JUCUTUQUARA - OS CAMPEONATOS DE JOGOS FUTEBOL DE BOTÃO

Jogar futebol de botão era compartilhar com os amigos momentos muito peculiares e apreciados apenas para quem curtia o esporte no final dos anos 50 e inicio dos 60. Tinha que haver um clima de solidariedade entre os jogadores. A começar pelo goleiro que era o mesmo para os dói times. Goleiro de caixa de fósforos com chumbo derretido ocupando o lugar dos palitos. O chumbo era derretido da sucata dos canos de água que saiam debaixo das pias da cozinha ou banheiro, e era colocado em uma forma para esfriar e solidificar. Depois de seco e frio, ia para caixa, às vezes coberta com um pedaço de pano que era costurado. Havia uma regra básica para o goleiro: ele só podia ficar horizontalmente, ou seja, deitado sobre uma das partes usadas pra riscar o palito. Não podia ficar “de pé”, isto é, sobre um dos lados que abríamos para pegar palitos. A rede de armação de arame com um pedaço de pano (véu de noiva) costurado, também era compartilhado pelos dois jogadores. Goleiro e rede ficavam de lado e só era colocados em campo quando um dos jogadores avisava que ia “chutar” a bolinha, que era um botão de camisa. O campo era desenhado sobre um compensado, com medidas proporcionais às de um campo de futebol oficial. Os lados eram protegidos por uma pequena ripinha que protegia para o botão (Jogador) não sair. Na hora em que um chutava a gol, o outro estendia os dois braços, ao longo da rede e impedir o botão adversário e impedindo que ele caísse no chão. 
 Havia uma turma boa que reunia para a prática deste esporte, e sempre começava nos finais de semana. Todos moravam no final de Jucutuquara, inicio de Fradinhos. Era a casa de Sr. Moacyr Sarmento, em que todos reuniam para jogar, mesmo tendo o incomodo do canto alto da araponga, que havia na varanda, que nos deixava ensurdecidos. Renan e Robson Sarmento eram os anfitriões, e eles tinham os apelidos de “Formiga Ruiva” e “Tucano”, respectivamente. Aliás, todos tinham apelidos. Reuniam ainda o Francisco Jantorno (Chiquinho), os irmão Jose (Zeca) e João (Gaguinho) Moro. Chagava sempre agitado o Aloísio (Caixote) Pessotti, eu (Willis- o Camundongo) e o Hamilton (Cafuringa) Quintaes. De vez em quanto aparecia o Túlio (Tulinho) Samorini. Tinha até troféu para o final do campeonato. Os jogadores eram feitos de maior variedade de materiais, e não valiam os botões “panelas”, ou seja, os botões fabricados com escudos dos jogadores, e vendidos nas lojas. Os nossos botões eram fabricados por nós. Era usado plástico derretido (coisa rara na época), ficha de ônibus sobrepostas e coladas e depois raspadas com vidro, casca de coco, vidro de aviação (azulzinho), botão de casaco feito de osso, chifre de boi, etc. Os beques eram maiores e os atacantes menores, que corriam pela mesa (campo), sempre encerado para deslizar melhor. A paleta era sempre feita com fichas de ônibus.
 O segredo era a inclinação (angulo) lateral que tinha o jogador para que fosse possível sempre com toques magistrais encobrir o goleiro e fazer o gol. Os botões eram sempre parafinados e guardados dentro de flanelas para a sua conservação. Alguns levavam nomes dos jogadores os times do campeonato carioca da época. Era na realidade uma brincadeira saudável que reunia os amigos no final de semana. Um tempo bom para ficar na memória, onde curtíamos o futebol mesmo sendo os jogadores de botão. 

OBSERVAÇÃO: De acordo com o Banco de Dados Folha, o futebol de botões foi inventado em 1930 pelo brasileiro Geraldo Décourt. Contam que ele primeiro jogava com botões de cueca, passando posteriormente a usar os botões da calça de seu uniforme escolar. Dessa brincadeira de criança surgiu o "jogo de botões", aquilo que se tornaria o esporte difundido e amado por uma legião incontável de praticantes e admiradores, com sua diversidade de regras e materiais, tendo adeptos em um grande número de países. Geraldo Cardoso Décourt é, segundo alguns, um dos precursores do que nós conhecemos hoje como "futebol de mesa" no Brasil; por volta de 1929, Décourt deu o nome de "Celotex", que era o material usado para a confecção das mesas, ao jogo, que ali tinha o seu início enquanto esporte, inclusive com o lançamento do primeiro livro de regras. O dia do nascimento de Geraldo Décourt em 14 de fevereiro, foi oficializado pelo governador Geraldo Alckmin, em São Paulo, no ano de 2001, como o "dia do botonista". Décourt foi um incansável divulgador e organizador de eventos de futebol de mesa, o que propiciou o desenvolvimento do esporte, assim como sua popularização. Paralelamente a esse incremento de regras e desenvolvimento de materiais cada vez mais adequados à execução do jogo, em diversas regiões do Brasil, mormente nas décadas de 1930 a 1980, várias modalidades eram praticadas, usando-se diversos tipos de botões e superfícies onde os mesmos deslizavam, desde o piso das casas, mesas de jantar, até o famoso "Estrelão", mesa de jogo sem cavaletes, produzida pela fábrica Estrela, durante os anos 70. Muito famosos ficaram os "botões de osso" ou de "paletó”, que nada mais eram que os botões retirados dos antigos ternos sociais; dentre esses, uma classe de botões conhecida como "Paulo Caminha", marcou época; depois vieram as "capas de relógios", que nada mais eram que os "vidros' substituídos dos relógios que iam para conserto e tinham os "vidros' trocados; finalmente, na década de 1950, surgiram os botões industrializados, de plástico, com adesivos colados ao centro, contendo os escudos ou mesmo as faces dos jogadores dos times famosos do Brasil. Um dos modelos de traves dos anos 70, além de goleiro feito utilizando-se uma caixa de fósforos, comum para a época; note que praticamente só há espaço para a bola (geralmente uma pastilha) entrar no gol, por cima do goleiro. "Capas de relógios" utilizadas como botões, também dos anos 70; tratava-se de um "vidro" mais envelhecido, que era disputado pelos garotos da época, nos relojoeiros. Os botões de acrílico já eram utilizados, entretanto, em uma proporção bem menor em relação aos dias de hoje, quando são predominantes. Os botões industrializados começaram com os famosos canoinhas, que eram botões rebaixados no meio, com o rosto do jogador ao centro, normalmente com imagem em preto e branco; existiram até alguns coloridos. Algumas fábricas os fizeram, Estrela, Trol e outras.


Comentários

  1. Muito interessante as informações. Eu mesmo posuia um "Estrelão" e já disputei muitas partidas desta modalidade. Lembro que atualmente há alguns artesãos destes equipamentos (em MDF e acrílico), estre eles o Sr. Pedro em Fradinhos.

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  2. Bacana o texto!
    Só pra complementar as informações, o Geraldo Decourt não inventou o jogo, que ele conheceu quando criança. Ele foi o cara que pela primeira vez organizou um livro de regras para o jogo. Sobre a origem, ninguém sabe ao certo, mas referência mais antiga de que se tem notícia é um impresso de 1902, se não me engano, na Europa (não lembro agora o país). Ou seja, pode ser que esse jogo tão brasileiro não tenha, afinal, sido inventado aqui.

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