OS PILOTOS DE LADEIRAS DA CIDADE
POR: WILLIS DE FARIA
Quem seria melhor nas corridas, nos carrinhos fabricados com pedaços de madeira ladeira abaixo? Surgiram então os carrinhos de rolimã (rolamento), que saem da caixa de câmbio (transmissão) e dos cubos de roda dos carros.
Primeiro vinha o barulho. Um ronco seco de metal raspando o asfalto, subindo a rua inteira antes de a gente ver quem estava descendo. O brasileiro tinha que improvisar os seus brinquedos, por que não construir seus carrinhos de corrida usando a gravidade natural para executar as tarefas?
Carrinho de rolimã ou carrinho de rolamentos é um carrinho, geralmente construído de madeira e rolamentos de aço, para a disputa de corridas ladeira abaixo. Ele geralmente é utilizado em descidas asfaltadas e lisas. A construção de um carrinho geralmente é artesanal, feita com ferramentas simples, como martelo e serrote.
O carrinho pode conter três ou quatro rolamentos (quase sempre usados, dispensados por mecânicas de automóveis) e é construído de um corpo de madeira com um eixo móvel na frente, utilizado para controlar o carrinho enquanto este desce pela rua.
O freio deve
ser um pouco maior que a distância do carrinho até o chão e precisa ficar em
posição diagonal; para diminuir a velocidade deve puxar-se o pedaço de madeira
ou uma barra de ferro para uma posição em que encoste ao chão.
A primeira Kinderautomobilrennen (em português,
"corrida de automóvel infantil") ocorreu em Oberursel, Alemanha, em
1904. Mais tarde, durante a década de 1930, o termo Seifenkisten (em português:
"caixa de sabão") passou a ser usado na Alemanha. Esta designação tem
origem nos Estados Unidos, quando um fabricante americano de sabão popularizou
o nome soap box nos anos 1930, ao imprimir os planos para construir um carro de
corrida infantil em suas caixas de sabão.
“Quando a rua virava pista e um simples carro de rolimã era suficiente para criar aventuras inesquecíveis”. “Não tinha tecnologia, mas tinha risadas, amigos e a liberdade de descer a ladeira sentindo o vento no rosto. Uma infância simples… e cheia de felicidade”.
Não se sabe ao certo como chegou ao Brasil. Ao que tudo indica os primeiros exemplares foram construídos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte no final da década de 1960 e começo da década de 1970, primeiras cidades a terem ruas asfaltadas e topografia íngreme.
O rolamento de esferas, designado com frequência desde tempos muito recentes também como rolimã, forma nominal que é corruptela do estrangeirismo rolemã, redução do nome francês roulement à billes, mecanismo utilizado na montagem dos carrinhos mais conhecidos como carrinho de rolimã e quase sempre todos os rolimãs, tal como então se designavam na linguagem corrente e como ainda hoje são assim designados, eram obtidos em oficinas que faziam manutenção dos carros da época e a madeira, de sobra de caixas ou tábuas utilizadas em obras. Os melhores rolamentos vinham da transmissão.
Historicamente, nas décadas de 1950 a 1970 — quando a
brincadeira estourou no Brasil —, as crianças iam até as oficinas mecânicas
pedir peças que seriam descartadas. Os rolamentos dessas duas áreas eram os
favoritos pelos seguintes motivos:
Rolamentos da
Caixa de Câmbio: São peças
internas da transmissão, extremamente robustas, feitas de aço puro e com
esferas perfeitas para aguentar a troca de marchas. Quando substituídas,
viravam as "rodas" perfeitas para o carrinho deslizar no asfalto
liso.
Rolamentos do
Cubo de Roda: Ficam localizados
nos eixos traseiro e dianteiro dos automóveis. Como são feitos originalmente
para aguentar o peso do carro e permitir que as rodas girem sem atrito,
oferecem excelente velocidade e durabilidade nas descidas.
Nos anos 60 e 70 os carrinhos tomaram conta das
ladeiras de Vitória. A nossa orografia ou relevo acidentado ajudavam muito. As
corridas viraram parte da paisagem sonora da manhã da cidade, e ficaram assim
por 02 décadas.
Aí a brincadeira acabou. E não acabou sozinha.
Moradores começaram a reclamar do barulho. Vieram os registros de acidente,
porque muita descida terminava em rua movimentada. E tinha uma terceira coisa,
que é a que ninguém lembra.
Tinha adulto apostando dinheiro nas descidas. Eram
chamados de pegas. Homens feitos que se juntavam no alto da ladeira para
apostar em qual criança chegaria primeiro lá embaixo.
Foi isso que tirou o carrinho de rolimã do lugar de
brincadeira de criança e colocou no lugar de caso de polícia.
Veio a repressão policial forte. Nos anos 80 as
corridas já tinham minguado, entre a polícia na ladeira e o brinquedo
eletrônico dentro de casa.
E agora a parte que fecha o círculo. Belo Horizonte
criou o Dia Municipal do Carrinho de Rolimã, 25 de maio. Em novembro de 2024, o
Espírito Santo oficializou a corrida de rolimã como prática esportiva. E em 13
de agosto de 2025, BH publicou decreto reconhecendo a corrida como esporte, com
evento licenciado e equipamento de proteção obrigatório.
O que a polícia dispersava na ladeira hoje tem lei,
capacete e número de inscrição.
Sim, o Espírito Santo oficializou a corrida de
carrinho de rolimã como prática esportiva por meio da Lei Ordinária nº 12.244,
sancionada em 6 de novembro de 2024.
Detalhes da Lei:
Autoria: Projeto do deputado estadual Coronel
Welinton.
Objetivo: Reconhecer a atividade como esporte oficial,
valorizar a cultura popular, incentivar o convívio social e abrir portas para o
turismo e captação de recursos.
Segurança: O texto exige o uso obrigatório de equipamentos de segurança e alertas para prevenir acidentes durante as provas.
LEI Nº 12.244
Reconhece a corrida de Carrinho de Rolimã como prática esportiva em todo o estado do Espírito Santo.
O GOVERNADOR DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO.
Faço saber que a Assembleia Legislativa decretou e eu sanciono a seguinte Lei
Art. 1º Fica reconhecida a corrida de Carrinho de Rolimã como prática esportiva em todo o estado do Espírito Santo.
Art. 2º As instruções da prática esportiva deverão advertir que a corrida deva ser realizada com atenção, a fim de prevenir acidentes aos esportistas ou a terceiros.
Parágrafo único. Para que aconteça a prática esportiva de que trata esta Lei, torna-se necessário o uso obrigatório de equipamentos de segurança.
Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Palácio Anchieta, em Vitória, 06 de novembro de 2024.
JOSÉ RENATO CASAGRANDE
Governador do Estado,
Enfim: "a corrida de rolimã é uma forma
tradicional de brincadeira que promove a diversão, aventura e troca de
experiência entre os jovens, sendo necessário promover o seu caráter educativo,
cultural e informativo".
A legislação determina que o uso de equipamentos de
segurança será obrigatório para os praticantes.
Disseminadas em diversas regiões do país, as
competições são feitas em carrinhos de madeira com rolamentos de esferas. De
acordo com o projeto, a brincadeira se popularizou no Brasil a partir das
décadas de 60 e 70.
- O carrinho de rolimã era brinquedo das crianças com
menos condições financeiras que não podiam comprar uma bicicleta, por exemplo,
destaca o deputado.
- O projeto já havia sido aprovado pela Assembleia
Legislativa do estado no final de outubro.
FONTES:
- Wikipédia – Enciclopédia livre
- «Die Geschichte der Seifenkisten»
Seifenkistenverband-BW (em alemão). Consultado em 17 de agosto de 2025
- Menção “rolemã do pinhão” (engrenagem) no texto do
“Jornal de Notícias” (SP) publicado aos 12 de Junho de 1946
- Carrinho de “rolemã” conforme designação utilizada
pelo piloto de provas automobilísticas José Carlos Pace na matéria publicada no
periódico REALIDADE (SP)/1973:







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