A RONDA NOTURNA – DELEGADO GENTIL E C ABO PERNANBUCO – ANJOS DA NOITE DE JUCUTUQUARA.
A RONDA NOTURNA – DELEGADO GENTIL E CABO PERNANBUCO – ANJOS DA NOITE DE JUCUTUQUARA.
CP
– Crônica Policial Completa – Jucutuquara, Inverno de 1963 – 23:40h – Noite fria
de inverno.
Por
Willis De Faria – Historiador (o contador de história) – Mitos, Histórias e
Estórias – Opinião com Base em Fatos.
1-INTRODUÇÃO:
Gentil
Flores da Purificação foi um conhecido comissário e delegado da Polícia Civil
do Espírito Santo, com atuação marcante na região da Grande Vitória entre as
décadas de 1960 e 1970.
Quem
foi Gentil Flores da Purificação?
Atuando
na Delegacia de Jucutuquara, em Vitória, ele se tornou uma figura lendária e
temida no submundo do crime capixaba. Gentil Flores ganhou notoriedade pela
forma enérgica, e muitas vezes implacável, com que combatia a criminalidade em
uma época em que o meretrício, o jogo do bicho e a violência urbana começavam a
se expandir de forma acelerada pelos bairros da capital, como Jucutuquara, Ilha
do Príncipe e o Bairro da Penha.
Documentos
históricos preservados no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES)
confirmam que ele também exerceu o cargo de Comissário de Polícia em delegacias
de grande circulação da época, como a Delegacia Especializada de Costumes e
Diversões, responsável por fiscalizar a vida noturna, cabarés e jogos de azar
na Grande Vitória. Atuou como delegado na década de 50 a 70.
2-O
CABO PERNAMBUCO E A DINAMICA DE ATUAÇÃO:
O
Cabo Pernambuco era o seu fiel escudeiro e principal braço operacional nas
ruas. Naquela época, o contingente policial era reduzido, e figuras
centralizadoras como o Delegado Gentil e seu cabo de confiança faziam rondas
ostensivas diretamente no "olho do furacão".
As
histórias populares e crônicas policiais da Vitória antiga relembram a dupla
sob uma ótica quase folclórica, mas carregada de contornos duros:
• Policiamento de Choque: Caminhando ou
patrulhando os redutos mais perigosos de Jucutuquara, o delegado e o Cabo
Pernambuco impunham respeito pela força. A abordagem de ambos era direta,
focada em dispersar aglomerações suspeitas e deter marginais em flagrante.
• Histórias de Bastidores: Muitas das
memórias sobre a dupla envolvem "enquadros" icônicos na boemia
capixaba dos anos 60 e intervenções diretas para conter brigas de faca, furtos
e desordens em bares tradicionais do bairro.
A
trajetória de Gentil Flores da Purificação e do Cabo Pernambuco reflete um
período de transição da segurança pública no Espírito Santo, marcado por
métodos tradicionais de policiamento de rua focados na autoridade e no impacto
direto das figuras policiais perante as comunidades locais.
3
-A PENUMBRA DOS 800 METROS DE RONDA – CAMINHADA.
Jucutuquara,
Vitória, inverno de 1963. Uma noite fria de vento. A Avenida Paulino Muller tem
800 metros cravados em linha reta, com um valão no meio. O bonde já não passa mais,
mas os trilhos ainda estão lá. A iluminação é péssima: lâmpada incandescente
amarela, daquelas antigas com tampa em forma de franja, pendurada num poste de
madeira a cada 20 metros. E só de um lado da rua – do lado onde passava o
bonde. Do outro lado, escuridão total. Penumbra. Para ver o rosto de alguém,
tem que chegar perto. Foi nessa penumbra que o Delegado Gentil e o Soldado
Pernambuco faziam a ronda.
4.
A SAÍDA DA DELEGACIA – O FRIO
A
porta de madeira da Delegacia de Jucutuquara range. São 19h30. Faz frio. Vento
de inverno entra pela fresta. O Delegado Gentil Flores da Purificação, 50 anos,
1,60m, mulato, baixinho invocadinho, ajeita a capa longa caqui – igual àqueles
investigadores do Brooklyn dos anos 50 – e enfia o chapéu de feltro até a
orelha. O revolver 38 na cintura, por baixo da capa, pesado. O sapato engraxado
brilha mesmo na penumbra. Cheira a cigarro Continental sem filtro que ele
acabou de apagar na soleira.
Ao
lado, colado, o Cabo Velho – Pernambuco. 1,90m, mulato nordestino, peito estufado,
farda caqui, coturno brilhando, bibico canoa de duas pontas sem pala, caqui,
mãos nas costas. Voz rouca, embargada, cuspia falando. "Tá pronto,
Pernambuco?" – "Pronto Doutor Gentil. Sim sinhô!".
Eles
saem. O vento bate na capa do Gentil e faz ela voar. A sombra dos dois se
estica enorme no paralelepípedo molhado, assustadora, alongada pelos postes
fracos. Passo curto do baixinho, passão do gigante. Um era a lei na caneta, o
outro era a lei no braço.
[FOTO
1 – Saída da delegacia – noite fria, capa voando, sombra longa]
5
- BAR REALEZA – O REFORÇO
Atravessam
a rua. Bem em frente à delegacia, na pracinha do Cruzamento, o Bar Realeza
aceso – única luz forte da avenida. Lá dentro, quente.
Gentil
entra primeiro, chapéu na cabeça mesmo. O dono já sabe: café forte, xícara
grande, daqueles que amarra a boca. Ele pega o açucareiro de alumínio, bate no
fundo com a colher e jorra açúcar: "Amargo basta a vida". Depois, o
ritual que ninguém mais tem: um copo americano de creme de leite com ameixa em
cima. Come devagar, de colher, saboreando no balcão. Dá substância para a ronda
noturna.
Diálogo
afiado, conversa de quem se conhece há anos:
-
Gentil, mexendo o café: "Tá tudo calmo, Pernambuco?
-
Pernambuco, encostado no balcão, mãos nas costas, olhando de canto,
desconfiado, voz rouca: "Calmo demais que até desconfio, Doutor. Calmo
demais."
-
Garçom, do balcão, limpando copo: "Tá calmo, doutor Gentil. Sim sinhô!
Hoje o povo tá comportado."
-
Gentil dá uma risadinha seca: "Comportado é defunto em cemitério. Vamos
ver."
Terminam.
Gentil limpa a boca com o guardanapo de papel, joga uma moeda no balcão. Saem
de novo para o frio.
[FOTO
2 – Bar Realeza – Segue a caminhadas após degustar em um copo americano o creme
com ameixa, café forte)
6
- A AVENIDA DOS 800 METROS – O SILENCIO E A PENUMBRA
A
Avenida Paulino Muller é reta, 800 metros cravados. No meio, um valão. Fundo,
de barro, cheio de capim, água parada cheirando esgoto. Antigamente corria água
limpa, agora só valão. O Gentil vai pelo lado direito do valão, onde tem a
calçada e a luz dos postes. Volta pelo lado esquerdo, onde é escuro.
A
iluminação: postes antigos de ferro, um a cada 20 metros. Em cima, uma
luminária com tampa redonda em forma de franja, tipo chapéu de boiadeiro.
Dentro, lâmpada incandescente amarela, 200 velas, fraquíssima para iluminação
publica. Não clareava nada. Fazia uma bola de luz de 5 metros em volta do poste
e depois, escuridão. Penumbra. Do outro lado da rua, onde não passava o bonde,
não tinha poste de iluminação. Era breu. Só via o vulto.
Por
isso a ronda era lenta. Tinha que chegar perto pra ver o rosto. Gentil andava
com a capa voando com o vento de inverno. Pernambuco atrás, mãos nas costas,
sombra enorme esticada no paralelepípedo, assustadora.
O
vento assobiava no valão, trazia cheiro de fumaça de lenha das casas.
Conversa
afiada enquanto caminham: Pernambuco: "Doutor, esse valão tá fedendo mais
que cadeia em dia de visita."
Gentil:
"É o progresso, Pernambuco. Quando eles aterrarem isso aqui, vai virar
avenida e a gente vai ter que correr atrás de carro, não de gente a pé."
Pernambuco
ri, rouco: "Aí eu peço baixa, Doutor. Eu sou de andar a pé."
[FOTO
3 – Avenida 800m, valão no meio, poste antigo com franja, luz fraca só de um lado,
penumbra, capa voando no vento]
7
- BAR DO CEARÁ – NA FRENTE DO ESTÁDIO
Na
metade da avenida, na rua paralela a principal, a R. Alberto Torres estava, o
Bar do Ceará. Na frente do Estádio do Rio Branco. O campo tá escuro, só a porta
do bar acesa com luz na penumbra. Todas as lâmpadas eram incandescentes, estava
na rotina da ronda do Gentil, pois em baixo das arquibancadas do estádio era o
alojamento dos atletas que vinham do interior para as categorias de base.
O bar do Ceará, frequentado principalmente por
jogadores e torcedores do capa preta. Vendia cachaça, peixe frito (Pescadinha e
cavalinha), além do torresmo. Ali só se falava em futebol.
Gentil
entra, Pernambuco fica na porta com as mãos nas costas, bloqueando a saída, luz
fraca nas costas dele faz sombra gigante dentro do bar.
Diálogo:
Ceará:
"Ô seu Gentil, hoje não tem nada não, só o pessoal do jogo de ontem."
Gentil,
olhando os copos: "Ceará, cadê a carteira de todo mundo aí? Quero ver se
tá assinada. Hoje é dia de limpar a frente do estádio."
Um
rapaz no canto tenta sair. Pernambuco estica o braço e empunha o cassetete:
"Fica onde tá. Documento."
Gentil
chega perto do rosto do rapaz – porque na penumbra tem que chegar perto pra ver
– cheira cachaça: "Tá vendo? Sem carteira, sem documento, cheirando
cachaça em frente ao estádio em noite fria. Isso é vadiagem. Teje preso?"
O
rapaz: "Tenho não, seu Gentil, tô esperando o patrão assinar”.
Gentil
o cliente “Manda logo o patrão assinar,
senão na próxima “batida” , e te encontrar você vai dormir no xilindró. Art.
59. 15 dias a 3 meses de detenção."
Não
leva. Deixa o aviso. Isso é a ronda. Conversa afiada, não é só prender.
8
- A RONDA NA RUA – A ABORDAGEM NA PENUMBRA
Saindo
do Ceará, agora é o trecho mais escuro. Não tem mais bar. Só casas com janela
fechada por causa do frio. O vento voa forte, levanta poeira do valão. A
lâmpada incandescente de um lado da rua pisca. Do outro lado, breu total.
Dois
vultos encostados no muro. Gentil para. Faz sinal para Pernambuco parar também.
Eles
se aproximam devagar. Na penumbra, não dá pra ver se tem faca, se tem revólver.
Tem que chegar a um metro. O coração acelera, mas o passo continua curto e
firme.
Gentil,
voz baixa mas firme, capa voando: "Parado aí. Mãos na parede. Os
dois."
Pernambuco,
voz rouca, cuspindo: "Vira de costas. Mãos na parede que eu tô
vendo."
Os
dois obedecem. Gentil chega bem perto, a 30 centímetros do rosto de um, porque
a luz não clareia: "Documento. Carteira profissional."
Um
tem, o outro não. O que não tem tá tremendo de frio ou de medo.
Gentil:
"Como é teu nome?"
Rapaz:
"José, seu Gentil. Moro ali no alto Romão."
Gentil:
"Trabalha onde, José?"
José:
"Tô sem, seu Gentil. Tô procurando."
Gentil
olha para Pernambuco. Pernambuco olha de canto.
Gentil:
"Sem carteira, sem trabalho, na rua, noite fria de inverno, sem rumo. Sabe
o que é isso, José? Art. 59. Vadiagem. 15 dias a 3 meses em Jucutuquara. Mas eu
vou te dar um conselho de pai: amanhã, 8h, tu vai na delegacia com um comprovante
que tá procurando emprego. Alguma carta de referencia na mão. Se não, na
próxima ronda tu vai."
José:
"Vou sim, seu Gentil. Vou sim."
Solta.
A ronda não é só prender. É marcar território. Mostrar que a luz fraca ainda
vê. Que a rua tem patrulha (Cosme e Damião).
[FOTO 5 – penumbra total, capa voando, poste a cada 20m]
A patrulha chega ao ponto final, hora de mostrar serviço.
6. BAR ROCK (BARROQUE) –
PONTO FINAL
Fim
da avenida. 800 metros depois, o valão terminando, na curva para final da linha
do bonde. Ali é o Bar Rock, do Manoel Loyola, esquina com Rua Pinto Homem de
Azevedo, perto do Museu Solar Monjardim. De longe já se ouve a vitrola. Lá
dentro, quente, fumaça de cigarro, mulheres maduras fazendo ponto, homens
jogando sinuca.
9 - BAR ROCK – A CHEGADA AO DESTINO.
Gentil
para na porta. Ajeita o chapéu. Pernambuco tira as mãos das costas pela
primeira vez na noite.
A
placa com nome do bar, balança com o vento sul frio, na noite de inverno. A
vitrola para. Todo mundo olha.
Gentil
entra e grita, voz que ecoa mesmo com vento lá fora: "Acende a luz! Todo
moleque de menor pra fora e indocumentado se apresente. Carteira de trabalho na
mão! Todo mundo na parede!"
Pernambuco
já vai com o cassetete batendo na mesa de sinuca: "Documento na mão! Quem
não tem vai de camburão pra Delegacia de Jucutuquara agora! Rápido!"
Loyola
vem correndo, suando: "Ô seu Gentil, deixa o pessoal, hoje tá tranquilo. Noite
muito fria e ninguém quer confusão..."
Gentil,
olhando a penumbra do bar igual à da rua: "Tranquilo é cemitério, Loyola.
Tranquilo é cemitério. Acende essa luz que tá fraco igual a da rua."
Revistam.
Dois sem carteira. Um menor no canto da sinuca.
Frase final, que virou lenda em Jucutuquara:
Gentil:
"Teje preso! Pernambuco, vamos encaminhar o meliante pras tratativas na
Delegacia."
Saem
com dois, deixando o bar em silêncio. Lá fora, o vento de inverno de novo, a
capa voando, a sombra assustadora esticada nos 800 metros de volta, agora pelo
outro lado do valão, lado escuro, onde não tem poste.
Volta
para a delegacia. Fim da ronda. No outro dia, tudo de novo. 800 metros, valão,
lâmpada fraca de um lado só, penumbra, abordagem perto do rosto, conversa
afiada.
[FOTO 9 – Final – Volta pelo lado escuro,
sombra longa, vento, noite fria]
10
- FECHAMENTO – O QUE FEZ A HISTÓRIA
A
trajetória de Gentil e Pernambuco reflete um tempo em que a segurança era feita
no olho, na penumbra, a 30 centímetros do rosto porque a lâmpada incandescente
de 60 velas num poste a cada 20 metros, só de um lado da rua, não clareava
nada.
Era
o valão no meio, o vento de inverno voando a capa, a sombra assustadora no
paralelepípedo molhado. Era chegar perto pra ver. Era conversar afiado.
Alvo:
indocumentado, sem carteira assinada, Art. 59 da Lei das Contravenções Penais,
Decreto-Lei 3.688/1941 – Vadiagem – 15 dias a 3 meses. Hoje não vale mais, mas
em 1963, naquela avenida escura de Jucutuquara, valia.
O
Mito “Gentil Flores da Purificação” e Soldado Pernambuco vive ate hoje, como um
patrimônio cultural e folclórico do bairro.
Quem
não acreditar: “Teje Preso.”


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