JUCUTUQUARA - FRADINHOS : A FAZENDINHA DOS MONJARDINS




A FAZENDINHA DOS MONJARDINS

Por: WILLIS DE FARIA

(CRÔNICAS DE UM BAIRRO)

A década de 50 foi início do período das transformações sociais, econômicas e ambientais. Jucutuquara foi à ponta do iceberg destas transformações, pois era o bairro mais próximo ao centro da cidade. Todos os moradores puderam acompanhar atentamente as mudanças. 

Eu era um pequeno menino alheio aos problemas que a sociedade iria ter que enfrentar. A mim só interessava o estudo e o lazer. Era assim que pensava todos os meninos da época. Geograficamente o bairro era situado em um grande vale, cortado por um córrego de águas claras, vindo dos fradinhos, e  eu recebia um pequeno afluente na “entrada” dos Fradinhos, vindo da área denominada “mangueiral”, oriundo de Maruípe. 

Sua nascente era nas cabeceiras do Morro dos Bastos. Bem o “mangueiral”, era uma chácara com muitas frutas, com destaque para goiaba, jambo branco e jambo vermelho, Jamelão, perinho e muitas mangueiras (rosa, espada, carlota, coração de boi e outras). Todos podiam tirá-las quando estavam maduras. 

O vale de Jucutuquara era de beleza incomum, pois no alto dos morros existiam umas densas vegetações e a neblina cobria o vale, nas madrugadas de noites frias, dando aspecto de cortina de seda. Havia perto de minha casa, no final de Jucutuquara e inicio de Fradinhos (chamávamos de final da linha de Bonde), no alto da encosta, o curral do Sr. Mario e Áureo Monjardin. 

Que ficava mais precisamente no morro de Fradinhos. Havia muitos animais (bovinos e caprinos) que pastavam tranqüilamente durante o dia por toda encosta. Acordar cedo (às 6 horas) era uma obrigação diária, por uma picada pelo meio do mato, lá ia eu, com a “leiteira” na mão, busca o leite para o café da manhã. Lá já estavam os senhores Mario e Áureo com os filhos José Áureo “Olho de Garoupa” e Jair “Pé de Banda”, sentados em banquinhos, ordenhando as vacas e cabras. Bem, apelido nas pessoas era comum entre todos os moradores do bairro. Era como uma marca registrada.

Poucos não tinham apelidos, mas isto vai ser falado em outro capítulo das histórias.  Abaixo do curral, tinha um pequeno alagado, provocado por uma improvisada barragem, onde o gado matava a sua sede. As águas vinham de um vale denominado “Campinho da Onça”. Ali todos os animais silvestres também bebiam água. Era o local predileto para os passarinheiros para a captura das aves. Todos os jovens do bairro Criavam em suas cãs passarinhos silvestres. Eu também tinha meu viveiro de passarinhos com as mais variadas espécies (coleirinhas, tiziu, gaturamo, saíra, rolinha, juriti, galo da campina, gaturamo mirim, bombeirinho, curió, melro e outros). 

Não só existia o viveiro, mas também as varias gaiolas, que ficavam penduradas na varanda de casa. Pela manhã, os cantos uníssonos das aves eram ouvidos por todo vale. Diariamente a garotada pegava as suas gaiolas, com seus coleirinhos cantadores, armados de açalpão e visgos, seguiam para o mato..., Perto da represa. Era uma disputa terrível pela melhor “espera” (local onde mais provável que a ave iria efetuar o pouso), que podia ser uma pedra, uma cerca de arame ou galho de árvore. Ficávamos escondidos, a uma distancia aproximada de 20 metros, de preferência em uma sombra de árvore, onde ficávamos na “espia”. 

O silêncio era obrigatório, barulho só o do vento ou mugir do gado. Por baixo das “capoeiras” de aroeira e fedegoso eram armas as arapucas para capturar as rolinhas. Após algumas horas, voltávamos para casa com a captura, que logo iam para o interior dos viveiros. Para realizar estas travessuras e aventuras, tínhamos que enfrentar alguns perigos, tais como as vacas bravas. 

A vaca era o terror do morro principalmente as que tinham crias novas. A que era terror da garotada era uma vaca chamada de “Farmácia, que carreiras davam aos menos avisados”. Mas, hoje, a fazendinha não mais existe, mas sim apenas residências de alto luxo. A represa deu lugar a uma grande ladeira, com bastante aclive, coberta de asfalto e concreto, sem o menor vestígio do passado. As matas das encostas, o campinho da onça não mais existe. 

Os bois e as cabras são apenas histórias do passado. Na realidade, ouve uma imensa transformação, só ficando vagas lembranças.




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