A FONTE DE DONA BLAURA

                          A FONTE DE DONA BLAURA




ORDEM CRONOLOGICA: FOTOS-1978 - 1998

A FONTE DE DONA BLAURA

Por: WILLIS DE FARIA (Crônicas de um bairro)

Fradinhos era o ponto final do bairro de Jucutuquara, situado em um estreito vale, e tinha como característica ser a nascente de vários córregos, tendo como montante as vertentes do morro do Bastos. 

Córregos de águas cristalinas, que cortavam grotões e densa vegetação, típica da mata atlântica, formada por sapucaias, pau-d’alho, aderne, mulembás, louros e embaúbas, onde suas águas serpenteavam até chegar às áreas planas. No percurso, o córrego era represado por pedras “maroadas” para formar pequenas lagoas, onde as lavadeiras executavam o seu serviço diário. 

Uma pequena represa, antes do lago, conhecido pelos moradores como “biquinha”. Servia como ponto de abastecimento de água pela população, pois as mesmas estavam isentas de impureza. A garotada do bairro usava carrinhos de mão, feito com caixotes de sabão, com rodas rudimentares de madeira, encapada em seu entorno com borracha, para evitar o desgaste da madeira. Elas eram feitas da marcenaria do Zildon, que ficava na Avenida Maruípe e que tinha como objetivo o transporte de água até a sua residência. Alguns cobravam alguns centavos pelo transporte, até a porta das residências. 

As águas tinham seu leito todo arenoso e seu percurso rodeado, até atingir a FONTE DE DONA BLAURA, por imensos bambuzais, que gemiam constantemente ao sabor dos ventos, que sopravam em várias direções. Em dias de sol pleno, e principalmente no final de semana, era festa na barragem, pois a garotada usava para banhos. Era uma piscina natural, mas as águas cristalinas eram bastante frias. Havia também pequenos peixes com fartura, principalmente os morobás, o acará e o cachicô. 

O córrego era muito disputado pela pesca, e sempre que podíamos, improvisava-nos uma vara de bambu, linha de costura (fio urso) e alfinete envergado (tipo anzol), e então estava tudo pronto para a pescaria. Material para mim, é que não faltava, pois a minha mãe era a costureira do bairro. Para completar, só era preciso ir até a beira do córrego, cavar no chão, a beira do córrego, até encontrar umas minhocas para isca.  Voltávamos com alguns berés, mas o que valia apenas era o espírito de aventura e a esportividade. O que valia era “matar o tempo”. 

O caminho para o final dos Fradinhos era de barro, mal passava algum carro. Em dia de chuva, ficava a estrada insuportável. Todas as casas existentes a beira da estrada eram bastante antigas, com moradores tradicionais. Lá eu ia quase diariamente visitar as minhas tias-avós (irmãs de minha avó materna). Durante a primavera, o percurso era deslumbrante, com todas as árvores floridas. Uma grande sapucaia se fazia presente em frete das casas de minhas tias-avós, na entrada do caminho da fonte da dona Blaura. Ao lado da majestosa sapucaia, tinha um grande pau d’alho, arvore antiga e de grande porte, que com o cair da tarde, exalava um  cheiro ativo, que as vezes deixava o estomago enjoado. Nas áreas de encostas mais ruderais, de solos mais pobres, estavam presentes as quixabeiras, joázeiros e angicos roxo e camarás.

 A grande preocupação dos moradores ao longo da estrada dos Fradinhos, era as chuvas torrenciais que provocavam enchentes no bairro, com o transbordamento do córrego. O cair da tarde, era um belo espetáculo, pois podíamos ouvir o barulho da água serpenteando entre as pedras, revoadas de pássaros que procuravam a fonte para saciar a tua sede, principalmente rolinhas, bandos de bombeirinhos e os coleirinhos. 
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O barulho mais ouvido era os das lavadeiras em suas conversas, o “bater” da roupa sobre as pedras na hora da lavagem dos lençóis. A paisagem criada marcante, era dos lençóis e roupas estendidos onde à vegetação ou varais improvisados. “Quarar” era o ato de colocá-las ensaboadas e expostas ao sol como forma da sujeira se soltar do tecido. Antes de quarar as roupas eram perfumadas com erva-santa, vegetação de pequeno porte muito abundante a beira do córrego. Elas eram misturadas ao sabão em barra, quando lavadas. Na hora da secagem, a paisagem mudava, predominava o branco dos lençóis, pendurados nos varais improvisados, onde com o refletir do sol, e ao sabor dos ventos ofuscavam as nossas vistas. Algumas peças coloridas procuravam quebrar a monotonia do branco.

Dona Blaura era moradora próxima à fonte, de descendência alemã, que morava com outra irmã. Tinha um neto, que era conhecido como Carlinhos “sete falas”, menino de uns 12 anos, que na hora de falar, sua tonalidade vocal mudava constantemente. Morava em uma casa modesta, era a guardiã da fonte, pois não permitia bagunça no local, de modo evitar sujar a água, que seria usada pelas lavadeiras.

A mais bela manifestação da natureza, era a chegada do verão, onde milhares de cigarras e seus cantos uníssonos, que transformava o vale em uma bela sinfonia musical afinada. Era um ritual que ocorria todo o ano, e seu som era ouvido em todo vale. Vale sim, vale verde, e no alto do vale, estava presente um monumental bloco granítico, guardião dos segredos do vale, a magnífica Pedra dos Olhos.

Os anos se passaram, o progresso avançou vale adentro, violando as suas encostas com o desmatamento, destruindo suas belezas naturais, para ar lugar a um conjunto habitacional da Cohab, em 1968. A urbanização sem controle se encarregou de transformas as águas livres do córrego em águas subterrâneas, com a construção de galerias pluviais. 

Hoje nem vestígios existem da fonte da Dona Blaura, somente na memória de alguns moradores mais antigos, onde a águas foi elemento de muita importância para o abastecimento de suas residências.  A paisagem mudou bruscamente. Onde o vale fértil, com ar de vila do interior, transformou-se em um bairro aristocrático de classe alta. Esta classe ocupou todo i interior do vale, sem se preocupar com a preservação do status primitivo. Suntuosas residências estão edificadas em suas encostas, e em lugar da mata atlântica, hoje vemos uma vila de concreto. 
Enfim, só quem viveu na época em que o vale era belo, sabe o significado histórico desta região. Antes de nós, há muitos séculos, também os índios Termininós, e depois os jesuítas ali viveram, mas isto é outra história...
(Vitória-2008)

CRONICA CLASSIFICADA COM MENÇÃO HONROSA CONCURSO LITERÁRIO DOS SERVIDORES DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA


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