BAIRRO JARDIM DA PENHA – 50 ANOS DE HISTÓRIA.
POR:
WILLIS DE FARIA
O bairro começa de fato, em
1969, ano em que Vitória experimentava uma expansão que ultrapassava o seu
limite de ilha e direcionava a população para a região norte da cidade. Mas a
sua história começou bem antes.
(Entre os anos de 1894 a
1897, Belo Horizonte foi projetado pelo engenheiro Aarão Reis e foi a primeira
cidade brasileira moderna planejada. Foram feitas avenidas em diagonal e
quarteirões de dimensões regulares. Belo
Horizonte surgia como uma tentativa de síntese urbana no final do século XIX. O
objetivo de se criar uma das maiores cidades brasileiras do século XX foi
atingido. O projeto da cidade foi inspirado no modelo das mais modernas cidades
do mundo, como Paris e Washington. A cidade foi dividida em três áreas: central
urbana, suburbana e rural).
Fui testemunha presencial
em 1968, quando eu trabalhava na Cia. Central Brasileira de Força Elétrica (CCBFE),
que depois se transformou em ESCELSA. Eu tinha 19 anos (meu primeiro emprego),
e trabalhava na Seção de Consumidores. Fui designado em meados de 1968 a ir até
as estas 106 casas, que ainda estavam em construção, com objetivo de numerar as
casas, para colocação dos relógios medidores, colocação dos posteamente e
cálculo de carga elétrica para o condomínio das casas. Em volta era só areal e
ruas ainda de barro.
Os primeiros lotes vendidos foram os do bairro de Jardim da Penha, para armazéns, como o Instituto Brasileiro de Café (IBC), com cerca de 25 mil metros e outros que se entendiam ao longo da avenida que liga Vitória à Serra.
O local passou ainda por
mais uma desconfiguração de projeto, que aconteceu na década de 70, quando a
empresa Sena Engenharia se propôs a fazer o projeto de Mata da Praia de forma
diferente do projeto inicial.
A partir de 1970, Jardim da
Penha recebeu mais imóveis. Entre 1970 e 1975, foram construídos 1136
apartamentos, em edifícios de quatro pavimentos, sem elevador, para
trabalhadores sindicalizados.
As décadas de 80 e 90 foram
de grande crescimento para Jardim da Penha. Dos primeiros conjuntos
construídos, passaram a surgir edifícios, e a rápida expansão do bairro chegou
a trazer mil novos moradores por ano, chegando, nos anos 2000, a 30 mil
habitantes.
FOTO ÁREA - 1976
Na mudança da configuração
Urbana de Vitória, depois que o centro perdeu parte de suas funções, coube a
Jardim da Penha abrigar a classe média.

AS DUAS FACES DE JARDIM DA PENHA - UFES E SANTA MARTA - 1966 E 2017.
AS DUAS FACES DOS BAIRROS MATA DA PRAIA E JARDIM DA
PENHA -1978 - 2017.


A partir de 01 de setembro,
a comunidade pretende comemorar os 50 anos da primeira ocupação do bairro.
Visto como o Jardim de
Nossa Senhora da Penha, o bairro cresceu, se desenvolveu a partir de 1969 e
hoje é referência pela sua jovialidade e diversidade.
“Era da Penha, a Nossa
Senhora dos Capixabas, aquele jardim feito de cajueiros, goiabeiras, araçás,
aroeiras, palmeirinhas e até bromélias e orquídeas, entre piscinas de areia.
Dezenas de manilhas espalhadas denunciavam as primeiras tentativas de urbanizar
a região, nos anos 60”.
FOTO AÉREA 1970.
Eram 1.139.934 metros
quadrados, entre a Avenida Fernando Ferrari e a Praia de Camburi, onde a mata
de restinga era predominante. De todos os lugares, era possível observar o
Convento de Nossa Senhora da Penha. Aquela área era o Jardim da Penha.
PRAIA DE CAMBURI - 1969
JARDIM DA PENHA - 1972
A região compreendida ente
a Av. Adalberto Simão Nader até o Canal de Camburi e da praia até onde é a UFES
era uma fazenda conhecida como Sítio Queiroz ou Fazenda Mata da Praia.
A propriedade pertencia ao
capitão Justiniano Azambuja Meyrelles, escriturada em 1891.
No começo do século XX, a
área em que Jardim da Penha, Mata da Praia e Morada de Camburi se encontram era
a fazenda Mata da Praia, que pertencia ao capitão
Justiniano Azambuja Meyrelles.
A área era rural, abrigando
criação de animais, algumas áreas plantadas, córregos e árvores. Por estas
características, o coronel acreditava que aquela área funcionaria como o pulmão
da cidade de Vitória.
FOTO AÉREA – 1972
Neste sentido o Coronel Justiniano
desenvolvia um embrião de uma escola rural, chamada então de Artes e Ofícios,
para educar meninos. O coronel faleceu no ano de 1922, e as terras passaram ao
poder de sua filha, Sylvia Meyrelles da
Silva Santos.
Casada com Aristóteles da
Silva Santos, Sylvia ficou viúva cedo. Após o falecimento do esposo, Sylvia
mudou-se para São Paulo, doando as terras para suas filhas, Maria Sylvia e
Marya Aristotelina, que já estavam casadas.
A primeira tentativa de
lotear a área veio no ano de 1928, seis anos após a morte do coronel
Justiniano, através de Ostilho Ximenes.
Com o objetivo de divulgar o seu negócio, ele criou um jornal, mas não
conseguiu levar para frente o loteamento. O jornal foi vendido para Thiers
Velloso, e seria a semente do jornal A Gazeta.
Até a década de 50 a Praia
de Camburi só era acessada através da antiga estrada que ligava Vitória a
Serra, hoje conhecida como Av. Fernando Ferrari. Era, na verdade, a
continuidade da ponte da passagem, que já existia na década de 20.
O acesso à praia só era
possível através barco. Os pescadores e velejadores do Iate Clube chegavam à
praia através do mar, outros se aventuravam pela mata.
Havia ainda aqueles que
buscavam a região para colher cajus e pitangas. O caju misturado à cachaça deu
origem a uma bebida que ficou conhecida nacionalmente – o “caju-amigo”.
O nome surgiu porque a
região era uma área plana, toda verde, contendo vegetação de restinga e de Mata
Atlântica. Eram um jardim formado de bromélias, cajueiros, goiabeiras,
palmeirinhas e orquídeas.
De toda parte podia-se
avistar o Convento da Penha, ampliando a visão para além do mar. Assim ficou
conhecido o jardim da Penha.
Na década de 1950, os
sócios da Empresa Capixaba de Engenharia Civil interessaram-se pela área. A
ideia era criar um loteamento planejado, inspirado na cidade de Belo Horizonte.
O acordo com as herdeiras
do coronel Justiniano foi assinado e a empresa se comprometeu a implantação de
ruas, praças, distribuição de água e luz com urgência, para facilitar a venda
dos lotes.
O projeto, aprovado pela
prefeitura de Vitória no ano de 1952, dividia a região da Adalberto Simão Nader
ao canal de Camburi em largas avenidas diagonais, que formavam 13 quadras. Cada
uma das quadras era dividida em lotes de 380 a 400 metros quadrados. No total,
cerca de 1400 lotes foram demarcados.
O projeto de loteamento do
bairro data de 1952 cuja autoria é de Creso
Euclydes, abrangia do canal de Camburi ao norte até o aeroporto e da praia
até a Avenida Fernando Ferrari.
Cooperativa responsável
pelos primeiros empreendimentos.
Somente em 1969 é que o
bairro conta com 106 casas que, no entanto, não tinham acesso à iluminação
pública, comércio ou transporte.
Observei que os primeiros
moradores passariam dificuldades em adquirir os gêneros de primeiras
necessidades. O pão era comprado em Goiabeiras, os ônibus só passavam pela
Fernando Ferrari, o caminho para a praia era por uma trilha onde é hoje a Rua
Eugenílio Ramos. Para agravar a situação, para além dos perigos naturais, a
região era usada para desova de cadáveres no imenso areal.
Em 1969, as primeiras
famílias se mudaram para o bairro de Jardim da Penha, 106 ao todo. Os primeiros
momentos foram difíceis.
Os primeiros lotes vendidos foram os do bairro de Jardim da Penha, para armazéns, como o Instituto Brasileiro de Café (IBC), com cerca de 25 mil metros e outros que se entendiam ao longo da avenida que liga Vitória à Serra.
O loteamento, porém, teve
um crescimento lento, e a área passou a ser invadida e o que desfigurou o
projeto inicial.
Na região que hoje abriga a
UFES existia um clube, fundado na década de 40. As corridas de cavalo do
Victoria Country and Golf Club aconteciam na Praia de Camburi. Até então, a
região não possuía nenhum atrativo além da aventura e do clube.
O contrato com a Sena
Engenharia foi rescindido na década de 80, mas o traçado em diagonais da região
de Jardim da Penha foi alterado, principalmente na área que ficava próxima à
Mata da Praia.
A dificuldade de moradia
dos primeiros momentos criou, entre os moradores do bairro, um sentimento de
solidariedade, que foi base para as primeiras tentativas de organização
comunitária do bairro.
Foi o sentimento de
solidariedade, também, que evitou o isolamento das famílias, que se reuniam nas
ruas, e contribuiu para a criação do Clube 106 por estas famílias. A ideia
começou apenas com apenas 13 mulheres, que foram de casa em casa convencer os
moradores a participarem do projeto.
O terreno, um lote na Rua
Francisco Generoso da Fonseca, de número 707, foi comprado com o dinheiro que
as famílias arrecadaram promovendo churrascos que eram realizados em uma
choupana de palha.
Uniam-se aos churrascos e
as serestas, que aconteciam nas noites de sexta-feira. O clube abriu as portas
em 1970, e o primeiro baile contou com o conjunto de Romilson Aguieiras. O
clube ganhou tanto destaque que recebeu grandes nomes na música brasileira,
como Martinho da Vila e Waleska.
Foi ainda no Clube 106 que
começou o bloco “Segura o copo”, primeiro bloco de carnaval de Jardim da Penha.
A ideia surgiu com Jadir Gobbi e o bloco está ativo até hoje. Como tradição, o
desfile acontece no domingo anterior ao carnaval, levando dezenas de pessoas a
participarem. Após concentração no Clube 106, o bloco percorre as ruas de
Jardim da Penha até a praia, onde inicia o banho de mar à fantasia.
Com grandes empresas
chegando a Vitória e no Estado, as construtoras se voltaram para Jardim da
Penha. Os moradores do bairro eram basicamente compostos por funcionários
públicos, trabalhadores estatais e autarquias, técnico de grandes empresas,
como a Vale e a antiga Aracruz Celulose (hoje Fibria), comerciantes e
profissionais. As classes mais altas não se interessaram, a princípio, pelo
bairro.
O primeiro estabelecimento
público do bairro, construído após a realização da cobertura aero fotográfica
com a qual fizemos este estudo, foi criado e entrou em funcionamento em 27 de
outubro de 1971. Trata-se da Escola Álvaro de Castro Mattos, da rede municipal
de ensino.
FOTO AÉREA - 1972
FOTO ÁREA – 1972
FOTO AÉREA - 1974
FOTO AÉREA- 1976
Foi na década de 80, que a
Rua da Lama começou a se firmar como point de entretenimento. O nome foi dado
devido a situação em que a rua se encontrava após as chuvas e abrigava uma
quantidade bem reduzida de bares. Hoje, a rua é sinônima de diversão e é palco
para ótimos programas.
Em 1973 só tinha uma boate
“Nova Night Clube” e uns dois conjuntos residenciais e o comercio de Dona
Mercedes e a Mercearia do kiabai. O ponto final do ônibus era em frente mais ou
menos do BB muita lama e um caminho para ir pra praia. Todo mundo se conhecia.
Um baile na Associação 106 em 1980.
Verão na Praia de Camburi - Anos 70.
FOTO ÁREA - 1976
Atualmente, Jardim da Penha
é um bairro central, autossuficiente, construído etapa por etapa pela união dos
moradores. Entre o canal de Camburi e a Avenida Aristóbulo Barbosa Leão, e
outras duas avenidas, a Avenida Dante Michelini e a Fernando Ferrari, está o
bairro de Jardim da Penha.
FOTO 1974
FOTO AÉREA UFES - 1970
Hoje, Jardim da Penha é um
bairro multifacetado. A Universidade Federal do Espírito Santo (UFES),
localizada logo a sua frente, permite que um número grande de pessoas se mude
para o bairro, trazendo jovialidade e rotação entre os moradores. Jardim da Penha
ainda se destaca pela quantidade de atrativos, quando o assunto é lazer. São
inúmeros bares, lanchonetes, lojas e comércios de todos os tipos.
Vida Pública
A primeira tentativa de
criar uma associação de moradores aconteceu ainda no ano de 1969. Porém, a
Associação de Moradores de Jardim da Penha (AMJAP) só surgiu mesmo em setembro
de 1984.
Sua criação surgiu da união
dos moradores contra o aumento de prestações do Banco Nacional de Habitação.
Inicialmente, a associação se reunia na sede do Clube 106 e em outubro do mesmo
ano editou o seu primeiro jornal, Boletim da AMJAP, um especial de fundação,
que levantava alguns problemas do bairro. Em março de 1986, a AMPAJ elegeu a
sua primeira diretoria, a partir de uma chapa única, com 1397 votos.
JARDIM DA PENHA – 1984

Construção do PARQUE RESIDENCIAL
UNIVERSITARIO de Jardim da Penha – Anos 80.
LIMITES OFICIAIS DO BAIRRO.
Visando atender as demandas
da comunidade, a associação fez uma pesquisa com os moradores do bairro para
levantar os principais problemas que atingiam Jardim da Penha. A enquete gerou
motivação e participação da população, além de divulgar a associação.
AS DUAS FACES DE JARDIM DA
PENHA.
AS DUAS FACES DE JARDIM DA PENHA E UFES - 1972 E 2017AS DUAS FACES DE JARDIM DA PENHA - UFES E SANTA MARTA - 1966 E 2017.


AS DUAS FACES DOS BAIRROS MATA DA PRAIA E JARDIM DA
PENHA -1978 - 2017.
Enfim, cabe a nós saudamos hoje todos moradores, ora pioneiros e os que procuraram este bairro para fixar
suas raízes e constituírem as suas famílias.
Apesar de todas as adversidades
que enfrentaram inicialmente, tais como encontrar a região, que alternava entre
poeira e lama, a população que, obrigatoriamente andava em grupos, saia de
chinelos com os sapatos nas mãos, calçando-os dentro do ônibus.
Todas as dificuldades e as
necessidades que os moviam a conviver em grupo avançaram para as tentativas de
organizações comunitárias.
O isolamento a que eram
submetidos, motivou a criação de um núcleo ou clube para a reunião de famílias
e realização de eventos e atividades sociais.
Inicialmente surgiram
pequenos conjuntos habitacionais de apartamentos destinados à classe média
baixa. Com a melhoria da infra-estrutura do bairro, a proximidade do mar e a
facilidade de acesso ao Centro, vários prédios foram construídos no local.
Hoje o bairro está
praticamente todo ocupado por funcionários públicos, estudantes universitários
e profissionais liberais caracterizando uma população jovem e um comércio
auto-suficiente.
Uma particularidade das
edificações do bairro são os residenciais e edifícios que não possuem play
ground. A explicação é que os moradores lutaram para que essas áreas fossem
externas, garantindo a convivência e interação entre os moradores. Hoje o
bairro possui 7 praças.
FONTES:
- Texto extraído e adaptado
do livro Jardim da Penha, de Andreia Curry, do ano de 2001.
- Diagonal Urbana, Projeto
Terra,SEDEC / DIT / GEO
- Livro da Secretaria
Municipal de Cultura, pertencente a coleção Elmo Elton
- Pagina PMV
- Paginas FACEBOOK:
- MEMÓRIAS DA CIDADE
- FOTOS E VIDEOS ANTIGOS DO
ESPIRITO SANTO



















































Perfeito este artigo!
ResponderExcluirqueria compartilhar esse artigo nas redes sociais (facebook e instagran), como faço?
ResponderExcluirCopie o link da pagina, e cole nas redes sociais, assim vai abrir este texto do blog.
Excluirhttps://deolhonailha-vix.blogspot.com/2019/08/bairro-jardim-da-penha-50-anos-de.html
ExcluirBom dia, Willis!
ResponderExcluirSou professora do 3º ano do Ensino Fundamental, da rede municipal de ensino de Vitória e gostaria de usar o seu artigo para que os alunos conheçam um pouco mais da história do bairro onde está inserida a escola que eles estudam. Posso? Achei o seu texto muito rico em informações para ilustrar o conteúdo BAIRRO, que é estudado no 3º ano.
Um abraço,
Professora Laudicéria.
Concedido Professora Laudicéria.
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