UM DOMINGO NO CINE TRIANON

UM DOMINGO NO CINE TRIANON


 Por: WILLIS DE FARIA

Observação: ESTE CONTO FOI PREMIADO EM 1º LUGAR NO CONCURSO LITERÁRIO (CONTO, CRÔNICA E POESIA) DOS SERVIDORES DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA. (2008)


A NOSSA CRONICA “A FONTE DE DONA BLAURA” RECEBEU MENÇÃO HONROSA, POR EU NÃO PODER CONQUISTAR DOIS PRIMEIROS LUGARES.

De todas as memórias, uma das que mais marcou grande parte da vida dos jucutuquarenses na década de 50 e 60, foi o cine Trianon. Ficava na Rua Alberto Torre, no final do conjunto habitacional do bairro. 

A fachada do cinema, com sua  cor amarela pálida, tinham o letreiro “Cine Trianon”, em letras garrafais em estilo itálico, com uma grande marquise à frente para abrigar aos espectadores, que aguardavam em longas filas a entrada para a sessão de filmes.

Suas cadeiras eram de madeira, com assento móvel. Tinha 845 cadeiras e era considerado como um cinema “poeira”, pois o piso era de cimento, e só no centro tinha uma passadeira vermelha.

Nos idos de l958, houve a grande festa de inauguração do cinema, que tinha como característica especial à tela em “cinemascoope” (tela gigante para época) a primeira em todo Estado do Espírito Santo.

Era uma beleza, o espectador participava com mais ação, principalmente dos filmes de faroeste. O cinema recebia moradores de toda capital. O bairro tinha muito orgulho de ter um cinema.

Em um dia de domingo, no ano de 1958, “Camundongo” e “Cafuringa” garotos de 10 anos, moradores do bairro, de um ponto chamado “final da linha do bonde”, diviso de jucutuquara, com Maruípe e inicio de Fradinhos.

Eles se prepararam para ir a uma sessão que começaria às 14 horas, e era denominada como “matinèe”, terminologia bem á francesa. Os seus ingressos foram adquiridos, com a venda dos metais recolhidos nos quintais dos vizinhos e que eram vendidos no Mercado dos Metais, de propriedade de Senhor Rochinha, que ficava no centro da cidade, no inicio da Rua Barão de Monjardim.

Nestas tardes, eles colocaram as suas melhores roupas, pegaram as suas revistas de “quadrinhos”, novas, seminovas ou surradas, colocaram em baixo dos braços, e foram para porta do cinema, com a finalidade de trocá-las por outras.

Era um ritual praticado pelas garotadas, de todas as classes, e com muito entusiasmo, um “escambo” a moda moderna. Nas negociações era sempre levado em consideração o estado de conservação das revistas, ou o valor das mesmas.

Se fosse almanaque valia mais. Nesta roda de trocas, tinha revistas de todo tipo, e principalmente das editoras EBAL e RIO GRAFICA EDITORA, que possuíam as mais variadas estórias de aventura
.
Presentes nos quadrinhos, os heróis: Cavaleiro Negro, Roy Rogers, Flecha Ligeira, Zorro, Rin-tin-tin (faroestes), Tarzan, Mandrake, Fantasma, Capitão Marvel, Super-Homem, e sem falar nas infantis como o Pimentinha, Bolinha, Luluzinha, Reizinho, Pernalonga, Pato Donald, Brazinha, Tio Patinhas, e outras.

- Temos revistas para trocas e são conservadas, falava alto “Camundongo”.

Logo se fazia a rodinha, com outros meninos com revista para o “escambo”.

Depois do troca-troca, era a hora da entrada no cinema.

Na portaria, ficava seu Tito, o juiz de menor, com seu terno branco adornado com uma gravata estilo borboleta, cores vermelhas, que não deixava menor de 10 anos entrarem desacompanhados dos pais.

Todos de ingresso na mão entregavam-no à porteira e já procuravam as suas cadeiras, que eram de madeira. No cinema cabiam umas 900 pessoas, e a ventilação era razoável, com ventiladores laterais.

Quem chegava atrasado, era acompanhada da “lanterninha”, uma funcionaria de lanterna na mão, que indicava onde havia lugares vazios.

“O “Cafuringa” e Camundongo” procuravam ficar junto aos outros garotos, para fazer algazarra.

Ao começar a sessão, tocava uma musica clássica (a que fosse sucesso na época), e as luzes começavam a se apagar, e entrava uma iluminação de cor, que ia se alternando de acordo com a música.

Neste momento a algazarra era total. Gritos, assovios, vaias, ovações, a assim valia tudo.

Gritavam: Huuuuuuuuuuuuuuu!  - E assobios gerais.

-Logo vinha o gerente acompanhado de um policial militar, que dava apoio ao cinema. Este PM era baixinho, e era apelidado de “Melhoral infantil”.

Logo a garotada, com a luz apagada gritava por todos os pontos:

- Melhoral infantil!...Melhoral infantil!

O PM ficava uma fera e no escuro não conseguia distinguir as pessoas que estavam gritando. Era só Zorra.

Dava-se inicio o “jornal da tela”, com as noticias nacionais (com destaque para o “canal zero”, na área do esporte). Logo depois viria os seriados, com “Flash Gordon, no planeta Mongo”, ou as peripécias do bandido chinês “Fumanchú”. Tudo em preto e branco.

Filmes coloridos eram raros. Sempre o seriado terminava em suspense, e o resultado só poderia ser visto na próxima semana.

Afinal, chegava à hora do filme, que era em sua maioria faroeste da pesada, em PB (preto e branco). Lá estavam os nossos heróis Roy Rogers, Rock Lane, Buck Jones, Hopalong Cassid, Ton Mix.

As cenas principais era a perseguição de bandidos a diligencias, e logo chegava o “mocinho” dando tiros e depois festival de “sopapos” e finalmente prendendo o bandido. E como recompensa recebia um longo beijo da “mocinha”.

-Então: final feliz.

Lá também passava filmes, onde gargalhadas eram fartas, e fazia a alegria de todos. Um dos preferidos era o Cantiflas (O ator mexicano Mario Moreno).

Destaque também para o Carlitos (Charles Chaplin), O gordo e o magro (Stan Laurell e Oliver Hardy).

Muitos filmes também derramaram lágrimas da garotada, e o campeão foi o filme “Marcelino, pão e vinho”, estrelado por Pablito Calvo. Também os filmes da PELMEX faziam sucesso com os atores cantores espanhóis, Joselito e a Marisol.

-Assim era o cotidiano do Cine Trianon.

Vale destacar, que nos momentos de algazarra total, era marcada com os filmes da produtora cinematográfica “Condor”, onde no anuncio do filme, aparecia uma águia no alto da montanha iniciando seu vôo.

Quando batia as asas toda garotada gritava:
 - Chô, Chô...chô, em um rítimo uníssono.

Era balburdia total. Só quem não gostava era o gerente, que vinha com uma lanterna, querendo pegar algum “moleque” neste momento, para botar para fora do cinema.

Certas pessoas fizeram história na platéia do cinema, onde durante o filme aplicavam a sua molecagem:

- A gargalhada de Gilberto da Penha (o Paélio)
- O pêido de Pedro “Cariacica”.  
- O arroto de Arnaldo “Nacôco”.
- O assobio de Marcos “Triguinho”. 

Todos tinham as suas marcas registradas, fácil de identificação na escuridão do cinema, mesmo no anonimato, era logo identificado por todos os presentes.

Ao terminar a sessão, todos retornavam para sua casa, comentando o filme, e com suas revistas debaixo do braço, principalmente o “Camundongo” e o “Cafuringa”, que teriam muita leitura para fazer, nas suas revistas em quadrinhos.

Assim, o cine Trianon, foi o ponto de encontro de toda a geração Jucutuquarenses, e para sempre permanecerá na memória de todos.

Hoje já não mais existe, pois deu lugar (depois de demolido) a uma grande escola. O cine Trianon morreu fisicamente, mas não na memória de um bairro que sempre o reverenciou.

O progresso determinou a sua decadência, mas ficando a certeza que existirão outros “Trianons”, em algum lugar deste planeta, onde o avassalador progresso não tenha chegado.

(Vitória-2008)

AS FOTOGRAFICAS E OUTRAS IMAGENS DA ÉPOCA FORAM COLOCADAS POSTERIORMENTE NO BLOG PARA DAR UMA MAIOR VISÃO DOS ELEMENTOS DA ÉPOCA.


Obs 2: Os personagens desta história eram na realidade eu (Willis de Faria) e Hamilton Faria Quintais (vizinho e companheiro destas aventuras)


Cine Trianon - 1950
Cine Trianon - 1965



                     CINE TRIANON - ANO 1971


FOTOS E CENAS COMENTADAS NO CONTO. UMA VIAGEM NO TEMPO.


.... o voo do condor...






REVISTAS DO ESCAMBO (TROCAS) NA ÉPOCA.



OBSERVAÇÃO: O CINE TRIANON FOI FUNDADO EM 1949, SENDO DE PROPRIEDADE DA EMPRESA DE CINEMA DE VITÓRIA LTDA. ( DIGA-SE EDGAR ROCHA), SITUADO NA RUA BARÃO DE MAUÁ - POSSUIA 845 LUGARES (CADEIRAS DE MADEIRA), COM FUNCIONAMENTO DIÁRIO, COM MÉDIA ANUAL DE 463 SESSÕES, COM 115.159 ESPECTADORES (MÉDIA ALTA PARA UM CINEMA DE BAIRRO), AP.35MM (TELA CINEMASCOOPE).






Comentários

  1. Saboroso o texto acima. Lembra que na antessala do cinema havia grandes fotos (em preto e branco) de atores americanos espalhadas pela parede? Um de quem me lembro bem era o Richard Widmarck... Mas, na minha opinião, o maior atrativo do Trianon era que, além da sua programação própria, lá eram reprisados os filmes que saiam de cartaz no Cine São Luiz (que trocava de filme duas vezes por semana). Assim, se alguém perdia o filme no São Luiz, dava para assistir na "repescagem" do Trianon...
    Parabéns pelo texto, mas o mesmo merece alguns reparos:
    - O Gordo e o Magro não eram Stan e Laurel, mas sim o ator inglês Stan Laurel (o magro, que viveu de 1890 a 1965) e o ator americano Oliver Hardy (o gordo, que viveu de 1892 a 1957);
    - A distribuidora de filmes mexicana não se chamava PEMEX (esta, uma estatal de petróleo no México), mas sim PELMEX (Películas Mexicanas);
    - Os atores mirins Joselito e Marisol não eram do cinema mexicano. Eles eram espanhóis e sempre atuaram no cinema de seu país.

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  2. Coisa mais maravilhosa é perpetuar as memórias, o Trianon faz parte das minhas vivências infantis e adolescentes...

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