HISTÓRIA DOS TRÊS BAIRROS: SÃO CRISTÓVÃO, SANTA MARTA E JOANA D’ARC.
“Uma
fazenda, uma localidade que era tudo e uma propriedade rural amaldiçoada.”
POR: WILLIS DE FARIA -
Geógrafo - Capixaba Raiz
Pergunta que fiz na
internet:
Uma grande fazenda que nos
anos 70 foi desmembrada em três bairros? Seu nome original foi extinto. Quais
os três bairros e qual fazenda? Responda se for capixaba raiz!?!?
Resposta compacta - Ordem
cronológica
IMPÉRIO
- A FAZENDA ORIGINAL
Fazenda Maruípe em 1897
ficava ao lado da Fazenda Jucutuquara, com 4.620.000 m², ia do bairro Praia do
Suá até a Ponte da Passagem. Durante o Império pertenceu ao Dr. Inácio Accioli
de Vasconcelos, ouvidor da comarca de Vitória nomeado por D. Pedro I. Depois
Muniz Freire. Registrada sob nº 1823, Livro 3-E no Cartório de Registro Geral
de Imóveis da 1ª Zona de Vitória. Adquirido em 1905 pelo comerciante inglês
Bryan Berring, exportador de café atrás dos Armazéns Hard Hand, com fins de
investimentos imobiliários, faleceu em 1912, sem deixar herdeiros, Em 1920 foi adquirido
pelo Governo do Estado que manteve soberania por décadas, apenas repassando
titularidade para o Município de Vitória em 1949. Assim sendo, não existe
Fazenda Barreiros em cartório, existe
Fazenda Maruípe.
FIGURA: Delimitação da Fazenda
Maruípe e seus confrontantes, bem como a demarcação de terrenos de Marinha, e
sus devidas sessões.
1920-1949
- BARREIROS ERA TUDO - LOCALIDADE, NÃO BAIRRO.
Originalmente toda região
recebeu nome de Barreiros na década de 1920 devido à abundância de barro nas
ruas não pavimentadas. Terra vermelha bem ferrosa, basáltica e argilosa, muita
lama, muito atoleiro. Ônibus atolavam-na lama em suas linhas Barreiros e
Mulembá. Mulembá era localidade. Tinha ônibus Mulembá e Barreiros. Passava ao
lado a linha de ônibus Engenharia, que levavam os alunos a Faculdade de
Engenharia na Avenida Maruípe. Não eram bairros oficialmente criados, eram
localidades. Barreiros era quase morada rural, fim do mundo, onde o diabo perdeu
a bota. Quem era morador em Barreiros, tinha que ouvir: 'Nossa senhora, o cara
mora lá no diabo, perdeu as botas, esse cara mora no fim do fim do mundo'. Era
gozação pura. Era parte integrante da Fazenda Maruípe de propriedade do Governo
do Estado (1920-1949) e Município de Vitória (1949 até hoje). Mulembá fazia
parte de Barreiros. São Cristóvão era o coração de Barreiros. Tudo eram
Barreiros, menos lá atrás que era o “Vale do Mulembá”. Vale cercado pelos
contrafortes do maciço central da Ilha De Vitoria, coberto de densa cobertura
vegetal Mata Atlântica, mas com uma riqueza inigualável no solo, onde corria o
córrego Mulembá. O barro retirado pelas paneleiras de Vitória. Era de
propriedade Familiar (Família Nunes Amaral).
A
PROPRIEDADE RURAL MULEMBÁ - A CHÁCARA DO HIlDEBRANDO LUCAS
Lá atrás, fora da região de
Barreiros, era Vale do Mulembá, propriedade rural privada chamada Terras rurais
da Família Nunes, não urbana, não bairro, propriedade rural. Pertencia à
família Nunes do Amaral Pereira (Leopoldo Nunes do Amaral Pereira) e tinha
chácara particular do Hildebrando Lucas. A Chácara era atravessada pela Rodovia
Serafim Derenzi, dividindo-a em duas glebas de terra. A do fundo do vale e a da
encosta. A parte de cima foi feita escola Municipal nos anos 2000, parte de
baixo parque (Parque Municipal de Barreiros).
O Governo do Estado tinha desapropriado toda
chácara nos anos 90, para construir um CIAC, mas transferiu-se para uma área em
Itararé. A área ficou desocupada, e iniciaram-se invasões. Então o Município e
Vitória tomou a iniciativa de solicitar a cessão da área ao Governo do Estado e
construir um Parque Urbano Municipal,
sendo que o Campo do Lolão foi incorporado ao Parque recém-criado. Parque Municipal Urbano de Barreiros,
conservando o nome tradicional da região. O antigo ponto final do ônibus
Barreiros parava perto do Campo do Lolão, área que hoje abriga Parque. É um time
de futebol de várzea.
BARREIRO
x FAZENDA BARREIROS - DESFAZENDO EMBRÓGLIO
Havia o barreiro (singular)
- chamava onde tinha o barreiro, o barreiro de barro, local de extração. Fazenda Barreiros (plural) nunca existiu! Registro oficial de Fazenda Barreiros em Vitória não existe, não foi achado em
cartório, Arquivo Público, IJSN, UFES, Governo. O que existe é 'o barreiro' -
estudos UFES sobre Paneleiras de Goiabeiras: 'englobando também outra área, o
barreiro, localizado em um bairro vizinho a Goiabeiras'. Esse barreiro é onde
paneleiras tiram barro, Vale do Mulembá. Povo chama de 'Fazenda do Barreiro',
mas é o barreiro. Versão 01 do povo: muita lama, ônibus atolava. Versão 02
documentos paneleiras: barreiro de extração barro das paneleiras. Pode ser duas
juntas: barro vermelho ferroso que atolava e barro branco rico em silte e
alumínio depositado no fundo do córrego do Mulembá, carreado das encostas, que
paneleiras usam. O barro branco e o barro vermelho, composto de basalto, e o
que provocava atoleiros nas ruas.
MULEMBÁ
- ÁRVORE AMALDIÇOADA - POVO BANTO - ANGOLA - MOÇAMBIQUE
Palavra Mulembá não tem
origem tupi-guarani, mas sim quimbundo (kimbundu), uma língua matriz africana
banta falada em Angola, Moçambique. Termo deriva de kulembá, que significa
“escurecer” ou “fazer sombra”. Dá nome à árvore Ficus Pholyana, Figueira Brava,
Pau-mata-pau, Mulembá (figueira-africana), árvore sagrada e amaldiçoada de
grande porte. Vale do Mulembá era conhecido pela forte presença desta árvore.
Povo banto, negro, Angola, Moçambique, São Benedito, Santo do Congo, do negro
banto.
O mangue, existente do Rio
da Passagem com sua arvores, tem importância histórica: de lá Paneleiras de
Goiabeiras extraem tradicionalmente tanino da casca de árvores do manguezal
vizinho, usado para açoitar e dar cor preta às panelas de barro capixabas, na
hora de seu cozimento na braza.
POR
QUE NOME DE SANTOS? - TRÊS SANTOS - BOTARAM SANTA PRA TIRAR MALDIÇÃO
Divisão da Região da Grande
Maruípe (antiga grande região que englobava Barreiros) que deu origem a São
Cristóvão, Santa Marta e Joana D'Arc tem fortíssima ligação com religião
católica.
- Santa Marta: No ano de 1958: lenda urbana fazia moradores acreditarem que “mulembazeiro” atraía coisas ruins e impedia progresso. Para afastar superstição e abençoar comunidade, moradora doou imagem de Santa Marta para Igreja Católica que estava sendo construída no local. Devoção tão forte que rebatizou oficialmente bairro. Colocaram a Santa lá pra mudar nome de Mulembá, tirar maldição da árvore amaldiçoada!
- São Cristóvão: devoção ao santo protetor dos motoristas e viajantes, região funcionava como importante área de trânsito e saída da ilha em direção ao continente.
-
Joana D'Arc: heroína nacional francesa canonizada santa
pela Igreja Católica em 1920, nome escolhido para batizar novo bairro
residencial quando antigo Vale do Mulembá foi loteado e urbanizado entre
1950-1970, tendência de homenagens religiosas que imperava no planejamento
urbano capixaba.
FOLCLORE
VIVO - O QUE NENHUM HISTORIADOR CONTOU - CONTO DA CAROCHINHA - PÉ DE OUVIDO
O bairro tem muita história
que nenhum historiador contou. Folclore
vivo:
- Puxada de mastro,
- Tradição do Congo!
- Banda de Congo do
Mulembá!
- Banda folclórica Amores
da Lua.
- Escola de Samba de Santa
Marta,
- Escola de Samba Unidos de
Barreiros.
Figura: Banda de Congo
Amores da Lua – Santa Marta.
Resistem até hoje em São Cristóvão (coração de Barreiros), Escola de Samba Andaraí nasceu entre Santa Marta e Joana D'Arc, história ligada ao Mulembá, já levou enredo 'Mulembá' no Sambão do Povo! Blocos carnavalescos, carnaval de rua, festas de São Benedito, São Cristóvão, Santa Marta, Joana D'Arc! Time de futebol, Campo do Lolão, futebol de várzea! Conto popular, pé de ouvido, conto da carochinha que ninguém conta que só quem morou lá sabe: que Mulembá era amaldiçoada, que diabo perdeu bota em Barreiros, que ônibus atolava, que árvore fazia sombra e escurecia tudo! Puxada de mastro, banda dos Amores, isso toca no coração das pessoas, é essência da existência do bairro!
1970-2020
- AS LEIS QUE OFICIALIZARAM
Nos anos 1970: terras
deixaram de pertencer a única família, vendidas para cooperativas, pequenos
produtores, imobiliárias e prefeitura, retalho de lotes permitiu surgimento de
centenas de proprietários urbanos em São Cristóvão e Joana D'Arc.
Em, 2003: Lei Municipal 6.077 - primeira divisão
espacial moderna em formato de polígonos, usando setores censitários IBGE,
desenhou limites oficiais de São Cristóvão, Joana D'Arc e Santa Marta.
Em, 2013: Lei Municipal 8.611 - consolidou
definitivamente perímetro, Regionais Administrativas e limites oficiais de
todos os 80 bairros da capital, incluindo os três, alterou Artigo 2º da norma
anterior.
Em, 2020: Lei Estadual
11.225 (altera 10.796/2017) - autorizou Poder Executivo a alienar e legitimar
títulos de posse definitivos para moradores inseridos em Joana D'Arc, Maruípe,
Santa Marta, São Cristóvão e Tabuazeiro.
- Rua Leopoldo Nunes do
Amaral Pereira, em Joana D'Arc, primeira via contemplada, maior regularização
fundiária da história do ES, matéria do Governo: 'primeira via a ser
contemplada com serviço para maior regularização fundiária da história'.
CONCLUSÃO
- O MAPA QUE MATA A CHARADA
O mapa que eu não tinha
achado explica tudo agora, mata charada toda. Pode ver que o único que está
fora de Barreiros é Mulembá, que pertencia à família Nunes do Amaral e chácara particular
do Hildebrando Lucas cortada no meio pela Serafim Derenzi. Parte de cima Escola
Municipal, parte de baixo Parque Urbano. Estado tinha desapropriado tudo, ia
ser invadido. Barreiros era tudo, Santa Marta fazia parte, São Cristóvão era
coração. Vale do Mulembá propriedade rural privada lá atrás. Não existe Fazenda Barreiros em Vitória, existe Fazenda Maruípe com sua localidade
Barreiros e sua propriedade rural Mulembá com local do barreiro singular que
tinha barreiro. Fonte: mapas e escrituras INCRA Vitória, SPU, matrícula 1823
Livro 3-E, Leis 6.077/2003, 8.611/2013, 11.225/2020, poligonal SIRGAS 2000 1:2.000,
traçada por este autor Willis De Faria, geógrafo, Filho da Vila Rubim (Morro do
Quadro), sangue Fradinhos e Jucutuquara (1952-1985), 40 anos Prefeitura de
Vitória, que desapropriou Chácara e criou Parque Municipal de Barreiros (São
Cristovão - Joana Darc - Santa Marta), Parque Natural Municipal Vale do Mulembá
(Joana D’Arc) e Parque Municipal de Mangue Seco ( Santa Marta).
TRES
BAIRROS E TRES PARQUES – EFICIÊNCIA EM LAZER.
O
Parque Municipal de Barreiros surgiu a partir de um
antigo sítio onde se desenvolvia a fruticultura. Mangueiras, cajueiros,
jaqueiras, abiuzeiros, ingazeiros, jamelões e abricoteiros se espalham,
compondo a região mais plana, entre muitas outras espécies de porte menor. Uma nascente
dá origem ao córrego que atravessa o parque em sua parte lateral.
Aves, répteis e peixes
podem ser vistos no local, que possui área superior a 46 mil metros quadrados.
Lá, existe também um Centro de Educação Ambiental (CEA) e uma Academia Popular da
Pessoa Idosa.
Figura: Situação antes da construção do Parque.
Figura: Obras completas do Parque.
O
Parque Municipal Mangue Seco possui uma área de
20.052,28 m², com topografia acidentada e com relevo ondulado, incluindo-se
afloramentos rochosos, característicos de Vitória. A vegetação é composta por árvores
frutíferas, como jaqueiras, mangueiras e pitangueiras. Além disso, o parque
dispõe de campo de futebol de areia, campo de voleibol de areia e playground.
A denominação Mangue Seco
tem origem nas margens degradadas e assoreadas do canal da passagem, devido às
invasões desordenadas, com a construção de palafitas e remoção da vegetação a
partir da década de 80.
Criado pelo Decreto
Municipal 11.881, de 11 de março de 2004, o parque originou-se de uma antiga
chácara. Nos anos 50, a área foi cedida por meio de regime de comodato ao Liceu
Ateneu Cachoeirense, para a implantação de uma escola da Campanha Nacional do
Ensino Gratuito (CNEG).
Figura: antes e depois da construção do Parque.
Mas, a partir dos anos 80,
a escola foi praticamente desativada, dando início, então, a frequentes ações degradadoras
como invasões nos pontos extremos da propriedade, queimadas da vegetação,
lançamento de lixo sobre o solo, corte de rochas, entre outras, principalmente,
junto ao bairro Santa Martha e aos manguezais do canal da passagem.
O
Parque Natural Municipal Vale do Mulembá possui 142,10 hectares e é
uma unidade de conservação de proteção integral inserida na Área de Proteção
Ambiental do Maciço Central. Criado pelo Decreto Municipal nº 11.505/2002, teve
sua nomenclatura alterada pela Lei Municipal nº 7.972/2010.
O parque preserva uma
importante área de Mata Atlântica, com fauna silvestre, nascentes, cursos
d'água e afloramentos rochosos. A unidade tem como objetivo proteger esses
elementos naturais e promover atividades de educação ambiental, turismo e lazer
em contato com a natureza.
DEPOIMENTOS
DE MORADORES LOCAIS ( EVIDÊNCIAS ORAIS)
- O policial militar Marco
Antônio Machado, 47, lembra-se desse e outros times, como o Real Madri e
Olaria, e dos muitos campeonatos realizados no Campo do Caxias, que ainda
existe. Destacou também que apesar do crescimento urbano, o bairro é pequeno.
Todos se conhecem e Santa Martha nunca perdeu a característica de periferia
amiga e dos vizinhos porta a porta.
- “Estudei a infância toda
no Colégio Marieta Escobar. É um lugar onde as pessoas são muito antigas, onde
os filhos crescem, ficam e poucos saem. Congrega muitas pessoas antigas.
Destaco a Rua Osvaldo Aranha, de onde o congo sai e tem a maior efervescência”.
“É excelente, com pessoas maravilhosas e bem servido de urbanismo”.
- O antigo Mulembá, que
virou matéria prima para as panelas de barro de Vitória, se tornou berço da
Banda de Congo mais antigo de Vitória, a Amores
da Lua. Era 30 de março de 1945, quando Alarico e Cecília de Azevedo a
fundaram em devoção a São Benedito. A eles de juntaram Reginaldo e Maria de
Lourdes Sales e 72 anos depois, a tradição continua viva pelas mãos do neto e
bisneto Ricardo Sales, 32.
- “O marco da nossa
tradição de manter festejar é sempre em 8 de dezembro, com a cortada do mastro
(onde o congo sai em cortejo e vai a mata buscar um tronco simbólico); 24 de
dezembro, com a procissão que sai da igreja Católica de Santa Martha e
executa-se o “alto de São Benedito”;
e no dia 25, coma puxada e fincada do
mastro e que arrastam mais de 10 mil pessoas”, relatou Ricardo.
- As ruas e vielas do
bairro Santa Martha, em Vitória, ganharam as cores azul e branco, e o som
cadenciado da banda de Congo Amores da
Lua na tarde desta quarta-feira (25), num dia de homenagem a São Benedito. A puxada e fincada do
mastro, tradicional festa religiosa de devoção ao santo, anima os moradores da
região há 74 anos. O mestre do congo, Ricardo Sales, conta que o grupo se
dedica a fazer a festa no dia do Natal para agradecer pelas bênçãos alcançadas
ao longo do ano.
- Sem a pandemia, o congo
sai da casa dele, na famosa Rua Osvaldo Aranha, em cortejo pelas ruas da Grande
Maruípe, até voltar a Santa Martha e fincar
o mastro. “É importante. Mantem viva e preserva a tradição para a
comunidade e dos nossos antepassados”. Uma manifestação repetida todo fim de
ano.
- Para Marineia de Azevedo,
47 anos, um momento de muita emoção. "Lembro de quando eu era criança e
seguia dentro do barco (uma embarcação de madeira segue à frente da banda na
procissão). Essa festa tem um grande significado para mim, de muita fé. Pena
que não tem o mesmo sentido para todo mundo", observou, entre lágrimas.
- Outro destaque cultural
do bairro é a Escola de Samba Andaraí,
fundada em 1946. Antes denominada Bloco Batucada, ela nasceu através do time de
futebol Arsenal, a tinha como cores o azul e branco e só se tornou escola de
samba em 1973. O nome veio de um dos fundadores antigos, o “seu bolinha”,
morador do bairro Andaraí, no Rio de Janeiro. As atuais cores, que são verdes e
rosa, vieram após o batismo da carioca Mangueira.
- A vida cultural do bairro
também é mantida pelo comerciante João Luiz Mendes, 41. Em 2002 ele abriu um
bar por necessidade, mas não imaginava que ao cair no “boca a boca”, se
tornaria tão importante, sendo indicado cinco vezes ao prêmio Roda de Boteco.
“É um convívio bacana, porque apesar de eu não ter nascido lá, fui abraçado.
Meu primeiro cliente foi da comunidade e os que frequentam são fiéis”.
CONCLUSÃO:
"A
localidade histórica denominada Mulembá corresponde ao atual bairro Santa
Marta. O que se confunde é que o Parque Natural Municipal Vale do Mulembá, com
acesso pela Rua Miguel Arcânjo Moreira, fica no bairro Joana D’Arc. A
localidade não deve ser confundida com o bairro Santa Marta, embora ambos sejam
contíguos e cortados pela Rodovia Serafim Derenzi, compartilhando práticas
culturais como o Congo, o puxada do mastro na Festa de São Benedito, e o Pau do
mastro retirado das matas do Vale do Mulembá. Possuem Escolas de Samba
distintas. A localidade de Barreiros ocupava São Cristóvão; Santa Marta
integravam a Fazenda Maruípe."
WILLIS DE FARIA : Geografo e Historiado,
em 16/10/2026.
RESENHA TÉCNICA - HISTÓRIA
DOS TRÊS BAIRROS: SÃO CRISTÓVÃO, SANTA MARTA E JOANA D'ARC.
Autor:
Willis De Faria - Geógrafo - Capixaba Raiz
1. RESUMO
O
presente trabalho analisa a formação histórica e cultural de três bairros
contíguos da Grande Maruípe, em Vitória-ES: São Cristóvão, Santa Marta e Joana
D'Arc. Originados do desmembramento parcial da antiga Fazenda Maruípe, os três
bairros apresentam limites poligonais interdependentes, sobreposição de
equipamentos culturais e a maior densidade de parques urbanos por área da
capital. O estudo demonstra como uma localidade originalmente denominada
Barreiros/Mulembá transformou-se em um caldeirão cultural, onde festas de
Congo, escolas de samba e toponímias religiosas se interpenetram.
2. CONTEXTO
HISTÓRICO-TERRITORIAL - A FAZENDA MARUÍPE
-
Fazenda Maruípe: 4.620.000 m², do bairro Praia do Suá até a Ponte da Passagem.
Registro nº 1823, Livro 3-E, Cartório de Registro Geral de Imóveis da 1ª Zona
de Vitória.
-
Império: pertenceu ao Dr. Inácio Accioli de Vasconcelos (ouvidor da comarca,
nomeado por D. Pedro I) e Muniz Freire.
-
1905: adquirida pelo comerciante inglês Bryan Berring (exportador de café,
Armazéns Hard Hand), com fins imobiliários. Faleceu 1912 sem herdeiros.
-
1920-1949: propriedade do Governo do Estado. Barreiros não era bairro, era
localidade rural. Terra vermelha ferrosa, basáltica e argilosa, com atoleiros.
Linhas de ônibus Barreiros, Mulembá e Engenharia.
-
1949: repasse ao Município de Vitória. Não existe Fazenda Barreiros em
cartório, existe Fazenda Maruípe.
-
Anos 70: desmembramento efetivo em bairros oficiais: São Cristóvão, Santa Marta
e Joana D'Arc.
Observação
cartográfica: Joana D'Arc situa-se no limite externo da poligonal original da
Fazenda Maruípe, conforme mapa de confrontantes e terrenos de Marinha,
consultado no IJSN. Para fins analíticos, foi incluída por continuidade
cultural e territorial.
3. PROPRIEDADE RURAL
DIVERGENTE - VALE DO MULEMBÁ.
Fora
da Fazenda Maruípe, o Vale do Mulembá constituía propriedade rural privada da
Família Nunes do Amaral Pereira (Leopoldo Nunes do Amaral Pereira), com Chácara
Hildebrando Lucas seccionada pela Rodovia Serafim Derenzi. Parte superior
tornou-se escola municipal nos anos 2000; parte inferior, após desapropriação
estadual nos anos 90 para construção de CIAC (transferido para Itararé), sofreu
invasões e foi cedida ao Município, originando o Parque Municipal Urbano de
Barreiros, com incorporação do Campo do Lolão.
4. TOPONÍMIA E FOLCLORE - A
LENDA DO MULEMBÁ
-
Mulembá: topônimo de origem banto-africana que designa árvore de sombra negra
(mata-pau), espécie considerada má, que não permite vizinhança e destrói
espécies ao redor.
-
A localidade chamada Mulembá era vista como amaldiçoada. Para espantar o
demônio, a comunidade introduziu imagem de Santa Marta, construiu igrejinha e
rebatizou a localidade.
-
Correlação religiosa: Mulembá (árvore sombra negra) x São Benedito (santo
negro), é o homenageado na Festa da Puxada e Fincada do Mastro realizada pela
Banda de Congo Amores da Lua (Mestre
Ricardo Sales, 74 anos). Ritual: corte do mastro em Joana D'Arc e fincada em
Santa Marta.
5. CALDEIRÃO CULTURAL - A
CASA DE MARIMBONDO / VESPEIRO.
A
expressão "casa de marimbondo" ou "vespeiro" (no bom
sentido) define a interpenetração cultural:
-
Uma mesma manifestação (Congo Amores da Lua) corta em um bairro e finca em
outro.
-
Equipamento de um bairro migra de limite: Campo do Lolão, historicamente de São
Cristóvão, hoje inserido na poligonal de Santa Marta.
-
Três escolas de samba para três bairros contíguos: São Cristóvão - Barreiros,
Santa Marta e Andaraí (1946, Bloco Batucada do Arsenal) - Joana D'Arc.
-
Bar do João Luiz Mendes (41 anos, Roda de Boteco) e outros pontos de
sociabilidade.
-
Paneleiras: cultura de Goiabeiras (barro do Vale do Mulembá) apropriada
territorialmente por Joana D'Arc, evidenciando dissociação entre local de
extração e local de pertencimento cultural.
Conclusão
parcial: Bairros vizinhos, colados, cortados por rodovia, culturalmente muito
semelhantes, mas não iguais.
6. PARQUES URBANOS E NATURAL - DENSIDADE E AUTORIA
A
região apresenta a maior densidade de parques urbanos de Vitória: dois parques
urbanos e um natural em área de pequena dimensão, sendo a localidade de menor
dimensão com maior quantidade de parques.
-
Parque Municipal Urbano de Barreiros (Antigo Lolão e Chácara dos Lucas). Obras
executadas em oito etapas.
-
Parque Mangue Seco (ligação Andorinhas/Mangue Seco x Santa Marta) – Área remanescente
do Colégio Ateneu Cachoeirense, que foi abandonado/fechado. Área era do Governo
do Estado, que foi totalmente invadida por comunidade de baixa renda (Invasão
do Mangue Seco), e retiradas para assentamentos em outra área através de
moradia popular. Cedida ao Município para construção de um Parque Urbano. Obra
executada em 20 dias
-
Parque Natural do Vale do Mulembá (área remanescente CESAN e cedida ao Município)
- Obra executada com recursos de compensação ambiental.
Todos
os três parques foram construídos pelo autor do presente trabalho, como
estratégia de contenção de invasões em áreas baldio-abandonadas e recuperação
de áreas degradadas.
-
Santa Marta: contém em seus limites poligonais o Parque de Barreiros e o Parque
Mangue Seco.
-
São Cristóvão: contém o Parque de Barreiros e o Parque do Vale do Mulembá, cujo
limite vai até a porta do parque que vira Joana D'Arc.
7.
LACUNAS DOCUMENTAIS
-
Fotos aéreas de 1955 (LASA) não localizadas; ausência de aerofotogrametria da
área.
-
Mapa EPARC 1970: baixa resolução, print de arquivo da Cruzeiro do Sul 1970,
obtido via acervo de fotógrafo aéreo (amigo do autor, já falecido, irmão
fotógrafo de monumentos).
-
O arquivo da IPHARC saiu do ar.
8.
CONSIDERAÇÕES FINAIS - CHAVE DE OURO.
Os
três bairros constituem um vespeiro cultural no bom sentido: quem mexe, sai
chamuscado, mas sai com a história na mão. São três santos, três parques, três
escolas de samba, uma mesma festa que começa num e termina no outro. É a prova
de que limite administrativo não contém cultura.
9.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
-
Cartório de Registro Geral de Imóveis da 1ª Zona de Vitória - Livro 3-E nº 1823
-
Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) - Limites de bairros e terrenos de
Marinha
-
Jornal A Gazeta - Arquivo histórico
-
Prefeitura Municipal de Vitória - Processos de cessão e criação de parques
municipais
-
EPARC / Cruzeiro do Sul - Mapas 1970
-
Acervo oral - Depoimentos de moradores, Mestre Ricardo Sales, Bar João Luiz
Mendes
Vitória, 2026 - Willis De Faria.






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