O PEIXE BOI DA BAÍA DE VITÓRIA – A CARTA PERDIDA DO PADRE ANCHIETA

POR: WILLIS DE FARIA

15 anos guardando um segredo em latim.

Há 15 anos eu caçava a tradução de um texto que estava na letra miúda do meu livro original de 1867 do Charles Frederick Hartt - Geologia e Geografia Física do Brasil, página 101, nota 46. 



É uma carta do Padre José de Anchieta, escrita em latim em 1560, 9 anos depois da fundação de Vitória, descrevendo a nossa baía. Não achava um padre disponível. Consegui traduzir agora.

Texto original em latim


De Bove Marino. — Hac quoad rationem temporis, jam ad alia transeamus. Piscis quidam est quem Bovem marinum dicimus, Indii Igoaragoá nuncupant frequens in oppido Spirito Sancto et aliis versus Boream habitatis, ubi aut nulla est, aut exigua admodum, et minor quam apud nos frigoris injuria; hic ingentis est magnitudinis herbis pascitur, quod ipsa gramina depasta scopulis, quos aestuaria alluunt, inhaerentia indicant. Novem mola corpore superat, cute obtegitur dura, elephanti colorem et refert; duo velut brachia quibus natat, habet ad pectus sub quibus et ubera, ad quae proprios foetus nutrit, ceu bovi, per omnia similis. Esui est congruentissimus, ita ut discernere nequeas, utrumque carnis, an potius piscis loco haberi debeat; ex cujus pinguedine, quae cui ex maxime circa caudam inhaeret, ad modum igni fit liquamen, quod jure butyro comparari et haud scio an possit antecellere, cujus ad omnia cibaria condienda olei vice usus est: Ossibus solidis, et durissimis quae, possunt eboris vices gerere, totus corpus est compactum.

Fonte: Colecção de notícias para a história e geografia das nações ultramarinas, Lisboa 1812, apud Hartt 1867.

Tradução para o português

"Há um certo peixe que chamamos Boi Marinho, os índios chamam Iguaraguá, frequente na Vila do Espírito Santo e em outras povoações para o norte, onde não há frio nenhum; este é de tamanho enorme, alimenta-se de ervas, o que se vê pelas próprias ervas pastadas nas pedras que os estuários banham. É coberto por couro duro, da cor do elefante; tem como que dois braços com que nada, tem no peito, e debaixo deles as tetas, com as quais amamenta seus próprios filhotes, em tudo muito semelhante à vaca. É muito próprio para comer, de tal modo que não conseguirias distinguir se deve ser tido como carne ou como peixe; de sua gordura, que se concentra principalmente ao redor da cauda, faz-se, ao fogo, um azeite que com razão pode ser comparado à manteiga e não sei se pode superá-la, e que é usado em lugar de óleo para temperar toda comida: com ossos sólidos e duríssimos, que podem fazer as vezes de marfim, todo o corpo é compacto."

O Iguaraguá dos índios - Peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). Animal dócil, de 3 a 4 metros, até 600 kg.

O QUE ISSO PROVA? 

Em 1560 a Baía de Vitória era um santuário de peixes-boi-marinho. O mamífero mais dócil do mundo, exclusivamente herbívoro, que come até 60 kg de capim-agulha, algas e folhas de mangue por dia, vivia farto aqui. Hoje, está ameaçado de extinção. O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho tenta salvá-lo. Essa é a memória ambiental mais antiga da nossa Ilha.

BIBLIOGRAFIA:

- Geografia e geografia física do Brasil – Província do Espirito Santo 1867 – Charles Frederick Hartt

- Carta do Padre José de Anchieta, de 1560, que está na "Colecção de notícias para a história e geografia das nações ultramarinas, Lisboa 1812".

BIBLIOGRAFIA:

- Geografia e geografia física do Brasil – Província do Espirito Santo 1867 – Charles Frederick Hartt

- Carta do Padre José de Anchieta, de 1560, que está na "Colecção de notícias para a história e geografia das nações ultramarinas, Lisboa 1812".

Willis De Faria - 30/09/2026





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