Vitória em 1860 - Visões de uma Cidade Presépio


 REVISTA LITERÁRIA CAPIXABA — Nº 17

VITÓRIA • 2026
CRÔNICA HISTROSE ILUSTRADA

Vitória em 1860Visões de uma Cidade Presépio

CRÔNICA DE WILLIS DE FARIA

Baseada em relatos do século XIX • Original: 9 de setembro de 2021

"Sem obedecer a qualquer regularidade ou simetria, Vitória se apertava no anfiteatro, à margem das águas da baía..."— RECORTE DO ORIGINAL

Vista do anfiteatro colonial de Vitória em 1860
[Ilustração: Vista do Anfiteatro] — A vila apertada à margem da baía, em desordem pitoresca.FIGURA I — 1860
EU

O Anfiteatro Desordenado

Sem obedecer a qualquer regularidade ou simetria, Vitória se apertava no anfiteatro, à margem das águas da baía de Vitória. Ruazinhas estreitas, tortuosas, escorregadias, procurando o paralelismo das águas marítimas, ou subindo as rampas do morro esburacado, com ravinas causadas pelas enxurradas torrenciais e as encostas enfeitadas pelas ramas de melões-de-São-Caetano — planta ruderal, de flores amarelas e frutas alaranjadas — que adornavam todos os recantos da cidade. E caminhamos a passos lentos, as ruas se perdem em becos, vielas insalubres, ladeirosas e labirínticas.

• • •
II

As Ruelas eo Capim

Ruas ou ruelas, algumas ou não apertadíssimas, tomadas pelo vicejante Capim-pé-de-galinha, planta ruderal e invasora, calçadas ou não, com pedras disformes, como a Ladeira do Pelourinho (hoje Escadaria Maria Ortiz), onde ao longo não passandom três homens em linha de frente, famosa por ter nela morado, outrora, em um sobrado, a heroína Maria Ortiz, que faz recuar os holandeses, jogando sobre eles água fervente.

Ladeira do Pelourinho litografia 1860
[Ilustração: Ladeira do Pelourinho] — Onde não passavam três homens em linha de frente. Litografia da época.FIGURA II
III

O Rosário de Nomes

Rua dos Pescadores, da Capelinha, do Comércio, do Porto dos Padres, de Santa Luzia, da Fonte Grande, Ladeira Pernambuco, Largo da Conceição, Pelames e a pitoresca e modesta Rua da Várzea. Dez nomes que eram o próprio mapa afetivo da vila.

— RUA DOS PESCADORES— RUA DA CAPELINHA— RUA DO COMÉRCIO— PORTO DOS PADRES— RUA DE SANTA LUZIA— RUA DA FONTE GRANDE— LADEIRA PERNAMBUCO— LARGO DA CONCEIÇÃO— PELAMES— RUA DA VÁRZEA
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4

Casas Assobradadas

As casas, em grande parte assobradadas, algumas com janelas de vidraças em núcleos, balcões de madeira e portais de pedra entalhados em Portugal e trazidos como lastro de navios — casas ou choupanas — se espalhavam em desordem na encosta, relacionadas em esteios suplementares ou estacas, ou sobre velhas bases de alvenaria. Nos telhados limosos, em forma de canoa, talhadas nas coxas dos escravos, e nas beirais das casas, cantavam as cambaxirras, e voavam audaciosamente, rasantes, as andorinhas migrantes. Cresciam também plantas, como os Dedos-de-anjo, adubadas pelo guano (fezes) de pequenas aves e pelos urubus, que se postavam como adornos petrificados no convexo das cumeeiras e, abrindo suas asas, se requentavam ao sol escaldante.

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V

A Baía

A vista da baía era sempre agradável, especialmente quando postado o observador mais de longe, para abarcar o conjunto emoldurado pelo verde da vegetação nativa; o extenso manguezal da preamar, as fruteiras das chácaras e dos pomares e a mata que veste os pontos mais elevados da encosta curvilínea do maciço central.

Vista da baía de Vitória em 1860
[Ilustração: Vista da Baía] — O conjunto emoldurado pelo verde, manguezal e pomares da Ilha.FIGURA III
VI

Higiene e Pesca

Quanto à condição de higiene, era precária. O esgoto doméstico corria pelas sarjetas até alcançar o mar. A base alimentar era acompanhada pela abundância de peixes, pois havia uma indústria da pesca desenvolvida, com duas bolsas de lanchas que iam pescar no alto-mar, nos Abrolhos e em Cabo Frio, demorando dias para regressar ao porto trazendo os peixes salgados.

~ 20 LANCHAS • ABROLHOS • CABO FRIO
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VII

Sessenta Lampiões

A iluminação pública era feita com sessenta lampiões com candeeiros a azeite de sebo ou óleo de peixe; insuficientes para bem servir a trinta e uma ruas, sete ladeiras, oito becos, quatro praças e outros largos e tantas casas terreas.

Acendedor de lampiões a óleo em Vitória 1860
[Ilustração: Sessenta Lampiões] — Candeeiros a azeite de sebo ou óleo de peixe nas 31 ruas.FIGURA IV
31
RUAS
7
LADEIRAS
8
PORQUE
60
LAMPIÕES
VIII

O Divertimento Raro

O divertimento da cidade, o despeito da índole importadora e modesta do povo, era muito raro. A verdade é que não faltava, nas casas dos caboclos e dos índios civilizados, uma viola cabocla para as modinhas e os desafios, e os negros escravos não perdiam, com o ressoar dos tambores, os jongos, ou uma oportunidade para amortecer o coaxar dos sapos nos brejos com o batecum dos ticumbis, levados até os ancoradouros quando chegava um vapor ao porto.

Viola cabocla e ticumbis xilogravura
[Ilustração: Divertimento e Ticumbis] — Viola cabocla, jongos e tambores no ancoradouro.FIGURA V
IX

Como Festas

Já a classe média se entendia com mais facilidade e procurava contribuir para animação das festas religiosas que, em certos meses, como o de maio e junho, eram muitas. Festas do Divino Espírito Santo, de São Benedito dos Caramurus, de Nossa Senhora dos Remédios, do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora do Carmo — e desta festa, muita festa em uma só quinzena. Vitória, a nossa Cidade Presépio, Cidade Sol ou a Ilha do Mel, era assim.

Festas religiosas em Vitória 1860
[Ilustração: Festas Religiosas] — Divino, São Benedito, Remédios e Carmo numa só quinzena.FIGURA VI
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Vitória, a nossa Cidade Presépio, Cidade Sol ou a Ilha do Mel, era assim em 1860 — aperto, perfumada de melão-de-São-Caetano, iluminada a sebo, e inteira cantada pelas cambaxirras nos beirais.




Willis De Faria
CRÔNICA • PESQUISA HISTÓRICA • LITERATURA CAPIXABA
Vitória, 9 de setembro de 2021 — Willis De Faria
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EDIÇÃO COMEMORATIVA ILUSTRADA 2026




TIPOGRAFIA • CORMORANT & EB GARAMOND • PAPEL CREME 120G

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