OS BONDES E JUCUTUQUARA


Por: WILLIS DE FARIA

(Crônicas de um Bairro)

Nasci ilhéu, no alto da Vila Rubim, mas criado em Jucutuquara ou inicio dos Fradinhos.

Hoje a nossa antiga residência esta hoje enquadrada no limite de bairros como Fradinhos; e onde eu morava era conhecido com "final" da linha (do bonde), tendo como referência o bar do Ciroca, onde podia tomar caldo de cana com pastel e comer uma “manteiguinha”. Era o bar frequentado, principalmente quem ia seguir adiante para Maruipe.

Lá não vendia cachaça, só no bar ao lado do Cesar Poltronieri ou o vizinho Bar de Joaquim Silva, o "Quikas"e no Bar de Mario (Nabo) Jantorno.

Entre os dois primeiros bares tinha a pensão do senhor Manoel Donêncio, onde sua filha Diva (bastante farta pelas gorduras abundantes) fazia o serviço de portaria. 

Mas voltando ao passado, ou seja, no inicio de século os primeiros bondes a circular eram puxados a cavalos, ou burros, e fazia a linha Centro–Praia do Suá, local de banhos dos aristocratas. 


FOTOS POSTAIS VICTÓRIA.1908 - PRAIA DO SUÁ

Mas em 1909, começou a funcionar uma locomotiva, movida a carvão. O veiculo fazia o mesmo percurso e pertencia a Cia ferro Carril e depois passou para a Leopoldina Railway, dona das extensas terras de Bento Ferreira, e tinha sua garagem entre o morro de Bento ferreira e o Morro do Álvares Cabral. 

 Foto: Inauguração do bonde eletrico, em 21 de julho de 1911

Já o tipo clássico, movido a energia elétrica veio em 1911 (foto acima), administrado pela Cia. Brasileira de Força Elétrica (CCBF).


 FOTO: AVENIDA VITÓRIA - DIREÇÃO JUCUTUQUARA - PRAIA DO SUÁ.

O por força do destino, meu primeiro emprego em 1967, foi na CCBF, mas após o termino dos bondes em 1965. 


O bonde era o transporte de massa da capital (só em dia de chuva que os passageiros sofriam). Para atender a grande massa da população, vários modelos de bondes apareceram: O bonde especial funerário (que ia para Santo Antônio), que transportava o caixão em um reboque e em outro carro viajava o cortejo.




Tinha o “Taioba”, que funcionara pela madrugada e manhãs. Era um caro sem assentos, que além de transportar verduras e legumes para o mercado, onde seriam vendidas, levavam os boêmios de volta para as suas casas. Nos anos 60, tinha um bonde circular, que só trafegava pelo centro da cidade, ligando à parte alta a parte baixa da cidade. 
 
 FOTO: AVENIDA VITÓRIA - SUBIDA DO FORTE SÃO JOÃO

Havia outras linhas regulares, tais como: Centro/Jucutuquara, Centro/Praia do Suá, Centro/Praia do Canto. 

Centro/Praia Comprida, Centro/Santo Antônio. A oficina até o final de seu funcionamento ficava na Rua Sete de Setembro, em um local chamado de convertedora.

A CCBF, ainda era responsável pelo serviço de lanchas ma baia de Vitória, que ligava o Centro a Paul (Vila Velha) e pelo serviço de telefonia. 
 FOTO: AVENIDA SANTO ANTONIO - BAIRRO SANTO ANTÔNIO

Mas viajar nos bonde nos anos 50 e 60, nos traz grandes lembranças, seja pelo balanço durante seu  tráfego, o vento de batia em nossos rostos, mas compensado pelo silencio durante seu trafego, onde só ouvíamos as batidas secas quando passava sob as emendas das linhas dos bondes.

Podemos descrever de modo especial este mágico transporte: “Plá...pla ...plá”, era a batida seca dos bancos de madeira dos bondes que trafegava pela cidade, após a chegada em seu ponto final. 

Era com cobra de duas cabeças, não fazia o contorno para voltar, e sim o “motorneiro” (condutor do bonde), se dirigia para o outro lado do bonde, com a chave de velocidade na mão, e voltava para seu outro destino.

Os bancos mudavam de posição, quando o encosto dava um volta por cima do banco, colocando em posição frontal ao novo destino. 
 FOTO: AVENIDA PAULINO MULLER - JUCUTUQUARA

O cobrador tinha esta função, virar um por um. Eu “sentia”, este trabalho “na carne”, pois morava no “final da linha”, e durante o silencio da noite, as batidas ecoavam por todo vale de Jucutuquara. Eles “recolhiam” a garagem após as 11 horas.



O Motorneiro obedecia ao comando das linhas existentes, seguiam o traçado das linhas, e tinha a função de parar, dar a partida e aumentar a velocidade (não passava de 20 km por hora), só atingida na reta do cruzamento (em direção ao Forte São João) e do Constantino (em direção a Praia do Suá). 


Ouvíamos o canto de esmerilhar nas curvas, e depois silenciosamente seguia seu rumo. Havia varias entradas para o bonde através do estribo único ou duplo, de madeira, dependendo do modelo do bonde. 




As lonas que fechavam as laterais eram listradas, que RAM puxadas para baixo até chegar ao engate.

Em tempo de chuva, tinha que estarem fechadas. Três funcionários trabalhavam na operação do transporte: o Motorneiro, o Cobrador e o Fiscal.

Todos usavam uniformes de cor caqui, tipo militar com grandes bolsos laterais. O motorneiro, cobrador e fiscal, obrigatoriamente usavam um quepe (chapéu) tipo militar.


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 FOTO: AVENIDA JERONIMO MONTEIRO - PRAÇA OITO - VITÓRIA

O cobrador era um verdadeiro malabarista, pois trabalhava andando pelo estribo, com dinheiro entre dos dedos, fazendo a cobrança das passagens.

Agarrava-se, nos mastros que separávamos compartimentos dos bancos. Ao sabor do vento, ele tintilhavam as moedas e gritava: “eis, eis, cobradooor”.

Todos sacavam suas moedas de seus bolsos e pagavam a passagem. Para esta façanha o cobrador girava rapidamente ao redor do bonde, para não deixar ninguém escapar sem pagamento.

Só os moleques escapavam principalmente eu, que tinha que saltar no Colégio Estadual, localizado no final do Forte de São João, e dava “um banho no cobrador”, pois quando ele circulava para o lado, oposto, eu ia para o outro lado que ele já tina passado. Esta era a estratégia dos estudantes. 

 FOTO: AVENIDA JERONIMO MONTEIRO - ARIBIRI- VILA VELHA


Quem não gostava muito era o cobrador conhecido com “cabeção”, que arregalava seus olhos azuis e dizia: “vou lhe pegar moleque”.

Mas era tarde, toda turma saltava com o bonde andando, éramos mestre nesta arte de saltar com o bonde trafegado. Era só chegar ao final do estribo e soltar o corpo ao vento.

Ao findar a viagem, era a vez do fiscal, que andava por todo estribo do bonde, contando o numero de passageiros, para registrar em sua caderneta e depois registrar em um relógio analógico que tinha uma correia que puxava, e registrava um por um passageiro, e o numero ficava também registrado no relógio de conferencia.

Também era um barulho muito esquisito que tínhamos que ouvir: “nheco, nheco, nheco”.


Bem, o bonde não tinha buzina, e a comunicação de pedir passagem, era feita quando o motorneiro pisava sobre um pino que tinha no chão próximo ao lugar de condução/pilotagem, e saia o som: “pleim, pleim, pleim”. 



 FOTO: AVENIDA VITÓRIA - CRUZaMENTO EM FRENTE AO BAIRRO HORTO.

Como falei anteriormente, por força do destino, em dezembro de 1967, ingressei no meu primeiro emprego “engravatado”, na CCBF, na seção de consumidores, que ficava na Praça Costa Pereira, e nesta seção fui ser companheiro de quase todos os cobradores, fiscais e motorneiros, onde dividíamos as atividades de leituristas e conferentes.

Fizemos grandes amizades e contamos muitas histórias dos bondes. Lá estavam o “Cabeção”, “Galo Cego”, “Força Maior”, “Plácido”, “Dirceu”, “Orozimbo” e outros.

Todos eram conhecidos por apelidos. Foi uma experiência que ficou para sempre em nossa memória. Por três anos fomos companheiros de trabalho. O moleque de Jucutuquara agora tinha virado parceiro de quem no passado queriam "a cabeça". O destino nos conduz a muitos caminhos.




Comentários

  1. Muito boa sua iniciativa, amei o blog já sou seguidora.

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  2. Willis, muito bom. Não teve jeito de andar sem pagar passagem, você acabou se encontrando com o "Cabeção". Ele te reconheceu?
    Veja, neste e nos outros posts há algumas incorreções na escrita (palavras juntas e falta de letras) você vai revisar depois?
    Gostei das fotos dos bondes, realmente românticas. Você tem a descrição dos locais onde foram tiradas? Valeu, André Capezzuto.

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  3. André, obrigado pelas observações. É que o tempo é curto, e mantenho mais dois outros blogs sobre cinema, e posto críticas diariamente a 10 paginas de cinema no Brasil e 2 em Portugal. Me atento mais para criticas e postagens de filmes.Este blog é novo, e vou postar todas as minhas crônicas que eu iria publicar em um livro. Vou socializar as informações.
    Esta convidade a visitar:

    http://cinefilomania-cinefilomaniacos.blogspot.com/

    http://cinefilomaniacos-deolhonocinema.blogspot.com/

    http://www.youtube.com/user/cinefilomaniacos/

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  4. willis
    Parabens adorei as hist'rias e forma criativa da escrita
    essa ilha nao sera mais a mesma com seus olhos sobre ela.
    abracos Betto-M2

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  5. PARABENS.
    PARA O COMEÇO ESTÁ MUITO BOM, VAI EM FRENTE, NOS PRECISAMOS DE RELEMBRAR OS NOSSOS PASSADOS.
    ESPERO LER OUTROS EM BREVE
    UM GRANDE ABRAÇO
    SEU AMIGO
    CESAR PITANGA

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  6. Muito obrigada pelas suas informações, parabens pela iniciativa de construir este site e desta forma contribuir pela preservação do nosso patrimonio historico.
    Abraço Jéssica Raiany

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    Respostas
    1. Seus relator e fatos são muito bons como base de pesquisa, além de seu carater artítico-cultural e social.
      Serviram muito bem para o Museu em que trabalho, ECBH. Fica na grande Santo Antonio no Sambão do Povo

      Parabens e obrigado

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  7. Adoro ler essas recordações.
    Essas histórias me fazem sentir como se eu estivesse vivendo naquela época.

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  8. Willlis, parabéns pelo material e riqueza de detalhes. Me emocionei ao ler pois meu avô foi motorneiro nesta mesma época. O nome dele é Simphronio Pitomba, mais conhecido como Pitomba. Você possui algum registro sobre ele? Se sim favor manter contato pelo email sandersonpitomba@hotmail.com

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  9. Willis sempre resgatando e preservando a memória capixaba. Parabéns.

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