CURVA DA JUREMA – A PRAIA DA ILHA DE VITÓRIA – SUA HISTORIA E MISTÉRIOS
(POR:
WILLIS DE FARIA)
Ate o inicio do século passado, adentrar a
baia de Vitória, estávamos diante de todas as configurações previstas na
geografia (orografia, fitogeografia, geologia), tais como: baias, enseadas,
rias, esporões, ilhas, tômbolos, escolhos, estuários, praias, lagunas, mangues,
restingas.
Mas com o passar dos anos, a necessidade de
expansão do território da ilha, fez que o aterro avançasse sobre as águas
marinhas, extinguindo estes acidentes geográficos bem como a sua floresta
estuarina (os manguezais). Modificou-se radicalmente a bela paisagem notada
pelos nossos primeiros colonizadores, e hoje toda a baia de Vitória, que
abrigava estes acidentes geográficos, tornou-se um grande canal artificial,
onde trafegam os navios que adentram o mesmo para as varias instalações
portuárias.

Figura: PRAIA DO SUÁ,
COM SEUS PRIMEIROS ATERROS NO INICIO DOS ANOS 50.
O nossa pesquisa inicia-se no final dos anos
sessenta, quando imensas dragas escavavam o leito de nosso canal, e lançavam as
areias para o interior do “quebra mar”, construído no inicio dos anos 50, tendo como
objetivo o projeto de expansão dos territórios, entre a Praia do Suá até a
praia do Canto, engolindo todas as ilhas existentes em seu interior (Rasinha,
Cinzenta, do Papagaio, do Sururu, do Bode e do Boi).
Salvou-se apenas a Ilha do Frade, pela resistência de seu proprietário (Jose Morais), que objetivava a criação de um loteamento para clientes de alta renda, ficando isolada da porção continental por uma ponte, inclusive, construída com custos do loteamento. Foram engolidas pelos aterros, a Praia do Suá, Praia de Santa Helena, Praia do Barracão, Praia Comprida e Praia do Canto.
Salvou-se apenas a Ilha do Frade, pela resistência de seu proprietário (Jose Morais), que objetivava a criação de um loteamento para clientes de alta renda, ficando isolada da porção continental por uma ponte, inclusive, construída com custos do loteamento. Foram engolidas pelos aterros, a Praia do Suá, Praia de Santa Helena, Praia do Barracão, Praia Comprida e Praia do Canto.
FIGURA: VISTA PARCIAL DA ENSEADA DO
SUA, ANTES DOS ATERROS NOS ANOS 60.
Terminado o aterro, iniciou-se o projeto de
urbanismo, cujo objetivo principal era criar uma zona institucional, para
deslocar para este eixo, os órgãos do Governo Federal e Estadual, e grandes
escritórios de empresas de negócios, de forma desafogar o Centro da cidade,
estrangulada com o desenvolvimento. Criaram-se apenas dois núcleos de bairro,
sendo um junto ao canal e outro onde existia a praia de Santa Helena e do Barracão.
FIGURA: INICIO DA
URBANIZAÇÃO DA ILHA DO BOI NOS ANOS 70.
FIGURA:
VISTA AÉREA DA ENSEADA EM 1970.
FIGURA:
VISTA AÉREA DA ENSEADA EM 1978.
FIGURA: VISTA ÁEREA DA CURVA DA JUREMA EM 1978
FIGURA: INICIO DAS
OBRAS DA 3º PONTE E INICIO DA URBANIZAÇÃO DA ORLA DA ENSEADA.
A praia, para uso como Zona Balnear, ficou
voltada para os fundos das Ilhas do Boi e do Frade. O inicio desta zona balnear,
junto a ilha do Boi (a Ilha do Boi no inicio dos anos 70, ainda não havia sido
loteada), que ficava afastada da zona de urbanização, passou a ser usada, nos
períodos noturnos, por terreiros de Umbanda, cujos trabalhos espirituais eram
feitos junto ao mar, cujos membros eram oriundos dos terreiros localizado9s no
alto do Cruzamento e Fradinhos e praticavam a linha da Umbanda da Cabocla
Jurema. Neste local, era realizado o culto a Jurema, entidade espiritual dos
indígenas que habitavam estas terras pré-cabralinas.
AFINAL
QUEM ERA A JUREMA?
O PORQUÊ
DO NOME CURVA DA JUREMA?
São respostas que muitos gostariam de saber.
Mas vamos aqui sintetizar esta história. O nome JUREMA é originário de uma árvore (acácia jurema), cujas raízes os
pajés faziam uma bebida alucinógena capaz de produzir sonhos adivinhatórios.
JUREMA
O nome “Jurema” vem
do tupi-guarani:
- Ju - significa “espinho”
- Remá - “cheiro ruim”.
A
jurema é uma planta da família das leguminosas. Os frutos das plantas
leguminosas são vagens. Existem várias espécies de jurema, como por exemplo:
Jureminha, Jurema Branca, Jurema Preta, Jurema da Pedra e Jurema Mirim.
Esta
planta tem muita importância no culto espiritual dos caboclos e nas regiões
Norte e Nordeste do Brasil, tanto que dá nome a um culto chamado de “Culto à
Jurema”.
O
antigo ritual realizado pelos indígenas supunha que os guerreiros poderiam
viajar ao mundo dos espíritos tomando a poção. Os índios sonhavam, mas eram
somente as mulheres que interpretavam tais sonhos e podiam revelar o passado e
o futuro.
Dois
grandes grupos indígenas praticavam este ritual: os jês (tapuias) e os karirís.
Os detalhes destas cerimônias ficaram perdidos para sempre, pois nenhum
historiador ou escritor se preocupou em escrevê-los.
Até
o século XIX, o fato de beber jurema era considerado um ato de bruxaria ou
prática de magia e seu uso eram secretos. Alguns indígenas foram presos
praticando este ritual, entretanto foram eles que ensinaram aos brancos e
mestiços o uso da planta.
A
CABOCLA JUREMA
A jurema compõe um complexo de concepções e
representações em torno da planta jurema e se fundamentam no culto de possessão
aos mestres, cujo objetivo é curar os doentes e resolver os problemas práticos
da vida cotidiana, como os infortúnios amorosos e profissionais.
O culto tem por base um sistema mitológico
no qual a jurema é considerada árvore sagrada e, em torno dela, dispõe-se o
“reino dos encantados”, formado por cidades, que por sua vez são habitadas
pelos “mestres”.
Nas
cerimônias da jurema, também se denomina mestre o dirigente de uma sessão. Os
mestres vivos incorporam os mestres mortos que habitam as cidades sagradas da
jurema, ligando esses dois mundos por meio do transe. Os mestres seriam
espíritos curadores que, em vida, conheceram os segredos das plantas curativas
e que são convocados para trabalharem em uma sessão, a fim de aliviar os
sofrimentos humanos. Cada um tem uma linha, que é representada pelo cântico
entoado pelo dirigente da sessão e que precede sua visita a terra.
PONTO RISCADO DA CABOCLA JUREMA
OBS:
"Quando eu era menino, ou seja, tinha uns 6 anos, estava no Pré-primario, e só
podia entrar no Grupo Escolar Padre Anchieta (em Jucutuquara) com 07 anos. Estudei
então na Escola Singular Fradinhos, que funcionava no salão do templo
umbandista Canabibe. Pela manha, quando os alunos chegavam a sala de aula, estava
riscado no chão este símbolo acima, da linha da Jurema, o que jamais me esqueci
desta imagem."
O
canto é uníssono e acompanhado pelo maracá. A linha resume a ação sobrenatural,
as excelências do poder e a sua especialidade técnica. Com fisionomia própria,
gestos, voz, manias, predileções, cada mestre narra as suas aventuras, conta o
seu nome e a sua vida. Ele possui a semente, o sinal de sua legitimidade e
autenticidade, eficácia e poder sobrenatural.
Nas
últimas décadas é no contexto da Umbanda, religião nascente e em pleno processo
de sistematização e de expansão nacional, que a Jurema é integrada na
cosmologia sagrada, no panteão da religião nacional. Constatamos em vários
estados nordestinos as "Linhas da Jurema", dentre as linhagens e
filiações religiosas da Umbanda.
Distinguem-se,
entretanto, no campo semântico do termo Jurema, denotações múltiplas, que são
associadas ou interrelacionadas, num emaranhado semiótico complexo. Além do
contexto eminentemente botânico, a palavra Jurema designa ainda pelos menos
três outros significados:
a)
preparados líquidos à base de elementos do vegetal, de uso medicinal ou
místico, externo e interno, como a bebida sagrada, "vinho da Jurema";
b)
a cerimônia mágico-religiosa, liderada por pajés, xamãs, curandeiros,
rezadeiras, pais de santo, mestras ou mestres juremeiros que preparam e bebem
este "vinho" e/ou dão a beber a iniciados ou a clientes;
c)
Jurema sendo igualmente uma entidade espiritual, uma "cabocla", ou
divindade evocada tanto por indígenas, como remanescentes, herdeiros diretos em
cerimônias do Catimbó, de cultos afro-brasileiros e mais recentemente na
Umbanda.
Daí o mistério da denominação deste lugar, conhecido
como “CURVA DA JUREMA”, tradicional
ponto turístico da cidade de Vitória, onde por muito tempo, rituais de Umbanda
foram realizados neste local, que geograficamente tem a forma de uma curva.
A primeira tentativa de urbanização foi
realizada durante o governo municipal do Prefeito Berredo de Menezes, quando
começou a realizar um aterro com objetivo de construir um anfiteatro a beira
mar, para shows e outros eventos. Mas não passou do aterro e do muro de arrimo.
A partir dos anos 90 foram ocupados por
barraqueiros, que ofereciam uma pequena infraestrutura aos freqüentadores e
sendo totalmente urbanizada em 1996, quando os quiosques tomaram a formação
arquitetônica atual. A força das correntes marinhas que adentram pelo canal
existente as Ilha do Boi e de Frade, obrigou a serem realizados dois
“engordamentos” da praia da Curva da Jurema, devidos a erosões marinhas
ocorridas neste local.
PRIMEIRAS OCUPAÇÕES ATRAVÉS DE BARRAQUEIROS NO INICIO DOS ANOS 90
CARTA
BATIMÉTRICA ANOS 80 – MINISTERIO DA MARINHA. (DHN)
OBSERVEM OS BURACOS DENTRO DO MAR, OCASIONADO PELA DRAGAGEM IRREGULAR NA ENSEADA.
FIGURA: CURVA DA JUREMA
– 1998 – PRIMEIRO ANO DA URBANIZAÇÃO DA ORLA.
FIGURA: ENSEADA DO
SUA EM 2005, EM PROCESSO DE URBANIZAÇÃO.
CRUVA DA JUREMA –
2007 – INTEFERENCIA DA EROSÃO JUNTO A ORLA
INICIO DO PROCESSO DE EROSÃO DE SUAS PRAIAS.
CURVA DA JUREMA –
ANO 2000 – EM
PLENO FUNCIONAMENTO COM PRAIAS LONGAS.

CURVA DA JUREMA.
2009 – INFLUENCIA MARCANTE DA EROSÃO NA ORLA.
FIGURA: CURVA DA
JUREMA -2012
FIGURA: CURVA DA
JUREMA -2012
Fontes pesquisa:
CURVA DA JUREMA NO
CONTESTO TURISTICO
Possui
uma estrutura de 17 quiosques padronizados e com urbanismo trabalhado, que
servem os tradicionais petiscos da Culinária Capixaba. O local é muito
procurado pelos adeptos do Jet ski, esportes à vela, barcos e lanchas. Um quiosque
seve de apoio turístico e da guarda municipal.
A
Curva da Jurema é um ponto de encontro e lazer de Vitória. À noite a praia se
transforma em um local de encontro de jovens, com uma programação diferente a
cada dia da semana. Encontra-se também nesta praia, uma ciclovia e um calçadão.
A
praia é indicada para a prática de stand up paddle (novo esporte no qual se
rema de pé sobre uma prancha) e passeios de veleiro.
Como
chegar
A
melhor referência para o visitante chegar à Curva da Jurema é o Shopping
Vitória, uma vez que a praia se situa nos fundos à esquerda do centro
comercial. A Curva da Jurema fica no acesso que interliga a Avenida Américo
Buaiz à ponte da Ilha do Frade.
Fontes pesquisa:
-
Imagens Google
-
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
-
Fotos: Willis de Faria
HIPARC
Arquivo IJSN
Jornal “A Tribuna”.
Google Earth
COMENTÁRIO RECEBIDO PELO E-MAIL:
RESPOSTA:
Abraços
Willis de Faria
Prezado
Willis.
Li toda
matéria que você encaminhou e fiquei realmente convencido que o batizo da Curva
foi da forma que você, tão bem, descreveu. Parabéns!
Já
recebi informação que a razão do nome Jurema, teria sido por ter uma proprietária
com este nome, quando do inicio das barracas naquele local. Acho que a sua tese
é mais correta, mesmo porque vem cheia de romantismo espiritual.
Tenho
pesquisado por quase toda a Internet e em arquivos pessoais, na busca de
foto(s) anterior a década de 60, na qual aparece a Praia do Canto, com a maré
totalmente vazia até a Ilha do Frade, permitindo que as pessoas pudessem
atravessar aquele trecho a pé, inclusive com passagem de cabeças de gado para a
Ilha, com a finalidade pastarem para engorda. Tudo isto que estou me referindo
posso dar o meu testemunho pessoal, pois não só atravessei como vi por varias
ocasiões este fenômeno.
Gostaria
que você me ajudasse nesta pesquisa.
Abraços
e mais uma vez PARABÉNS.
Sergio
Figueira Sarkis
RESPOSTA:
Caro Sergio
Obrigado pelas suas observações.
Mas gostaria de informar, que após a inauguração dos novos quiosques da Curva
da Jurema (1996), eu administrei através da SEMMMAM/PMV, por 10 anos. Mantive
contatos permanentes com todos os proprietários dos 17 quiosques, e a primeira
quiosqueira foi a Tia Maria, e seguido de Nadge, Alemão e JB. Não existiu
nenhum quiosque anterior a estes que citei. Frequentei a área antes das
barracas quando era só um "areal" da COMDUSA e também com as antigas
barracas, a qual postei uma foto. Afinal nasci nesta cidade a 64 anos, e
frequentei todos estes cantos.
Para sua curiosidade, postei recentemente a história da Praia do Canto em meu
BLOG, com fotos inéditas, onde você poderá conhecer um pouco da historia deste
bairro.
Posto acima o link.
Abraços
Willis de Faria








Muito boas suas pesquisa e página!
ResponderExcluirVocê tem algo sobre Santa Lúcia? Nasci e moro aqui há 56 anos, gostaria de saber um pouco da história do bairro.
Um abraço.
Marisa Amaral
Parabéns pela sua pesquisa!
ResponderExcluirParabéns pela sua pesquisa!
ResponderExcluirMuito boa sua pesquisa.
ResponderExcluirO blog é riquíssimo!
Parabéns!