Vitória em 1860 - Visões de uma Cidade Presépio
REVISTA LITERÁRIA CAPIXABA — Nº 17
Vitória em 1860Visões de uma Cidade Presépio
CRÔNICA DE WILLIS DE FARIA
Baseada em relatos do século XIX • Original: 9 de setembro de 2021
"Sem obedecer a qualquer regularidade ou simetria, Vitória se apertava no anfiteatro, à margem das águas da baía..."— RECORTE DO ORIGINAL
O Anfiteatro Desordenado
Sem obedecer a qualquer regularidade ou simetria, Vitória se apertava no anfiteatro, à margem das águas da baía de Vitória. Ruazinhas estreitas, tortuosas, escorregadias, procurando o paralelismo das águas marítimas, ou subindo as rampas do morro esburacado, com ravinas causadas pelas enxurradas torrenciais e as encostas enfeitadas pelas ramas de melões-de-São-Caetano — planta ruderal, de flores amarelas e frutas alaranjadas — que adornavam todos os recantos da cidade. E caminhamos a passos lentos, as ruas se perdem em becos, vielas insalubres, ladeirosas e labirínticas.
As Ruelas eo Capim
Ruas ou ruelas, algumas ou não apertadíssimas, tomadas pelo vicejante Capim-pé-de-galinha, planta ruderal e invasora, calçadas ou não, com pedras disformes, como a Ladeira do Pelourinho (hoje Escadaria Maria Ortiz), onde ao longo não passandom três homens em linha de frente, famosa por ter nela morado, outrora, em um sobrado, a heroína Maria Ortiz, que faz recuar os holandeses, jogando sobre eles água fervente.
O Rosário de Nomes
Rua dos Pescadores, da Capelinha, do Comércio, do Porto dos Padres, de Santa Luzia, da Fonte Grande, Ladeira Pernambuco, Largo da Conceição, Pelames e a pitoresca e modesta Rua da Várzea. Dez nomes que eram o próprio mapa afetivo da vila.
Casas Assobradadas
As casas, em grande parte assobradadas, algumas com janelas de vidraças em núcleos, balcões de madeira e portais de pedra entalhados em Portugal e trazidos como lastro de navios — casas ou choupanas — se espalhavam em desordem na encosta, relacionadas em esteios suplementares ou estacas, ou sobre velhas bases de alvenaria. Nos telhados limosos, em forma de canoa, talhadas nas coxas dos escravos, e nas beirais das casas, cantavam as cambaxirras, e voavam audaciosamente, rasantes, as andorinhas migrantes. Cresciam também plantas, como os Dedos-de-anjo, adubadas pelo guano (fezes) de pequenas aves e pelos urubus, que se postavam como adornos petrificados no convexo das cumeeiras e, abrindo suas asas, se requentavam ao sol escaldante.
A Baía
A vista da baía era sempre agradável, especialmente quando postado o observador mais de longe, para abarcar o conjunto emoldurado pelo verde da vegetação nativa; o extenso manguezal da preamar, as fruteiras das chácaras e dos pomares e a mata que veste os pontos mais elevados da encosta curvilínea do maciço central.
Higiene e Pesca
Quanto à condição de higiene, era precária. O esgoto doméstico corria pelas sarjetas até alcançar o mar. A base alimentar era acompanhada pela abundância de peixes, pois havia uma indústria da pesca desenvolvida, com duas bolsas de lanchas que iam pescar no alto-mar, nos Abrolhos e em Cabo Frio, demorando dias para regressar ao porto trazendo os peixes salgados.
Sessenta Lampiões
A iluminação pública era feita com sessenta lampiões com candeeiros a azeite de sebo ou óleo de peixe; insuficientes para bem servir a trinta e uma ruas, sete ladeiras, oito becos, quatro praças e outros largos e tantas casas terreas.
O Divertimento Raro
O divertimento da cidade, o despeito da índole importadora e modesta do povo, era muito raro. A verdade é que não faltava, nas casas dos caboclos e dos índios civilizados, uma viola cabocla para as modinhas e os desafios, e os negros escravos não perdiam, com o ressoar dos tambores, os jongos, ou uma oportunidade para amortecer o coaxar dos sapos nos brejos com o batecum dos ticumbis, levados até os ancoradouros quando chegava um vapor ao porto.
Como Festas
Já a classe média se entendia com mais facilidade e procurava contribuir para animação das festas religiosas que, em certos meses, como o de maio e junho, eram muitas. Festas do Divino Espírito Santo, de São Benedito dos Caramurus, de Nossa Senhora dos Remédios, do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora do Carmo — e desta festa, muita festa em uma só quinzena. Vitória, a nossa Cidade Presépio, Cidade Sol ou a Ilha do Mel, era assim.
Vitória, a nossa Cidade Presépio, Cidade Sol ou a Ilha do Mel, era assim em 1860 — aperto, perfumada de melão-de-São-Caetano, iluminada a sebo, e inteira cantada pelas cambaxirras nos beirais.

Comentários
Postar um comentário