BAIRRO JARDIM DA PENHA – 50 ANOS DE HISTÓRIA.

POR: WILLIS DE FARIA

A partir de 01 de setembro, a comunidade pretende comemorar os 50 anos da primeira ocupação do bairro.

Visto como o Jardim de Nossa Senhora da Penha, o bairro cresceu, se desenvolveu a partir de 1969 e hoje é referência pela sua jovialidade e diversidade.

“Era da Penha, a Nossa Senhora dos Capixabas, aquele jardim feito de cajueiros, goiabeiras, araçás, aroeiras, palmeirinhas e até bromélias e orquídeas, entre piscinas de areia. Dezenas de manilhas espalhadas denunciavam as primeiras tentativas de urbanizar a região, nos anos 60”.

  FOTO AÉREA 1970.
Eram 1.139.934 metros quadrados, entre a Avenida Fernando Ferrari e a Praia de Camburi, onde a mata de restinga era predominante. De todos os lugares, era possível observar o Convento de Nossa Senhora da Penha. Aquela área era o Jardim da Penha.

O bairro começa de fato, em 1969, ano em que Vitória experimentava uma expansão que ultrapassava o seu limite de ilha e direcionava a população para a região norte da cidade. Mas a sua história começou bem antes.

  PRAIA DE CAMBURI - 1969
   JARDIM DA PENHA - 1972
A região compreendida ente a Av. Adalberto Simão Nader até o Canal de Camburi e da praia até onde é a UFES era uma fazenda conhecida como Sítio Queiroz ou Fazenda Mata da Praia.

A propriedade pertencia ao capitão Justiniano Azambuja Meyrelles, escriturada em 1891. 

No começo do século XX, a área em que Jardim da Penha, Mata da Praia e Morada de Camburi se encontram era a fazenda Mata da Praia, que pertencia ao capitão Justiniano Azambuja Meyrelles.

A área era rural, abrigando criação de animais, algumas áreas plantadas, córregos e árvores. Por estas características, o coronel acreditava que aquela área funcionaria como o pulmão da cidade de Vitória.
   FOTO AÉREA – 1972
Neste sentido o Coronel Justiniano desenvolvia um embrião de uma escola rural, chamada então de Artes e Ofícios, para educar meninos. O coronel faleceu no ano de 1922, e as terras passaram ao poder de sua filha, Sylvia Meyrelles da Silva Santos.

Casada com Aristóteles da Silva Santos, Sylvia ficou viúva cedo. Após o falecimento do esposo, Sylvia mudou-se para São Paulo, doando as terras para suas filhas, Maria Sylvia e Marya Aristotelina, que já estavam casadas.

A primeira tentativa de lotear a área veio no ano de 1928, seis anos após a morte do coronel Justiniano, através de Ostilho Ximenes. Com o objetivo de divulgar o seu negócio, ele criou um jornal, mas não conseguiu levar para frente o loteamento. O jornal foi vendido para Thiers Velloso, e seria a semente do jornal A Gazeta.

Até a década de 50 a Praia de Camburi só era acessada através da antiga estrada que ligava Vitória a Serra, hoje conhecida como Av. Fernando Ferrari. Era, na verdade, a continuidade da ponte da passagem, que já existia na década de 20.

O acesso à praia só era possível através barco. Os pescadores e velejadores do Iate Clube chegavam à praia através do mar, outros se aventuravam pela mata.

Havia ainda aqueles que buscavam a região para colher cajus e pitangas. O caju misturado à cachaça deu origem a uma bebida que ficou conhecida nacionalmente – o “caju-amigo”.

O nome surgiu porque a região era uma área plana, toda verde, contendo vegetação de restinga e de Mata Atlântica. Eram um jardim formado de bromélias, cajueiros, goiabeiras, palmeirinhas e orquídeas.

De toda parte podia-se avistar o Convento da Penha, ampliando a visão para além do mar. Assim ficou conhecido o jardim da Penha.

Na década de 1950, os sócios da Empresa Capixaba de Engenharia Civil interessaram-se pela área. A ideia era criar um loteamento planejado, inspirado na cidade de Belo Horizonte.


(Entre os anos de 1894 a 1897, Belo Horizonte foi projetado pelo engenheiro Aarão Reis e foi a primeira cidade brasileira moderna planejada. Foram feitas avenidas em diagonal e quarteirões de dimensões regulares. Belo Horizonte surgia como uma tentativa de síntese urbana no final do século XIX. O objetivo de se criar uma das maiores cidades brasileiras do século XX foi atingido. O projeto da cidade foi inspirado no modelo das mais modernas cidades do mundo, como Paris e Washington. A cidade foi dividida em três áreas: central urbana, suburbana e rural).

O acordo com as herdeiras do coronel Justiniano foi assinado e a empresa se comprometeu a implantação de ruas, praças, distribuição de água e luz com urgência, para facilitar a venda dos lotes.

O projeto, aprovado pela prefeitura de Vitória no ano de 1952, dividia a região da Adalberto Simão Nader ao canal de Camburi em largas avenidas diagonais, que formavam 13 quadras. Cada uma das quadras era dividida em lotes de 380 a 400 metros quadrados. No total, cerca de 1400 lotes foram demarcados.

O projeto de loteamento do bairro data de 1952 cuja autoria é de Creso Euclydes, abrangia do canal de Camburi ao norte até o aeroporto e da praia até a Avenida Fernando Ferrari.

Cooperativa responsável pelos primeiros empreendimentos.

Somente em 1969 é que o bairro conta com 106 casas que, no entanto, não tinham acesso à iluminação pública, comércio ou transporte.

Fui testemunha presencial em 1968, quando eu trabalhava na Cia. Central Brasileira de Força Elétrica (CCBFE), que depois se transformou em ESCELSA. Eu tinha 19 anos (meu primeiro emprego), e trabalhava na Seção de Consumidores. Fui designado em meados de 1968 a ir até as estas 106 casas, que ainda estavam em construção, com objetivo de numerar as casas, para colocação dos relógios medidores, colocação dos posteamente e cálculo de carga elétrica para o condomínio das casas. Em volta era só areal e ruas ainda de barro.

Observei que os primeiros moradores passariam dificuldades em adquirir os gêneros de primeiras necessidades. O pão era comprado em Goiabeiras, os ônibus só passavam pela Fernando Ferrari, o caminho para a praia era por uma trilha onde é hoje a Rua Eugenílio Ramos. Para agravar a situação, para além dos perigos naturais, a região era usada para desova de cadáveres no imenso areal.

Em 1969, as primeiras famílias se mudaram para o bairro de Jardim da Penha, 106 ao todo. Os primeiros momentos foram difíceis.


Os primeiros lotes vendidos foram os do bairro de Jardim da Penha, para armazéns, como o Instituto Brasileiro de Café (IBC), com cerca de 25 mil metros e outros que se entendiam ao longo da avenida que liga Vitória à Serra.

O loteamento, porém, teve um crescimento lento, e a área passou a ser invadida e o que desfigurou o projeto inicial.

Na região que hoje abriga a UFES existia um clube, fundado na década de 40. As corridas de cavalo do Victoria Country and Golf Club aconteciam na Praia de Camburi. Até então, a região não possuía nenhum atrativo além da aventura e do clube.

O local passou ainda por mais uma desconfiguração de projeto, que aconteceu na década de 70, quando a empresa Sena Engenharia se propôs a fazer o projeto de Mata da Praia de forma diferente do projeto inicial.

O contrato com a Sena Engenharia foi rescindido na década de 80, mas o traçado em diagonais da região de Jardim da Penha foi alterado, principalmente na área que ficava próxima à Mata da Praia.
A dificuldade de moradia dos primeiros momentos criou, entre os moradores do bairro, um sentimento de solidariedade, que foi base para as primeiras tentativas de organização comunitária do bairro.

Foi o sentimento de solidariedade, também, que evitou o isolamento das famílias, que se reuniam nas ruas, e contribuiu para a criação do Clube 106 por estas famílias. A ideia começou apenas com apenas 13 mulheres, que foram de casa em casa convencer os moradores a participarem do projeto.

O terreno, um lote na Rua Francisco Generoso da Fonseca, de número 707, foi comprado com o dinheiro que as famílias arrecadaram promovendo churrascos que eram realizados em uma choupana de palha.

Uniam-se aos churrascos e as serestas, que aconteciam nas noites de sexta-feira. O clube abriu as portas em 1970, e o primeiro baile contou com o conjunto de Romilson Aguieiras. O clube ganhou tanto destaque que recebeu grandes nomes na música brasileira, como Martinho da Vila e Waleska.

Foi ainda no Clube 106 que começou o bloco “Segura o copo”, primeiro bloco de carnaval de Jardim da Penha. A ideia surgiu com Jadir Gobbi e o bloco está ativo até hoje. Como tradição, o desfile acontece no domingo anterior ao carnaval, levando dezenas de pessoas a participarem. Após concentração no Clube 106, o bloco percorre as ruas de Jardim da Penha até a praia, onde inicia o banho de mar à fantasia.

A partir de 1970, Jardim da Penha recebeu mais imóveis. Entre 1970 e 1975, foram construídos 1136 apartamentos, em edifícios de quatro pavimentos, sem elevador, para trabalhadores sindicalizados.

Com grandes empresas chegando a Vitória e no Estado, as construtoras se voltaram para Jardim da Penha. Os moradores do bairro eram basicamente compostos por funcionários públicos, trabalhadores estatais e autarquias, técnico de grandes empresas, como a Vale e a antiga Aracruz Celulose (hoje Fibria), comerciantes e profissionais. As classes mais altas não se interessaram, a princípio, pelo bairro.

O primeiro estabelecimento público do bairro, construído após a realização da cobertura aero fotográfica com a qual fizemos este estudo, foi criado e entrou em funcionamento em 27 de outubro de 1971. Trata-se da Escola Álvaro de Castro Mattos, da rede municipal de ensino.

  FOTO AÉREA - 1972
  FOTO ÁREA – 1972
  FOTO AÉREA - 1974
  FOTO AÉREA- 1976
Foi na década de 80, que a Rua da Lama começou a se firmar como point de entretenimento. O nome foi dado devido a situação em que a rua se encontrava após as chuvas e abrigava uma quantidade bem reduzida de bares. Hoje, a rua é sinônima de diversão e é palco para ótimos programas.







Em 1973 só tinha uma boate “Nova Night Clube” e uns dois conjuntos residenciais e o comercio de Dona Mercedes e a Mercearia do kiabai. O ponto final do ônibus era em frente mais ou menos do BB muita lama e um caminho para ir pra praia. Todo mundo  se conhecia.

As décadas de 80 e 90 foram de grande crescimento para Jardim da Penha. Dos primeiros conjuntos construídos, passaram a surgir edifícios, e a rápida expansão do bairro chegou a trazer mil novos moradores por ano, chegando, nos anos 2000, a 30 mil habitantes.


  Um baile na Associação 106 em 1980.


  Verão na Praia de Camburi - Anos 70.



  FOTO ÁREA - 1976
Atualmente, Jardim da Penha é um bairro central, autossuficiente, construído etapa por etapa pela união dos moradores. Entre o canal de Camburi e a Avenida Aristóbulo Barbosa Leão, e outras duas avenidas, a Avenida Dante Michelini e a Fernando Ferrari, está o bairro de Jardim da Penha.
 Na mudança da configuração Urbana de Vitória, depois que o centro perdeu parte de suas funções, coube a Jardim da Penha abrigar a classe média. 
  FOTO 1974
 FOTO 1974
FOTO 1976
 

  FOTO AÉREA UFES - 1974
   FOTO AÉREA UFES - 1970
Hoje, Jardim da Penha é um bairro multifacetado. A Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), localizada logo a sua frente, permite que um número grande de pessoas se mude para o bairro, trazendo jovialidade e rotação entre os moradores. Jardim da Penha ainda se destaca pela quantidade de atrativos, quando o assunto é lazer. São inúmeros bares, lanchonetes, lojas e comércios de todos os tipos.

Vida Pública

A primeira tentativa de criar uma associação de moradores aconteceu ainda no ano de 1969. Porém, a Associação de Moradores de Jardim da Penha (AMJAP) só surgiu mesmo em setembro de 1984.


Sua criação surgiu da união dos moradores contra o aumento de prestações do Banco Nacional de Habitação. Inicialmente, a associação se reunia na sede do Clube 106 e em outubro do mesmo ano editou o seu primeiro jornal, Boletim da AMJAP, um especial de fundação, que levantava alguns problemas do bairro. Em março de 1986, a AMPAJ elegeu a sua primeira diretoria, a partir de uma chapa única, com 1397 votos. 
  JARDIM DA PENHA – 1984

 
  Construção do PARQUE RESIDENCIAL UNIVERSITARIO de Jardim      da Penha – Anos 80.


   LIMITES OFICIAIS DO BAIRRO.
Visando atender as demandas da comunidade, a associação fez uma pesquisa com os moradores do bairro para levantar os principais problemas que atingiam Jardim da Penha. A enquete gerou motivação e participação da população, além de divulgar a associação.

AS DUAS FACES DE JARDIM DA PENHA.
 AS DUAS FACES DE JARDIM DA PENHA E UFES - 1972 E 2017

 AS DUAS FACES DE JARDIM DA PENHA - UFES E SANTA MARTA - 1966 E 2017.
 AS DUAS FACES DOS BAIRROS MATA DA PRAIA E JARDIM DA PENHA -1978 - 2017.
 
  
AS DUAS FACES DOS BAIRROS MATA DA PRAIA E JARDIM DA PENHA -1978 - 2017.

Enfim, cabe a nós saudamos hoje todos moradores, ora pioneiros e os que procuraram este bairro para fixar suas raízes e constituírem as suas famílias.

Apesar de todas as adversidades que enfrentaram inicialmente, tais como encontrar a região, que alternava entre poeira e lama, a população que, obrigatoriamente andava em grupos, saia de chinelos com os sapatos nas mãos, calçando-os dentro do ônibus.

Todas as dificuldades e as necessidades que os moviam a conviver em grupo avançaram para as tentativas de organizações comunitárias.

O isolamento a que eram submetidos, motivou a criação de um núcleo ou clube para a reunião de famílias e realização de eventos e atividades sociais.

Inicialmente surgiram pequenos conjuntos habitacionais de apartamentos destinados à classe média baixa. Com a melhoria da infra-estrutura do bairro, a proximidade do mar e a facilidade de acesso ao Centro, vários prédios foram construídos no local.

Hoje o bairro está praticamente todo ocupado por funcionários públicos, estudantes universitários e profissionais liberais caracterizando uma população jovem e um comércio auto-suficiente.


Uma particularidade das edificações do bairro são os residenciais e edifícios que não possuem play ground. A explicação é que os moradores lutaram para que essas áreas fossem externas, garantindo a convivência e interação entre os moradores. Hoje o bairro possui 7 praças.


FONTES:
- Texto extraído e adaptado do livro Jardim da Penha, de Andreia Curry, do ano de 2001.
- Diagonal Urbana, Projeto Terra,SEDEC / DIT / GEO
- Livro da Secretaria Municipal de Cultura, pertencente a coleção Elmo Elton
- Pagina PMV
- Paginas FACEBOOK:
               - MEMÓRIAS DA CIDADE

               - FOTOS E VIDEOS ANTIGOS DO ESPIRITO SANTO



Comentários

  1. queria compartilhar esse artigo nas redes sociais (facebook e instagran), como faço?

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    1. Copie o link da pagina, e cole nas redes sociais, assim vai abrir este texto do blog.

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    2. https://deolhonailha-vix.blogspot.com/2019/08/bairro-jardim-da-penha-50-anos-de.html

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  2. Bom dia, Willis!
    Sou professora do 3º ano do Ensino Fundamental, da rede municipal de ensino de Vitória e gostaria de usar o seu artigo para que os alunos conheçam um pouco mais da história do bairro onde está inserida a escola que eles estudam. Posso? Achei o seu texto muito rico em informações para ilustrar o conteúdo BAIRRO, que é estudado no 3º ano.
    Um abraço,
    Professora Laudicéria.

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