UMA LONGA DISPUTA PELA CRIMÉIA: UCRÂNIA x RUSSIA.


 POR: WILLIS DE FARIA

NOTICIA EXTRAORDINARIA:

- Putin diz que não quer "reconstruir império russo"

- Porém, país já diz abertamente que ignora Acordos de Minsk.

- Após reconhecer a independência de Donetsk e Lugansk, na Ucrânia, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou nesta terça-feira (22 fevereiro de 2022) que não quer "reconstruir um império" na região.

- "A Rússia decidiu ontem reconhecer a soberania de duas repúblicas do Donbass. Esperamos que sejam elaboradas hipóteses e se dirá que a Rússia está tentando reconstruir um império. Isso está completamente errado", disse Putin em coletiva ao lado do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev.

- O mandatário ainda afirmou que não irá interromper o fornecimento de gás para a Europa e a melhorar a infraestrutura dos gasodutos.

Porém, seu governo fala abertamente que vai ignorar os Acordos de Minsk, firmados pelo próprio Putin, em 2015. Pouco antes do discurso de Putin, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, os documentos "não estão mais na agenda do dia" e que as "garantias de segurança agora são prioridade máxima".

Além disso, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que não teme as sanções que serão impostas contra empresas e pessoas no país.

Donbass

A região separatista do Donbass vive em constante tensão desde 2014, quando se iniciou a crise mais grave entre Rússia e Ucrânia e que voltou a se acentuar agora.

Os conflitos armados na área foram intensos, com cerca de 10 mil mortos entre as forças oficiais e os rebeldes, mas se acalmaram e diminuíram desde fevereiro de 2015, quando foram assinados os Acordos de Minsk, em 2015, entre Kiev e Moscou sob a intermediação de Alemanha e França.

Os documentos preveem diversas ações de ambos os governos, mas pouco saiu de papel. O que tinha sido mais implementado, de fato, era o cessar-fogo em Lugansk e Donetsk. Além disso, entre as medidas firmadas pelos dois governos, os russos não poderiam mais financiar os rebeldes e os ucranianos precisariam dar um status de regiões autônomas aos dois locais - mas nenhuma das duas regras foi colocada em prática de fato.

Nesta segunda-feira, Putin reconheceu as duas áreas como repúblicas após pedidos dos governo rebeldes pró-Rússia e do próprio Parlamento. A decisão gerou uma onda de revolta dos países ocidentais, que acusam Moscou de querer a guerra e de desrespeitar as leis internacionais e a soberania da Ucrânia. .

- ESTE ESTUDO CHAMA-SE GEOPOLÍTICA. JÁ OUVIU FALAR?

Península da Crimeia - Península na Europa

A península da Crimeia, também conhecida simplesmente como Crimeia é uma massa de terra na costa do norte do mar Negro, pelo qual é cercada quase completamente, e pelo mar de Azov ao nordeste. A península está localizada ao sul da região ucraniana de Kherson e a oeste da região russa de Kuban.

Área: 27.000 km²

Início da construção: 1961

Mares: mar Negro • mar de Azov

Maior cidade: Sebastopol

República Autônoma da Crimeia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Republica Autônoma da Crimeia.

Qırım Muhtar Cumhuriyeti, em cirílico Къырым Мухтар Джумхуриети) é uma entidade política dentro da Ucrânia. No entanto, devido à instabilidade política recente na região e à ocupação por tropas militares russas, a soberania nacional sobre a península está sendo motivo de disputas entre a Rússia e a Ucrânia desde março de 2014.


Tomada da Crimeia pela Rússia (2014)

O termo Tomado da Crimeia pela Rússia, também conhecido como Questão da Crimeia, Crise da Crimeia ou mesmo Anexação da Crimeia – foi um evento militar de importância internacional protagonizado pela Rússia e pela Ucrânia em março de 2014 cujas consequências ainda hoje ressoam no cenário geopolítico mundial.

A Crimeia é uma região estratégica do ponto de vista político-geográfico, estando localizada ao norte do Mar Negro. A península já foi habitada por povos como os cimérios, os romanos, os hunos e os otomanos; no século XVIII, a vitória russa na guerra contra os turcos permitiu a anexação da Crimeia ao Império Russo liderado pela imperatriz Catarina, a Grande.

Já durante o século XX, o líder comunista Nikita Khrushchov cedeu a região para a Ucrânia em um gesto simbólico durante a comemoração do 300º aniversário da anexação da Ucrânia ao Império Russo.

Com a dissolução da União Soviética em 1991, a Crimeia continuou a pertencer à Ucrânia como uma república autônoma, muito embora a maior parte da população tivesse origens russas e uma lei de 2012 tenha tornado o russo uma língua oficial.

A partir de novembro de 2013, porém, a impopular decisão do presidente Viktor Yanukovich de recusar-se a assinar um tratado comercial com a União Europeia provocou intensos protestos que levaram à destituição e fuga do presidente para a Rússia em fevereiro de 2014.

A grave dissensão que se seguiu permitiu que o parlamento de Crimeia aprovasse às pressas a sua independência da Ucrânia e a adesão da região à Rússia, gerando uma crise separatista com a Ucrânia.

Enquanto isso, milhares de soldados russos eram enviados secretamente para a região, e seriam em breve reunidos com ainda mais tropas enviadas pelo governo de Vladimir Putin a pedido do destituído presidente Viktor Yanukovich.

Ainda que a Rússia argumentasse que a ação visava proteger seus cidadãos em meio à crise, a forte ligação histórica da Rússia com a Crimeia, em adição à presença da frota russa no Mar Negro, na estratégica posição próxima ao Mar de Arzov, motivou um rápido movimento para oficializar a anexação, o que ocorreu em 21 de março.

Ainda antes, no dia 16, a população da Crimeia aprovou massivamente a adesão à Rússia por meio de um referendo. Entre o início da crise ucraniana e o seu fim havia se passado somente cinco meses.

Em 11 de março de 2014, o parlamento da República Autônoma da Crimeia adotou uma declaração de independência. Em 16 de março de 2014, a maioria dos eleitores votou a favor de um referendo pela integração à Rússia.

Após o referendo, os legisladores da Crimeia votaram formalmente tanto pela separação da Ucrânia como o pedido para fazer parte da Federação Russa. A legitimidade e a legalidade da votação foi rejeitada pelo governo da Ucrânia e pela maioria da comunidade internacional, com poucas exceções. Em 18 de março de 2014, o presidente da Rússia, o primeiro-ministro da Crimeia e o prefeito de Sebastopol assinaram em conjunto um acordo para que a Crimeia e Sebastopol passassem a fazer parte, oficialmente, da Rússia.

Atualmente, a República da Crimeia (como é conhecida enquanto subdivisão federal russa) é uma república autônoma dentro da Federação Russa, na costa norte do Mar Negro, anexada em 2014 pelo governo russo.

O referendo que aprovou a anexação é considerado ilegal pela Resolução 68/262 da Assembleia Geral das Nações Unidas, sendo então a Crimeia considerada um território ucraniano sob ocupação russa. Para esses países, ela continua a fazer parte da Ucrânia, embora integre, de facto, a Federação Russa, que anexou a República e a cidade de Sebastopol como entidades separadas, depois de um referendo no qual a maioria da população dessas duas regiões decidiu-se pela união com a Rússia, e após uma declaração de independência unilateral do Parlamento da Crimeia.

A república abrange, portanto, praticamente toda a península, com exceção da cidade de Sebastopol, sede da mais importante base da Marinha de Guerra da Russia.

Quase que de imediato, o avanço russo sobre a Crimeia provocou reações de outros países. Os EUA acusaram a Rússia de não ter base legal para o envio dos soldados, defendendo que a soberania ucraniana sobre o seu território foi violada com a ação. Outros importantes países, como a Alemanha, a França e o Reino Unido, concordam com tal posição.

A Tomada da Crimeia pela Russia colocou a região como um todo em um limbo geopolítico, uma vez que a anexação não é reconhecida por diversos países.

Por consequência, a própria Rússia enfrentou um período de considerável isolamento internacional, sofrendo inclusive sanções econômicas, embora isso não tenha impedido protestos a favor dos russos em outras cidades ucranianas, como Kharkiv e Donetsk, aparentemente desejosas de seguir o exemplo da Crimeia.

Mais recentemente, em novembro de 2018, a região passou por nova crise após os russos abrirem fogo e capturarem navios ucranianos que haviam entrado sem permissão em suas águas territoriais. Logo após o evento, o governo ucraniano declarou lei marcial em suas fronteiras com a Rússia, o que ainda pode provocar agravamento das tensões locais. Cerca de 10.000 pessoas já morreram, e aproximadamente meio milhão de ucranianos atravessou a fronteira para se refugiar na Rússia desde o início da disputa.

PAISAGENS DA CRIMEIA.














História

Desde cerca de 700 A.C., a península foi dominada por diferentes reinos, impérios e etnias, tendo sido total ou parcialmente controlada por cimérios, antigos búlgaros, gregos, citas, romanos, godos, hunos, cazares, russos quievanos (os precursores dos Estados modernos da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia,) os bizantinos, venezianos, genoveses, quipchacos, a Horda Dourada, turcos otomanos, o Império Russo, a União Soviética, a Alemanha nazista, a Ucrânia e agora, a Federação Russa.

Ucrânia independente

Com o colapso da União Soviética, a Crimeia passou a fazer parte da nação recém-independente da Ucrânia, o que provocou tensões entre a Rússia e aquele país. Com a Frota do Mar Negro estacionada na província, a preocupação com a ameaça de conflitos armados ocorria ocasionalmente. Gradualmente, os tártaros da Crimeia começaram a retornar do exílio e se fixar novamente em sua terra de origem.


Os territórios que pertenciam à União Soviética estão passando por um renascimento religioso; na foto, a Igreja da Ressureição de Cristo, próxima a Ialta.

Em 26 de fevereiro de 1992 o Verkhovniy Sovet (parlamento da Crimeia) alterou o nome da república para República da Crimeia, e, em 5 de maio daquele ano, proclamou sua autonomia. (que, no entanto, ainda tinha que ser aprovado por um referendo a ser realizado em 2 de agosto de 1992); no mesmo dia, a primeira Constituição da Crimeia foi aprovada. Em 6 de maio de 1992 o mesmo parlamento inseriu na constituição uma cláusula que declarava que a Crimeia fazia parte da Ucrânia.

Em 19 de maio a Crimeia concordou em continuar a fazer parte da Ucrânia, anulando sua proclamação de autogoverno, porém os comunistas crimeanos forçaram o governo da Ucrânia a ampliar a autônomia da região. No mesmo período, o presidente russo Bóris Iéltsin e o presidente ucraniano Leonid Kravtchuk concordaram em repartir a antiga Frota Soviética do Mar Negro entre a Marinha da Rússia e a recém-formada Marinha da Ucrânia.

Em 14 de outubro de 1993 o parlamento crimeano criou o cargo de presidente da Crimeia, e estabeleceu uma cota de representantes dos tártaros no Conselho dos 14. A situação política turbulenta, no entanto, continuou. Algumas emendas foram feitas à constituição para tentar amenizar os conflitos, porém em 17 de março de 1995 o Parlamento da Ucrânia acabou intervindo, anulando a Constituição da Crimeia e removendo Yuri Meshkov, então presidente da Crimeia, juntamente com o seu cargo, devido às alegações de que teria atuado contra o Estado e promovido a integração com a Rússia. Depois de uma constituição interina, a atual constituição foi aprovada, alterando novamente o nome do território para República Autônoma da Crimeia.

Após a ratificação do Tratado de Amizade, Cooperação e Parceria, em maio de 1997, a respeito da divisão da Frota do Mar Negro, as tensões internacionais começaram a diminuir. Em 2006, no entanto, eclodiram diversos protestos contra a OTAN na península. Em setembro de 2008 o ministro das relações exteriores da Ucrânia, Volodymyr Ohryzko, acusou a Rússia de conceder passaportes russos para a população da Crimeia, e descreveu o fato como um "problema real", tendo em vista a política declarada da Rússia de realizar intervenções militares no exterior para proteger seus cidadãos.

Em 24 de agosto de 2009 diversas demonstrações anti-ucranianas foram realizadas na Crimeia por residentes da Crimeia de etnia russa. Serguei Tsekov, do partido político Bloco Russo, e, na época, vice-presidente do parlamento da Crimeia, afirmou que esperava que a Rússia tratasse a Crimeia da mesma maneira com que havia tratado a Ossétia do Sul e a Abcázia. 

Discussões acaloradas eclodiram no parlamento ucraniano em 27 de abril de 2010, durante um debate a respeito da extensão do arrendamento de uma base naval russa, após a mesma casa ter ratificado o tratado que permitia a utilização do porto de Sebastopol e outros locais da Crimeia para ancoradouros e outras instalações litorâneas russas até 2042, com renovações opcionais de cinco anos. O tratado também foi ratificado pela Duma Estatal russa.

Crise de 2014 e intervenção militar russa

Crise da Crimeia de 2014, Intervenção militar russa na Ucrânia de 2014 e Referendo na Crimeia de 2014.

Em 26 de fevereiro de 2014, após a Revolução Ucraniana de 2014, milhares de manifestantes pró-Rússia e pró-Ucrânia se enfrentaram diante do prédio do parlamento da Crimeia, em Simferopol. O motivo do confronto seria a abolição, em 23 de fevereiro do mesmo ano, da lei que regulamentava os idiomas das minorias, incluindo o russo. Esta decisão, que na prática faria do ucraniano o único idioma estatal, não foi sancionada pelo presidente interino.

 

Geopolítica da República Autônoma da Crimeia, março de 2014.

As demonstrações foram seguidas pela retirada do poder do presidente ucraniano Viktor Yanukovych, em 22 de fevereiro de 2014, e uma pressão pelos manifestantes pró-Rússia na Crimeia por uma secessão da Ucrânia, e o apelo por ajuda ao governo russo.

Cinco dias após o presidente da Ucrânia Viktor Yanukovytch ser deposto de suas funções presidenciais, o Parlamento da Crimeia anunciou um referendo para o dia 25 de maio de 2014, visando decidir se a população crimeana optaria por uma anexação à Rússia ou pela restauração da Constituição da Crimeia de 1992 que dava mais autonomia à região e a tornaria mais independente da Ucrânia.

Tal atitude foi repudiada firmemente pelo governo provisório da Ucrânia, Estados Unidos e diversos países da União Europeia. Em contrapartida, a Rússia apoiou e afirmou que reconheceria o resultado desse referendo. Cidadãos da Crimeia de origem tártara e ucraniana anunciaram que boicotariam o referendo.

 

Em 28 de fevereiro de 2014 as Forças Terrestres da Rússia ocuparam aeroportos e outras localizações estratégicas da Crimeia. O governo interino da Ucrânia descreveu o ocorrido como "uma invasão e ocupação da Crimeia por tropas russas".

Tropas russas, no entanto, já estavam estacionadas na Crimeia por mais de uma década, devido a um tratado feito com a Ucrânia, embora o número de soldados presentes em território ucraniano no fim de fevereiro de 2014 tenha constituído uma violação dos acordos deste tratado.

Homens armados, que seriam militantes armados ou membros das forças especiais russas, ocuparam então o parlamento da Crimeia. Sob a vigilância de guardas armados e com as portas fechados, os membros do parlamento elegeram então Serguey Aksyonov como o novo primeiro-ministro da Crimeia.

Aksyonov afirmou que assumiria o controle único das forças de segurança da Crimeia, e apelou à Rússia "por assistência na manutenção da paz e tranquilidade" na península.

 O governo central ucraniano não reconhece a administração de Aksyonov e a considera ilegal. O presidente afastado da Ucrânia, Viktor Yanukovitch, enviou uma carta ao presidente russo, Vladimir Putin, pedindo a ele que utilizasse força militar na Ucrânia para restaurar a lei e a ordem.

O ministro das relações exteriores russo declarou que o "deslocamento de navios armados da Frota do Mar Negro na Crimeia (...) está ocorrendo em total acordo com os princípios básicos dos tratados russo-ucranianos a respeito da frota".

 

Em 1 de março, o parlamento russo concedeu ao presidente russo Vladimir Putin a autoridade de utilizar a força militar na Ucrânia. A medida foi condenada tanto por nações ocidentais quanto por países não-alinhados com o bloco ocidental. No mesmo dia, o presidente em exercício da Ucrânia, Oleksandr Turtchynov, declarou a indicação de Aksyonv para o cargo de primeiro-ministro da Ucrânia como "inconstitucional". A Rússia havia estabelecido o controle de facto do território.

No dia seguinte Aksyonov anunciou que o referendo seria antecipado para o dia 16 de março do mesmo ano, provocando medidas mais severas da comunidade internacional.

Em 3 de março surgiram relatos de que o comandante da frota russa no Mar Negro havia dado à Ucrânia um prazo de 24 horas para lhe ceder o controle da Crimeia, ou as tropas russas invadiriam e ocupariam a região. A agência de notícias Interfax, no entanto, citou posteriomente um porta-voz da frota que negou a existência de qualquer ultimato.

Em 4 de março diversas bases e navios de guerra ucranianos na Crimeia relataram ações intimidatórias por parte das tropas russas, porém garantiram não responder com violência. Em um caso específico, os soldados ucranianos da base aérea de Belbek marcharam desarmados de seu quartel até a fronteira em que se encontravam os russos, onde foram parados por sentinelas que dispararam tiros de advertência e os cercaram.

 Diversos jornalistas registraram o incidente. Navios de guerra ucranianos também ficaram presos, na prática, no porto de Sebastopol em que se encontravam.

Em 6 de março, membros do parlamento crimeano formalizaram o pedido ao governo russo para que a região passasse a fazer parte da Federação Russa, com a realização do referendo estipulada para 16 de março. O governo central ucraniano, os Estados Unidos e a União Europeia questionaram a legitimidade do pedido e do referendo.

O artigo 73 da Constituição da Ucrânia afirma: "Alterações ao território da Ucrânia deverão ser resolvidas unicamente através de um referendo realizado em toda a Ucrânia." Observadores internacionais que se deslocaram à Ucrânia para avaliar a situação foram impedidos de cruzar a fronteira da Crimeia por militantes armados. Tropas russas afundaram um cruzador classe Kara russo, Otchakov, nas proximidades de Novoozerne, Yevpatoria, na costa oeste da Crimeia, para impedir que os navios de guerra ucranianos pudessem sair de seu porto, no lago Donuzlav.

Em 7 de março as tropas russas afundaram outro navio, uma embarcação de apoio a mergulhadores, para bloquear ainda mais o porto do lago Donuzlav.

No mesmo dia, o Parlamento da Crimeia publicou as questões que seriam feitas no referendo de 16 de março:

"Você apoia a reunião da Crimeia com a Rússia, na qualidade de membro da Federação Russa?"

"Você apoia o retorno da Constituição da República de Crimeia de 1992, e a manutenção do status da Crimeia como parte da Ucrânia?"

No dia 10 de março, 78 de um total de 100 integrantes do parlamento regional da Crimeia aprovaram a declaração de independência da península em relação à Ucrânia, na qual foi invocada a Carta das Nações Unidas, foi citado o precedente da independência do Kosovo e uma série de outros documentos internacionais que estabelecem o direito dos povos à autodeterminação; as autoridades de Kiev, por outro lado, afirmaram que não vão reconhecer a decisão de um parlamento que consideram ilegal.

No dia 15 de março de 2014, na véspera do referendo da Crimeia, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu para votar por uma resolução que condenasse e não reconhecesse o referendo da Crimeia. 13 dos 15 países do Conselho votaram a favor da resolução, com a China se abstendo. Como a Rússia tem poder de veto, ela votou contra a resolução e, assim sendo, a resolução não foi aprovada.

No dia 16 de março de 2014 realizou-se o referendo. Apenas as cédulas que traziam uma única resposta positiva foram considerados válidos. Não havia opção de manutenção do status quo. Os meios de comunicação da Ucrânia consideraram as questões como equivalentes a "junte-se à Rússia imediatamente, ou declare independência e então junte-se à Rússia." A constituição crimeana atual entrou em vigor em 1999, e o artigo 135 da constituição ucraniana estabelece que qualquer alteração nela deve ser aprovada pelo parlamento ucraniano.

Em 17 de março de 2014 o governo da República Autônoma da Crimeia anunciou o resultado final de seu referendo, apontando que cerca de 95,5% dos votos haviam optado pela primeira opção, que previa a anexação do território à Rússia.

Com o resultado do referendo, o Parlamento da Crimeia aprovou por unanimidade e declarou, oficialmente, a Crimeia independente da Ucrânia ao mesmo tempo em que oficializou o pedido de anexação à Rússia ao presidente Vladimir Putin Paralelo ao resultado do referendo, houve protestos e ameaças da Ucrânia e demais países, como Estados Unidos e União Europeia, que ressaltaram não reconhecer o resultado do referendo, que julgam ser constitucionalmente ilegal.

Em 18 de março o Kremlin declarou que a Crimeia havia passado a fazer parte da Federação Russa. O presidente Vladimir Putin fez um discurso a parlamentares russos no qual defendeu a reintegração da Crimeia à Rússia, assinado em seguida o tratado de anexação da península à Federação.[ O governo da Ucrânia, a União Europeia e os Estados Unidos reafirmaram suas discordâncias das declarações de Putin e do Kremlin.

A importância estratégica da Crimeia

GEOGRAFIA

A importância estratégica da Crimeia está na sua localização e posição geográfica, além de oferecer vantagens econômicas e comerciais.

A Crimeia é uma província semiautônoma da Ucrânia localizada na região sul do país, em uma península situada às margens do Mar Negro. Trata-se de uma zona que, apesar de fazer parte do território ucraniano, ainda possui fortes relações étnicas e políticas com a Rússia, sendo um dos principais entraves entre os dois países em âmbito diplomático.

O principal valor estratégico da Crimeia é, sem dúvida, a sua posição geográfica. A região representa uma saída importante para o Mar Negro, que é o único porto de águas quentes da Rússia. Isso significa que essa zona possui relevância tanto em nível comercial quanto no plano militar para os russos, por facilitar a movimentação de cargas e por garantir o controle do canal que liga esse mar ao Mar de Arzov, conforme podemos observar no mapa a seguir:

Outro ponto importante é o valor econômico da província, que é uma grande produtora de grãos e vinhos, apresentando também uma avançada indústria alimentícia. Os portos da Crimeia também são responsáveis por boa parte do escoamento da produção agrícola ucraniana que segue em direção à Europa e à própria Rússia, além de ser o ponto onde o país realiza uma considerável parte de suas importações, incluindo o gás russo.

Em um acordo firmado em 2010, a Rússia instalou uma base militar em Sebastopol, cidade localizada no sul da Crimeia, com a permanência prevista até o ano de 2042. Em troca, o governo de Moscou cedeu US$ 40 bilhões de dólares em gás natural, fonte de energia da qual a Ucrânia é extremamente dependente.

Além de todos esses fatores, na região concentra-se uma grande quantidade de povos ligados à Rússia, utilizando o idioma do país vizinho. Essa população corresponde a 60% dos mais de dois milhões de habitantes da região, que foi cedida à Ucrânia ainda na época da União Soviética pelo líder do Partido Comunista, Nikita Khrushchev. Nesse sentido, tanto o governo russo quanto o governo ucraniano procuram intensificar o sentimento nacionalista na região para ambos os lados a fim de ampliarem a influência ideológica local, atualmente polarizada entre os “pró-Rússia” e os “pró-Ucrânia”, esses últimos mais conhecidos como “pró-Europa”, por serem favoráveis a um estreitamento das relações comerciais com a União Europeia.

Essa questão, inclusive, está no centro da crise que atingiu o país nos últimos tempos, resultando em uma série de protestos que derrubou, respectivamente, o primeiro-ministro, Mykola Azarov, e o presidente, Viktor Yanukovich, com a instituição de um novo governo. Essa mudança de poder foi uma represália à ação do então presidente que se recusou a assinar um tratado que estreitaria as relações comerciais ucranianas com a União Europeia, preferindo aproximar-se economicamente da Rússia, o que desagradou os comandos pró-Europa.

O presidente russo, Vladimir Putin, então considerou essa tomada de poder como uma ação ilegítima. Assim, a região da Crimeia passou a ser dominada por um comando pró-Rússia, que vem procurando ampliar a autonomia da região e consolidar um centro de oposição ao novo governo instaurado. Assim, sob a justificativa de “normalizar” a situação e estabelecer uma proteção aos cidadãos russos, a Rússia enviou tropas para a Crimeia, ocupando aeroportos e bases militares na província.

Esse movimento desagradou profundamente os governos ocidentais, notadamente a União Europeia e os Estados Unidos, que não veem com bons olhos um eventual crescimento do imperialismo russo na região. Por esse motivo, o presidente estadunidense Barack Obama vem articulando uma série de sanções diplomáticas e comerciais contra a Rússia para enfraquecer Moscou e pressionar Putin a recuar, o que vem contribuindo para elevar a tensão tanto em nível local quanto em escala mundial.

ANALISE HISTÓRICA DA REGIÃO.

A península da Crimeia (em tártaro da Crimeia: Къырым ярымадасы; romaniz.: Qırım yarımadası; em russo: Кры́мский полуо́стров; em ucraniano: Кри́мський піво́стрів), também conhecida simplesmente como Crimeia (FO 1943: Criméia) é uma massa de terra na costa do norte do mar Negro, pelo qual é cercada quase completamente, e pelo mar de Azov ao nordeste. A península está localizada ao sul da região ucraniana de Kherson e a oeste da região russa de Kuban. Está ligada ao Oblast de Kherson pelo istmo de Perekop e é separada de Kuban pelo estreito de Querche. A ponte terrestre de Arabat está localizada a nordeste, uma estreita faixa de terra que separa um sistema de lagoas, chamado Sivash, do mar de Azov.

 

A Crimeia (ou península Táurica, como era chamado desde a Antiguidade até o início da Era Moderna) tem sido historicamente a fronteira entre o mundo clássico e as estepes pônticas. Sua parte sul foi colonizada por gregos antigos, persas, romanos, bizantinos, godos da Crimeia, genoveses e otomanos, enquanto ao mesmo tempo seu interior foi ocupado por vários invasores nômades das estepes, como cimérios, citas, sármatas, godos, alanos, búlgaros, hunos, cazares, quipchacos, mongóis e a Horda Dourada.

A Crimeia e territórios adjacentes foram unidos no Canato da Crimeia entre os séculos XV e XVIII. Em 1783, a Crimeia foi anexada pelo Império Russo. Após a Revolução Russa de 1917, a península tornou-se uma república autônoma dentro da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, parte da União Soviética, embora mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, tenha sido rebaixada para o Oblast da Crimeia.

Em 1954, o Oblast da Crimeia foi transferido para a República Socialista Soviética da Ucrânia, por Nikita Khrushchev, a fim de reforçar a "unidade entre russos e ucranianos" e a "grande e indissolúvel amizade" entre os dois povos.

A região então transformou-se na República Autônoma da Crimeia dentro da Ucrânia independente em 1991, sendo que Sevastopol manteve sua própria administração, dentro de Ucrânia, mas fora da república autônoma.

Desde 1997, após o tratado de paz e amizade assinado pela Rússia e Ucrânia, a Crimeia abriga a base da Frota do Mar Negro da Rússia em Sevastopol. A antiga frota soviética do mar Negro e suas instalações foram divididas entre a Frota Russa do Mar Negro e as Forças Navais Ucranianas. As duas marinhas compartilhavam alguns dos portos e cais da cidade, enquanto outros eram desmilitarizados ou usados ​​por qualquer um dos dois países.

Sevastopol permaneceu como a sede da Frota Russa do Mar Negro, assim como a sede das Forças Navais da Ucrânia, também sediada na cidade. Em 27 de abril de 2010, a Rússia e a Ucrânia ratificaram a base naval ucraniana para o tratado de gás, estendendo o arrendamento à Marinha Russa de instalações da Crimeia por 25 anos após 2017 (até 2042) com uma opção para prolongar o contrato de arrendamento por cinco anos.

Em março de 2014, após a expulsão do presidente pró-russo Viktor Yanukovich na Revolução Ucraniana de 2014, as forças armadas russas apoiadas por separatistas pró-russos invadiram grandes edifícios do governo ucraniano, bases militares e instalações de telecomunicações da península e forçaram as autoridades locais a realizarem um referendo sobre "reunificação com a Rússia" considerado ilegal pela Resolução 68/262 da Assembleia Geral das Nações Unidas, sendo então a Crimeia considerada um território ucraniano sob ocupação russa.

A maior parte da comunidade internacional (exceto Zimbábue, Venezuela, Síria, Nicarágua, Sudão, Bielorrússia, Armênia, Coreia do Norte e Bolívia) não reconhece a anexação e considera a Crimeia um território ucraniano sob ocupação russa. A Federação Russa administra atualmente a península como duas entidades federais: a República da Crimeia e a Cidade Federal de Sevastopol. A Ucrânia continua a afirmar o seu direito sobre a península.

Etimologia

O nome Crimeia provém do nome da cidade de Qırım (atual Stary Krym), que servia como capital da província da Crimeia durante o domínio da Horda Dourada. O nome Krim, portanto, remonta ao termo tártaro que designa "estepe" ou "monte" (língua tártara da Crimeia: qırım, "minha estepe", "meu monte", que vem do antigo turcomano e do turcomano médio qır, "topo de montanha", "cordilheira", "estepe", "deserto", "chão plano"). Krym é a forma russificada de Qırım.

Os gregos antigos designavam a Crimeia de Táuride (também Táurida ou Táurica; em grego antigo Ταυρική, transl. Taurikē), devido ao nome de seus habitantes, os tauros. O historiador grego Heródoto relata a origem lendária do nome; segundo ele, o célebre herói Héracles teria arado a terra da região utilizando um imenso touro (Taurus). Heródoto também se refere a uma região vizinha chamada Cremni[6] que significaria "Penhascos", e poderia se referir à península da Crimeia, célebre pelos penhascos em seu litoral, que contrastam com o resto da costa norte do mar Negro, geralmente plana.

História antiga

A colônia grega de Quersoneso Táurica, próxima à atual Sebastopol

Táurica era o nome da Crimeia na Antiguidade Clássica; era habitada por uma grande variedade de povos. As regiões do interior eram habitadas pelos citas, enquanto a costa montanhosa meridional pelos tauros, um ramo dos cimérios. Colonos gregos habitavam inúmeras colônias ao longo do litoral da península, mais especificamente a cidade de Quersoneso, atual Sebastopol. No século IV a.C. a parte oriental da Táurica passou a integrar o Reino do Bósforo, antes de ser incorporada ao Império Romano, no século I a.C. Durante os primeiros três séculos depois de cristo, a Táurica foi sede de colonos romanos em Cárax. Finalmente, a Táurica foi renomeada pelos tártaros da Crimeia, de cujo idioma vem o nome atual da região; "Crimeia" vem do tártaro Qırım, através do grego Krimea (Κριμαία).[carece de fontes]

 

Ao longo dos últimos séculos, a Crimeia foi invadida ou ocupada sucessivamente pelos citas, sármatas, godos (250 d.C.), hunos (376), protobúlgaros (século IV-VIII), cazares (século VIII), a Rússia de Quieve (séculos  X-XI), bizantinos (1016), quipchacos ou cumanos (1050), mongóis (1237). No século XIII os genoveses destruíram ou tomaram as colônias que seus rivais venezianos haviam fundado na costa da Crimeia e se estabeleceram em Cembalo (Balaclava), Soldaia (Sudak), e Caffa (Teodósia). Essas prósperas cidades comerciais existiram até a conquista da península pelos turcos otomanos em 1475. A pandemia da Peste Negra chegou à Europa no século XIV, provavelmente a bordo de navios mercantis genoveses vindos da península da Crimeia.

Diversos povos turcomanos se fixaram na península a partir do início da Idade Média, por volta do século XIII. O pequeno enclave dos caraítas instalou-se entre principalmente em Çufut Qale. Por diversas ocasiões estes grupos dominaram demograficamente a península, enquanto em outros momentos seus números foram reduzidos (1750-1944) ou até mesmo desapareceram totalmente (1944-1991), apenas para reaparecer novamente (1991-presente).

Após a destruição da Horda Dourada por Tamerlão, os tártaros da Crimeia fundaram um canato independente, o Canato da Crimeia, em 1427 (ou 1443), sob a liderança de Hacı I Giray, um descendente de Gêngis Cã. Seus sucessores e ele próprio reinaram primeiramente em Solkhat (Eski Qırım) e, a partir do início do século XV, em Bakhchisaray (ou Bakh-chisarai).

Os tártaros da Crimeia passaram a controlar as estepes que se estendiam de Kuban até o rio Dniestre, sem, no entanto, conseguir assumir o controle dos entrepostos comerciais genoveses. Após eles finalmente obterem o controle delas, capturaram o sultão otomano [[[Meñli I Giray, que foi libertado em troca do reconhecimento dos cãs da Crimeia pelos otomanos e a aceitação de seu papel como príncipes tributários do Império Otomano.

Os Kan da Crimeia, no entanto, mantiveram um grande grau de autonomia do Império Otomano; em 1774, acabaram entrando para a esfera de influência dos russos com o Tratado de Küçük Kaynarca até que, em 1783, toda a Crimeia foi anexada pelo Império Russo, e teve início a construção das cidades de Sebastopol e de Simferopol.

O godo da Crimeia, uma língua germânica oriental, era falada pelos godos da Crimeia em diversos locais isolados da Crimeia até o fim do século XVIII.

Canato da Crimeia

O Canato da Crimeia foi um Estado tártaro fundado por Hacı I Giray, descendente de Gêngis Kan, e durou de 1441 a 1783. Em 1478 o Canato se tornou um tributário do Império Otomano, e durante as longas guerras de expansão russas se tornou um Estado formalmente independente através dos termos do Tratado de Küçük Kaynarca, assinado entre os russos e os turcos otomanos em 1774, mas foi anexado pelo Império Russo em 1783, passando a se chamar de Província (губе́рния) da Táurida.


Comércio escravagista

Até o fim do século XVIII, os tártaros da Crimeia mantinham um comércio escravagista maciço com o Império Otomano e o Oriente Médio em geral. Cerca de dois milhões de escravos oriundos da Rússia e da Ucrânia foram vendidos durante o período que foi de 1500 a 1700. Os tártaros tornaram-se célebres por suas incursões devastadoras e quase que anuais contra os povos eslavos do norte. Em 1769, naquela que é considerada a última incursão tártara, ocorrida durante a Guerra Russo-Turca, cerca de 20 mil pessoas foram escravizadas.

 Guerra da Crimeia e século XIX



A cavalaria britânica avançando contra as tropas russas durante a Batalha de Balaclava, durante a Guerra da Crimeia.

 

A guerra da Crimeia, que ocorreu há 160 anos, no início de setembro de 1854, foi o primeiro conflito em que a Rússia foi confrontada pela Inglaterra, que lutou em uma coligação com a França e a Turquia. No nível político, os países eram inimigos, mas para os indivíduos que lutaram no conflito a guerra não era razão para esquecer as boas maneiras e a cortesia. Os oficiais russos falavam inglês e francês, o que permitia a comunicação civilizada fora de combate entre aqueles que no dia seguinte voltavam a ser inimigos irreconciliáveis.

O cerco de Sebastopol foi, além de um combate do Exército russo contra a coligação franco-inglesa, um encontro de culturas diferentes. Sendo inimigos no campo de batalha, os russos e seus adversários não perdiam oportunidade de se comunicar nos acampamentos militares, durante os momentos de trégua. O jornalismo de guerra, o gorro balaclava, o sobretudo raglan e o casaco cardigan surgiram durante o cerco de Sebastopol.

“É a vontade de Deus”

Após o bombardeamento de Odessa pela esquadra franco-inglesa, a fragata britânica Tigre, cuja missão era bloquear a cidade, encalhou em um nevoeiro espesso na entrada do porto.

A tripulação de 225 oficiais e marujos foi aprisionada e alojada em Odessa. Mais tarde, por ordem do imperador russo Nicolai I, a tripulação foi mandada para casa.

Em Odessa, os prisioneiros viviam em excelentes condições,  sob a constante atenção da população local. Tudo isto foi descrito em suas cartas para familiares e amigos. Um marinheiro relatou: “Um dia, sob a bandeira de trégua, veio ter conosco um oficial russo de idade. Fez uma saudação para um grupo de soldados ingleses e partilhou com eles o rapé. Depois de beber rum com os nossos, disse a um oficial britânico: ‘Os russos gostam muito de ingleses e, se pudessem, nunca entrariam em guerra convosco. Pelo visto, é a vontade de Deus’”.

Enquanto os oficiais se comportavam como cavalheiros, sobre os soldados não se podia dizer o mesmo. Para os simples soldados russos, ao contrário dos oficiais de educação europeia, os ingleses e franceses eram intrusos, encarados como ocupantes que deviam ser expulsos a todo custo. “Testemunhei um caso repugnante: um jovem oficial inglês deu a um ferido russo um gole de brandy de seu cantil; mal lhe virou as costas para ir embora, levou um tiro fatal do soldado impassível”, recordou em uma carta Timothi Gowing, atirador real.


Mas os soldados dos aliados tampouco eram exemplos de civilização. Chacotas e torturas eram bastante frequentes, e nisso se empenhavam sobretudo os franceses, endurecidos pela guerra contra os selvagens na  Argélia. Caffir, criado do capitão Clifford, contava com uma sinceridade aterrorizante que para ele o  maior prazer era passear pelo campo depois da batalha, contemplando corpos mutilados de soldados inimigos, que lhe lembravam “maçãs no quintal”. Uma vez, voltou carregado de sabres e capacetes russos, murmurando: “Ai que bom! Tantos mortos! Braços e pernas por todo lado. São inimigos de meu senhor”.

Heranças da guerra

A guerra da Crimeia deixou influências nas línguas dos países beligerantes e na área de vestuário. Em inglês, até hoje existe o termo “balaclava”, que designa um gorro de malha com orifícios para olhos e nariz. Reza a lenda que este termo foi introduzido pelos soldados britânicos que não tinham vestimentas adequadas no inverno de 1854–1855 e passavam muito frio nos arredores da cidade de Balaclava, na Crimeia. Outro exemplo conhecido é um sobretudo com mangas de corte especial chamado de raglan, que costumava ser usado por Fitzroy Somerset, primeiro barão Raglan, comandante das forças britânicas, que tentava ocultar deste modo a falta do braço direito, perdido ainda na juventude durante a batalha de Waterloo. Mais uma peça de roupa – uma blusa de malha com botões e sem gola – foi batizada de cardigan, em memória de James Brudenell, sétimo conde de Cardigan, que gostava de vestir a blusa por baixo da farda durante o inverno. Os habitantes da Europa tinham bastante frio na Crimeia.


Segundo uma lenda popular, foi durante a guerra da Crimeia que surgiram os “papirossi”: tanto os aliados como os russos adotaram um hábito turco de fazer uma espécie de cigarro enchendo de tabaco cartuchos de papel para pólvora.

Tratado de paz

No final de 1855, os participantes do conflito começaram a perceber que não valia a pena continuar lutando. Perdas enormes (apenas nos arredores de Sebastopol, os aliados perderam cerca de 90 mil soldados, sem contar com os que morreram de doenças) viravam as sociedades francesa e inglesa contra a guerra, e a Rússia também estava em uma situação difícil.

Na sequência de conversações, foi assinado o Tratado de Paz de Paris, em 18 de março de 1856. Todos os grandes Estados tiveram que chegar a um compromisso, porque o balanço de forças na Europa não mudou após a guerra, nem foram resolvidas as questões que provocaram o conflito. Lamentavelmente, passados 60 anos, em 1914 os mesmos problemas voltaram a provocar um conflito armado, que ficou conhecido como Primeira Guerra Mundial.

A Crimeia se tornou parte da província da Táurida, e foi em seu território que se travaram boa parte das batalhas da Guerra da Crimeia (1853-1856), que opôs o Império Russo, de um lado, e a França, o Reino Unido, o Império Otomano e o Reino da Sardenha no outro.

A Rússia e o Império Otomano entraram em guerra em outubro de 1853 pelos direitos alegados pelos russos de proteger os cristãos ortodoxos sob o domínio otomano.

A Rússia começou em vantagem, após destruir a frota otomana no porto de Sinope, no mar Negro; para frear as conquistas russas, a França e a Grã-Bretanha entraram no conflito, em março de 1854. Grande parte dos combates tiveram como intenção o controle do mar Negro, e as batalhas terrestres foram travadas na península da Crimeia.


Os russos conseguiram defender sua grande fortaleza em Sebastopol por mais de um ano; após a sua queda, um acordo de paz foi assinado em Paris, em março de 1856.

A questão religiosa já havia, a essa altura, sido resolvida. Os principais resultados do conflito foram: a neutralização do mar Negro — a Rússia não mais manteria navios de guerra lá — e duas nações vassalas, a Valáquia e a Moldávia, tornaram-se virtualmente independentes, embora ainda sob o domínio nominal dos otomanos. A guerra devastou boa parte da infraestrutura econômica e social da península.


Séculos XX

Na União Soviética

Durante a Guerra Civil Russa, após a queda do Império Russo, a Crimeia foi dominada por diversas facções, tornando-se um bastião do Exército Branco antibolchevique. Foi na Crimeia que os Russos Brancos, liderados pelo general Wrangel, fizeram sua última resistência contra as forças anarquistas de Nestor Makhno e o Exército Vermelho, em 1920. Cerca de 50 000 prisioneiros de guerra e civis foram sumariamente executados, por fuzilamento ou enforcamento, após a derrota do general Wrangel, naquele mesmo ano. Este é considerado um dos maiores massacres da Guerra Civil.

Em 18 de outubro de 1921 a República Socialista Soviética Autônoma da Crimeia (RSSAC) foi criada como parte da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, que se tornou então parte da União Soviética. A Crimeia passou por duas fomes graves durante o século XX: a fome de 1921-1922 e o Holomodor, em 1932-1933.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Crimeia foi palco de diversas batalhas sangrentas. As tropas do Eixo, sob o comando da Alemanha nazista, sofreram graves perdas no verão de 1941, à medida que tentavam avançar pelas águas estreitas do istmo de Perekop, que liga a Crimeia ao continente.

Depois de conseguirem romper o bloqueio, as tropas do Eixo ocuparam a maior parte da Crimeia, com exceção da cidade de Sebastopol, que resistiu de outubro de 1941 até 4 de julho de 1942, quando os alemães finalmente capturaram a cidade. A partir de 1 de setembro de 1942, a península passou a ser administrada com o nome de Generalbezirk Krim ("Distrito-Geral da Crimeia") und Teilbezirk ("e Subdistrito") Taurien.

Apesar das táticas duras dos nazistas e seus aliados, as montanhas da Crimeia continuaram a ser um bastião livre utilizado pela resistência nativa até o dia em que a península foi libertada pelas forças de ocupação dos Aliados, em 1944.


Os "Três Grandes" na Conferência de Ialta, na Crimeia: Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Josef Stalin

Em 18 de maio de 1944 toda a população de tártaros da Crimeia foi deportada à força (Sürgün, "exílio", em língua tártara da Crimeia) para a Ásia Central, pelo governo soviético de Josef Stalin, como uma forma de punição coletiva, sob a alegação de que eles haviam colaborado com as tropas de ocupação nazistas e formado as Legiões Tártaras que combateram os soviéticos.

Estima-se que 46% dos deportados tenha morrido durante o trajeto, devido a fome e doenças. Em 26 de junho do mesmo ano, as populações armênias, búlgaras e gregas também foram deportadas para a Ásia Central. No fim do verão de 1944, a limpeza étnica da região estava completa. Em 1967 os tártaros da Crimeia foram oficialmente "reabilitados", porém continuaram proibidos de retornar legalmente para sua pátria até os últimos dias da União Soviética; em 1989, a deportação foi declarada ilegal. A RSSA da Crimeia foi abolida em 30 de junho de 1945 e transformada no oblast (província) da Crimeia da RSFS da Rússia.

Em 19 de fevereiro de 1954 o Presidium do Soviete Supremo da União Soviética emitiu um decreto que transferiu o Oblast da Crimeia da RSFS da Rússia para a República Socialista Soviética da Ucrânia. A transferência da província para a Ucrânia foi descrita como uma "medida simbólica" que visava comemorar o 300.º aniversário da integração da Ucrânia ao Império Russo. O Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética, na altura, era Nikita Khrushchev.

Nos anos que se seguiram à guerra, a Crimeia floresceu, tornando-se um dos principais destinos turísticos da região, construindo novas atrações como spas para os visitantes, que vinham de toda a União Soviética e dos países vizinhos. A infraestrutura e a indústria da Crimeia também se desenvolveram nesse período, especialmente em torno dos portos marítimos de Querche e Sebastopol, e na capital do oblast, Simferopol, situada em seu interior.[carece de fontes]

Após um referendo, realizado em 20 de janeiro de 1991, o oblast da Crimeia passou a ter o status de República Socialista Soviética Autônoma, ato oficializado em 12 de fevereiro daquele mesmo ano pelo Soviete Supremo da República Socialista Soviética da Ucrânia.

Século XXI

Em março de 2014, após a expulsão do presidente pró-russo Viktor Yanukovich na Revolução Ucraniana de 2014, as forças armadas russas apoiadas por separatistas pró-russos invadiram grandes edifícios do governo ucraniano, bases militares e instalações de telecomunicações da península e forçaram as autoridades locais a realizarem um referendo sobre "reunificação com a Rússia" considerado ilegal pela Resolução 68/262 da Assembleia Geral das Nações Unidas, sendo então a Crimeia considerada um território ucraniano sob ocupação russa.


A maior parte da comunidade internacional (exceto Zimbábue, Venezuela, Síria, Nicarágua, Sudão, Bielorrússia, Armênia, Coreia do Norte e Bolívia) não reconhece a anexação e considera a Crimeia um território ucraniano sob ocupação russa. A Federação Russa administra atualmente a península como duas entidades federais: a República da Crimeia e a Cidade Federal de Sevastopol.

A Ucrânia continua a afirmar o seu direito sobre a península. Atualmente, estão em efetivo funcionamento duas unidades distintas da Federação Russa na península: a República da Crimeia e a Cidade Federal de Sevastopol, embora a Ucrânia continue a reivindicar o seu direito de exercer soberania sobre a península.

Geografia

Mapa da península da Crimeia.



A Crimeia faz fronteira com a região do Kherson a norte, com ao mar Negro ao sul e ao oeste, e com o mar de Azov ao leste. Tem uma área de 26 000 km², com uma população de 1,9 milhão de habitantes (2005). Sua capital é Simferopol.

 

Conecta-se ao resto da Ucrânia pelo istmo de Perekop, com uma largura de 5 a 7 km. No extremo oriental encontra-se a península de Querche, que está diretamente em face da península de Taman, em terras russas. Entre as penínsulas de Querche e Taman encontra-se o estreito de Querche, com 4,5 a 15 km de largura, que liga o mar Negro ao mar de Azov.

A costa da Crimeia é repleta de baías e portos. Esses portos encontram-se no lado ocidental do Istmo de Perekop, na baía de Karkinit; no sudoeste, na baía aberta de Kalamita, com os portos de Eupatória, Sebastopol e Balaclava; na baía de Arabat, no lado norte do Istmo de Yenikale ou Querche; e na Baía de Caffa ou Teodósia, com o porto homônimo no lado sul.[carece de fontes]

A costa sudeste é flanqueada a uma distância de 8 a 12 km do mar por uma cadeia de montanhas também conhecidas como montes da Crimeia, cujo ponto mais alto é designado Roman-Kosh. Essas montanhas são acompanhadas por uma segunda cadeia paralela. Cerca de 75% do resto da superfície da Crimeia consiste de pradarias semiáridas, uma continuação sul das estepes Pontic, que se inclinam levemente para o nordeste a partir dos pés das montanhas. A cadeia principal dessas montanhas ergue-se abruptamente do fundo do mar Negro, alcançando uma altitude de 600 a 750 metros, começando no sudoeste da península, chamado cabo Fiolente (ant. Parthenium). Era esse cabo que, supõe-se, era coroado com o templo de Ártemis, onde Ifigênia teria exercido como sacerdotisa.

Demografia

Grupos étnicos

Os tártaros da Crimeia, uma minoria étnica muçulmana, que em 2001 compunha 12,1% da população, foi formada na Crimeia no fim da Idade Média após o surgimento do Canato da Crimeia. Os tártaros da Crimeia foram expulsos à força para a Ásia Central pelo governo de Josef Stalin. Após a queda da União Soviética, muitos tártaros da Crimeia começaram a voltar para a região. De acordo com o censo ucraniano de 2001, 58% da população da república são de etnia russa, e 24% são ucranianos.

 

Russos — 58,3%

Ucranianos — 24,3%

Tártaros da Crimeia — 13%

Bielorrussos — 1,5%

Tártaros — 0,5%

Armênios — 0,4%

Judeus — 0,2%

Outros — 1,8%

Línguas

As línguas oficiais da Crimeia são o ucraniano, o russo e o tártaro da Crimeia. Outras línguas faladas são o arménio, o polaco e o romeno.

CONCLUSÃO

As autoridades ucranianas não possuem quaisquer chances de reaver a Crimeia, acredita um escritor da revista norte-americana The National Interest.

"A Crimeia se tornou parte do Império Russo após ser conquistada da Turquia há mais de dois séculos e permaneceu sendo russa dentro da União Soviética até 1954", escreveu.

Navio de desembarque russo Azov durante o ensaio geral para o Dia da Marinha em Sevastopol

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Segundo o escritor, a maior parte da população da Crimeia é constituída por russos, que desejavam se reunificar ao país. Devolver a península da Crimeia a Kiev sem consentimento de seus moradores seria um erro, acredita o jornalista.

Bandow recordou também as palavras do jornalista do The Washington Post, Christian Caryl, de que a "Crimeia pertence à Ucrânia".

"Não, ela pertence aos moradores da Crimeia", reforçou.

De acordo com o autor do artigo, hoje em dia aqueles que moram na Crimeia são russos, portanto, possuem o direito de veto na questão da pertinência territorial da península.

Navios ucranianos em Sevastopol, Crimeia, Rússia

Por que reaver seus navios que ficaram na Crimeia não é vantajoso para Ucrânia?

"Não podem ser entregues de um lado para outro como um bushel de trigo", assinalou Bandow.

A NI escreveu que no Ocidente muitos continuam insistindo que a península faz parte da Ucrânia, esperando concessões de Moscou. De acordo com Bandow, "hoje em dia, a Ucrânia não tem nenhuma chance de recuperar a Crimeia".

Doug Bandow acredita que a península não vá ser entregue à Ucrânia nem pelo atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, nem pelos seus sucessores.

"Até mesmo os críticos de Putin reconhecem que a Crimeia se tornou para sempre parte da Rússia", concluiu Doug Bandow.

A Crimeia se reunificou à Rússia em 2014 depois de um referendo no qual mais de 90% dos residentes votaram pela reunificação. No entanto, Kiev ainda considera a península como território ucraniano. As autoridades russas ressaltaram inúmeras vezes que a reunificação ocorreu de forma legal, de acordo com as leis internacionais.

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