a minha pesquisa: descobrir que tinha sido vizinha da
Cassandra por tanto tempo e nunca ter cruzado com ela morando num prédio
vizinho. Também o grande número de estudos sobre a autora, teses de mestrado,
doutorado etc., e algumas recusas para depoimentos durante o documentário, a
grande maioria de namoradas da Cassandra (risos)! Ela levava um jeito de
tímida, mas aparentemente era terrível! E também os diversos elogios sobre a
autora, por parte da maioria dos entrevistados. Cassandra era realmente uma
pessoa muito querida e respeitada!
O
que Cassandra Rios ainda tem a dizer para as novas gerações?
Cassandra tem muito a dizer
para as novas gerações. Vou tomar a liberdade de transcrever a sua própria fala
na última entrevista que concedeu para a revista Trip, em junho de 2001, um ano
antes do seu falecimento. O jornalista perguntou o que a autora achava do modo
como a homossexualidade era tratada, e então ela respondeu: “Há forças de ação
e de retração. Alguns homossexuais estão saindo do subsolo em que viviam, se
manifestando. A maioria ainda se esconde. Escrevi uns 30 livros sobre homossexualidade.
É o máximo uma mulher ter coragem de falar que ama uma mulher, ou um homem
falar que ama um homem… com pureza. Os homossexuais sabem amar”. A contribuição
de Cassandra para a literatura brasileira é inestimável, bem como e
principalmente para a visibilidade lésbica. Sua coragem e ousadia devem
servir de exemplo para as novas gerações. Para o movimento LGBT, Cassandra
abriu a porta e trouxe a consciência para um monte de gente sobre o assunto,
isso é inestimável e deve ser reconhecido!
Se
tivesse que recomendar um livro de Cassandra para as novas gerações, qual você
indicaria como livro de iniciação para o universo da escritora?
Indicaria “Eu sou uma
lésbica”, publicado em forma de folhetim na Revista Status, em 1980, que conta
de maneira atraente a iniciação amorosa de uma menina com uma mulher mais velha
e sua trajetória até a idade adulta em busca da sua identidade homossexual. O
desfecho da história é surpreendente e seus três últimos parágrafos são
impactantes.
Livro
Eu Sou Uma Lésbica: retrato de uma época
Obra da escritora
brasileira Cassandra Rios favorece a reflexão e apresenta uma visão realista
sobre o relacionamento entre mulheres.
Acabei de ler “Eu Sou Uma Lésbica” (editora Azougue –
coleção Devassa), de Cassandra Rios.
Para quem não conhece, ela foi uma escritora brasileira que, na década de 1970, vendeu cerca de 300 mil livros com histórias de amor entre mulheres. Jorge Amado, inclusive, chegou a elogiar o seu trabalho e afirmou, “Cassandra Rios é uma grande romancista, ignorada por preconceito”.
Para quem não conhece, ela foi uma escritora brasileira que, na década de 1970, vendeu cerca de 300 mil livros com histórias de amor entre mulheres. Jorge Amado, inclusive, chegou a elogiar o seu trabalho e afirmou, “Cassandra Rios é uma grande romancista, ignorada por preconceito”.
“Eu Sou Uma Lésbica” é uma
compilação de textos publicados como folhetim na revista Status, em 1980.
Diante de uma obra tão interessante e de uma escritora talentosa, o que falar
sobre sua literatura?
Muita coisa. A começar pela
personagem principal, Flávia, que, já na infância, sente um amor platônico por
sua vizinha, conhecida como dona Kênia. A forma como a menina começa a se
conhecer enquanto ser humano e homossexual, assim como as transformações pelas
quais atravessa, estão entre as partes mais interessantes do livro, muito mais
do que as passagens, digamos, com descrições calientes entre Flávia e as
meninas com quem se envolve.
No livro, que é composto
por capítulos curtos e de fácil leitura, é narrada a trajetória de Flávia até
os seus 28 anos de idade, que tenta resolver o seu amor por dona Kênia (que,
nesse período, já deixou de ser sua vizinha).
Vale destacar que Cassandra
Rios possui um êxito pouco alcançado por muitas autoras LGBT: ela construiu uma
obra integrante, que prende a leitura, sem o uso excessivo de adjetivos. Sua
narrativa é suave e, muitas vezes, nem parece que o foco central da história é
um romance lésbico. As descrições dos ambientes são minuciosas e traduzem as
passagens com exatidão e veracidade.
Já o capítulo final, que
traz a “cereja no bolo”, instiga a reflexão após o término da leitura da última
página.
Resumindo: “Eu Sou uma Lésbica” é um livro útil para se obter o retrato de uma época, além de servir como um excelente comparativo em relação ao que se produz atualmente no segmento intitulado “literatura lésbica” no Brasil.
Resumindo: “Eu Sou uma Lésbica” é um livro útil para se obter o retrato de uma época, além de servir como um excelente comparativo em relação ao que se produz atualmente no segmento intitulado “literatura lésbica” no Brasil.
A partir dessa obra, temos
a certeza de que boas histórias não precisam de frases de efeito, de lugares
comuns, do excesso de cenas de sexo ou da ênfase em um romantismo idealizado.
Boas histórias precisam sim de uma escritora que, acima de tudo, saiba o que
faz e dê aos seus personagens o que ela tem em mente: criatividade e o desejo
de retratar uma realidade.
Leia um trecho de “Eu Sou
Uma Lésbica”, de Cassandra Rios:
“Pulei da cama, vesti o meu
penhoar e dei mão a papai, que me levou no colo para o outro lado da rua”. A
porta da casa de dona Kênia estava aberta, e, na soleira, ela e seu Eduardo nos
aguardavam. Falaram com papai sobre mamãe e eu guardei a palavra que eles
repetiam mais: aborto. Tranquilizaram papai quanto ao fato de cuidarem de mim
durante o tempo que fosse necessário e fique feliz quando dona Kênia disse que
gostava muito de mim, que eu era um amorzinho e não daria trabalho nenhum.
Mas eu dei sim. Não pude me
conter. Assim que papai me deixou com eles e vi que ia dormir sozinha no quarto
de hóspedes, dona Kênia continuando deitada naquela camona grande do seu quarto
com aquele homem peludo, medonho, botei a boca no mundo, e de tal modo que, com
sono, de sacho e me olhando com antipatia, seu Eduardo catou o seu travesseiro
e disse para ela, dirigindo-se para o quarto onde iria ficar.
- Ponha-a na nossa cama,
faça-a parar de chorar, parece que a estão matando. Estou cansado, preciso sair
cedo, não quero passar o resto da noite acordado, acalmando-a.
Antes de se retirar, ele se
debruçou sobre mim, como a querer ler nos meus olhos se eu diria a verdade, e
perguntou:
- Você não faz xixi na
cama, faz?
- Não! – berrei, fazendo-o
erguer-se rápido, como se tivesse ameaçado abocanhar seu narigão, e retirar-se
para o outro quarto, resmungando qualquer coisa.
Dona Kênia pegou-me pela
mão, carinhosamente, e me levou para o seu quarto; pegou outro travesseiro e
colou-o ao lado do seu.
- Vem, meu cachorrinho
Lulu, vem deitar aqui comigo. Não chore, neném, mamãe vai voltar logo. Você não
gosta de mim? Não quer ficar aqui comigo?”
Imagem: Reversa
Magazine.
COMENTARIOS
Por
Marina Hall
Não,
não venho contestar Sigmund Freud. Quem sou eu? Talvez, adicionar,
pretensiosamente, em suas lições sobre psicanálise, um adendo breve a respeito
da homossexualidade. Ou bastaria dizer: sexualidade.
É
fato que a literatura, como todas as outras formas de expressão e arte escrevem
e reescrevem o Complexo de Édipo, tornando-o vivos nos possíveis enredos
sociais fictícios (ou não). Lembrando que essa teoria freudiana refere-se ao
desejo infantil masculino pela mãe, tornando, inconscientemente, o menino filho
espécie de rival do pai. O contrário, segundo o psicanalista, aplica-se à
menina, que apaixonada pelo pai quer roubar o lugar da mãe. Porém, e nos casos
homossexuais? Bi? Trans? A teoria não se aplica?
De
acordo com Freud, a homossexualidade estaria relacionada com a incapacidade de
o ser humano se desprender do próprio corpo, desejando alguém com corpo igual
ao seu. Primeiramente, o fato é que nenhum corpo é igual ao outro. Nem o de
dois homens, nem o de duas mulheres… Logo, onde estaria o universo infantil dos
homossexuais? Infância responsável pelos traumas, valores, descobertas sexuais…
Assim como provavelmente a criança heterossexual já aprende sua “função” social
(de fêmea/macho, princesa/cavaleiro, ativo/passivo) desde os primeiros contatos
com os outros humanos, a criança lésbica, gay, trans, bi também já inicia suas
descobertas sexuais, porém que muitas vezes, na maioria, têm as descobertas
sexuais propositalmente direcionadas para a heterossexualidade. Quem faz isso?
Quem as direciona? Oh! Não me diga que não sabe! Sim! A família, a escola, a
religião, as artes, a mídia, as sociedades… Salvo raríssimas exceções.
Se
você não acreditou que uma criança pode ser homossexual e que isso ocorre por
natureza, assim como ser hétero, provavelmente é porque na sua infância e vida
posterior tudo o que lhe foi apresentado fala de uma única verdade: a língua da
família-modelo: homem (chefe) + mulher + filhos = perfeição. Inclusive,
agregando a isso os famosíssimos contos de fada (infantis? – Bruno
Betthelheim). Como não ficou claro? A princesa (sexo feminino) briga com a
bruxa rival (sexo feminino), no fim, resolve seus problemas com auxílio de alguém
que ama, um príncipe (sexo masculino) e com ele vive feliz para sempre. Essa é
sim uma verdade, doce e poética, mas não pode ser a única!
É,
mas como disse Maria da Glória Azevedo, no posfácio de As guardiãs da magia, de
Lucia Facco, a literatura é um bicho que consegue desfazer os nós que se lhes
impõem. Como assim? Quer dizer que não adianta forçar o silêncio das pessoas,
principalmente das artes, em algum momento a voz silenciada se pronunciará. É o
que fez, por exemplo, Cassandra Rios.
Silenciada, ignorada e sentenciada ao
pornográfico pela crítica canônica, vendeu mais livros que muito best-seller,
inclusive o romance Eu sou uma lésbica – que conta a trajetória de uma lésbica
apaixonada desde a infância pela vizinha e amiga de sua mãe. Cá está a infância
lésbica acrescida às lições de Freud: Narrado em primeira pessoa, Flávia, com 7
anos, vive embaixo da mesa da sala de sua casa, observando as pernas das amigas
da mãe; uma das pernas, a de Kênia, a encanta tanto que chega ao ponto de
cheirá-la e lambê-la fingindo ser um gatinho sob a toalha. Flávia delira com a
presença da moça de sandália colorida e a deseja como sua – assim como o menino
deseja a mãe no Complexo de Édipo.
A mãe de Flávia, no entanto, não é desejada
com fervor sexual, mas admirada e amada com afeto de filha, sendo comparada
constantemente com Kênia. O pai sequer é mencionado. Entretanto, isso não
significa que a figura do pai não é importante, apenas não é fortalecida nesse
romance.
Com
o desejo ardente por Kênia, a menininha vê como rival o marido da mulher,
Eduardo. Pouco tempo depois das primeiras relações carnais das duas amantes
secretas (sim, Kênia sede aos desejos da menininha), a mulher se muda para a
Itália a fim de curar o câncer de Eduardo, que por sua vez, acaba discretamente
assassinado, numa passional pulsão de morte, pela amante de Kênia, que dera a
ele sopa com vidro em pó horas antes de partirem para Europa. O crime é
revelado somente no fim da narrativa, depois da história da adolescência
lésbica de Flávia, surpreendendo quem lê pela atitude insuspeita da garotinha
de 7 anos.
O que quero dizer com isso? Não! Não é um incentivo para que mate os
seus rivais sexuais! É muito mais simples: desde crianças desejamos nosso
“objeto sexual”, seja homem ou mulher e isso existe, ainda que
inconscientemente, ainda que tentem reprimir ou desqualificar esse desejo
usando teorias de Freud, que aliás, que eu saiba, nunca disse existir uma única
verdade; ou qualquer outra ideia, seja religiosa, seja sei lá qual… É sim, bi,
lésbicas, trans, gays existem e é desde que existe gente no mundo, por
natureza, desde a misteriosa infância e não por desvio, anomalia sexual.
Infelizmente, criam distinções sexuais para nos segregar.
Tolice! Porque
precisamos/dependemos uns dos outros. Não adianta esconder, onde estão os
contos de fada que nos façam sentir normais e possíveis na infância, na
juventude? Esse é um dos motivos da literatura de Cassandra Rios: ser lida para
que não corramos o risco de vivermos sob a voz de uma única verdade.
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Livro
Maldita Cassandra Rios
O
texto que segue foi originalmente publicado em iFetiche .
Este
relato não pretende ser algo motivacional como "Você conseguirá gostar de
ler se insistir" ou ainda "Encontre a felicidade nos livros".
Muito pelo contrário, pretendo indicar livros que irão fazer mal. Gosto de
pensar que são do tipo (se é que tipificar é válido) de "auto-destruição",
aqueles que ficam escondidos nos cantos mais sujos das livrarias, no qual a
maioria dos vendedores não sabem do que se trata, que subvertem e que farão do
leitor um maldito zombie, devorador de outros cérebros.
Durante
algum tempo, como ritual matinal, antes da labuta diária, sentava eu num banco
qualquer e lia. Não dependia do barulho ou do fluxo de pessoas. Conseguia
facilmente me isolar de tudo quando passava os olhos nas frases. Sempre estava
com no mínimo dois livros na mochila. Caso algum terminasse, haveria o outro
para dar continuidade. Fazia questão de levantar antes para ter mais tempo para
me perder nas páginas. Mas, este vício, não foi algo que nasceu comigo.
Fui
um leitor tardio, que descobriu o prazer dos cheiradores de papel de forma
indireta, quase como competição. Sempre fui curioso, perguntador, e muitas
vezes até chato. Porém, não deixava de ser raso. Faltava descobrir onde a minha
curiosidade poderia morrer. Sim, queria estrangular aquela maldita. Afinal,
quem quer ter uma mente perguntadora? Não sei se tive sorte ou azar em ter sido
um analfabeto funcional durante tanto tempo, mas, as circunstâncias daquele
momento me faziam refletir que era necessário o movimento. Que fosse para
afirmar a total ignorância e repúdio aos livros, pronto para atear fogo até
mesmo nas pessoas, se fosse o caso, ou então, admitir a minha ignorância de
forma mais humilde como "tenho muito para ler, mas, é bom eu começar
logo...". E assim foi.
Procurando
um dos tantos bancos, um livro que tive a curiosa tristeza de não terminá-lo
foi Eu sou uma lésbica da autora Cassandra Rios. Quando digo "não
terminá-lo" não significa que não findei as páginas, mas, que os ecos
daquele livro ainda são vivos na minha memória. Extremamente perturbador, o
livro é uma história de amor. Amor proibido de uma menina pela sua vizinha,
muito mais velha e casada. Menina no sentido mais inocente da palavra. Partindo
da perspectiva do sentimento, a menina, que vira moça, que vira mulher,
constrói toda a sua sexualidade baseada na sombra do desejo.
Brasileira,
marginal e pornógrafa, Cassandra Rios era best-seller nos tempos da ditadura
militar. Alguns livros da autora são facilmente encontrados em sebos do Brasil
inteiro, afinal, não conseguiram queimar todos, mesmo em tempos de repreensão.
Mas, em contrapartida, pouca coisa dela é publicada atualmente. Gostaria, e
muito, que os livros tivessem novas edições, afinal sou aquele tipo rabugento
de leitor que gosta de desvirginar os livros.
Perto
do revival libertino proposto por Louÿs, Cassandra Rios parece fichinha. A
publicação em livro do folhetim "Eu sou uma lésbica", contudo, cumpre
a função de apresentar ao leitor deste início de século uma das mais
controversas autoras brasileiras. Cassandra (pseudônimo de Odete Rios) começou
a publicar suas histórias de alto teor homoerótico (feminino) ainda em 1948,
aos dezesseis anos.
Nas décadas de 60 e 70, ao mesmo tempo em que a ditadura
militar censurava seus inúmeros livros, ela quebrava recordes de tiragem: em
1970 já havia vendido mais de um milhão de exemplares, número que se ampliava
constantemente, graças a uma vendagem anual de 300 mil exemplares (marca que só
seria superada nos anos noventa por aquele mago fajuto cujo nome eu me recuso a
digitar ou pronunciar).
Todo mundo lia Cassandra nos anos de chumbo, das donas
de casa aos estudantes, das domésticas aos magistrados, todos degustavam
best-sellers como "Tessa, a gata" e "Nicoleta Ninfeta",
ainda que muitas vezes às escondidas (Bethânia era tão fã que, ao estrear o
show "Drama", em 1973, incluiu a escritora na lista de convidados da
apresentação de estréia, como relata o diretor do espetáculo, Antônio Bivar, em
entrevista ao site "Trópico").
Rival de Adelaide Carraro, outra best-seller pornográfica dos anos 70 (e que hoje é mais conhecida pela simplória série O Estudante, cujo primeiro volume, aquele que todo mundo leu, tem as célebres "parte azul" e "parte negra"), Cassandra era uma figura controversa. Era perseguida pela direita, que a tachava de imoral e pervertida, e pela esquerda, que a considerava conservadora - realmente, Eu sou uma lésbica tem muito mais um tom de culpa do que de libertação, e sua narradora em primeira pessoa mais parece aqueles homossexuais dos filmes hollywoodianos dos anos 40-50 que, ao final dos filmes, ou acabavam no hospício ou na cadeia, como assassinos, ou ainda cometiam suicídio).
Numa de suas entrevistas, dada em
2001, poucos meses antes de morrer, para a revista TPM, Odete (afinal, ela
deixou de ser Cassandra no momento em que encontrou a religião) afirma que
Cassandra Rios é conservadora e moralista. E o livro deixa essa impressão.
Cultuada pelos gays e lésbicas da época, e defendida até por Jorge Amado, ela era convidada a aparecer nos programas de TV, tamanha a sua popularidade, ao mesmo tempo em que era presa e humilhada, como nesse depoimento publicado no livro Flores e Cassis:
"Até
bofetada de delegado, na cara, levei. O que mais temiam? Já não estava eu
proibida? Hoje entendo. Ruminavam que eu precisava ser algemada, amordaçada,
enxovalhada de todas as humilhações, desacreditada na minha conduta moral, para
denegrirem meu talento e consagrarem suas aleivosas pessoas! Verdade que, na
época, assim diziam, só eu vendia! O público consumidor via, só nas páginas dos
meus livros, gente com as quais hoje cruzam nas ruas, livres, sem ter que
disfarçar e pagar pelo que nasceram."
Tornou-se célebre uma de suas frases, que resume essa condição de polemista: ''Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada''. O universo da autora em muito encontra-se distante do hedonismo das pornochancadas de Galante, Mossy e Ody Fraga, produzidas na mesma década, e hoje tão deliciosamente cultuadas (por falar nisso, algum de vocês já viu a divertíssima comédia erótica estrelada por Mossy em terras capixabas em pleno 1975, Quando as mulheres querem provas? ).
Talvez por
isso, a publicação de Cassandra na Coleção Devassa tenha mais uma importância
em recolocar o nome da autora na ordem do dia das Letras Brasileiras (uma vez
que ela, inexplicavelmente, é ignorada pela academia) e, quem sabe,
possibilitar a reedição de outras de suas obras outrora badaladíssimas.
Erly
Vieira Jr.
Atualizado
toda quarta-feira, às 16 horas
Apoio
cultural Livraria Huapaya
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CARNE EM DELIRIO
Uma
das primeiras providências dos regimes autoritários é restringir a liberdade de
expressão e opinião; trata-se de uma forma de dominação pela coerção, limitação
ou eliminação das vozes discordantes.
No
Brasil, durante a ditadura militar (1964-1985), e destacadamente a partir da
Constituição outorgada de 1967, a censura oficial do Estado em relação a
filmes, peças teatrais, discos, apresentações de grupos musicais, cartazes e
espetáculos públicos em geral era exercida pelo Ministério da Justiça (MJ) por
meio do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), setor do Departamento
de Censura de Diversões Públicas (DCDP). A partir de 1970, livros e revistas
também passaram a ser examinados pelo SCDP-DCDP.
Este
artigo aborda a censura oficial a livros, destacadamente obras de autores
brasileiros, durante a ditadura militar brasileira – com ênfase no período
posterior a 1970, data do Decreto-Lei n.1077/70 que regulamentou a censura a
livros e revistas.
Com
estudo dos atos censórios do DCDP em relação aos livros é possível delinear
alguns mecanismos da censura e refletir sobre a repercussão da censura no
universo da produção cultural brasileira.
Cultura
censura e livros – breve observação inicial
Entre
os anos 1964 e 1968, isto é, entre o golpe militar de 1964 e a decretação do
AI-5, a censura a livros no Brasil foi marcada por uma atuação confusa e
multifacetada, pela ausência de critérios mesclando batidas policiais,
apreensões, confiscos e coerção física. "As ações confiscatórias ocorriam
de forma primária, improvisada, efetuadas por pessoas mal treinadas" (Stephanou,
2001, p.215).
O
alvo predileto da atuação aleatória das forças de repressão, entre 1964 e 1968,
no que tange à apreensão, coação e censura de livros, foi o editor Ênio
Silveira, proprietário da Editora Civilização Brasileira. Ênio Silveira foi
preso e processado várias vezes, outras tantas viu a editora ser invadida e sua
produção editorial, apreendida.
Em
maio de 1965, a prisão de Ênio Silveira provocou um manifesto assinado por
cerca de mil pessoas ligadas ao universo da cultura. O presidente Castelo
Branco mandou para Ernesto Geisel, à época chefe de Gabinete Militar, a
seguinte correspondência: "Por que a prisão do Ênio? Só para depor? A
repercussão é contrária a nós [...]. Apreensão de livros. Nunca se fez isso no
Brasil. Só de alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados são os piores
possíveis contra nós. É mesmo um terror cultural" (Gaspari, 2002a,
p.96-7).
Em
um corajoso e claro ato de resistência ao governo militar, em maio de 1966, a
editora Civilização Brasileira impetrou Mandado de Segurança contra o
Departamento Federal de Segurança Pública questionando as várias ações
confiscatórias de livros. Na revista Civilização Brasileira (n.9/10,
p.291-7) encontra-se a reprodução integral desse Mandado.
Em
1968, o terrorismo de direita provocou, segundo os cálculos de Elio Gaspari,
dezessete atentados, quatorze explosões e um assalto a banco. Editoras e
livrarias estavam entre os alvos: foram atingidas a editora Tempo Brasileiro, a
Civilização Brasileira e a Livraria Forense (Gaspari, 2002a, p.328 e 301).
Embora
espaços do universo dos livros, editoras, livrarias, fossem alvos de vandalismo
de direita, não houve nos primeiros anos após o golpe militar de 1964 a
estruturação de um sistema único de censura a livros. Essa ausência de uma
regulamentação censória em relação a livros possibilita que entre os best-sellers de
1968 constem, por exemplo, clássicos do pensamento nacional de esquerda,
como Um projeto para o Brasil, de Celso Furtado, e clássicos
internacionais da literatura erótica, como Kama Sutra, literatura
hindu de fisiologia e moral sexual, e Filosofia na alcova, do
Marquês de Sade (Reimão, 1996, p.43-50).
A
Constituição outorgada de 1967 oficializou a centralização da censura como
atividade do governo federal, em Brasília. Quando o Ato Institucional número 5
foi decretado, as atividades censórias já se encontravam centralizadas no
governo federal.
Duas
grandes manifestações públicas contra as arbitrariedades do regime militar
ocorridas no Rio de Janeiro antecederam a decretação do AI-5: a manifestação
"Cultura contra Censura", em fevereiro de 1968, que reuniu membros da
classe teatral para manifestarem sua indignação contra a proibição da encenação
de oito peças (Castro, 2000, p.370) e, alguns meses mais tarde, aquela que
ficou conhecida como "A Passeata dos Cem Mil", em 26 de junho de 1968
(Ventura, 1988, p.155-65).
Sexta-feira,
13 de dezembro de 1968. Em nome da "autêntica ordem democrática [...] (e)
no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso
povo", o presidente Costa e Silva editou o Ato Institucional número 5
(AI-5). A edição desse ato tornou possível cassar mandatos, suspender direitos
políticos e garantias individuais e criou condições para a censura à divulgação
da informação, à manifestação de opiniões e às produções culturais e
artísticas. Começa aí o período chamado "anos de chumbo".
Na
segunda metade da década de 1970, escritores, editores, intelectuais, artistas,
cientistas, professores começaram a mobilizar-se para resistir e protestar
contra os desmandos e arbítrios de um regime autoritário. Essa resistência da
sociedade aos atos autoritários do governo de então culminou com várias
demonstrações e atos públicos de repúdio ao autoritarismo. No que diz respeito
às manifestações pelas liberdades no âmbito das produções culturais destaca-se
o Manifesto dos 1046 intelectuais contra a censura, entregue ao
ministro da Justiça em Brasília, em 25 de janeiro de 1977, por uma comissão
composta por Helio Silva, Lygia Fagundes Telles, Nélida Pinõn e Jefferson
Ribeiro de Andrade.
Em
13 de outubro de 1978 foi promulgada pelo Congresso Nacional a Emenda
Constitucional número 11 que revogava, a partir de 1° de janeiro de 1979, o
AI-5.
Nos
dez anos de vigência do AI-5 (13 de dezembro de 1968 a 31 de dezembro de 1978),
segundo estimativas apresentadas por Zuenir Ventura, 1.607 cidadãos foram
atingidos direta e explicitamente por esse Ato com punições – como cassação,
suspensão de direitos políticos, prisão e/ou afastamento do serviço público. No
que tange ao cerceamento da produção artística e cultural, nos dez anos de
vigência do AI-5 foram censurados, ainda segundo dados apresentados por Zuenir
Ventura (1988, p.285), "cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200
livros, dezenas de programas de rádio, 100 revistas, mais de 500 letras de
música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovelas".
Livros
de autores brasileiros e censura
A
censura prévia, já anteriormente regulamentada para cinema, televisão, teatro,
espetáculos públicos, música e rádio, e prática presente em várias revistas e
jornais impressos se expandiu, e para a totalidade do mercado editorial depois
da centralização do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), em
Brasília.
A
censura prévia para livros foi regulamentada pelo Decreto-Lei n.1.077/70. Os
art. 1° e 2° desse decreto estavam assim redigidos:
Art.
1° Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e
aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação;
Art.
2° Caberá ao Ministério da Justiça, através do Departamento de Polícia Federal
verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e
periódicos, a existência de matéria infringente da proibição enunciada no
artigo anterior.
Depois
de anunciar o que deveria ser censurado, o mesmo decreto versa sobre as sanções:
Art.
3° Verificada a existência de matéria ofensiva à moral e aos bons costumes, o
Ministro da Justiça proibirá a divulgação da publicação e determinará a busca e
a apreensão de todos os seus exemplares. [...] Art. 5° A distribuição, venda ou
exposição de livros e periódicos que não hajam sido liberados ou que tenham
sido proibidos, após a verificação prevista neste Decreto-lei, sujeita os
infratores, independentemente da responsabilidade criminal.
A
Portaria 11-B, de 6 de fevereiro de 1970, para operacionalizar o Decreto
n.1.077/70, determinava que todas as publicações deveriam ser previamente
encaminhadas para o Ministério da Justiça para julgamento. A reação adversa de
editores, escritores, intelectuais e associações da sociedade civil foi grande,
relata, entre outros, Antonio Costela (1970) no livro O controle da
imprensa no Brasil, publicado no calor da hora, em 1970.
Liderando
a oposição à censura prévia para livros destacaram-se Jorge Amado e Erico
Verissimo, líderes também de vendagens na época, que declararam publicamente
"em nenhuma circunstância mandaremos os originais de nossos livros aos
censores, nós preferimos parar de publicar no Brasil e só publicar no
exterior" (Jones, 2001, v.1, p.46).
A
incisiva reação contra o estabelecimento da censura prévia para livros e
publicações em geral levou o governo a recuar e a publicar uma nova Instrução
para a Portaria 11-B, a Instrução número 1-70 de 24 de fevereiro de 1970 que
explicita que "estão isentas de verificação prévia as publicações e exteriorizações
de caráter estritamente filosófico, científico, técnico e didático, bem como as
que não versarem sobre temas referentes ao sexo, moralidade pública e bons
costumes".
Foi
um avanço democrático conseguido pelas forças sociais do momento, mas é claro
também que os limites para decidir se um texto enfoca ou não, tangencia ou não,
temas de moralidade pública, bons costumes ou sexo, são limites bastante móveis
e essa mobilidade permitiu que relevantes obras – teóricas, conceituais e
ficcionais – fossem alvo de rigorosos atos censórios.
A
maioria da atividade de censura em relação a livros dava-se, na prática, por
denúncias. Segundo descrição publicada na revista Veja de
29.12.1976 (p.81-2), a censura a livros dava-se da seguinte forma:
Alguém
que tenha lido um livro [...] e o considere atentatório à moral ou mesmo
subversivo, faz uma denúncia ao Ministério. Instala-se, então, um processo no
qual é dada a um assessor do ministro da Justiça a tarefa de ler a publicação e
emitir parecer. Com base neste, o ministro decreta ou não a apreensão.
Mesmo
assim, continua a descrição da revista Veja, "as
superintendências regionais da Polícia Federal costumam receber livros para
censura prévia, de editoras que temem uma apreensão posterior à
publicação".
A
censura prévia para todos os livros seria inexequível. Uma matéria da
revista Visão de 11.3.1974 salienta essa impossibilidade
técnica: "só em 1971 foram lançados no Brasil 9.950 títulos novos, que
exigiriam um número incalculável de censores".
Na
primeira metade da década de 1970, no chamado "Milagre Brasileiro", a
edição de livros cresceu em número de títulos editados e também em número de
exemplares. Em 1972, o Brasil ultrapassou a barreira de um livro por habitante
ao ano. Em 1972 a população brasileira era de 98 milhões de habitantes e foram
produzidos 136 milhões de livros – 1,3 livro por habitante (Reimão, 1996,
p.59-65).
Os
dados gerais sobre a ação da censura a livros nesse período são conflitantes:
Zuenir Ventura, em 1968 o ano que não terminou, indica que entre
1968 e 1978 foram censurados 200 livros; um levantamento realizado pela equipe
de pesquisadores do Centro Cultural São Paulo e publicada no livro Cronologia
das Artes em São Paulo – 1975-1995, indica esses mesmos números (CCSP,
1996, v.1, p.41). Deonísio da Silva (1989), no livro Nos bastidores da
censura, indica 430 livros proibidos pela censura federal durante o regime
militar, sendo cerca de 92 obras de autores brasileiros.
Em
Brasília, no subsolo do prédio do Arquivo Nacional, encontram-se os documentos
que restaram da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Em 1988, com a
promulgação da nova Constituição, que bania a censura, o DCDP foi desativado e
sua documentação foi transferida para o Arquivo Nacional; é possível que nesse
momento muitos documentos tenham sido eliminados, extraviados ou perdidos.
Mesmo assim, trata-se de um acervo grande e de enorme valor histórico.
No
que tange ao material dos processos de censura prévia em relação a publicações
(livros e revistas), o universo dos documentos é bastante pequeno se comparado
com o material referente a obras cinematográficas e teatrais. Segundo
levantamento realizado por funcionários do Arquivo, há registros de cerca de
490 livros e 97 revistas que foram submetidas ao DCDP:
Livros eróticos/pornográficos
Nos
arquivos do DCDP encontram-se indicações de 70 livros erótico-pornográficos de
autores brasileiros vetados; o livro de Deonísio da Silva (1989), Nos
bastidores da censura, apresenta 69 títulos com esse perfil; comparando-se
as duas listagens e excluindo-se as repetições, resulta que cerca de 100 livros
erótico-pornográficos de autor nacional foram censurados no período da ditadura
militar.
Entre
esses, 18 são de autoria de Cassandra Rios; 13, de Adelaide Carraro; 22 são
assinados como Dr. G. Pop; 17, como Brigitte Bijou; e seis, como Márcia
Fagundes Varella.
Adelaide
Carraro e Cassandra Rios foram nos anos 1960 e 1970, campeãs de vendagem. Seus
livros, considerados eróticos ou francamente pornográficos, eram lidos às
escondidas por adolescentes e adultos. Era livros "fortes" que
misturavam política, "negociatas" e sexo, muito sexo. E como tais
eram lidos.
Os
livros de Adelaide Carraro proibidos pela censura foram: Carniça; O
castrado; O Comitê; De prostituta a primeira dama; Escuridão; Falência
das elites; Os padres também amam; Podridão; Sexo
em troca de fama;Submundo da sociedade; A verdadeira história de um
assassino; Mulher livre e Os amantes.
Os
livros de Cassandra Rios censurados foram: A borboleta branca; Breve
história de Fábia; Copacabana Posto Seis; Georgette; Maçaria; Marcella; Uma
mulher diferente; Nicoleta Ninfeta; A sarjeta; As
serpentes e a flor;Tara; Tessa, a gata; As traças; Veneno; Volúpia
do pecado; A paranoia; O prazer de pecar e Tentação
sexual.
Os
livros de G. Pop, Brigitte Bijou e Márcia Fagundes Varella censurada ostentavam
títulos como: Astúcia sexual;Cidinha a insaciável; Graziela
amava e ...matava; Clube dos prazeres; O padre fogoso
de Boulange ou Noviça erótica.
Não
nos esqueçamos de que parte dos militares via a sexualidade podendo ser
utilizada como ferramenta do "expansionismo comunista". Exemplos
dessa postura foram coletados por Paolo Marconi (1980) em A censura
política na imprensa brasileira; citemos um, nas palavras do
tenente-coronel Carlos de Oliveira: O
sexo é um instrumento usado pelos psicopolíticos para perverter e alienar a
personalidade dos indivíduos [...] Daí partem para o descrédito das famílias,
dos governos, e passam à degradação da nação, bem como intensificam a
divulgação da literatura erótica e da promiscuidade sexual. (Marconi, 1980,
p.18)
Romances, contos e
poesias.
Além
dos textos teatrais já abordados aqui, outras obras de ficção de autores
nacionais foram censuradas durante os anos de vigência do AI-5. Segundo a
listagem do acervo do DCDP e o citado levantamento de Deonísio da Silva, foram
elas: Quatro contos de pavor e alguns poemas desesperados, Álvaro
Alves de Faria; Dez histórias imorais, de Aguinaldo Silva; Meu
companheiro querido, de Alex Polari; Zero – romance
pré-histórico, de Ignácio de Loyola Brandão; Em câmara lenta,
de Renato Tapajós; Aracelli, meu amor, de José Louzeiro; Feliz
Ano Novo, de Rubem Fonseca; Diário de André, de Brasigóes
Felício; e os contos "Mister Curitiba" de Dalton Trevisan e "O
cobrador" de Rubem Fonseca.
O
livro Quatro cantos de pavor e alguns poemas desesperados, de
Álvaro Alves de Faria, percorreu um trajeto editorial bastante curioso: em 1973
o autor encaminhou, por iniciativa própria, os originais do livro para o DCDP.
O texto recebeu um parecer indicativo de veto. Independentemente desse
processo, e sem conhecimento do parecer, o livro foi editado, em 1973, pela
editora Alfa-Ômega.
O
veto à obra de José Louzeiro, Aracelli, meu amor, pelo Ministério
da Justiça, é um caso muito específico. O livro relata um caso real: o estupro
e o assassinato da menina de nove anos Aracelli Cabrera Crespo por três jovens
de famílias da elite de Vitória, Espírito Santo. Apesar de se tratar de um
relato ficcional, o texto utiliza os nomes dos acusados. As famílias dos
acusados manifestaram-se judicialmente contra o fato e o Ministério da Justiça
suspendeu a publicação e a circulação do livro por algum tempo enquanto o
processo transcorria, mas, ainda assim, houve nova edição mesmo antes do fim do
processo (Hallewell, 2005, p.593).
Os
contos "Mister Curitiba" de Dalton Trevisan e "O cobrador"
de Rubem Fonseca foram vetados previamente pelo DCDP quando venceram concursos
de contos da revista Status em 1976 e 1978, respectivamente. A
revistaStatus, assim como as revistas Inéditos (revista
mineira de cultura e literatura), Paralelo (de Porto Alegre),Homem (hoje Playboy), Ele
e Ela, Nova e Pais e Filhos estavam entre
aquelas que, a cada edição, deveriam remeter os originais previamente ao DCDP
(Marconi, 1980, p.61).
Alex
Polari consta na listagem de Deonísio da Silva como tendo seu poema "Meu
companheiro querido" censurado. Nas listagens de livros
examinados pelo DCDP não localizamos referências a Polari. Alex Polari foi
preso em maio de 1971 e quando saiu seu primeiro livro, Inventário de
cicatrizes, ele ainda estava preso. Não conseguimos localizar o poema a que
Deonísio da Silva se refere e nem as circunstâncias do veto. Em 1979, em
virtude da Lei da Anistia, Alex Polari foi solto e publicou seu segundo
livro, Camarim de prisioneiro.
Os
livros Dez histórias imorais, de Aguinaldo Silva (Record, 2.ed.,
1969); Diário de André, de Brasigóes Felício (Oriente, 1974, vetado
em 1976); Zero – romance pré-histórico, de Ignácio de
Loyola Brandão (Ed. Rio/Brasília, 1976); Feliz Ano Novo, de Rubem
Fonseca (Artenova, 1976) e Em câmara lenta, de Renato Tapajós
(Alfa-Ômega, 1977) foram publicados, distribuídos, comercializados e algum
tempo depois, meses ou anos, foram examinados pelo DCDP cujo parecer (na
maioria dos casos) tornou-se base do decreto de proibição e apreensão assinado
pelo ministro da Justiça com a formulação: "proíbo a publicação e
circulação em todo o território nacional [...] bem como determino a apreensão
de todos os seus exemplares expostos à venda, por exteriorizarem matéria contrária
à moral e aos bons costumes".
No
arquivo dos documentos do DCDP encontram-se os processos e os pareceres de Quatro
cantos de pavor e alguns poemas desesperados, Dez histórias imorais, Diário
de André e Feliz Ano Novo.
Apesar
de nas obras ficcionais, listadas antes, censuradas pela ditadura militar a
temática sexual ser bastante presente, elas não são obras que possam ser
classificadas como eróticas ou pornográficas.
O
traço que parece ser mais evidente entre essas obras literárias é a filiação a
uma certa literatura da violência – violência física e psicológica das prisões
e torturas, a impunidade dos criminosos como mecanismo propulsor da violência,
violência ensandecida e sem rumo dos marginalizados e excluídos – violências
essas que a ditadura militar propiciara ou era incapaz de conter e se esforçava
por ocultar.
Sandra
Reimão
Escola
de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), Universidade de São Paulo, São
Paulo/SP, Brasil.
LIVROS PUBLICADOS E DESAPARECIDOS DAS BIBLIOTECAS E
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__________________.Um
pequeno mundo flutuante: Literatura e Homoerotismo, um estudo fechado – Adolfo
Caminha e Silvano Santiago. Tese de Doutorado, USP,
2001.
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