O BRASILEIRO MESTIÇO QUE SE TORNOU VICE- REI DE DAOME, NO CONTINENTE AFRICANO.
POR:
WILLIS DE FARIA
A personalidade controversa
de um baiano mestiço que se envolveu na Conjuração Baiana de 1798, negociou
africanos escravizados, acolheu os malês expulsos do Brasil em 1835 e protegeu
ex-escravos e seus descendentes retornados à África. Uma história incrível que
revela aspectos do tráfico negreiro pouco mencionado nos livros de História.
Francisco Félix de Souza, o Chachá, chegou a ser considerado, no seu tempo, o homem mais rico e influente da África Ocidental. Agente exclusivo do rei de Daomé, ele tinha uma habilidade incomum para intermediar o comércio escravo entre chefes africanos e traficantes europeus. Casou-se com algumas dezenas de mulheres que geraram quase uma centena de filhos, somente entre os legítimos. Seu sobrenome, Souza, deu origem a um clã africano que goza ainda hoje de prestígio em Benin e Togo.
Primeiros tempos, no Brasil
Retorno definitivo à África O lucrativo comércio de escravos Fortaleza de São
João Batista de Ajudá e as reviravoltas políticas Francisco Félix, o golpista
de Daomé Francisco Félix torna-se o “Chachá” Ampliação dos negócios: transporte
de escravos Singbomey, uma casa-grande em Daomé O benfeitor de ex-escravos retornados
à África De traficante de escravos a capitalista O legado de Chachá 1.
No Brasil Francisco Félix de Souzaaparece em uma tela a oleo de autor desconhecido, que figura na galeria dos chachás em Ajudá. As fontes sobre Francisco Félix de Souza são escassas, fragmentárias e desiguais especialmente referentes aos primeiros anos quando viveu no Brasil. A documentação pessoal é praticamente inexistente, inclusive de seus negócios, já que ele preferia os acertos comerciais verbais aos escritos.
Para rastrear sua vida é
preciso combinar dados recolhidos dos arquivos da Marinha britânica com as
tradições orais de Ajudá. Os resultados são, contudo, conflitantes,
especialmente quanto às datas e ordenação cronológica. Ele é tido geralmente
como nascido em Salvador, Bahia, em 1754, conforme consta em seu túmulo, mas o
ano pode ter sido posterior, talvez 1768.
Segundo Robin Law,
historiador inglês especialista em História Africana, Francisco Félix de Souza
se envolveu na Conjuração Baiana, de 1798. Ainda jovem, com vinte e poucos
anos, ele foi para o reino de Daomé (atualmente território da República do
Benin) para traficar escravos. Ali teria ficado entre os anos 1792 e 1795 onde
ergueu um entreposto de escravos chamado Ajido. Regressou depois ao Brasil.
Retorno definitivo à África Uma segunda e definitiva viagem ocorreu por
volta de 1800. Segundo Robin Law, a decisão de mudar-se para a África é cercada
de “circunstâncias vergonhosas” envolvendo desterro ou fuga. Um relatório
britânico de 1821 dizia que ele era “um renegado… banido do Brasil”; em outro
texto, afirma que teria sido proscrito do Brasil por “algum crime político”.
Seja como for, Francisco
Félix era um homem pobre quando chegou à África. Foi morar em Popô Pequeno (ou
Anexô), no atual Togo, onde se casou com Jijibu, filha do chefe de Popô
Pequeno, de quem lhe nasceu o primeiro filho, Isidoro. Segundo alguns relatos,
foi o sogro que introduziu Francisco Félix no negócio de tráfico de escravos e
lhe concedeu terras para erguer um entreposto que chamou de Adjido ou Ajido.
O lucrativo comércio de
escravos.
Foi da chamada Costa dos
Escravos (áreas costeiras dos atuais Togo, Benin e Nigéria) que saiu o maior
fluxo de africanos escravizados para a América do Norte, Caribe e Brasil em
navios ingleses, franceses, holandeses, portugueses e brasileiros (baianos, na
grande maioria).
Para os reis de Daomé, o maior reino africano
da região, o comércio de escravos era mais do que uma atividade econômica: era
essencial para a sobrevivência do Estado pois resultava em armas de fogo,
pólvora e munição com que armavam seus exércitos, além de artigos de luxo com
que ostentavam seu poder e asseguravam a fidelidade de chefes locais.
Outra fonte de rendas eram
as numerosas taxas cobradas dos europeus para todo tipo de serviço incluindo o
fornecimento de água, lenha e alimentos. Não era fácil para os europeus
sobreviverem na região, uma das mais insalubres da África. A maioria morria em
pouco tempo por febre amarela, disenterias, malária, doença do sono e outras.
Estima-se que, de cada dez
homens desembarcados na África Ocidental, seis morriam durante primeiro ano, e
outros dois, no segundo ano. Francisco Félix, contudo, era mais resistente ou
teve mais sorte mantendo boa saúde até a velhice.
Fortaleza de S. João Batista de Ajudá e as reviravoltas políticas Em Daomé,
os portugueses ergueram a Fortaleza de São João Batista de Ajudá, também
conhecida como Feitoria de Ajudá, localizada na cidade de Uidá. Foi o maior
entreposto de escravizados da África Ocidental onde aportavam dezenas de navios
negreiros. A fortaleza, erguida no final do século XVII, foi ampliada e
reforçada em 1721 graças a capitais levantados pelos comerciantes da capitania
da Bahia.
Francisco Félix foi diretor da fortaleza de
Ajudá de 1805 a 1844 (ou 1849, segundo outras fontes). Não é muito claro como
conquistou e conservou esse posto por tanto tempo. Sabe-se que, dada as
dificuldades de sobrevivência, era comum as autoridades portuguesas nomearem
degredados para postos de comando na África. Após a abertura dos portos (1808),
os negócios de Francisco Félix cresceram.
Seus maiores compradores eram portugueses
metropolitanos estabelecidos na Bahia e, em volume menor, naturais do Brasil. A
independência do Brasil e as guerras que se seguiram criaram algumas
dificuldades pois muitos comerciantes portugueses foram expulsos ou fugiram da
Bahia. Outros se naturalizaram brasileiros e continuaram a negociar escravos.
Francisco Félix se viu
diante do dilema de qual nacionalidade optar. Ser português e ter a seu cargo o
forte de Ajudá dava-lhe prestígio e o protegia dos britânicos e franceses. Sob
bandeira portuguesa seus barcos só podiam ser apresados com escravos a bordo;
porém, se a bandeira fosse brasileira, bastava ter aparência de um navio
negreiro para ser apreendido.
A fortaleza de Ajudá, por
sua vez, tornou-se objeto de disputa entre Lisboa e o Rio de Janeiro que, ao
final, acabou sendo decidida em favor de Portugal no acordo de reconhecimento
da independência, em 1825. Todas essas circunstâncias levaram Francisco Félix à
decisão de permanecer português. Costa e Silva, contudo, dá uma outra
explicação:
A personalidade controversa
de um baiano mestiço que se envolveu na Conjuração Baiana de 1798, negociou
africanos escravizados, acolheu os malês expulsos do Brasil em 1835 e protegeu
ex-escravos e seus descendentes retornados à África.
Uma história incrível que
revela aspectos do tráfico negreiro pouco mencionados nos livros de História.
Francisco Félix de Souza, o Chachá, chegou a ser considerado, no seu tempo, o
homem mais rico e influente da África Ocidental. Agente exclusivo do rei
de Daomé, ele tinha uma habilidade incomum para intermediar o comércio escravo
entre chefes africanos e traficantes europeus.
Casou-se com algumas dezenas de mulheres que geraram quase uma centena de filhos, somente entre os legítimos. Seu sobrenome, Souza, deu origem a um clã africano que goza ainda hoje de prestígio em Benin e Togo.
Primeiros tempos, no Brasil Retorno definitivo à África O lucrativo comércio de escravos Fortaleza de São João Batista de Ajudá e as reviravoltas políticas Francisco Félix, o golpista de Daomé Francisco Félix torna-se o “Chachá” Ampliação dos negócios: transporte de escravos Singbomey, uma casa-grande em Daomé O benfeitor de ex-escravos retornados à África De traficante de escravos a capitalista O legado de Chachá
Primeiros tempos, no Brasil Francisco Félix de Souza. Óleo de autor desconhecido, que figura na galeria dos chachás em Ajudá. As fontes sobre Francisco Félix de Souza são escassas, fragmentárias e desiguais especialmente referentes aos primeiros anos quando viveu no Brasil.
A documentação pessoal é
praticamente inexistente, inclusive de seus negócios, já que ele preferia os
acertos verbais aos escritos. Para rastrear sua vida é preciso combinar dados
recolhidos dos arquivos da Marinha britânica com as tradições orais de Ajudá.
Os resultados são, contudo, conflitantes, especialmente quanto às datas e
ordenação cronológica.
Ele é tido geralmente como nascido em Salvador, Bahia, em 1754, conforme consta em seu túmulo, mas o ano pode ter sido posterior, talvez 1768. Outras fontes afirmam ser natural do Rio do Janeiro e há, também quem afirme ser de Cuba, o que parece improvável.
Era filho de português traficante de escravos e de mãe índia do Amazonas que podia ser também uma cabocla ou cafuza. Costa e Silva o descreve como mulato claro ou “mestiço indefinido”. Segundo Robin Law, historiador inglês especialista em História Africana, Francisco Félix de Souza se envolveu na Conjuração Baiana, de 1798.
Ainda jovem, com vinte e
poucos anos, ele foi para o reino de Daomé (atualmente território da República
do Benin) para traficar escravos. Ali teria ficado entre os anos 1792 e 1795
onde ergueu um entreposto de escravos chamado Ajido. Regressou depois ao
Brasil.
Retorno definitivo à África
Uma segunda e definitiva viagem ocorreu por volta de 1800. Segundo Robin Law, a
decisão de mudar-se para a África é cercada de “circunstâncias vergonhosas”
envolvendo desterro ou fuga. Um relatório britânico de 1821 dizia que ele era
“um renegado… banido do Brasil”; um outro texto, afirma que teria sido
proscrito do Brasil por “algum crime político”.
Seja como for, Francisco
Félix era um homem pobre quando chegou à África. Foi morar em Popô Pequeno (ou
Anexô), no atual Togo, onde se casou com Jijibu, filha do chefe de Popô
Pequeno, de quem lhe nasceu o primeiro filho, Isidoro.
Segundo alguns relatos, foi
o sogro que introduziu Francisco Félix no negócio de tráfico de escravos e lhe
concedeu terras para erguer um entreposto que chamou de Adjido ou Ajido. 3. O
lucrativo comércio de escravos A região do golfo de Benin (áreas costeiras dos
atuais Togo, Benin e Nigéria) era chamada pelos europeus como Costa dos
Escravos, desde o século XVII.
Foi da chamada Costa dos Escravos (áreas costeiras dos atuais Togo, Benin e Nigéria) que saiu o maior fluxo de africanos escravizados para a América do Norte, Caribe e Brasil em navios ingleses, franceses, holandeses, portugueses e brasileiros (baianos, na grande maioria).
Para os reis de Daomé, o maior reino africano da região, o
comércio de escravos era mais do que uma atividade econômica: era essencial
para a sobrevivência do Estado pois resultava em armas de fogo, pólvora e
munição com que armavam seus exércitos, além de artigos de luxo com que
ostentavam seu poder e asseguravam a fidelidade de chefes locais.
Outra fonte de rendas eram
as numerosas taxas cobradas dos europeus para todo tipo de serviço incluindo o
fornecimento de água, lenha e alimentos. Não era fácil para os europeus
sobreviverem na região, uma das mais insalubres da África.
A maioria morria em pouco tempo por febre amarela, disenterias, malária, doença do sono e outras. Estima-se que, de cada dez homens desembarcados na África Ocidental, seis morriam durante primeiro ano, e outros dois, no segundo ano. Francisco Félix, contudo, era mais resistente ou teve mais sorte mantendo boa saúde até a velhice.
O reino de Daomé (no Benim
atual) foi fundado por volta de 1600 e durou até 1904. A guarda pessoal do rei
daomeano era composta por mulheres guerreiras, que os europeus chamavam de
“amazonas negras”. Ilustração do Le Petit Journal, 29 de abril de 1892.
Fortaleza de S. João
Batista de Ajudá e as reviravoltas políticas Em Daomé, os portugueses ergueram
a Fortaleza de São João Batista de Ajudá, também conhecida como Feitoria de
Ajudá, localizada na cidade de Uidá.
Foi o maior entreposto de escravizados da África Ocidental onde aportavam dezenas de navios negreiros. A fortaleza, erguida no final do século XVII, foi ampliada e reforçada em 1721 graças a capitais levantados pelos comerciantes da capitania da Bahia. Francisco Félix foi diretor da fortaleza de Ajudá de 1805 a 1844 (ou 1849, segundo outras fontes).
Não é muito claro como
conquistou e conservou esse posto por tanto tempo. Sabe-se que, dada as
dificuldades de sobrevivência, era comum as autoridades portuguesas nomearem
degredados para postos de comando na África. Após a abertura dos portos (1808),
os negócios de Francisco Félix cresceram. Seus maiores compradores eram
portugueses metropolitanos estabelecidos na Bahia e, em volume menor, naturais
do Brasil.
A independência do Brasil e
as guerras que se seguiram criaram algumas dificuldades pois muitos comerciantes
portugueses foram expulsos ou fugiram da Bahia. Outros se naturalizaram
brasileiros e continuaram a negociar escravos.
Francisco Félix se viu
diante do dilema de qual nacionalidade optar. Ser português e ter a seu cargo o
forte de Ajudá dava-lhe prestígio e o protegia dos britânicos e franceses.
Sob bandeira portuguesa
seus barcos só podiam ser apresados com escravos a bordo; porém, se a bandeira
fosse brasileira, bastava ter aparência de um navio negreiro para ser
apreendido. A fortaleza de Ajudá, por sua vez, tornou-se objeto de disputa
entre Lisboa e o Rio de Janeiro que, ao final, acabou sendo decidida em favor
de Portugal no acordo de reconhecimento da independência, em 1825.
Todas essas circunstâncias levaram Francisco Félix à decisão de permanecer português. Costa e Silva, contudo, dá uma outra explicação: “Penso que Francisco Félix se manteve português e brasileiro, ora dizendo-se uma coisa, ora outra, e içando sobre os seus domínios qualquer das duas bandeiras, conforme o interlocutor e as conveniências do momento. (…)
Um dia escudava-se na
condição de branco e diretor do forte português e, amanhã, na de chefe
daomeano.” (SILVA, 2004, p.109.) O Forte de São João Batista de Ajudá foi
propriedade de Portugal até 1961, quando foi anexado pela República do Daomé
(atual Benin), recém-independente.
Ao serem expulsos do país
africano, os portugueses queimaram o forte e destruíram seu conteúdo.
Atualmente, ali funciona o Museu de História de Benim. 5. Francisco Félix, o
golpista de Daomé Quando Francisco Félix se estabeleceu em Ajudá, o reino de
Daomé era governado por Adandozan, segundo a tradição um rei incompetente e
cruel.
Para se livrar de seus
adversários, Adandozan vendia-os como escravos às Américas. Este teria sido o
destino da rainha Nã Agontimé enviada como escrava para São Luís, no Maranhão
onde ela foi batizada como Maria Jesuína.
Os escravos, porém,
reconheceram sua linhagem nobre e se empenharam em comprar sua liberdade.
Liberta, ela fundou a Casa das Minas, célebre templo do culto vudu ou tambor de
minas, ainda hoje em funcionamento em São Luís. Francisco Félix também sofreu a
crueldade de Adandozan.
Quando foi se queixar ao rei da falta de pagamento que lhe devia, este mandou prender o traficante por desrespeito e lhe impôs o castigo de ser mergulhado em um barril com índigo para que escurecesse a pele e perdesse a “petulância de branco”. Na prisão, Francisco Félix fez amizade com o príncipe Gapê, meio-irmão do rei por parte de pai e filho da rainha Nã Agontimé. Gapê ajudou em sua fuga e ambos fizeram um pacto vodu de sangue conspirando para derrubar Adandozan.
Francisco Félix forneceu armas e munição a Gapê que possibilitaram o golpe de Estado que depôs Adandozan. Gapê assumiu o trono de Daomé com o nome Guezo reinando até sua morte (1818 a 1858). É considerado um dos maiores dos doze reis históricos de Daomé. 6. Francisco Félix torna-se o “Chachá” Sob o reinado de Guezo (1818-1858), os negócios de Francisco Félix prosperaram e ele acumulou fortuna.
O rei criou para ele o
título de Chachá, apelido pelo qual era chamado, talvez uma corruptela de “já,
já”, imperativo de que abusava.
Tornou Chachá seu único
agente comercial o que obrigava todos mercadores europeus a tratarem com ele,
em vez de diretamente com o soberano. Isso deu origem à tradição local de
chamá-lo, impropriamente, “vice-rei de Ajudá e chefe dos brancos”.
Como agente do rei,
Francisco Félix gozava do privilégio da primeira opção: os demais mercadores só
podiam fazer suas transações depois que Francisco Félix tivesse vendido todos
os escravos do rei e os dele próprio.
Com isso passou a controlar
as exportações e importações e, portanto, todo comércio externo. Tornou-se o
principal fornecedor de escravos para o Brasil.
À esquerda, um zinkpo,
também chamado trono real de Daomé (1m x 70cm x 40 cm), dado de presente por
embaixadores do rei Adandozan ao príncipe D. João em 1810 ou 1811.
Estava exposto numa vitrine
central na Sala Kumbukumbu, no Museu Nacional, RJ. Foi destruído no incêndio de
2018. À direita, Guezo, rei de Daomé (1818-1858) que tornou Francisco Félix de
Souza seu único agente e lhe deu o título de “Chachá”. Ilustração do séc. XIX.
Ampliação dos negócios:
transporte de escravos Francisco Félix ampliou seus negócios tornando-se dono
de embarcações. Lucrava, assim, no comércio e no transporte dos escravos.
Adquiriu navios na própria África Ocidental, muitos dos quais “tumbeiros”
apreendidos e confiscados pelos britânicos. Foi o caso dos navios Legítimo
Africano, Dom Francisco, Florida, Fortuna, Empreendedor e Mete Mão.
Outros navios foram
construídos na costa africana com a montagem de peças importadas pré-fabricadas
ou com o aproveitamento de materiais locais. Um navio foi encomendado em estaleiro
dos Estados Unidos, o Príncipe de Guiné.
Controlava, também, as
rotas fluviais percorridas pelas canoas que transportavam os escravos do
interior do continente ao litoral ou entre portos africanos. Suas atividades
estendiam-se muito além de sua base em Ajudá envolvendo portos do litoral
africano além de operações transatlânticas.
Singbomey, uma casa-grande em Daomé Francisco Félix construiu, em Ajudá, a pouca distância da fortaleza, a sua Singbomey ou casa-grande assobradada. Consta que foi o rei que lhe forneceu mão de obra e material para erguer o casarão de base retangular, pintado de branco, com muitas janelas e cercado de palmeiras.
Tinha dependências próprias
para cada uma das várias mulheres de Chachá (conta-se que teve mais de 50
mulheres e mais de 100 filhos).
Um muro alto cercava o depósito de escravos,
distribuído em barracões. Era a uma só tempo fortificação, residência,
entreposto comercial, banco, hospedaria, oficina e cemitério. Só não possuía
escola e igreja porque estas ficavam na fortaleza de São João Batista.
Singbomey tinha arquitetura portuguesa com piso de madeira, sacadas, janelas
com persianas e escada de madeira torneada.
Era decorada à europeia.
Chachá, suas mulheres e filhos vestiam moda europeia: os homens com calça, paletó,
colete, botas e chapéu de panamá; as mulheres, de vestidos longos com cintura
marcada e sapatos fechados. Quando saía pelas ruas, tinha direito a um escravo
que o protegia do sol com um pára-sol, guarda armada, tamborete e uma escolta
de músicos.
Chachá recebia com requinte
os oficiais dos navios que ancoravam em Ajudá. Alojava-os em Singbomey e lhes
oferecia banquetes servidos em baixelas de ouro, talheres de prata, copos de
cristal e porcelanas orientais. A farta refeição era acompanhada dos melhores
vinhos e excelentes charutos de Havana. Entretinha os hóspedes em uma sala de
jogos com belas mulheres, bilhares, roleta e música.
Em 1847, escreveu o
vice-cônsul britânico no Daomé, John Duncan, que Chachá era “o homem mais
generoso e mais humano das costas da África” (SILVA, 2004).
O benfeitor de ex-escravos
retornados à África Em 1835, quando a Revolta dos Malês foi sufocada, o
governador da Bahia solicitou a Francisco Félix que recebesse os rebeldes
aprisionados expulsos do Brasil. Chachá atendeu ao pedido acolhendo cerca de
duzentos libertos africanos. Fundou, em Ajudá, um bairro, o Marô, destinado aos
ex-escravos vindos do Brasil, principalmente os iorubás e hauçás.
Recebeu também ex-escravos e seus descendentes vindos da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Alagoas e outras partes do Brasil que retornaram à África desde o final do século XVIII. Eram muçulmanos, católicos, adoradores de orixás e da tradição vodu.
Calcula-se que cerca de 4
mil retornados do Brasil se fixaram em território que hoje compreende Gana,
Togo, Benim e Nigéria. Foram chamados de agudás (a origem da palavra é
controversa) termo que passou a designar, no Benin e em Togo, aos portadores de
sobrenome de origem portuguesa ou brasileira.
Em Ajudá, eles ergueram suas moradas próximas a Singbomey identificando Dom Francisco Félix de Souza como o protetor e líder dos que se consideravam brasileiros. O local é hoje conhecido como Quartier Brésil. Acolhendo e protegendo os agudás, Chachá atuava como um chefe africano pois, ao aumentar o número de dependentes e agregados, reforçava sua riqueza e poder. Os agudás formaram uma comunidade distinta do restante da população do Benin e Togo. Cultivam, ainda hoje, muitas tradições brasileiras como a festa de Nosso Senhor do Bonfim, a feijoadá, a tapioca, a concada (cocada) e o cousidou (cozido).
De traficante de escravos a capitalista Em 1844, o governo português decidiu retomar o forte de São João Batista de Ajudá retirando de Francisco Félix o título de governador.
Chachá estava, então com 90
de idade, e passava a maior parte do tempo deitado, sofrendo de reumatismo. Os
negócios eram tocados por seus filhos e agregados que, contudo, não tinham a
mesma habilidade comercial de Chachá.
As dívidas se acumulavam,
sobretudo com comerciantes do Brasil e de Cuba. O rei Guezo também lhe devia
uma fortuna e ainda retirou de Chachá a condição de seu agente concedendo-lhe,
em troca, o direito de cobrar certo valor por qualquer escravo embarcado em
Ajudá.
O fluxo de escravos, porém,
diminuiu consideravelmente com a vigilância cerrada da Marinha britânica em
Ajudá que capturou 22 navios de Chachá.
Como outros traficantes
brasileiros, Francisco Félix engajou-se no comércio de azeite de dendê ou óleo
de palma que se expandiu com rapidez em Ajudá a partir de 1845. O dendê era
vendido aos britânicos e franceses para uso industrial, como lubrificante, e
matéria prima para a fabricação de velas e, sobretudo, sabão.
Na Europa, crescia, então,
o uso de sabão com a maior frequência de banhos e de lavagem de roupa. “Os mesmos grandes portos negreiros e as
mesmas empresas dedicadas ao comércio de gente continuaram a comandar as
transações com a África”.
“Os
navios negreiros foram readaptados para receber os barris de óleo e os seus
capitães eram os mesmos que antes negociavam com escravos”
(Costa e Silva, 2004). Com o novo comércio, Chachá deixa de ser traficante de
escravos para se transformar em capitalista empreendedor e criativo.
O legado de Chachá
Francisco Félix faleceu em 8 de maio de 1849, aos 94 anos de idade. Deixou 51
viúvas e mais de 80 filhos homens, outro tanto de mulheres, centenas de
netos e 12 mil escravos.
Tinha acumulado uma fortuna
calculada em US$ 120 milhões, que fez dele um dos homens mais ricos do globo. O
rei Guezo lhe concedeu um funeral de grande chefe daomeano que durou meses
incluindo a oferenda de sacrifícios humanos (normalmente uma prerrogativa
real).
Conforme os costumes
locais, o rei confiscou o patrimônio de Chachá e, após recolher o que lhe cabia
como taxa de herança, devolveu ²/3 aos filhos. Designou Isidoro, o filho mais
velho, o sucessor que levaria o título de Chachá II.
Desde então, outros
herdeiros levaram o título. O mais recente, Honoré Feliciano Julião de Souza,
Chachá VIII, foi chefe da comunidade Souza de Benin e Togo de 1995 a
2014.
O sobrenome Souza é hoje um
clã africano que goza de prestígio nesses países e se espalha de Gana ao
Gabão. A memória de seu ancestral fundador ainda é venerada.
A vida de Francisco Félix
inspirou o filme “Cobra verde” (Slave Coast, direção de Werner Herzog, 1987) e
um romance, “O vice-rei de Udá”, de Bruce Chatwin (Companhia das Letras, 1987).
Sua biografia foi tratada
com apuro historiográfico em “Francisco Félix de Souza, mercador de escravos”,
por Alberto da Costa e Silva (Nova Fronteira / Ed. Unerj, 2004).
Família Souza em Uidá
(Ajudá), Benim, tendo, em primeiro plano, Honoré Feliciano Julião de Souza,
Chachá VIII. Logo atrás, mulher segura retrato de Francisco Félix de Souza,
Chachá I, seguindo, ao fundo, o de seus sucessores. Foto de 2012.
FONTES:
-https://ensinarhistoria.com.br/francisco-felix-de-souza-traficante-de-escravos/
- Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues
- LAW, Robin. A carreira de
Francisco Félix de Souza na África Ocidental (1800-1849). Rio de Janeiro:
Topoi, v.2, n.2, jan/jun 2001. PRADO, J. F. de Almeida. “A Bahia e as suas
relações com o Daomé”. In: O Brasil e o colonialismo europeu. São Paulo: Cia.
Editora Nacional (Brasiliana), 1956.
- COSTA E SILVA, Alberto
da. “O senhor dos desgraçados”. In: Nossa História, ano 1, n. 7. Biblioteca
Nacional (ed.). São Paulo: Vera Cruz, 2004.
- Francisco Félix de Souza,
mercador de escravos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira / Ed.Unerj, 2004.
- SANTOS, Joel Rufino dos.
A escravidão no Brasil. Melhoramentos, 2013. VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do
tráfico de escravos entre o golfo de Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos
séculos XVII a XIX. Salvador / Rio de Janeiro: Corrupio / Fundação Biblioteca
Nacional, 2002.
- HAAG, Carlos. Os escravos
do escravo. Pesquisa Fapesp, edição 102. Ago. 2004. GURAN, Milton. Agudás, de
africanos no Brasil a “brasileiros” na África. História, Ciência, Saúde
Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 7,n.2, jul/out 2000.
- LIMA E SOUZA, Mônica.
Entre margens: o retorno à África de libertos no Brasil. Tese doutorado, Rio de
Janeiro: UFF, 2008.
- Wikipédia, a enciclopédia livre.









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