BARES DE VITÓRIA NOS ANOS 60.


(POR: WILLIS DE FARIA)

Ao falar de bares antigos em uma coletânea, parto do principio quando comecei a tomar gosto pelo esporte predileto da juventude rebelde e revolucionaria de minha época, o “alterocopismo” ou o levantamento de copos. Eram meados dos anos 60 e em plena ditadura militar. A qualquer momento você poderia ser abordado pela policia (DOPS), se tivesse cara de “suspeito”.

Eu era sim meio-subversivo, pois militava em grêmios estudantis contra o regime opressivo, e foi a nossa juventude que com suas idéias libertárias, revolucionou o pensamento mundial, com a pregação do amor livre através da simbologia de paz e amor, da musica e as manifestações culturais e politicas. 

Bem, estarei falando agora de bares que poucos conheceram, mas tocará a memória de muitos que viveram esta época. De qualquer modo vamos ao agradável labor de rememorar os que eu frequentava, com companheiros da época. 

Alguns lugares exclusos, que tinham bares internos, como as casas de prostituição, bordel ou “zonas”, popularmente chamadas, ou as “casas de luz vermelha”, ao modo interiorano. 

Elas ficavam na década de 60 no centro da cidade e na volta de Caratoíra, depois da Vila Rubim. As mais conhecidas era a Casa Verde e a Casa roxa, que se destacavam com estas cores, na subida da Rua para o morro dos Alagoanos, em frente à pracinha. 
    VITÓRIA- 1961

O movimento noturno era intenso, principalmente com a chegada dos navios da Marinha de Guerra, no porto. 

O outro ponto de concentração era a Rua General Osório e tinham três “bordéis”: a 68, 120 e 130 (número dos sobrados – as casas ficavam no 2º andar).

Suas escadas eram de madeira, e ecoavam com o toque das nossas botas salto carrapeta. Quando se chegava ao salão principal “era um mar de rosas”, tinha mulheres para todos os gostos. Logo os “visitantes” eram convidados a sentar em uma mesa para tomar uma bebida, um “cuba libre” de preferência. 


Eu estava sempre em companhia dos amigos Zé do Rock (Cesar Gonçalves) e Manel (Manoel Amorim). Íamos para curtir a noite, uma preliminar para ir depois para as “boites” da época. Poderíamos chamar de “couvert”. As boates ficavam próximas e só começavam após as 11 horas.



Tinha a “Butekos” que ficava nos porões do Clube Saldanha da Gama e de propriedade do colunista social Ronaldo Nascimento, a boite “Cave” (na Avenida Jerônimo Monteiro, próximo ao Mercado da Capixaba, de propriedade de Graciano Espíndula), “Porão 214”, na Rua Nestor Gomes, subida ao Palácio Anchieta, pela Praça Oito. 

Havia as boates para os “gringos” que desembarcavam dos navios: o “Farolito” (no Beco do Lyra) e “Monalisa” (final da Rua estreita da Rua Duque de Caxias) que eram ambientes escuros e enfumaçados. 

O Bar Escandinava, na Avenida Beira Mar, no térreo do Edifício Banco Mineiro da Produção, ficava em frente ao cais dos catraeiros, redutos dos gringos embarcadistas estrangeiros, que exibiam os seus braços tatuados. Ali, as mulheres de "difícil vida fácil", faziam seu "ponto". 

Também passávamos por lá. Era bom contemplar a chegada e a saída das lanchas paras Paul. Como tudo criado pelo homem, o bar sempre foi e será dividido em classes sociais distintas. 

Por exemplo, o Marrocos, na Rua Duque de Caxias, atrás da Praça Oito, lá se reunia a esquerda intelectual festiva ou não, uma verdadeira igrejinha fechadíssima, formada de jovens inteligentes, pretensiosos, que iriam mudar o mundo (o tempo provou que o mundo mudou todos eles...). 

O prato famoso era o filé ao Marrocos. Garçom era o “Cariacica”, torcedor fanático do “América” carioca. Ali os chopes eram gelados e espumantes e a cerveja “Antarctica Pilsen Extra”. O churrasquinho no espeto com farofa e vinagrete saciavam a nossa fome. 

Lembro-me que uma vez, quando íamos à procissão dos homens, em direção ao Convento da Penha, uma grande caminhada pela Avenida Carlos Lindenberg, uma turma de meu grupo ali parou para tomar alguns chopes, para aquecimento, enquanto a procissão não saia da catedral. Quando demos conta do horário, a procissão já tinha saído, e foi uma correria só para pegar o grupo dos homens que caminhavam em direção ao convento da Penha. 

 
Já o Dominó, no então aristocrático Parque Moscoso, era frequentado por mocinhos (mocinhas não iam a bar) das famílias ricas, considerada a juventude transviada dos anos 60. Afirmavam que seu perfume predileto era a gasolina.

Eram beberões e gostavam de uma confusão que gerasse pancadaria. Sua decadência começou quando um garçom, no ano de 1966, matou a tiros um dos rapazes, o Neuber, filho de ilustre morador da capital, que estava em uma roda de amigos, e frequentadores, num tempo, que Vitória ainda com ares provincial, em que crimes ainda abalavam a população. 

Havia também o Bar “Drink”, na Avenida Cleto Nunes, em frente ao portão do Parque Moscoso, mas não tinha boa fama, porque algumas “mulheres da vida”, ali “faziam ponto.” 


   VITÓRIA - 1970
    VITÓRIA - 1970
Eu, em 1974, fui morador no 8º andar do edifício Moscoso, onde ficava no térreo o Bar Dominó, que  entrou em decadência alguns anos anteriores.


O “Blitz Bar”, na esquina da Rua Gama Rosa, que já era o "point" da juventude liberal, começou a subir após a queda do Dominó, e ficou famoso por estar logicamente frequentado pelos jornalistas que viam o sol nascer em suas cadeiras.


A esquerda jovem liberal, os hippies, os desparafusados, a polícia federal disfarçada, as primeiras “bichas” liberais, fizeram lá seu ninho para tomar cerveja quente, sentir o terrível odor do banheiro, os berros do “Parú”, proprietário do Bar, e a reclamação dos moradores do Edifício Presidente, prédio em frente, que de madrugada jogavam água e outros objetos não muito salubres, do alto dos prédios, e tudo vinha em queda livre em cima dos frequentadores.

Assim era o Blitz Bar. Lá eu e um grupo de amigos sonhadores, em 1966, tínhamos uma banda de rock iniciante, que ensaiava em um quarto de minha casa, que ficava isolada no quintal, mas o barulho do ensaio ecoava por todo vale de Jucutuquara e Fradinhos. 

Era um conjunto (hoje banda) considerada suburbana, formada por jovens do bairro de Jucutuquara, o “The Bats”, e teve a oportunidade de tocar de graça, para o público pseudo-intelectual. Daí decolou para o sucesso.


 
 

Vale o registro - (Jogo da Copa do Mundo: Brasil e Argentina - 1972)
 
 
 

 
 
 
 O GRANDE PARU:

O final da madrugada tinha outros destinos, principalmente após sair das “boites” ou festas em clubes sociais: eram os Bares Santos e o Mar e Terra, todos na Vila Rubim. Era os bares de um reforço alimentar para encerar a madrugada, e a noite boêmia, e ter um bom sono, de barriga cheia. 



Um pão canoinha ao forno (Pão francês com queijo), no Bar Santos, ou uma “sopa de mulher parida” (canja de galinha), no Mar e Terra.

Esporadicamente batíamos ponto também no “Miramar” na Praia do Canto, mais precisamente de dia, quando frequentávamos a praia do Barracão, a mais badalada da ilha.

Nestes bares encontrávamos muitas personalidades a ilha: políticos, jornalistas, radialistas, universitários, intelectuais. Mulheres, pouco frequentavam estes estabelecimentos, pois bar era na época, eram ambientes de homens, e as mulheres que ai entrasse ficavam “mal faladas”.  Mas elas transitavam pelas calçadas da Avenida Saturnino de Brito. 


LANCHONETE ATLÂNTICA - 1965

Mas, algumas vezes descolávamos desta ilha e ia se aventurar em outros pontos, e que vale destacar era a “Lanchonete Atlântica”, na Praia da Costa. Era o “point” da juventude de Vila Velha. La era possível tomar com a namorada uma “Banana Splitz” com “Milk Shake”, em um ambiente alegre e descontraído, abarrotado de jovens. 

Foto: Lembram do Milk Shake e a Banana Split

Quando da sua inauguração em 1967, lá estivemos presente, já dirigida por Osmar Bodevan. Hoje, ainda existente com o nome de Restaurante Atlântica, ainda sob comando do Osmar. Um estabelecimento comercial que vem resistindo ao tempo, ou seja, 37 anos atendendo com dedicação a duas gerações.

Vitória era assim, dividida em cantos culturais, e os bares, os pontos de contato social. Hoje o “point”, mudou de endereço, está localizado no “Triângulo das Bermudas”, na Praia do Canto, nome este batizado pelo antigo boêmio e colunista social, Ronaldo Nascimento e a “Rua da Lama”, em Jardim da Penha, reduto inicial de Universitários. 

Novos “points”, tende a surgir, de acordo com crescimento urbanístico da cidade. A tendência a fixar-se em bairros populosos, o próximo passo será uma concentração de bares nos bairros de Jardim Camburi e Bento Ferreira, onde existe o “boom” imobiliário.



Comentários

  1. Foi muito bom recordar estes velhos tempos,principalmente o grande Bar Britz e seu famoso proprietario Parú

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  2. Scandinave... inicio da década de 90, me lembro muito bem.

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  3. Tempo bom sem lei seca sem velho enjoado e sem apurrinhaçāo. Agora esta galera que esta nas fotos dos bares virou um bando de velhos enjoados que querem a cidade morta e doente como eles próprios

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  4. Espetacular descrição de um recorte do comportamento de uma época.

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  5. Tive o prazer de participar dessa esbórnia toda em meados dos anos de 1970 quando sai de Colatina para estudar jornalismo na Ufes. Upa lê lê. Viva quem viveu.

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  6. Bacana, Willis! Vivi essa época inesquecível. Só um adendo: não era "Blitz Bar", era "Britz Bar"!

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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