UM DOMINGO NO CINE TRIANON
UM DOMINGO NO CINE TRIANON
Por: WILLIS DE FARIA
De todas as memórias, uma
das que mais marcou grande parte da vida dos jucutuquarenses na década de 50 e
60, foi o cine Trianon. Ficava na Rua Alberto Torre, no final do conjunto
habitacional do bairro.
CINE TRIANON - ANO 1971
OBSERVAÇÃO: O CINE TRIANON FOI FUNDADO EM 1949, SENDO DE PROPRIEDADE DA EMPRESA DE CINEMA DE VITÓRIA LTDA. ( DIGA-SE EDGAR ROCHA), SITUADO NA RUA BARÃO DE MAUÁ - POSSUIA 845 LUGARES (CADEIRAS DE MADEIRA), COM FUNCIONAMENTO DIÁRIO, COM MÉDIA ANUAL DE 463 SESSÕES, COM 115.159 ESPECTADORES (MÉDIA ALTA PARA UM CINEMA DE BAIRRO), AP.35MM (TELA CINEMASCOOPE).
Observação: ESTE
CONTO FOI PREMIADO EM 1º LUGAR NO CONCURSO LITERÁRIO (CONTO, CRÔNICA E POESIA)
DOS SERVIDORES DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA. (2008)
A NOSSA CRONICA “A
FONTE DE DONA BLAURA” RECEBEU MENÇÃO HONROSA, POR EU NÃO PODER CONQUISTAR DOIS
PRIMEIROS LUGARES.
A fachada do cinema, com
sua cor amarela pálida, tinham o letreiro “Cine Trianon”, em letras garrafais
em estilo itálico, com uma grande marquise à frente para abrigar aos
espectadores, que aguardavam em longas filas a entrada para a sessão de filmes.
Suas cadeiras eram de
madeira, com assento móvel. Tinha 845 cadeiras e era considerado como um
cinema “poeira”, pois o piso era de cimento, e só no centro tinha uma
passadeira vermelha.
Nos idos de l958, houve a
grande festa de inauguração do cinema, que tinha como característica especial à
tela em “cinemascoope” (tela gigante para época) a primeira em todo Estado do
Espírito Santo.
Era uma beleza, o
espectador participava com mais ação, principalmente dos filmes de faroeste. O
cinema recebia moradores de toda capital. O bairro tinha muito orgulho de ter
um cinema.
Em um dia de domingo, no
ano de 1958, “Camundongo” e “Cafuringa” garotos de 10 anos, moradores do
bairro, de um ponto chamado “final da linha do bonde”, diviso de jucutuquara,
com Maruípe e inicio de Fradinhos.
Eles se prepararam para ir
a uma sessão que começaria às 14 horas, e era denominada como “matinèe”,
terminologia bem á francesa. Os seus ingressos foram adquiridos, com a venda
dos metais recolhidos nos quintais dos vizinhos e que eram vendidos no Mercado
dos Metais, de propriedade de Senhor Rochinha, que ficava no centro da cidade,
no inicio da Rua Barão de Monjardim.
Nestas tardes, eles
colocaram as suas melhores roupas, pegaram as suas revistas de “quadrinhos”,
novas, seminovas ou surradas, colocaram em baixo dos braços, e foram para porta
do cinema, com a finalidade de trocá-las por outras.
Era um ritual praticado
pelas garotadas, de todas as classes, e com muito entusiasmo, um “escambo” a
moda moderna. Nas negociações era sempre levado em consideração o estado de
conservação das revistas, ou o valor das mesmas.
Se fosse almanaque valia
mais. Nesta roda de trocas, tinha revistas de todo tipo, e principalmente das
editoras EBAL e RIO GRAFICA EDITORA, que possuíam as mais variadas estórias de
aventura
.
Presentes nos quadrinhos,
os heróis: Cavaleiro Negro, Roy Rogers, Flecha Ligeira, Zorro, Rin-tin-tin
(faroestes), Tarzan, Mandrake, Fantasma, Capitão Marvel, Super-Homem, e sem
falar nas infantis como o Pimentinha, Bolinha, Luluzinha, Reizinho, Pernalonga,
Pato Donald, Brazinha, Tio Patinhas, e outras.
- Temos revistas para
trocas e são conservadas, falava alto “Camundongo”.
Logo se fazia a rodinha,
com outros meninos com revista para o “escambo”.
Depois do troca-troca, era
a hora da entrada no cinema.
Na portaria, ficava seu
Tito, o juiz de menor, com seu terno branco adornado com uma gravata estilo
borboleta, cores vermelhas, que não deixava menor de 10 anos entrarem
desacompanhados dos pais.
Todos de ingresso na mão
entregavam-no à porteira e já procuravam as suas cadeiras, que eram de madeira.
No cinema cabiam umas 900 pessoas, e a ventilação era razoável, com
ventiladores laterais.
Quem chegava atrasado, era acompanhada da “lanterninha”, uma funcionaria de lanterna na mão, que indicava onde havia lugares vazios.
Quem chegava atrasado, era acompanhada da “lanterninha”, uma funcionaria de lanterna na mão, que indicava onde havia lugares vazios.
“O “Cafuringa” e Camundongo”
procuravam ficar junto aos outros garotos, para fazer algazarra.
Ao começar a sessão, tocava
uma musica clássica (a que fosse sucesso na época), e as luzes começavam a se
apagar, e entrava uma iluminação de cor, que ia se alternando de acordo com a
música.
Neste momento a algazarra
era total. Gritos, assovios, vaias, ovações, a assim valia tudo.
Gritavam: Huuuuuuuuuuuuuuu!
- E assobios gerais.
-Logo vinha o gerente
acompanhado de um policial militar, que dava apoio ao cinema. Este PM era
baixinho, e era apelidado de “Melhoral infantil”.
Logo a garotada, com a luz
apagada gritava por todos os pontos:
- Melhoral
infantil!...Melhoral infantil!
O PM ficava uma fera e no
escuro não conseguia distinguir as pessoas que estavam gritando. Era só Zorra.
Dava-se inicio o “jornal da
tela”, com as noticias nacionais (com destaque para o “canal zero”, na área do
esporte). Logo depois viria os seriados, com “Flash Gordon, no planeta Mongo”,
ou as peripécias do bandido chinês “Fumanchú”. Tudo em preto e branco.
Filmes coloridos eram
raros. Sempre o seriado terminava em suspense, e o resultado só poderia ser
visto na próxima semana.
Afinal, chegava à hora do
filme, que era em sua maioria faroeste da pesada, em PB (preto e branco). Lá
estavam os nossos heróis Roy Rogers, Rock Lane, Buck Jones, Hopalong Cassid,
Ton Mix.
As cenas principais era a
perseguição de bandidos a diligencias, e logo chegava o “mocinho” dando tiros e
depois festival de “sopapos” e finalmente prendendo o bandido. E como
recompensa recebia um longo beijo da “mocinha”.
-Então: final feliz.
Lá também passava filmes,
onde gargalhadas eram fartas, e fazia a alegria de todos. Um dos preferidos era
o Cantiflas (O ator mexicano Mario Moreno).
Destaque também para o
Carlitos (Charles Chaplin), O gordo e o magro (Stan Laurell e Oliver Hardy).
Muitos filmes também derramaram lágrimas da garotada, e o campeão foi o filme “Marcelino, pão e vinho”, estrelado por Pablito Calvo. Também os filmes da PELMEX faziam sucesso com os atores cantores espanhóis, Joselito e a Marisol.
Muitos filmes também derramaram lágrimas da garotada, e o campeão foi o filme “Marcelino, pão e vinho”, estrelado por Pablito Calvo. Também os filmes da PELMEX faziam sucesso com os atores cantores espanhóis, Joselito e a Marisol.
-Assim era o cotidiano do
Cine Trianon.
Vale destacar, que nos
momentos de algazarra total, era marcada com os filmes da produtora
cinematográfica “Condor”, onde no anuncio do filme, aparecia uma águia no alto
da montanha iniciando seu vôo.
Quando batia as asas toda
garotada gritava:
- Chô, Chô...chô, em
um rítimo uníssono.
Era balburdia total. Só
quem não gostava era o gerente, que vinha com uma lanterna, querendo pegar
algum “moleque” neste momento, para botar para fora do cinema.
Certas pessoas fizeram
história na platéia do cinema, onde durante o filme aplicavam a sua molecagem:
- A gargalhada de Gilberto
da Penha (o Paélio)
- O pêido de Pedro
“Cariacica”.
- O arroto de Arnaldo
“Nacôco”.
- O assobio de Marcos
“Triguinho”.
Todos tinham as suas marcas
registradas, fácil de identificação na escuridão do cinema, mesmo no anonimato,
era logo identificado por todos os presentes.
Ao terminar a sessão, todos
retornavam para sua casa, comentando o filme, e com suas revistas debaixo do
braço, principalmente o “Camundongo” e o “Cafuringa”, que teriam muita leitura
para fazer, nas suas revistas em quadrinhos.
Assim, o cine Trianon, foi
o ponto de encontro de toda a geração Jucutuquarenses, e para sempre
permanecerá na memória de todos.
Hoje já não mais existe,
pois deu lugar (depois de demolido) a uma grande escola. O cine Trianon morreu
fisicamente, mas não na memória de um bairro que sempre o reverenciou.
O progresso determinou a
sua decadência, mas ficando a certeza que existirão outros “Trianons”, em algum
lugar deste planeta, onde o avassalador progresso não tenha chegado.
(Vitória-2008)
AS FOTOGRAFICAS E OUTRAS
IMAGENS DA ÉPOCA FORAM COLOCADAS POSTERIORMENTE NO BLOG PARA DAR UMA MAIOR VISÃO
DOS ELEMENTOS DA ÉPOCA.
FOTOS E CENAS COMENTADAS NO
CONTO. UMA VIAGEM NO TEMPO.
.... o voo do condor...
REVISTAS DO ESCAMBO (TROCAS)
NA ÉPOCA.












Saboroso o texto acima. Lembra que na antessala do cinema havia grandes fotos (em preto e branco) de atores americanos espalhadas pela parede? Um de quem me lembro bem era o Richard Widmarck... Mas, na minha opinião, o maior atrativo do Trianon era que, além da sua programação própria, lá eram reprisados os filmes que saiam de cartaz no Cine São Luiz (que trocava de filme duas vezes por semana). Assim, se alguém perdia o filme no São Luiz, dava para assistir na "repescagem" do Trianon...
ResponderExcluirParabéns pelo texto, mas o mesmo merece alguns reparos:
- O Gordo e o Magro não eram Stan e Laurel, mas sim o ator inglês Stan Laurel (o magro, que viveu de 1890 a 1965) e o ator americano Oliver Hardy (o gordo, que viveu de 1892 a 1957);
- A distribuidora de filmes mexicana não se chamava PEMEX (esta, uma estatal de petróleo no México), mas sim PELMEX (Películas Mexicanas);
- Os atores mirins Joselito e Marisol não eram do cinema mexicano. Eles eram espanhóis e sempre atuaram no cinema de seu país.
Coisa mais maravilhosa é perpetuar as memórias, o Trianon faz parte das minhas vivências infantis e adolescentes...
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