VITÓRIA 470 ANOS - COMO ERAMOS A 150 ANOS ATRAS (1861)?
POR: WILLIS DE FARIA
Viajando na maquina do
tempo para desvendar as imagens de um passado não muito distante, seguindo as
descrições de vários historiadores, diários de viajantes, chegamos ao nosso
destino em 08 de setembro de 1860, quando a cidade completava 310 anos, um ano após
a cidade ter recebido a visita de S.M. Imperial D. Pedro II, Segundo Imperador
do Brasil, acompanhado da Imperatriz Dona Teresa Cristina Maria.
Qual era o cenário da
época? Vamos desvendar com analise detalhada do traçado da cidade e sua vida
econômica e social.
A capital da província, não
passava de um povoado cuja resistência aos hábitos e tradições coloniais
entravavam o progresso. Sua população com cinco mil habitantes, vivendo a
maioria com o produto da pesca e tomada pelo marasmo e a indolência.
Sem obedecer a qualquer
regularidade ou simetria, Vitória se apertava em anfiteatro, a margem das águas
da baia de Vitória, ruazinhas estreitas, tortuosas, escorregadias, procurando
paralelismo das águas marítimas, ou subindo as rampas do morro esburacado, com
ravinas causadas pelas enxurradas torrenciais e as encostas enfeitadas pelas
ramas de melões de São Caetano, planta ruderal, de flores amarelas e frutas
alaranjadas que adornavam a todos os recantos da cidade, e caminhando a passos
lentos, se perdiam em becos, vielas insalubres, ladeirosas e labirínticas.
Ruas ou ruelas, algumas ou
não apertadíssimas, tomadas pelo vicejante Capim-pé-galinha, planta ruderal e
invasora, calçadas ou não, com pedras disformes, como a Ladeira do Pelourinho
(hoje Escadaria Maria Ortiz), ao longo não passavam três homens em linha de
frente, famosa por ter nela morado, outrora, em um sobrado, a heroína Maria
Ortiz, que fizera recuar os holandeses, jogando sobre eles água fervente.
Rua dos Pescadores, da
Capelinha, do Comercio, do Porto dos Padres, de Santa Luzia, da Fonte Grande,
Ladeira Pernambuco, Largo da Conceição, Pelames e a pitoresca e modesta Rua da
Várzea.
Na Rua das Flores, outro
vulto da história capixaba, o herói Domingos Martins, cabeça da Revolução
Nativista Pernambucana de 1817, vivera parte de sua infância.
As casas, em grande parte
assobradada, algumas com janelas de vidraças em cores, balcões de madeira e
portais de pedra, entalhados em Portugal, trazidos como lastros de navios,
casas ou choupanas, se espalhavam em desordem na encosta, repousadas em esteios
suplementares ou estacas, ou sobre velhas bases de alvenaria.
Nos telhados limosos em
forma de canoa, talhadas nas coxas dos escravos, e nos beirais das casas,
cantavam as cambaxirras, e voavam audaciosamente rasante as andorinhas
migrantes, e cresciam também plantas, como os Dedos-de-anjos, adubadas pelo
guano (fezes) de pequenas aves e pelos urubus, que se postavam como adornos
petrificados no convexo das cumeeiras e abrindo suas asas para se requentar ao
sol escaldante.
A vista da baia era sempre
agradável, especialmente quando postado o observador mais de longe, para
abarcar o conjunto emoldurado pelo verde da vegetação nativa; o extenso
manguezal da preamar, as fruteiras das chácaras e dos pomares e a mata que
vestia os pontos mais elevados da encosta curvilineá do maciço central.
Desembarcava-se no cais das
Colunas, situado abaixo do Palácio do Governo; no da casa do Azambuja: no Cais
Grande, onde atracavam as sumacas (embarcação marítima da época); ou Cais do
Santíssimo, do Batalha ou no Porto dos Padres.
Em plano de destaque,
projetava-se a principal construção, o antigo Colégio dos Jesuítas, grande
quadrilátero, liso, de dois pavimentos, adaptados para o Palácio do Governo.
Comportava a Secretaria de Governo, um colégio de instrução literária, o Liceu;
a Tesouraria da Fazenda; a Administração dos Correios; o Armazém de Tecidos
Bélicos e a Biblioteca Pública, mas estava em estado deplorável: telhado
esburacado e cheio de goteiras; teto, pavimento e paredes muito sujas; portas
sem chaves e móveis estragados.
O edifício da Alfândega,
cuja renda, por sinal, era pequena, realçava em modestas proporções. Mas eram
as igrejas, pelas posições sempre em destaque, que constituíam os melhores
pontos de referencia à mira panorâmica. A de São Tiago, embora a arquitetura de
medíocre interesse, contígua ao Palácio do Governo, marcava, com o zimbório
(nome dado à parte mais alta e exterior da cúpula, em forma de torre, em geral
circular ou octogonal, das igrejas e edifícios de grande dimensão) curvilíneo
da sua torre maior, o histórico e venerável local do sepultamento do Padre
Anchieta.
A sua frente, situava-se a
Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, o único da Província. Não muito
afastadas, nos pequenos largos e praças, além de conventos Franciscanos e
Carmelitas, outras igrejas salpicavam os morros.
Quanto a condição de
higiene, era precária, o esgoto doméstico corria pelas sarjetas até alcançar o
mar, a base alimentar era conduzida pela
abundância de peixes, pois havia uma industria da pesca desenvolvida, com duas
dezenas de lanchas que iam pescar em alto-mar, nos Abrolhos e em Cabo Frio,
demorando dias para regressar ao porto trazendo os peixes salgados.
A carne verde, porém
escasseava, pois os animais sacrificados nunca satisfaziam o consumo. Havia uma
padaria explorada por um cidadão francês, o Sr. Penaud, mas o pão do pobre,
para não dizer, o lastro de sua alimentação era a farinha de mandioca ou o fubá
de milho.
Farmácias só havia três,
geralmente mal sortidas, sendo uma da Santa Casa. Os mais procurados eram as
pequenas farmácias homeopáticas, dos curiosos.
A água do abastecimento, de
boa qualidade, captada em mananciais da ilha, vertia das fontes da Lapa e da
Capixaba. Havia também a da Fonte Grande, (Fonte do Moniz) que se situava onde
se cruzam às ruas Coronel Monjardim e Sete de Setembro, e abastecia o chafariz
da cidade alta.
A iluminação pública era
feita com sessenta lampiões com candeeiros a azeite de sebo ou óleo de peixe;
insuficientes para bem servir a trinta e uma ruas, sete ladeiras, oito becos,
quatro praças e outros largos e tantas casas térreas.
Valia como esforço da
administração, a qual dependia da soma muito além do orçamento. Acendiam-se os
lampiões pouco antes do anoitecer (pelo regulamento, um quarto de hora antes) e
nas noites de lua, sob pena de multa de um mil réis por lampião apagado, também
por um quarto de hora devia ser mantida a iluminação até que o luar aparecesse.
O divertimento da cidade a
despeito da índole pacífica e modesta do povo da cidade era muito raro. Verdade
é que não faltava, nas casas dos caboclos e dos índios civilizados, uma viola
cabocla para as modinhas e os desafios, e os negros escravos não perdiam com
ressoar dos tambores, os jongos, ou uma oportunidade para amortecer o coaxar
dos sapos nos brejos com o batecum dos ticumbi, levados até os ancoradouros
quando chegava um vapor ao porto.
Já a classe média se
entediava com mais facilidade e procurava contribuir para animação das festas
religiosas que, em certos meses, como o de maio e junho. Desta forma eram
muitas. Festas do Divino Espírito Santo, de São Benedito dos Caramurus, de
Nossa Senhora dos Remédios, do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora do
Carmo, e desta festa muita festa em uma só quinzena. Vitória, a nossa cidade
Presépio, cidade Sol ou a ilha Do Mel, era assim.
O tempo passou e em 150
anos, de cinco mil habitantes, multiplicou-se por muito até chegarmos aos 320
mil habitantes.
Somos uma metrópole, onde
passamos de uma vila-cidade medíocre ao status de uma cidade de melhor
qualidade de vida do país.
Sou “maratimba”, nativo
desta ilha, com muito orgulho. Feliz por ter sido "servidor público"
deste município por 40 anos, contribuindo para seu desenvolvimento.
Parabéns minha adorável
ilha. “Esta ilha é uma delicia” como dizia a Carmélia de Souza, ou “Viver é ver
Vitória”, citação de Marien Calixte, quando Diretor de Turismo no Governo do
Prefeito Solon Borges Marques.



Sensacional
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