ACABOU A AGUA DOS RIOS QUE ABASTECEM AS GRANDES METROPOLES. E AGORA?
(POR: WILLIS DE FARIA)
TRANSPOSIÇÃO DE AGUAS DO RIO AMAZONAS PARA
TODO BRASIL: REALIDADE OU FICÇÃO?
Os
problemas de volume de agua dos rios do sudeste e nordeste já é uma realidade.
São Paulo já vive o problema de escarces de água que abastece a grande metrópole,
e outros rios do sudeste já agoniam com o baixo nível de suas águas, já realidade
até nos rios do nosso Estado. Uma situação que a anos já previsto, vide as
preocupações com a criação dos consórcios dos rios Santa Maria e Jucu, com a preocupação
do reflorestamento das mata ciliares que margeiam os rios, dando suporte para
evitar os assoreamentos e o reflorestamento também de suas nascentes. O
desmatamento na realidade é a grande causa.
O
que adiante construírem represas, se os mananciais dos rios estão diminuindo, e
as mudanças climáticas estão ai deixando os meteorologistas e climatologistas
de cabelos em pé.
Há
mas nós temos os maiores rios de mundo, e também o de maior volume d’água, que
lançam as suas águas no oceano Atlântico sem nenhum aproveitamento, a não ser
levar através das correntes marinhas todo lixo e entulho do seu interior para a
praia da Caiena, capital da Guiana Francesa.
Li em um jornal Online a
seguinte reportagem que aqui transmito, debatido no Seminário sobre o Futuro Amazônico,
escrito por um cidadão a José Mello Miranda, Governador do Estado do Amazonas
(PROS), reeleito para 2015-2018, que me fez lembrar o escritor sertanejo Catulo
da Paixão Ceareanse.
Saudações!
Escrevo essa carta, mas não
repare os senões, para dizer o que penso sobre o seu projeto de transportar
água do rio Amazonas para o semiárido nordestino, anunciado antes de sua posse
num almoço com jornalistas na Secretaria Estadual de Fazenda. Ali, na
sobremesa, V. Exª disse ter se inspirado no oleoduto da Sibéria para propor a
construção, "com dinheiro do
Tesouro", de um duto, cuja trajetória, nos cálculos dos especialistas,
vai da foz do Amazonas até Maceió, cruzando o sertão de sete estados: MA, PI,
CE, RN, PB, PE e AL.
Na ocasião, em presença de
todo o secretariado, V. Exª declarou que vai apresentar o projeto no primeiro
encontro com a presidente Dilma a quem pretende convencer com argumento
irrespondível publicado nos jornais de Manaus (30/12): "A água do Rio Amazonas vai para o mar e não há nenhuma
comprovação científica de que a retirada da água doce faça alguma interferência
na natureza. Se eu fosse a Dilma, investiria na ideia. Vou levar essas ideias
para ela, vou colocar no ouvido dela essas minhas loucuras".
Que loucura que nada,
governador! Deixe de autocrítica exagerada. É isso mesmo. Surpreendente
revelação: a água do rio vai para o mar. A cada segundo, o rio Amazonas joga
fora no ralo do oceano Atlântico cerca de 300 mil metros cúbicos de água, o que
representa um quinto de toda a água fluvial do planeta. Quanto desperdício!
Para que tanta água, meu Deus? Ela vai se misturar com água salgada, o que é um
estrago inútil, o melhor mesmo é compartilhá-la com quem precisa. Imagina se a natureza
vai ficar preocupada com a retirada da água doce! Isso é frescura de
ambientalista.
Aqueduto Melo Merenda
Sem querer puxar vosso
excelentíssimo saco, senhor governador, acho que a Dilma vai a-do-rar. Esse
projeto genial, que pensa o futuro amazônico vinculado ao Brasil, reflete o
raciocínio simples de pessoa humilde como V.Exª., que começou sua carreira como
datilógrafo da Universidade Federal do Amazonas, foi nomeado depois pelo
governo militar diretor da Assessoria Especial de Segurança e Informação
(AESI), encarregado de identificar os subversivos daquela instituição e depois,
em 2005-2006, presidiu a Sociedade de Navegação Portos e Hidrovias do Amazonas
(SNPH). Isto lhe dá legitimidade em questões de flumenlogia.
Este projeto, uma jogada de
mestre, lhe traz duas vitórias políticas. De um lado, V. Exª que é do PROS
(vixe, vixe) entra na seara do Ministério de Minas e Energia, cujo novo titular
é o senador cadeirudo Eduardo Braga (PMDB, vixe, vixe), seu adversário
derrotado nas últimas eleições para governador do Amazonas. De outro lado,
costura relações com os governadores do Nordeste. Se o projeto se concretiza,
V. Exª decola para outros voos que podem aterrissar quiçá no Palácio do
Planalto. Nunca um amazonense foi presidente da República. A hora se avizinha.
Do ponto de vista
econômico, as vantagens são muitas. Uma obra de tal vulto vai gerar empregos e
salvar empreiteiras desmoralizadas na Operação Lava Jato que investiga lavagem
de dinheiro na Petrobrás. O desvio do curso do rio pode render tanto, mas
tanto, que o desvio de ovos da merenda escolar vai parecer coisa de criancinha.
Além disso, irrigará terras amigas da senadora Kátia Abreu, afilhada de
casamento da presidente Dilma, incentivará a produção de soja, fortalecerá o
agronegócio, aumentará as exportações, trazendo divisas para o país.
Do ponto de vista
geopolítico, os benefícios são incontáveis. O Amazonas, que hoje com seus
6.992,06 km é o segundo rio mais extenso do mundo, se tiver seu curso ampliado
atingirá mais de 10.000km, o que o levará ao primeiro lugar no ranking,
deixando o Nilo e o Mississipi-Missouri lá atrás. Aí sim será um "rio de
integração", podendo captar verbas do Ministério de Integração Nacional,
comandado por Gilberto Occhi (PP, vixe, vixe), cujo orçamento autorizado em 2014
foi de R$ 10,9 bilhões.
Por tudo isso eu sugiro que
o novo curso do rio Amazonas pelo Nordeste se chame Aqueduto José Melo Merenda,
codinome popular com que seu autor é conhecido no Amazonas.
Homenagem merecida.
Flumicídio
Longe de eu querer fazer
intriga, mas V. Exª deve desconfiar do novo ministro da Ciência e Tecnologia,
Aldo Rebelo. Ele é bem capaz de se apropriar do projeto, modificando-o e
dando-lhe conteúdo nacionalista, já que o rio Amazonas é visto pelos xenófobos
como um "rio impatriótico", pois suas águas cavam e engolem terras no
Brasil que são carregadas pela corrente oceânica do Gulf Stream até a Flórida,
nos Estados Unidos. (Será por isso que a emergente burguesia de igarapé compra
imóveis em Miami, querendo ficar perto da terrinha surrupiada?).
O certo é que, com o
aqueduto, a Amazônia deixará de ir de bubuia para Miami para seguir em direção
ao Brasil profundo. No entanto, enquanto V. Exª quer ir para o Nordeste,
advirto que Aldo Rebelo vai escolher São Paulo como destino final. É provável
que quando tome conhecimento do projeto genial, com cujas premissas concordam
Aldo Rebelo convoque a equipe que já fez um novo traçado, ampliando a extensão
do aqueduto (ver mapa).
No novo curso alternativo
proposto, o rio corta o sul do Pará e o Tocantins, dá uma desviada pela Bahia
onde corre lentamente, que ninguém é de ferro, desce desconfiado por Minas
Gerais onde atravessa a fazenda dos Neves, em Cláudio, para humilhar o
aécioporto, e de lá vai resmungando uma dor pelo Rio de Janeiro, bordeando a
fronteira até São Paulo.
A escolha que interessa
Aldo Rebelo obedece a razões econômicas e políticas. É que ele quer concorrer
ao governo de São Paulo, em 2018, ou como candidato a vice-presidente de Lula.
Dessa forma, pretende isolar o governador Alckmin (PSDB, vixe, vixe), que
decretou o racionamento e está multando quem não economizar água.
Senhor governador, seja
qual for o trajeto do aqueduto, o Amazonas está de parabéns por ter um gênio no
seu comando. Não ligue para a oposição que vai denunciá-lo como flumicida,
assassino de rios. Eles não sabem o que falam. Ao contrário de Vossa
Excelência.
A morte dos rios
Dou-lhe, senhor governador,
um conselho de graça para levar esse projeto até o final. Existem três livros
que V.Exª não pode ler sob hipótese alguma, porque contradizem a tese
melo-merendista de que – segundo a ciência – a retirada de água doce não fere a
natureza. A leitura deles deixa claro que secas como a de São Paulo ou do
Nordeste foram produzidas pelo homem que mexeu com o sistema hídrico e alterou
o balanço de entrada e saída de água. Sem programa inteligente de gerenciamento
de bacias hidrográficas, a água vai pro brejo e com ela todos nós. O primeiro
livro a evitar é a Morte Social dos Rios – Conflito, Natureza e Cultura na
Amazônia, escrito por Mauro Leonel, professor do Programa de Pós-Graduação
Interdisciplinar em integração da América Latina da USP. O autor mostra como os
diferentes segmentos sociais se apropriam dos rios, considerados como
importantes para a natureza da qual o homem faz parte. Estuda a relação do
poder com a malha fluvial desde o Brasil colônia até a República, condenando
sua exploração predatória.
O segundo livro que não
deve ser lido é de autoria do historiador Victor Leonardi – Os historiadores e
os rios – com um estudo sobre o rio Jaú. Ex-professor das Universidades de
Brasília, Unicamp e Berkeley, ele relaciona meio ambiente, história social e
ambiental e analisa as mudanças ao longo do tempo. O autor escreveu outro livro
a ser também evitado – Entre árvores e esquecimentos: história social dos
sertões do Brasil – no qual analisa o papel dos rios no interior do país.
O terceiro livro – Os
senhores dos rios: Amazônia, margens e história – conta com vários autores e
foi organizado por Mary del Priore, ex-professora da USP e da PUC/RJ e Flávio
dos Santos, historiador, professor da UFRJ. Lá, os autores discutem conceitos e
aborda a dinâmica de fronteira, a diversidade na Amazônia, a organização do
trabalho, analisando as representações do europeu sobre a região.
Fuja desses livros, senhor
governador, como o capiroto foge da cruz sob o risco de sua leitura fazer V.
Exª mudar de opinião. Eles estão apoiados em dados empíricos, em documentos, em
fatos. Se os tempos fossem outros, os bons tempos em que funcionavam nas
universidades as AESIs, tais livros seriam certamente queimados por atentarem
contra a ordem vigente. Excelentíssimo senhor governador, o nosso projeto –
permita que use aqui o possessivo – seja qual for o traçado, traz vantagem
adicional: vai levar para fora da Amazônia a pororoca, que derruba árvores de
grande porte e deixa insegura a população ribeirinha. Que a pororoca vá
estrondar em Maceió, em Santos ou no raio que o parta.
Atenciosamente.
Amos.
Atos.
Obros.
Taquiprati.
P.S. A foto foi pirateada,
o mapa foi elaborado pela especialista doutora pela USP A.P.Souza Artaxo.



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